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A era da pós-verdade e as imagens


A noção de pós-verdade pressupõe uma certa concepção de verdade: a concepção científica da verdade objetiva, em que o objeto é o ob-jeto, separado, vivo-morto.

A era da pós-verdade, na verdade, quer dizer: a era da pós-verdade-objetiva, em que restam apenas imagens. Ninguém dispõe, ao modo da verdade científica, das naturezas dos objetos separadamente das suas próprias naturezas e portanto dos seus desejos.

Na era da pós-verdade, ninguém dispõe da verdade, ou se interessa por ela, mas alguns controlam as imagens.

Esse controle pode indicar uma situação de dominação extrema, que chega até o controle das ideias imaginativas, ao controle das opiniões, da imaginação... a hegemonia...

Mas nem tudo está perdido:
Se fosse tão fácil imperar sobre as almas como [é imperar] sobre as línguas [censurando-as], cada um [dos imperadores] reinaria em segurança, e não haveria qualquer império violento. Com efeito, cada um viveria segundo o engenho dos imperadores e apenas segundo o seu decreto julgaria do verdadeiro e do falso, do bom e do mau, do justo e do injusto. Mas isso é impossível, que o ânimo de alguém esteja absolutamente sob o domínio de outrem!*
Nesse caso: a violência dos impérios aparece como índice das resistências, não exatamente como um mal.





(*) SPINOZA, Benedictus de. Oeuvres III: Traité théologico-politique. Paris: PUF, 2009 [1670]. XX, §1. P. 632. Livre-tradução. Grifo meu.


Imagem e objeto


Duração
ou vida
ou potência imaginativa
ou imagens.
A imagem é o não separado.
O objeto não é uma imagem.


Vida e morte dos objetos da ciência


A ciência cria seus próprios objetos, separando-os do fluxo contínuo da vida (a “duração”). Essa separação é a condição da estabilidade desses objetos. Estabilidade que, por sua vez, é um critério científico – é preciso que o ob-jeto da ciência separe-se do sujeito que o conhece, numa oposição, num jazer diante. Na sua permanência, na sua repetição requerida, o objeto científico está separado da vida, isto é, morto. Só assim ele pode se repetir para todo e qualquer sujeito a que se oponha. Na forma de conhecimento científica, os objetos emergem da imersão não objetiva. Eles vêm à luz, separando-se da vida contínua, interligada, do real. A ciência dá à luz seus objetos e, ao mesmo tempo, num certo sentido, os mata. A separação do objeto (em relação à realidade viva – ou natureza – e em relação ao sujeito) é a condição de possibilidade de sua manipulação e dominação.



Atração pelo modo imperativo do discurso


“Distancie-se de um ponto de vista.”

O modo imperativo (possivelmente, o modo de discurso originário; a linguagem seria inicialmente a instância de uma ordem, a afirmação de um comando) exerce sobre os nossos ouvidos (e, na sequência, sobre o restante do nosso corpo) uma estranha atração. Damos mais ouvidos a um comando (mesmo na resistência) do que a uma descrição.

Bom, a novidade talvez nos pareça estranha. Mas parece-me que o estranho remete sempre, ao mesmo tempo, a algo muito antigo, quase totalmente esquecido.



Sociologia antissocial e a mídia

A palavra “contemplação” (e não “teoria”) muitas vezes é utilizada para traduzir o grego “theoria”.

Disse, antes, que a sociologia atual é a contemplação da sociedade contemporânea. Quer dizer, em grande parte, nossa sociologia é espectadora (televisiva etc.). Contemplamos a imagem da sociedade, não a sociedade mesma. A imagem é uma obra de arte (muitas vezes coletiva, mecânica e involuntária). A imagem da sociedade é obra de uma arte social, que a nossa sociologia atual contempla e ajuda a reproduzir.



2º gênero de c.

Chama-se o documentário de “segundo gênero” do cinema. Essa rotulação me chamou a atenção. Lembrou-me o segundo gênero de conhecimento em Spinoza: aquele das noções comuns. O cinema como meio de conhecimento. Do qual o documentário é um segundo movimento. Para Marina Goldovskaia, “o documentário é antes de tudo [isto é, essencialmente] um movimento que vai do não conhecer ao conhecer”*.








