A compreensão do núcleo aumenta com a não-compreensão da margem.


A intensidade da minha compreensão de, por exemplo, três ideias aumenta se eu tiver acesso a dez outras ideias, num primeiro instante, incompreensíveis, situadas à sua margem.

Aumentará ainda com o acesso, para além daquelas dez, a mais cem ideias periféricas.

Assim, a não-compreensão favorece a intensidade da compreensão (um pouco como o escuro intensifica o claro).


Como é difícil ser rei entre os Urubu





Sobre a tribo dos Urubu, François Huxley:
É papel do chefe ser generoso e dar tudo o que lhe pedem: em algumas tribos indígenas, pode-se reconhecer o chefe porque ele possui menos que os outros e traz os ornamentos mais miseráveis. O resto foi-se em presentes.* 
Ou seja, entre os Urubu, o avaro, que acumula riquezas, não é reconhecido como chefe. Enquanto, entre nós, a quantidade de poder (no sentido restrito e antidemocrático, de uma capacidade hierárquica de comandar) equivale à quantidade de riqueza. Se fôssemos Urubu, reconheceríamos os nossos chefes nos desmunidos e não nos munidos.

(A Igreja católica, pelo contrário, reconhece magnificamente a si mesma como chefe, por reconhecer e ao reconhecer no mundo a quantidade da miséria).




(*) Huxley apud CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 2. Troca e poder: filosofia da chefia indígena. P. 48.


103

Para falarmos de filosofia, em filosofia, precisamos de muitos parênteses.

102

– (Alguma) filosofia é um pensamento poético, quer dizer: (auto)produtor e (auto)produzido.

101


O que o desejo de uma exclusiva ciência positivista ou a antimetafísica tem a ver com o antipensamento?

Mito e história XII


A história é usualmente concebida como o movimento de inovação pelo qual o humano socialmente se arranca de uma situação mítica (estática e fechada – enfim, prisioneira dos tempos, da origem ao fim).

Para Clastres, a situação mítica já é, porém, uma situação histórica se ela conter (e o mito, dependendo, pode favorecer isso) alguma espécie de poder coercitivo.

Sociedades sem história, para ele, não são sociedades míticas, mas sociedades sem poder político coercitivo. E a história é a história das formas de coerção nas sociedades.

Nesse sentido, podemos dizer, as autênticas lutas contra a dominação, isto é, quando não são lutas pelo poder coercitivo, são lutas contra a história. (Agora nos chega mais clara a compreensão do dito-oracular de Herzog.)

Por isso, a tarefa do historiador, para Walter Benjamin, é “escovar a história a contrapelo”; quer dizer, é fazer a história das lutas contra a história, para acabar com a história (na produção messiânica da volta ao futuro, da volta ao mítico sem coerção – e o Messias pode entrar pela nossa porta inesperadamente a qualquer momento).

Morreu um tirano (Diário de Moscou XIII)

A morte de um tirano de ferro não nos consola. Trata-se apenas de um prazer correlato à satisfação de um desejo vão.

Pois não é o ferro que se acopla ao tirano, mas o tirano à ferradura.

Só haverá consolo na nossa humana redenção. Só haverá redenção humana, quando não houver ferradura, da qual um tirano é apenas como um atributo.

Hoje morreu um tirano, não a tirania.


Mito e história XI

A história, tal como ela conhece, é a narrativa das vitórias do efetivo. O efetivo é o que vence e derrota o que deve ser esquecido nos tempos.

A história é a narrativa das técnicas vencedoras na dominação da natureza. Mas a dominação da natureza, para ser efetiva, requer o esforço humano excessivo. Esse excesso só se alcança pela dominação dos humanos por outros humanos. A história, além de história das técnicas, é, portanto, a narrativa dessa dominação.

Assim, sob o efeito simples de um princípio do terceiro excluído, quando não há dominação, pode-se concluir que não há história?

“A propriedade essencial [...] da sociedade primitiva é exercer um poder absoluto e completo sobre tudo que a compõe, é interditar a autonomia de qualquer um dos subconjuntos que a constituem, é manter todos os movimentos internos, conscientes e inconscientes, que alimentam a vida social, nos limites e na direção desejados pela sociedade. A tribo manifesta, entre outras (e pela violência se for necessário), sua vontade de preservar essa ordem social primitiva, interditando a emergência de um poder político individual, central e separado. Sociedade à qual nada escapa, que nada deixa sair de si mesma, pois todas as saídas estão fechadas. Sociedade que por conseguinte, deveria eternamente se reproduzir sem que nada de substancial a afete através do tempo.”*




(*) CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 11. P. 228.

