O encanto do liberalismo II


O liberalismo pensa: “cada um conta por um e não mais do que um”. Ou, ainda: cada um é um “cidadão livre e igual”. 

Entretanto, a equivalência entre cada um produz a indiferença entre todos. O tecido social se torna homogêneo e pulverizado. A vida social “retorna ao pó” de que é composta (às partículas individuais das quais, pensa o liberal, o social é essencialmente feito).

Desse modo, a terrível serpente que vive por dentro da máscara liberal é o individualismo (a ideia de que cada um, individualmente, é uma substância, que pode ser concebida per se e portanto deve ser autônoma – o que significa que, economicamente, deve viver de seus próprios recursos e, ético-politicamente, deve dar a si mesma as suas próprias regras).

E a consequência do individualismo é a solidão.

E a consequência da solidão, no humano, é o sentimento de insegurança, o desamparo e o medo.

E a consequência da insegurança é, finalmente, a força amparadora (pastoral) do Estado – isso que acaba por negar, ao menos parcialmente, a essência do liberalismo.

Assim, a consequência última do individualismo é a sociedade composta por uma multidão de indivíduos e pelo Estado – frias instituições do Estado (escolas, hospitais, centros de assistência social, prisões, exércitos...) e indivíduos independentes uns dos outros como únicos elementos sociais.

Mas, a nossa valsa catastrófica não termina por aí.

Contra o liberalismo e o Estado que dele advém e, ao mesmo tempo, o nega, outras serpentes nos injetam seu veneno mortífero: a força não liberal, a força de um conjunto vivo sem indivíduos que possam viver por si mesmos, ou seja, solitariamente.

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