A invenção do tempo II


Já lemos acerca do tempo, da temporalidade, como um artifício existencial humano. Temporalidade, uma categoria existencial, portanto; mas não um transcendental da experiência; e, sim, uma invenção, uma ficção coletiva da imaginação humana, uma noção criada em comum, que nos serve de princípio de inteligibilidade (epistemológico), de operacionalidade (político-pragmático) e de compreensão de si (subjetivador).

Proust: “...como o porvir é o que ainda não existe apenas no nosso pensamento, ele nos parece ainda modificável pela intervenção in extremis da nossa vontade”*.

O tempo (o jogo presente do passado sobre o futuro e do futuro sobre o passado) abre, na imaginação, o espaço disposto-durante (o dispositivo-aí que dura em transformações e metamorfoses) para a ação humana sob o regime da vontade.

(*) PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 4. Aqui, a tradução de Drummond, ao contrário do habitual, parece-me, ainda nos deixa em um sutil equívoco: “...sendo algo que só existe em nosso pensamento, o futuro nos parece ainda modificável pela intervenção in extremis da nossa vontade”.

Fofocas literárias

Quem disse “cada homem é árbitro de suas próprias virtudes mas homem algum deve prescrever o que é bom para outro homem”*?

(*) Certamente não foi, como se poderia crer: FAULKNER, William. O som e a fúria. Trad. Paulo Henrique Britto. São Paulo: Cosac Naify, 2012 [1929]. P. 197. Ou é ele quem tudo diz?


107

Assalta ao viajante o desejo de rotina, como uma sombra que deseja o próprio objeto do qual ela se projeta.


Os instintos: a consciência


Acostumamo-nos, historicamente, a contrapor a consciência aos instintos, a interpretar a força da consciência como contraposta a dos instintos, a deixarmo-nos guiar pela voz da consciência antes do que pelas vozes dos instintos.

Numa dupla volta da consciência, na consciência da consciência, será preciso, talvez, interpretar a consciência como um instinto. Interpretá-la ao jeito de um impulso tão cego, tão perigoso e tão ameaçador para a nossa existência, quando dominante, quanto qualquer outro instinto.

Conforme o prudente, a voz da consciência: uma voz entre outras.

Para ceder um exemplo: “Como o sofrimento vai mais longe em psicologia do que a [própria] psicologia!”*.





(*) PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 3. Ou, na tradução mais perfeita de Carlos Drummond de Andrade: “Como, em psicologia, o sofrimento vai mais longe do que a psicologia!”

– Ah! Entendi! – II

Algo parece ter sido explicado.
Mas podemos entender – e nos entender –, também, sem explicações.




Pigmalião ou: – por que os artistas amam suas obras?


Na sua resposta à questão do título, Aristóteles explica o amor à existência (o conatus de Spinoza) não como conservação, mas como desdobramento da potência.

Por que os artistas amam suas obras?

Ora, diz Aristóteles, os artistas amam suas obras porque:
• a existência é para todos os homens digna de ser escolhida e amada [todos amamos existir];
• nós existimos, diz Aristóteles, por razão da atividade (viver e agir) [existir é atividade; e a atividade é coextensiva com o existir];
• [logo: todos amamos a atividade];
• a obra (ergon) é um produto da atividade (energeia);
• [se amamos a atividade, amamos o que lhe é semelhante, e seus desdobramentos se lhe assemelham – assim, amamos o que a nossa atividade produz, amamos as nossas obras];
• logo, todos amamos as nossas obras (porque amamos a existência).

E Aristóteles complementa: “e isso tem raízes profundas na natureza das coisas, pois o que o artista é em potência, sua obra o manifesta em ato”.

Nisso tudo, Spinoza apenas corrigiria esta noção de potência em Aristóteles. A potência das coisas da natureza, em Spinoza, não se opõe ao ato, como em Aristóteles. A potência, em Spinoza, é sempre atual. Ela é o que ela é.


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Col. Os Pensadores. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim a partir da versão inglesa de W. D. Ross. 4 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. IX, 7, 1168a5-a10. P. 167.