Diário XII


Em Moscou, eu realizo que a minha pele são camadas “exteriores” superpostas que meu ser incorpora, dinamicamente e prazerosamente, até a última extremidade (a que está mais para fora) do meu casaco.

Ao passo que, em Berlim, naquele minúsculo apartamento superaquecido, eu pensava a minha pele negativamente, quer dizer, como aquela última camada do mundo que eu não podia extrair de mim sem dor.


99

Professor não é missionário.
(Quer dizer, a sua referência aos alunos não é a da salvação.)

Diário XI - Felicidade em Moscou II


A estadia de Asja em Moscou, apesar de curta, transformou a cidade aos meus olhos.

Poderia imaginar que a primavera havia chegado (quando, na verdade, aproximamo-nos do inverno mais rigoroso).

O afeto monstruoso voltou à sua caverna para pintar, resmungando raivosamente contra o mundo primaveril, aquilo que um dia se tornará, com a fermentação da história, arte.






Diário X

Isso que mais temo, neste momento, em relação à minha estadia em Moscou, é que ela, prolongando-se, faça de mim mais um moscovita (quero dizer, em respeito aos hábitos, eu temo tornar-me, por exemplo, mais um usuário de vodka barata, comedor de frituras e de outros gêneros gordurosos, assíduo frequentador de algum bar de periferia). Eu tornar-me moscovita é o momentaneamente impensável.

Diário IX – Felicidade em Moscou


Depois de reler Epicuro, neste momento de minha vida, chamou-me à atenção a sua regra de autossuficiência.

Asja, por razão da minha dependência em relação a ela, talvez, como ele o diz, me perturbe a alma mais do que ela seja, como eu a sinto, um elemento incontornável da minha felicidade.

Quer dizer, o remédio para a minha falta de Asja não é a Asja mesma, mas eu perceber que minha dependência, a minha necessidade de Asja, é um engano do meu desejo de felicidade. Eu não preciso da presença de Asja para ser feliz, pelo contrário, eu tenho que ser independente de Asja, se quero ser feliz.

Asja está em Moscou há alguns dias. Passamos alguns momentos juntos excelentes (eu disse “excelentes” para não dizer “muito felizes”) e outros não tão excelentes. Ela me serviu de intérprete em várias ocasiões, o que me fez conhecer um pouco mais o tão estranho, do meu ponto de vista, espírito dos moscovitas.

Em uma dessas noites, uma nevasca inadvertida nos deixou aprisionados, durante uma hora quase insuportável para mim, em um pequeno bar de um bairro periférico, cheio de moscovitas animados de vodka que cantavam, a plenos pulmões, canções populares conhecidas de todos. Perguntava-me se eles eram realmente felizes assim como estavam, ou se tratava-se de um engano seu.

Todos enganam-se com o tipo de felicidade que desejam?


Diário de uma viagem VIII


O meu motivo consciente para essa visita a Moscou é a avaliação de minha adesão ou não ao Partido. Mas eu sinto que, no fundo, embora eu não as possa manifestar, as causas da minha viagem são outras e não são tão minhas.

Aquela frase, “A viagem rejuvenesce as coisas, e ela envelhece a relação a si mesmo”, não sai da minha cabeça nem do meu coração. O meu sentimento de estranhamento, comigo e com a cidade, alienante, não cede sem retomar terreno. Por vezes, volta, como a pontada de um recordista, na sua maior intensidade. Chega, pelo estreitamento que provoca, a fazer arder o peito.

As esquinas, os prédios e os comportamentos moscovitas são absolutamente novos; por outro lado, a minha dor mostra-se mais velha; é uma dor de princípio, o horror de uma imaginação infantil.

O anúncio da chegada de Asja, em menos de 48h, não é, não imediatamente, para mim, um alívio. Embora eu a queira muito ao meu lado, e deseje ardentemente a ocasião e o bem de um beijo, como aqueles que trocávamos em Berlim em toda intimidade e conforto emocional, a visita anunciada de Asja aumenta a minha ansiedade. Coloca-me um desafio que abala o meu precário equilíbrio, assim que eu o reconquisto. Será possível eu me sentir bem com ela? Será possível ela se sentir bem comigo, em Moscou? O que será que ela pensa, apesar de eu não cogitar lhe perguntar algo sobre isso, da minha eventual adesão ao Partido?

Rapidamente, é curioso, deixa-se o centro de Moscou, mesmo a pé. Depois de alguns poucos quilômetros, a cidade, quer dizer, seu centro, desaparece literalmente aos nossos pés. O programa prevê a construção de moradias e a complementação da urbanização. Por enquanto, parece apenas uma promessa a se realizar num futuro distante. É verdade, em Moscou, o que está mais presente é o futuro, que todos aqui estão fabricando.

