Preciso falar de Alice
Até que consiga visualizá-la 
e depois esquecer seu nome
Da fala, à imagem
Da imagem, ao encobrimento

Alice me dava rasteiras
Quando eu menos esperava
Minhas expectativas egoicas tombavam como
Tomba um capoeirista

Como naquele dia
Em que eu esperava o encontro amoroso
E ela trouxe a irmã

Como naquele outro
Em que se despiu e deitou a meu lado
Mas não me deixou tocá-la







Ela não é Alice
Alice não é ela




Ela não é Alice.
Alice não é ela.

A regra de vida de Spinoza: “Melancholiam expellere”.
A regra de vida de Freud: “wo Es war, soll Ich werden”.
A tradução e a fusão delas duas: “lutar contra a barbárie”. 



Essa ausência de objeto se chama Alice.
Essa ausência de lugar, Moscou.





Uma indefinição nos sentimentos. Falta o nome, faltam os nomes. Não sei bem o que sinto, nem o que dizer a respeito: saudades, paixão amorosa, culpa, ódio, inveja, ciúmes, coragem, indiferença, despeito, vergonha... Nem sei por quê. Nem sei claramente em direção a que pessoa ou situação. Quando fixo o objeto, o sentimento varia, oscila. Quando fixo o sentimento, o objeto se multiplica, e se dilui. Isso parece ser angústia: um plasma afetivo sem a ideia do objeto, uma carga nervosa e instável, a nua afetividade borbulhando lentamente por baixo do esterno.




Alice no país de Moscou

Assim acontecia: 
a última parte do bolo, ou a maior, ou talvez a mais gostosa, 
Alice não me dava, mas guardava para si. 

Ali-si.


Ah... lice...

Alice me faz falta. 
Sinto-me esvaziado sem ela. 
Mas, sob exame, sei que não há nada nela que eu precise. 
Há, aliás, muitas coisas nela 
que eu nem quero por perto. 
Não é Alice que me faz falta. 
O que me faz falta é que Alice não me faça falta. 
Que minha falta não seja a falta de Alice. 
É a falta aberta como uma ferida que nunca cicatriza. 
É a falta da falta. 



Saudade cã é a que não se pode matar, 
sem que o cão saudoso morra junto. 


 

Trata-se de estar apegado ao apego, 
não exatamente ao objeto do apego.