A forma do dinheiro

Em Aristóteles, 1164a, “A forma do dinheiro – à qual tudo é referido, pela qual tudo se mede”, leia-se por “tudo”: todas as coisas referenciáveis e todas as coisas mensuráveis – isto é, tudo isso que se pode perscrutar e fixar com o olhar; tudo isso que se coisifica (reifica) como objeto teórico.


Antifilosofia


Uma atitude de filosófo contra a filosofia: – agir e pensar, portanto, existir, no mesmo nível dos outros entes.



O filósofo vai ao cinema


Se é verdade que a filosofia contaminou ou colonizou a vida, ou seja, se é verdade que cada um de nós adquiriu um pouco dessa atitude desconfiada diante do que é (ou do que é dito ser ou do que parece ser) (e precisa ir ao cinema para poder, sem culpa, entregar-se ao sonho), então, só um outro modo de ser filósofo pode nos livrar dessa contaminação ou colonização.

Mas, temos necessariamente de nos deslocarmos da atitude filosófica para uma atitude natural, se desejamos existir no mesmo nível dos outros entes? A filosofia tem, realmente, que deixar tudo como está?


Argumentação cética a partir do engano


Uma vez, concedamos, já nos eganamos completamente. Então, como nós podemos saber, ao certo, que não estamos enganados também desta vez?


Tendências

Tudo são tendências (ladeiras, canaletas, resistências, escapes, indicadores magnéticos de caminhos, vetores de força agindo sobre outras tendências, sobre movimentações fortes, sobre deslocamentos energéticos ou sobre capacidades de trabalho). Essas tendências não são independentes umas das outras. Interagem. Acordam-se. Agrupam-se. Reforçam-se. Neutralizam-se. Decompõem-se.


Elucubração e guerra

– Você fala disso e daquilo, como se a guerra não estivesse acontecendo.

Mas a guerra está aí, e tudo o que eu falo é um pedaço de arma ou um estilhaço dessa guerra.

Ontologias como discurso sobre o real?


A língua e o que com ela se diz, o discurso, não são uma espécie de supra-realidade ou uma bolha imaterial no real material. O discurso não fala do real. Ele é real, na medida em que é efetivo, isto é, produz efeitos reais.


Filosofia como doença e como cura

O princípio de causalidade é um princípio ontológico ou epistemológico? A causa natural é algo real ou uma maneira de interpretarmos o real, ou de o conhecermos, ou de lidarmos com ele, no uso da vida?

Estas questões permanecerão sem uma resposta definitiva: alguém diz isto; um outro, aquilo. Elas pressupõem o ontológico e o epistemológico, o real e o intelectual, o natural e o humano, como dois âmbitos de existência distintos. Essa separação, porém, é um ato ideal da filosofia, um distúrbio da vida e do pensamento, que, porém, só pode ser revertida filosoficamente.

A filosofia é como o pharmacon, ao mesmo tempo veneno e antídoto.




– Ah! Entendi!


Segue-se a uma asserção: – Ah! Entendi!

O que isso, então, quer dizer? Que eu conheci a causa (eu, agora, sei a razão da coisa asserida) e estou aliviado? Que eu conheci o significado (eu, agora, sei o que a asserção quer dizer)?


Tudo é questão de método – VII

Quando o terreno (mesmo no pensamento) está difícil, vá devagar, sem se afligir pela demora. Ou passe rapidamente, sem olhar para nada, até chegar em outro lugar.



Incompreensível ou não confiável?

ELE me olha, com suas mãos calejadas, para mim, sentado à escrivaninha, luz acesa, um livro aberto, algumas folhas de anotações, algumas canetas como instrumentos – isso não pode ser trabalhar – que mundo, afinal, essa atividade produz?

Isso não é apenas incompreensão dele, mas uma desconfiança.


Conexões de segunda ordem

Posso falar das conexões que uma coisa constitui (só assim a conheço).
E posso falar das conexões que uma outra coisa constitui. Isso também me é autorizado. 




Mas não posso falar de qualquer conexão de conexões sem que seja considerado louco? Só posso falar das conexões de primeira ordem?

– Não se confunda: isso não quer dizer que não haja conexões de segunda ordem, apenas que você não pode falar delas.