História na natureza

Para Hegel, a natureza não tem história.
“As mudanças na natureza, apesar de serem infinitamente diversas, mostram apenas um círculo que sempre se repete; na natureza, nada de novo acontece sob o sol e, por isso, o jogo multiforme das suas configurações traz consigo o tédio”.*
Só o espírito e a sua história (e o Cristo tem parte nisso) nos salva do tédio, e rompe o circuito fechado da natureza.

Nesse sentido, pode-se dizer, Darwin é o Cristo da natureza. Ele a salva desvelando a sua historicidade constitutiva da qual nós fazemos parte.




(*) HEGEL, G. W. F. A razão na história: Introdução à filosofia da história universal. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1995 [1822-1830]. P. 127.

Diário VII


Todos aqui falam do clima como se fossem climatólogos e o clima, verdadeiramente previsível.
– A tal hora vai nevar, por meia hora, não passa disso, pode contar. 
– Às 18h, a nevasca vai dar uma trégua, você vai ver. Depois volta. 
– Desse jeito, você pode ter certeza, a neve vai continuar a cair por três dias. 
– Em janeiro, pode escrever, neva o mês inteiro, até o meio de fevereiro.
Não consegui ainda verificar nenhuma dessas proposições, porque não são propriamente científicas (como as entendem os modernistas e os formalistas russos). 

Primeiro, porque, do jeito que são formuladas, comportam sempre, no mínimo, uma parte de verdade. 

Segundo, porque comportam também o estreito vínculo dos climatólogos com o que eles afirmam. Você querer verificá-las é sinal de que você desconfia deles e não apenas das suas proposições. 

Terceiro, porque pressupõem que você tenha compreendido bem o seu significado. O que quer dizer que, se você, por acaso, mostrar a falibilidade de alguma dessas proposições, estará mostrando, de fato, que você não a entendeu direito.


Diário VI

Descobri um sebo a poucas ruas do hotel em que estou hospedado nestes primeiros dias em Moscou (cidade em que não poderei permanecer por muito tempo, se não conseguir alugar um apartamento por um valor mais acessível) (um conhecido italiano prometeu-me encontrar um que fosse adequado para mim) (quando ele me disse isso, logo pensei: como ele poderia saber o que era, para mim, adequado ou não?).

E, no sebo, descobri vários livros em francês. Um deles, particularmente, me chamou a atenção. A capa e as páginas iniciais faltavam, haviam se descolado, ou sido arrancadas. Assim, não pude conhecer o título da obra nem seu autor. Mas, logo na introdução, uma frase sublinhada a lápis dizia o seguinte: “Le voyage rajeuni les choses, et il veillit le rapport à soi”*.


(*) [Cá, entre nós, eu posso dar uma tradução, “A viagem rejuvenesce as coisas, e ela envelhece a relação a si mesmo”, e a referência que Benjamin estava impossibilitado de citar: FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité II: L’usage des plaisirs. Paris: Gallimard, 1984. P. 19.]

Diário V


A língua russa é, materialmente, como uma muralha, uma espécie de gosma, expelida pelas bocas dos moscovitas, assim que se abrem, que vai se petrificando, e que se interpõe entre mim e eles, separando-nos da maneira mais radical. O russo me aprisiona.

Mas isso, para um estrangeiro, pode acontecer também frente a outras instituições comuns, como os costumes, as tradições, as castas, as classes, as raças ou, até mesmo, a arquitetura...


Diário IV


Almoço em uma cantina de trabalhadores, situada ao lado de um restaurante típico, surpreendentemente elegante, provavelmente frequentado por funcionários do partido.

Grandes mesas num salão suficientemente aquecido por um sistema que me pareceu eficaz, e que nunca tinha visto antes. Quando me aproximei das caldeiras, que dispunham de grandes pás circulantes que distribuíam o ar quente, mas umidificado, por todo o salão, pude perceber uma plaqueta metálica indicando sua fabricação e procedência alemãs (tratava-se, então, de uma oferta de solidariedade do sindicato berlinense? Como saber?).

Em um grande samovar, servia-se chá, mas tão açucarado que eu não consegui beber. Os moscovitas colocam açúcar em tudo, numa quantidade insuportável para um organismo berlinense. Abandonei meu copo quente de chá, o mais discretamente que pude, sobre uma mesa em que se empilhavam pratos e talheres sujos que voltariam para a cozinha.

Sentei-me numa mesa vazia, com meu prato de comida. Pouco depois, juntaram-se a mim, vários trabalhadores com pratos cheios ao máximo. Uma jarra de chá doce foi colocada entre eles. Um jovem, que não retirou de sobre sua cabeça o seu gorro de lã, fez sinal de que eu poderia me servir, se quisesse. Declinei, e agradeci.