Quem me confunde é você. Você quer me deixar com coisas na mão. Quer salvar as coisas, a qualquer custo. Veja, as coisas estão sempre em relações, conexões, estados de coisas. Perscrutá-las com o olhar, e querer fixá-las, apenas nos deixa diante de outras relações. E essas relações não são fortuitas, elas têm força, na verdade, são tendências.

Da relação para a coisa

Você quer retroceder da relação entre coisas para a coisa? Não adianta; na coisa isolada, você só encontrará a relação entre as suas partes.


•)••)•••)

Quando falamos de uma coisa, na verdade, falamos da relação de uma coisa com outra.




E quando perscrutamos a relação, a fixamos como se fosse uma coisa (isto é, a colocamos em relação com outra).


E, assim, ao infinito.




A vida, na semana que vem


Poderíamos levar a vida de tal modo como faz o filósofo. Afinal, na sua espontaneidade, o filósofo livre, o filósofo que vem, deixa absolutamente de lado os velhos problemas. Ele não fica (como creem alguns) falando das mesmas questões de sempre, apenas de maneira distinta, colocando-as e resolvendo-as com novas palavras e ideias. O filosófo que vem tem diante de si um panorama livre, ele está numa paisagem que vem.

Por isso, queremos viver filosoficamente.




Complexo do professor

O complexo do professor seria esse: – ele se sentir, em todo lugar, como se estivesse em uma sala de aula.


O logos do antropós

Os antropólogos (ainda mais quando agem e pensam filosoficamente) parecem estar acima do humano. Pois parecem dispor do humano como se o humano fosse um objeto disposto diante deles, manipulável e, nessa manipulação, observável.

Mas os antropólogos não são deuses, nem suas ideias imortais. Suas próprias mãos (as que manipulam) deixam suas impressões na superfície dos seus objetos.


O que é isso, afinal, a filosofia?

Essa questão do papel do filósofo, dessa sua tarefa, dessa “afinal, para que filósofos?”, Foucault responde assim:
O papel do filósofo de dizer “o que acontece” consiste, talvez, hoje, em demonstrar que a humanidade começa a descobrir que ela pode funcionar sem mitos. O desaparecimento das filosofias e das religiões corresponderia sem dúvida à alguma coisa desse gênero.*
Primeira observação: não tem nada a ver, um com o outro, o filósofo e a filosofia. Filósofos contra a filosofia.

Uma segunda: sem mitos, então, poderíamos dizer, sem tv!



(*) FOUCAULT, Michel. Qui êtes-vous, professeur Foucault?. Texto 50 [1967]. In: DEFERT, Daniel; EWALD, François; LAGRANGE, Jacques (Orgs.). Michel Foucault: Dits et écrits. Vol. I. 1954-1975. Paris: Quarto Gallimard, 2001 [1994]. P. 648.

Sempre elogiar o acontecimento IV: aristotelizando...


Para Aristóteles, a atitude (a disposição para o agir de certo modo) não é uma disposição dada, mas uma disposição adquirida, através da formação cultural (paideia) e dos costumes sociais (êthos).

Quando essa disposição é filosófica, isto é, quando tem em vista um grau mais elevado do humano, uma excelência, uma virtude ética (areté ethiké), a atitude filosófica, como disposição, não é simplesmente adquirida, mas é uma tomada de posição e envolve escolha.

Aristóteles nos fala, talvez, de dois tipos de atitude filosófica (hexis, em grego; habitus, em latim), dois tipos de modo de ser e agir adquiridos pela prática refletida, pelo agir orientado pela reta razão (kata orthon logon). A atitude filosófica envolve um oportunismo e um circunstancialismo.

Um circunstancialismo, na medida em que, no agir, o humano filósofo está de tal modo disposto que retira, de quaisquer circunstâncias, o maior proveito*. Afronta o acontecimento cavalar, como Filipe, como amigo do cavalo, e diz: – melhor assim, pois assim... etc.!


Um oportunismo, em segundo lugar, porque, o amigo do acontecimento age oportunamente, isto é, na ocasião apropriada, para com as pessoas apropriadas, com referência às coisas apropriadas, pelo motivo apropriado, e da maneira apropriada(**).

Em que medida estas duas atitudes – (1) fazer de toda circunstância uma oportunidade; (2) agir oportunamente – constituem um único modo de ser e agir?