Passei alguns momentos aliviado, entre os trabalhadores e seu frescor. Conversavam animadamente entre si. Embora eu nada compreendesse, podia perceber que compartilhavam muitas ideias, e que havia, entre eles, todo um mundo em comum, às quais e ao qual eu não tinha o menor acesso.


Diário de Moscou III


Ontem, planejei visitar o Ministério da Saúde. Não havia conseguido informações sobre os horários de abertura. Não pude falar com nenhum de meus poucos conhecidos de Moscou. Se tivesse consultado Asja, internada em uma instituição do Ministério, ela certamente teria sabido me informar a respeito. Mas eu não tive forças de ir até ela, por razões diversas. Sai o mais cedo que pude, também porque resolvi dirigir-me até o hospital a pé. O frio me concedeu uma trégua nesses últimos dias. Não é tão cortante como de costume (hoje, ele já voltou com sua intensidade habitual). Pensei que alguns passos pela cidade só podiam me fazer bem.

A caminho, apesar do comunismo, em vários momentos, tive a impressão de ouvir aqueles cantos coletivos e lentos que são típicos das igrejas. Não poderia dizer de onde vinham precisamente. Eram sons difusos, oscilantes, que se misturavam aos sons laicos da cidade de Moscou (na verdade, Moscou é uma cidade mais silenciosa que a maioria das cidades). Às vezes, porém, podia ouvir sua força coletiva quase distintamente, para que logo novamente se plasmassem, sem se perderem, com o fundo sonoro geral. Moscou pareceu-me uma cidade construída sobre um mar de religiosidade, cuja maré, oprimida, assim que puder, vai se elevar novamente à tona, para dominar a música da vida comunista.

No hospital, nada encontrei que já não esperasse. O hospital é o lugar mais sujo e desorganizado. As pessoas que lá estavam eram as mais pobres, tinham o pior aspecto, e o desleixo era geral. O chão estava praticamente coberto de papéis úmidos pisados [falta a imagem dos plásticos descartáveis]. Algumas senhoras, com um lenço amarrado sobre os cabelos, eram encarregadas de varrer o chão, com grandes rodos cobertos por um pano imundo. Alguns minutos depois que passavam, tudo estava como antes, as pessoas continuavam a jogar no chão toda espécie de coisas para as quais não tinham mais utilidade.

Não há qualquer separação entre o público e os consultórios dos médicos e as enfermarias. Os doentes e os visitantes vagueavam, com seus chinelos tradicionais, alguns enfeitados com curiosos bibelôs, pelos corredores, pelas salas de repouso, pelas grandes enfermarias, com seus formulários à mão à procura de alguma coisa ou de algum responsável. Entre os pacientes, eu talvez fosse o único a calçar botas.

Os atendentes têm péssimo humor, pior que o do moscovita comum.

[Para a descrição da consulta médica e das suas consequências, a referência a Benjamin é impraticável. Vivemos hoje uma realidade medical absolutamente distinta, em Moscou tanto quanto em Berlim.]

Memórias do cárcere

Memórias do cárcere? Sade, Gramsci, Negri, Artaud, Rivière... tantos escreveram em cárcere. Não me refiro às memórias do tempo vivido no cárcere (Levi, Solzhenitsyn), mas às memórias de um encarcerado, que o soltam, e deixam livre (e portanto salvo), apesar dos muros e das grades.

Diário II


Passei o dia de hoje com o terrível sentimento de que fui covarde, escolhendo vir aqui apenas porque era um caminho mais fácil do que a permanência em Berlim. Pois, agora, Moscou me parece pouco. As pessoas são rudes, descuidadas e, por isso, feias. Nada acontece. Embora eu saiba que, assim como eu a sinto, essa não seja a Moscou real.

Ou seja, o asco que me provoca o cheiro das ruas de Moscou transforma-se em ódio de mim mesmo. Odeio-me pelo que decidi e pelas consequências da minha decisão, que arrasta Asja para cá também. Em que medida isso comprometerá o nosso amor?

Só agora eu entendo o que A., meu amigo de Berlim, quis dizer, quando me perguntou se os moscovitas são feios. Sim, querido A., agora posso responder-te, as pessoas aqui são feias, entristece-me olhar para elas.

A fila no Ministério das Finanças consumiu algumas horas da minha tarde, apenas para saber se a remessa de dinheiro, que havia sido feita em meu nome, desde Berlim, já estava disponível. O tempo todo vinha-me à mente a imagem dos elegantes halls com colunas em mármore dos bancos de Berlim, com seus funcionários impecáveis em paletó e gravata (halls que, entretanto, eu achava opressores, esnobes e discrepantes com a realidade material dos próprios funcionários e dos clientes, quando eu estava por lá), causando-me uma estranha espécie de saudade de algo que, na verdade, eu não aprecio.

No saguão do Ministério de Finanças de Moscou, atrás e diante do balcão simples, feito com chapas de madeira, as roupas são sujas, mal-passadas, esgarçadas. Muitos vestem, por ali também, aqueles chinelos abertos que os moscovitas usam para ficar em casa.

O funcionário atende as pessoas, e discute suas demandas, na frente de todas as outras, sem qualquer preocupação com a sua privacidade.

Quando descobrem de onde eu venho, os moscovitas me dizem: – o único problema aqui é o frio, você precisa aprender a driblá-lo.

Diário



Hoje foi um dia completamente atípico. Nuvens e chuva. Foi o primeiro dia em que não transpirei como um queijo em processo de cura.

Todo diário que eu escreva remeterá (num estado dependência ou por imitação) ao diário de Walter Benjamin*. As descrições e os afetos de Benjamin em Moscou são um traço mnêmico indelével, que canaliza, para aquele que o leu uma vez, qualquer outra descrição diária de impressões que surjam da relação entre um cronista estrangeiro em viagem por um lugar humano, uma cidade.

A diferença entre a forma do diário de Benjamin e a do meu é a seguinte. A dele se dava no contexto de um intervalo de tempo e de um retorno iminente a Berlim. Na minha forma, o tempo de minha estadia em Moscou é indefinido (com sabor de um presente eterno – sempiternidade).


(*) BENJAMIN, Walter. Diário de Moscou. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Schwartz, 1984 [1927].

A invenção do tempo

Foi preciso, para suportar o peso do presente como algo eterno, o humano inventar o tempo. Não penso tanto, agora, no passado, mas no futuro, como possibilidade de um presente melhor, e no sentimento correlato da esperança.

O futuro pode não existir, metafisicamente falando, mas, para a existência humana, é, em certas situações, de grande utilidade.

Há uma certa concepção do futuro (futuro no mundo, como plasticidade do presente, presente que pode ser modelado pela ação humana, para melhorar a existência) que nos é útil.

Efeitos do afeto monstruoso

Às vezes, a falsa ideia de um futuro absolutamente livre do presente se torna um alívio para o afeto monstruoso existente, pois:

1) Sob o afeto monstruoso, o presente se carrega de futuro. Os muitos anos a vir se acumulam no presente (que precisa pensar cada momento futuro como se fosse exclusivamente do seu encargo).

2) O momento presente parece se estender para sempre, eliminando o futuro. Todas as emoções presentes, que constituem o afeto monstruoso, parecem se estender indefinidamente na direção do futuro. O presente tende a perceber-se como eterno.

Assim, se conseguimos imaginar a maleabilidade do presente (como passageiro), e dar ao tempo sua forma remediadora e promissora, pode renascer a esperança.

Imaginação e imprudência


Nossa potência de imaginar nos fornece milhares de motivos para nos alegrar e milhares para nos entristecer. Pressionada pela necessidade, a imaginação prefere naturalmente os primeiros.

Assim, ela tende a constituir o mundo imaginário como mais favorável do que ele talvez seja em realidade. Mas é justamente esse engano imaginado (apesar de um pouco imprudente) que incita o desejo a produzir o imaginário no real.

O humano prudente é, de fato, um humano de perspicácia (seu intelecto e seu olhar perfuram o presente, para distinguir, nele, outros modos de ser). O prudente não se difere do imprudente porque deixa de lado a imaginação, mas porque imagina coisas alegres quase reais (isto é, coisas cuja realidade pode se articular com as outras realidades atuantes no momento). 

Uma espécie de afetos


Um afeto muito antigo, profundo. Dominador e engolidor, quando presente. Um afeto em si mesmo sem história, que não progride nem muda – um afeto vital (conectado à mais negra bílis). Um afeto que volta, vez por outra, cru, nu, sem máscaras – não é possível interpretá-lo, porque ele nada significa. 

Ressurge, hoje, de um calabouço escondido, onde é mantido pelas potentes travas da existência, como um monstro medonho que, por sua malignidade, é trancado atrás de sete portões e sete chaves, produzidos com sete diferentes metais.

Todo afeto está ligado à imaginação. Este, à imaginação de coisas monstruosas. Assim, vai contra a própria imaginação, que, por princípio, se esforça por imaginar coisas que nos causam alegria.