Na medida em que a atitude filosófica faz de toda circunstância uma oportunidade para agir oportunamente, na medida em que essa tomada de posição percebe, em cada circunstância, a ocasião, os objetos, as pessoas, o motivo e a maneira conveniente do agir.

O humano filósofo jamais deixa de agir, em nenhuma circunstância, mas age sempre oportunamente. 

Portanto, agir sempre não significa se mover sempre, e agir não significa se mover.




(*) Aristóteles. Nic. Eth. 1101a.
(**) Aristóteles. Nic. Eth. 1106b20

Saudades de tudo

Spinoza propôs que o intelecto, com o amadurecimento, fosse ganhando o espaço da imaginação, nas mentes dos que se libertavam. No meu coração nômade e envelhecente, o que ganha espaço, porém, são as saudades. E isso não é nada mal, afinal, sem o sabor das memórias não se pode sequer pensar.


Acerca do múltiplo muito


A intensidade de um império democrático, como múltiplo muito, é diretamente proporcional à sua diversidade. Quanto mais complexo é um corpo, quanto mais ele é capaz de ser afetado e de afetar outros corpos, tão mais potente ele é. 

O desafio dos impérios democráticos, ao contrário do que ocorre nos hierárquicos, é tanto o de evitar a redução da diversidade, como o de manter, sem a obediência, a conveniência das suas partes componentes.

Nosso diálogo não se prolongará

Se você dialogar comigo, você vai dizer que eu sou curto de argumentos. Nesse sentido, pelo menos, eu penso aristotelicamente: não podemos, nas argumentações, recuar ao infinito.

“Tudo é questão de método” – VI

– Você é obrigado a dar a fonte original de tudo o que você repete ou copia.

Se não, tudo o que você afirmar ou negar será atribuído a você mesmo, como a sua fonte original; e de três, uma: (1) ou o que você propõe será absolutamente desprezível, (2) ou será seriamente levado em conta, ou seja, se você não denunciar categoricamente a fonte original, você será culpado de tudo o que enunciar, (3) ou, ainda, você será fatalmente acusado de plágio, sob a hipótese imperativa de que não há nada de novo no mundo.


Insurreição brasileira III – ir multiplamente II

Matar um tirano e colocar outro no lugar. Não é essa a causa eficiente da insurreição. Um é sempre pouco. Ir multiplamente, multiplicando-se.

Insurreição brasileira II – ir multiplamente



O múltiplo muito vai às mentes, aos corpos, às ruas.

O que queremos? Um fim, um objeto? De onde viemos? Por que vamos? De ou por uma causa?

Não podia ser diferente, as reivindicações são, a princípio, múltiplas e, enquanto múltiplas, disparates. Dar um sentido, uma direção, uma interpretação, aos issos que acontecem é reduzir o múltiplo muito ao pouco um. Um é sempre pouco.

Cuidemo-nos, portanto, com as interpretações derradeiras dos objetos, com as finalidades últimas, pois, juntos ao que está diante de nosssos olhos, como um objeto e como um fim, estão sempre o nariz e a própria visão própria. A interpretação objetal derradeira nos tranquiliza, mas apenas na medida em que domina seu objeto e por ele é dominada. A indicação de um fim último nos orienta, porém, nessa orientação, um fim se dá como nosso guia.

E, no agora vai, trata-se de desdominar-se, de desguiar-se, de inventar, de iniciar, de ir. De ir multiplamente. Na potência, não por um poder.

Sem a memória, não poderíamos sequer pensar. Por isso, nosso pensamento requer, como costume, interpretações. Mas, também por isso, a interpretação introduz um passado no presente, quando, no presente que vai, no agora vai, já há também o futuro do ir – o ainda-não-já-presente.

ainda-não-já-presente não é jamais totalmente interpretável. Ele abre, no presente, uma incompletude.

No ir multiplamente, por múltiplas vias, com o múltiplo muito, não se trata de ir a um lugar, mas de sair deste.



“Tudo é questão de método” – V


– Como é possível... ?

Pensamento ensaístico – não resolver o pensamento em proposições verdadeiras (que, sempre, pela mesma razão que se afirmam como verdadeiras, podem ser falsas), mas, por exemplo, deixá-lo no nível da investigação, isto é, das indagações.


“Tudo é questão de método” – IV

Se a ciência é o discurso do verdadeiro e do falso, e a política é o discurso acerca dos comandos de obediência e das atitudes de desobediência, que não são nem verdadeiros nem falsos, como é possível a ciência política?

Insurreição brasileira


Vem-me à mente, nesses dias, a questão da “insurreição brasileira”...

Para saber se estamos diante de uma “espiritualidade política”, como no Irã de 1978-1979, precisamos nos perguntar se, para “mudar o Brasil”, estamos também dispostos a “mudar a nós mesmos”.

Enquanto a insurreição for simplesmente determinada pelo objeto dos afetos, i.e., enquanto a insurreição for contra um objeto considerado exterior ao modo de ser que nos constitui, a nós, os insurretos, ela será certamente política. Mas, só será também espiritual na medida em que envolver o seu contra-objeto em nossa própria subjetividade.


“Tudo é questão de método” – II

– Nada de certo escapa ao método certo.

Se você diz que a essência do mundo é científica, isto é, que o mundo inteiro pode ser expresso por meio de proposições verdadeiras, você oculta a essência política do mundo, expressa por meio de imperativos ou comandos de obediência, que não são nem verdadeiros nem falsos.


“Tudo é questão de método”


Ainda estamos assombrados pelo método (pela via certa).

– Nada de certo escapa ao método certo.

Ainda acreditamos que tudo de certo só nos chega de modo certo. E que o modo certo pode alcançar tudo o que é certo.

Entretanto, não podemos ter muitas vias até a mesma coisa certa? E não podemos nos deparar com coisas certas por acaso ou pela via errada? Não podemos ter em mãos coisas certas, sem conhecermos o modo certo de chegarmos até elas?



106

A liberdade é fazer de si o que bem se entende,
ou o que se entende por bem?

Tudo (na sua abertura) são sentimentos de sentimentos

Isso que você me diz, nesse momento, é que não há verdades ou cristalizações. Então, tudo são modificações de modificações, ou seja, o que costumamos chamar de sentimentos.

Diário de Moscou XVI – O dinamismo inapreensível do ser ou a sua insustentável leveza

A caminho de Moscou, tudo em minha mente (e ela mesma inclusive) se descristaliza. Como se estivéssemos incondicionalmente atrelados a uma pérpetua e infinita estação de trem, passando apenas de um a outro cais, trocando de linhas e trilhos, sem qualquer verdadeira destinação ou destino.

É provável que, nessa imagem, eu esteja ainda sob o impacto da colocação dos filósofos: “não se pode cristalizar o ser”. O ser é solúvel em si mesmo (a grande estação ou biblioteca), e não há depósitos sedimentados, sequer características ou padrões de sedimentação, no fundo do ser. Só há trilhos e viagem, nenhuma identidade, nenhuma cidade, onde descer do trem.


A virtude, ao menos, na palavra

A virtude não vem depois da boa ação (uma ação correta, perpendicularmente reta, orientada pelo nosso vínculo comunitário, humano e com a natureza). Não é a ação boa que faz o virtuoso. Esse é o padrão da moral (um modelo dado de ação que, se imitado, é critério da virtude).

A virtude não é um fim a se alcançar mediante um comportamento moral. Mas um princípio, uma arché humana. A virtude é uma potência reta consigo mesma e, como tal, é já uma disposição da qual se seguem as ações boas. É o virtuoso (em sua reta potência) que faz a boa ação.

Ânimo vigoroso, generosidade, força e coragem, prudência, atenção, perspicácia, vinculação, numa palavra: fortitudo*.




(*) e4p73 e escólio. SPINOZA, Benedictus de. Ethica [1675]. In: Opera Posthuma. –: –, 1677.

Exercício acerca das questões

Qual dessas duas questões é a mais importante filosoficamente?

(1) – A mente existe imaterialmente?

(2) – Precisamos sempre esperar a fome para começar a cozinhar?



Iguais diferenças

– Todas as diferenças são uma única. Ou seja, toda diferença é igual. Assim, retomamos a diferença, profundamente, como igualdade.

Um exemplo deste pensamento enganado: se compreendermos, na sua essência, uma diferença particular, aquela entre “la vie à chaud” e “la vie a chaud”, compreenderemos toda outra diferença.