“A mente, tanto quanto pode, esforça-se por imaginar coisas que aumentem ou favoreçam a potência de agir do corpo”. (Spinoza, Ethica III, prop. 12)

Um círculo sem circunferência nem centro

A ideia de que o mundo não tem nem origem nem fim geográficos, segue-se da seguinte constatação: – em qualquer lugar que você se encontre haverá sempre um outro mais central e um outro mais periférico.

Eurocéfalo II – devir formiga


Como se diz, porém: “tamanho não é documento”. Se pudéssemos escolher: – talvez escolhêssemos o regime cerebral das formigas, não o dos europeus.
É certo que pode haver uma atividade mental extraordinária em uma massa de matéria nervosa extremamente pequena: assim, são bem conhecidos os instintos, as capacidades mentais e as afeições, maravilhosamente diversificados, das formigas, ainda que os seus gânglios cerebrais não sejam maiores do que um quarto de cabeça de alfinete. Sob este ponto de vista, o cérebro de uma formiga é um dos mais espetaculares átomos de matéria do mundo, talvez mais espetacular do que o cérebro humano.*
Para sair do eurocentrismo: trata-se de pensar como formigas?





(*) DARWIN, Charles. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [1871]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 859.


cá-lá

Tem-se manifestado, entre nós, na política, – se exageramos um pouco – um recorte simples: que separa, com nitidez ilusória, o cá do lá. Como se o cá e o lá fossem dois campos evidentes e as duas únicas alternativas claras de opinião (e inação).

A polarização estruturada das opiniões (o dispositivo de alinhamento dos corpos e mentes individuais, de aglomeração automática e coerente, seja de um lado ou de outro de uma linha divisória hiper-real), que recorta o corpo político em dois campos simples, mostra-se como sinal de nossa estupidez crescente.

Isso funciona, em geral, segundo a lógica do partido (e, em nosso caso: do bipartidarismo).

Colapso ou zênite do presente



Na língua hebraica, não há o tempo do presente. Os nomes das ações (os verbos) se referem ou ao passado (ad Praeteritum) ou ao futuro (ad Futurum).
A razão disso parece ser que [os antigos hebreus] não reconheciam senão estas duas partes do tempo, e consideravam o tempo presente como um ponto, isto é, como termo do passado e início do futuro; digo: parece que comparavam o tempo com uma linha, cujos pontos, certamente, deviam considerar tal como a extremidade de uma parte e o princípio de uma outra.*
A minha impressão (sentimento, opinião e interpretação) é exatamente oposta a essa. Para mim, é como se houvesse apenas o tempo presente, não pontual, mas gordo e envolvente. Parece-me que todos os pontos da linha (do plano ou do volume) estão copresentes, simultaneamente atuantes uns sobre os outros, embora meu olhar esteja fixo sobre um trecho dela, um segmento da linha ou do plano ao qual minha atenção se cola; todo o restante permanecendo, mas fora de foco. É minha atenção que divide e fragmenta o tempo. Meu olhar, que estabelece o foco. Meu passo, a distância. Sem que minha vontade, nisso, como em todas as coisas, tenha uma função determinante, ou atue autonomamente.



(*) SPINOZA, Benedictus de. Abrégé de grammaire hébraïque. Trad. Joël Askénazi e Jocelyne Askénazi-Gerson. 3 ed. Paris: Vrin, 2006 [1677]. P. 131, in fine.


Eurocéfalo

A crença de que existe no homem uma relação estreita entre o tamanho do cérebro e o desenvolvimento das faculdades intelectuais é confirmada (is supported) pela comparação entre os crânios das raças selvagens e das civilizadas, dos povos antigos e modernos, e pela analogia do conjunto das séries vertebradas. O Dr. J. Barnard Davis (1869) provou, por meio de muitas medições cuidadosas, que a capacidade interna média do crânio, nos europeus, é de 92.3 polegadas cúbicas; nos americanos, 87.5; nos asiáticos, 87.1; e, nos australianos, somente 81.9 polegadas.*

Tese: – o tamanho do cérebro é diretamente proporcional ao nível de desenvolvimento das faculdades intelectuais (imitação, memória, atenção, imaginação, razão).

Prova: – os cérebros dos europeus são maiores do que os dos americanos; estes, do que os dos asiáticos, que, por sua vez, são maiores que os dos australianos.

Que isso constitua uma prova para a tese pressupõe uma premissa oculta: – as faculdades intelectuais dos europeus são superiores, nessa ordem, às dos ameríndios, às dos asiáticos e às dos australianos.

Pode permanecer oculta, porque essa premissa é, como um axioma, uma evidência de todos conhecida.

Ora, o que nos leva a aceitar tal premissa?

O fato do domínio europeu (colonialismo e imperialismo, no século XIX, e seus desdobramentos) sobre todas as outras culturas da terra, bárbaras ou civilizadas.

Afinal, o domínio econômico-político é resultante da superioridade da raça europeia. Somente as capacidades intelectuais maiores do que as das outras culturas humanas garantem a eficácia europeia na luta geral pela existência.
Uma comunidade que inclua um grande número de indivíduos bem-dotados cresce em número e é vitoriosa frente às outras comunidades menos bem-dotadas. (**)




(*) DARWIN, Charles. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [1871]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 859. Grifo meu.

(**) Ibid. P. 864

A posição da cabeça se tornou uma ameaça à evolução humana


Como a cabeça humana – onde, no momento, se localiza o cérebro, o órgão humano que se tornou o mais eficaz na luta pela existência – está posicionada na extremidade do corpo, distante do seu centro de gravidade, o cérebro não pode continuar a crescer e ganhar peso sem ameaçar, em breve, o equilíbrio do corpo humano ereto.

Assim, algumas variações genéticas seriam recomendáveis: – ou retornamos à posição do quadrúpede, ou deslocamos o cérebro para o centro do corpo, na direção da barriga.

Estruturas ou dispositivos de desejo


Diversas partes ou subsistemas estão em estrutura (isto é, intimamente relacionadas umas às outras numa rede de desejo) quando a modificação ou a variação de uma delas implica, simultaneamente, em modificações ou variações de adequação nas outras partes, com a consequente conservação da sua estrutura ou da sua relação.

Assim:
– o mito, para Dumézil, é uma estrutura;
– o indivíduo e os impérios, para Spinoza, são estruturas;
– vários sistemas anatômicos da espécie humana, para Darwin, são estruturas (lei da variação correlata).

Perceba você, portanto, que:
– alguns (muitos, mas não todos) dos seus atos, pensamentos e sentimentos são estruturais: possuem sua razão, não propriamente em você mesmo, mas no dispositivo, ou seja, na relação estruturada que seu ser ou desejo mantém com o ser ou desejo de outras pessoas e coisas;
– se todos os seus atos etc. fossem estruturais, não haveria acontecimento, apenas eventos.

Unidade sintática da política: a preposição

A ação é uma relação de um humano a outro humano (não, por exemplo, de um humano a uma coisa).

Mas, ainda, a ação, enquanto tal, requer sentido*. E o sentido da ação é a relação humana explicitada (tornada consciente).

Explicitar uma relação é expressá-la.

Nessa passagem para o âmbito da linguagem, o sentido se expressa como significado.

Por isso, a significação (isto é, a maneira pela qual se indica o significado ou o sentido conscientizado de uma ação) deve mostrar a relação.

Na linguagem, o nome da relação (o relativum) é a preposição (praepositivum)**.

Assim, pelo menos no tocante à ação (à ética e à política), a semântica (o estudo da significação e dos sentidos) lida, antes de tudo, com preposições.

Lista de preposições no português: a, contra, até, para, por, de, desde, ante, trás, sob, sobre, com, sem, em, entre***.


(*) A partir de Weber, a ação social se define como um comportamento humano (um ato exterior ou íntimo, uma omissão, uma tolerância), ao qual o agente ou os agentes atribuem um sentido que se orienta pelo comportamento dos outros. Conferir: WEBER, Max. Économie et société. T. 1. Les catégories de la sociologie. Trad. diversos. Paris: Plon, 1995 [1920]. Cap. 1, §1. P. 28.

Nota: Esse humanismo da teoria da ação como ação humana me incomoda. Mas vale momentaneamente. Pessoalmente, eu preferiria uma teoria da ação mais geral: – a ação (como também a paixão) é uma relação.

(**) SPINOZA, Benedictus de. Abrégé de grammaire hébraïque. Trad. Joël Askénazi e Jocelyne Askénazi-Gerson. 3 ed. Paris: Vrin, 2006 [1677]. P. 66-67.

(***) BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. P. 300. Veja-se também a lista completa (incluindo as locuções prepositivas) na p. 305.