Na primeira expressão: – “vida” e “quente” são imanentes um  ao outro; na outra: “vida” e “quente” estão contingentemente unidos. Isto é, toda diferença é diferença entre imanência e transcendência.

La vie à chaud


Os hábitos realmente democráticos são passionais, interessados, contingentes, impulsivos, imoderados, intempestivos. Mas não é essa irracionalidade que refuta a democracia real.

Refutam-se os hábitos esfriados de uma democracia acalmada. Ela cheira a hipocrisia. Por baixo dessa impressão de crosta asserenada, vigora sempre a mesma vida acalorada.

A filosofia, a moral e o espelho


Quando se diz que a filosofia não deve ser como um espelho da natureza, por estas tortuosas vielas do dever, que nos fazem dar voltas sobre nossos próprios passos, já estamos a espelhar alguma coisa.

Afinal, a atitude moralizante não faz mais do que exigir de você que você se enxergue no espelho dela.



Ajuda (argumento por autoridade)

A compreensão abre um âmbito de não-compreensão, e se abre por ele.

Deleuze:
– É preciso sempre desconfiar dos filósofos: quando ficamos muito contentes de ter compreendido, é porque isso que compreendemos é uma condição para compreender ainda outra coisa que não compreendemos. Então, quero dizer, são sempre textos de muitos níveis...

Encontre-me, perdendo-me


Para que você não se prenda a uma imagem associada a mim, eu tenho vários nomes – e vários endereços eletrônicos (e-mails). Eu vivo em Moscou (já vivi em Berlim e Paris).

Mesmo assim, um dr-one, ou dois, dr-two, pode me localizar. Se não pode intuir-me, destrua-me.


Diário de Moscou XV – a visita de Bergson



Moscou não é um conceito, mas uma imagem.

Bergson, que encontrei durante sua visita a Moscou, colocou em suspenso, para a filosofia, o conhecimento por conceitos. Para ele, a essência movente do real não pode ser reconstituída a partir de conceitos que são elementos racionais imóveis.

O real (a coisa em si mesma) precisa ser apreendido por intuição imediata, num “esforço da imaginação”* e não da razão, que conhece mediante conceitos. Pois, os conceitos racionais são sempre derivados das propriedades que uma coisa compartilha com outras. O conceito conhece propriedades comuns e não a essência da coisa, que é sempre singular.

Essa intuição, essa “simpatia pela qual nos transportamos para o interior de um objeto para coincidir com aquilo que ele tem de único”**, é um ato simples que não comporta mediações simbólicas. E se a filosofia, enquanto metafísica, tem, no conhecimento do real, por procedimento intelectual (considerando aqui o esforço de imaginação um ato intelectual), a intuição, então a metafísica “é a ciência que pretende passar-se de símbolos”***. A metafísica, portanto, não pode falar do que, em si mesmo, é inexprimível.

Minha vida (e, particularmente, minha vida em Moscou), como objeto, é inexprimível. Só pode ser conhecida pela simpatia de um filósofo (que seja também o meu leitor).

Dessa vida minha posso oferecer ao leitor conceitos e imagens, mas nenhum dos dois pode representá-la, nem pode substituir a intuição que o conhecimento absoluto dela requer.

Conceitos são abstratos e só alcançam as propriedades comuns. As imagens, porém, têm a vantagem de serem concretas ou de “nos manter no concreto”****, pois permanecemos, com a imagem, ligados ao singular, apesar do distanciamento do símbolo.

Para fazer conhecer a minha vida (e particularmente em Moscou), segundo Bergson, eu deveria me valer de muitas imagens díspares, para que nenhuma delas possa “usurpar o lugar da intuição”*****.

Entretanto, eu uso apenas a imagem de Moscou. E Moscou-imagem toma o lugar da sua (e da minha própria) intuição de minha vida.

Ao menos, Moscou não é um conceito.








(*) BERGSON, Henri. Introdução à metafísica [1903]. In: O pensamento e o movente: Ensaios e conferências. São Paulo: Martins Fontes, 2006. P. 184.
(**) Ibid. P. 187.
(***) Ibid. P. 188.
(****) Ibid. P. 192.
(*****) Ibid. P. 192.