Um tino para a comunidade



O fato de que “algo” faça mal a A indica, por si só, alguma comunidade entre este “algo” e A.
Spinoza: – “[...] coisa nenhuma pode ser, para nós, boa ou má, se não tiver algo [em] comum conosco [...]”*.
Portanto, pode-se excogitar, o fato de que “algo” faça mal tanto a A como a B indica alguma comunidade entre A e B.
Darwin: – “O Homem (Man) é capaz de receber dos animais inferiores, e de comunicar-lhes, certas doenças como a hidrofobia, a varíola etc. Com muito mais evidência do que a comparação sob o melhor dos microscópios ou com a ajuda da melhor análise química, este fato prova a forte semelhança entre os seus tecidos e sangue, tanto no detalhe da sua estrutura como na sua composição”.**
Mas, finalmente, esses fatos podem indicar nada mais do que um traço de caráter comum não às coisas, mas aos que falam delas: – o tino filosófico ou a mania de perceber ou de inventar, constantemente, comunidades entre as mais diversas coisas.
Proust: – “um certo filósofo que só se satisfaz quando descobre, entre duas obras, entre duas sensações, uma parte comum”.***

(*) SPINOZA, Benedictus de. Ethica [1675]. In: Opera Posthuma, 1677. e4p29.
(**) DARWIN, Charles. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [1871]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 784.
(***) PROUST, Marcel. La Prisionnière. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2011 [1923]. P. 6.


O primeiro

Aquela ideia filosófica por excelência de que tudo é um (água, ar, fogo ou Deus) toma, com a biologia, já prenhe da noção de história, a variante: tudo vem de um:
...provavelmente, [ou seja, não é um absurdo afirmar que] todos os seres orgânicos que uma vez viveram nesta terra descendem de alguma única forma primordial, na qual a vida foi insuflada pela primeira vez.* 


(*) DARWIN, Charles. On the Origin of Species by Means of Natural Selection [1859]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 756.

Os crentes infiéis


A voz do teólogo:
– Se há algo que não merece o pensamento, isto é o evidente. O que merece ser pensado é o “mistério” (o oculto, que está por trás ou acima do evidente).

Curiosamente, entretanto, para nós, os verdadeiros crentes, apesar de infiéis, sequer o evidente se põe acima da problematização. Muito pelo contrário, o mais problemático é, de fato, o evidente.

Aliás, nada é mais evidente que a realidade. Mesmo assim e por isso mesmo, é sempre ela o objeto e o ambiente do nosso pensamento, até na imaginação.

– A realidade, mesmo se ela é necessária, não é completamente previsível.*


* PROUST, Marcel. La Prisionnière. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2011 [1923]. P. 4.

Realidade X vontade


Frequentemente, para provar a independência da realidade (o seu estado per se ou em si) se lhe opõe a vontade. Porém, o fato de a realidade resistir e até mesmo opor-se à vontade não testemunha contra a realidade da vontade nem contra a voluntariedade da realidade.

O desejo de mais e mais




Há uma remissão do desejo de mais e mais para aquela concepção hierárquica do cosmos, na qual, cada patamar é como um degrau mais extenso (toda estância presente é um patamar, jamais o lugar de um repouso absoluto).

Rei real

“A realidade é rei”, embora o rei diga o inverso: (que o real não é substância, mas atributo) – a realidade é um atributo do rei.

Consequentemente, segundo os monarquistas-realistas, para algo se tornar real, tem que ser atribuído ao rei.

Entre uma realidade e outra

Um abismo enorme nos separa de toda outra realidade além dessa que nos rege. Esse abismo, porém, não é intransponível.

O encanto do liberalismo II


O liberalismo pensa: “cada um conta por um e não mais do que um”. Ou, ainda: cada um é um “cidadão livre e igual”. 

Entretanto, a equivalência entre cada um produz a indiferença entre todos. O tecido social se torna homogêneo e pulverizado. A vida social “retorna ao pó” de que é composta (às partículas individuais das quais, pensa o liberal, o social é essencialmente feito).

Desse modo, a terrível serpente que vive por dentro da máscara liberal é o individualismo (a ideia de que cada um, individualmente, é uma substância, que pode ser concebida per se e portanto deve ser autônoma – o que significa que, economicamente, deve viver de seus próprios recursos e, ético-politicamente, deve dar a si mesma as suas próprias regras).

E a consequência do individualismo é a solidão.

E a consequência da solidão, no humano, é o sentimento de insegurança, o desamparo e o medo.

E a consequência da insegurança é, finalmente, a força amparadora (pastoral) do Estado – isso que acaba por negar, ao menos parcialmente, a essência do liberalismo.

Assim, a consequência última do individualismo é a sociedade composta por uma multidão de indivíduos e pelo Estado – frias instituições do Estado (escolas, hospitais, centros de assistência social, prisões, exércitos...) e indivíduos independentes uns dos outros como únicos elementos sociais.

Mas, a nossa valsa catastrófica não termina por aí.

Contra o liberalismo e o Estado que dele advém e, ao mesmo tempo, o nega, outras serpentes nos injetam seu veneno mortífero: a força não liberal, a força de um conjunto vivo sem indivíduos que possam viver por si mesmos, ou seja, solitariamente.