(*) GODOLVSKAIA, Marina. A jornada do documentário [2006]. Trad. Fábion Bonillo. In: LABAKI, Amir (Org.). A verdade de cada um. São Paulo: Cosac Naify, 2015. P. 200.

Ciência intuitiva


Um longo trem é dificilmente apreensível, desde a estação, num só golpe do olhar. Devido à limitação do nosso escopo visual, seguimos apenas a ordem dos vagões, que passam diante de nossos olhos, um após o outro. Temos um vagão à vista, e já deixamos de ver os que havíamos visto.

O mesmo se dá com os elementos que constituem uma ideia. Passamos de um a outro, certos de sua conexão, até chegarmos na ideia. Mas nessa passagem, devido à estreiteza da nossa atenção, abandonamos esses elementos constituintes, à medida que nos concentramos num deles. Assim, estamos certos da ideia apenas porque fomos capazes de seguir seus elementos em sua conexão. Mas não temos a ideia toda, com todos os seus elementos constitutivos, simultaneamente, presentes em nossa mente. Da mesma maneira que temos a visão do trem, apenas porque vimos desfilar os seus vagões.

Eu disse, no entanto, estreiteza da nossa atenção e não de nossa mente. Se conseguirmos nos desvencilhar da atenção e da sua parcialidade, e nos entregarmos à confiança do pensamento: eventualmente, teremos a totalidade da ideia em mente. Isto é o que poderíamos chamar de ciência intuitiva.


O colar e o alívio

Um certo alívio (Mas em relação a que angústia? Sufoca-me o medo ou, o que dá no mesmo, o desprezo da multidão, das suas práticas, da sua racionalidade imanente) me advém da sugestão de que a multidão não é como uma massa (pode transformar-se em massa, mas apenas em certas circunstâncias). É preciso reconhecer os dispositivos que a convertem em massa. E, se possível, se desejável, neutralizá-los (é sempre perigosa e cega a massa?).

Isso diz respeito, claramente, à pretensa posição e tarefa do intelectual. O efeito Bourdieu (da separação radical entre o sociólogo e a sociedade de que ele fala), por exemplo, na crítica de Boltanski, ao que parece, nos levaria a afirmar que: “o sociólogo se torna o único sujeito ativo da crítica social, cujo objetivo é abrir os olhos das massas cegas, que desempenham antes um papel passivo”*.

O colar que me sufoca é pressupor que a multidão esteja sempre na forma da massa. Que o intelectual individualmente enxergue o que ninguém mais é capaz de ver. Que o intelectual não se considere, ele mesmo, uma parte da multidão. Ora, a esse tipo ideal de intelectual condiz, apenas, uma massa que o ouça, que o deixe pensar por ela. A multidão não lhe dá muitos ouvidos. Para ela, o intelectual é apenas mais uma voz na feira, anunciando uma promoção que só ele supõe mais espetacular do que as outras.

O intelectual-vidente faz massa.








(*) Conferir: PINZANI, Alessandro; REGO, Walquiria Leão. Vozes do bolsa família: autonomia, dinheiro e cidadania. 2 ed. São Paulo: Unesp, 2014 [2013]. P. 36. E... http://thesocietypages.org/monte/2012/09/01/an-interview-with-luc-boltanski-critique-and-self-subversion/

Imagem como “cópia exata” da ideia humana



7900 anos. Piauí. A ponta de uma lança: “cópia exata”* da ordem. Precisamos nos esquivar do seu alcance. Enquanto ordem, arcaicamente, ela tem o caráter último de uma sentença de morte.

A exatidão da cópia é tão perfeita que ela não se distingue da ideia.




(*) CANETTI, Elias. Massa e poder. 4ª reimpressão. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 [1960]. P. 319.

Primitivo contemporâneo II


Na sua versão linguística, a crença no primitivo contemporâneo, a crença na origem imperante, se dá como etimologia.


Primitivo contemporâneo


Em Freud, em Canetti, em Darwin, em Bataille, em muitos etnólogos, parece existir a crença de que podemos conhecer melhor a humanidade do presente se conhecemos a humanidade nas suas formas primitivas, pois o humano primitivo ainda viveria nas profundezas mais fundamentais dos contemporâneos.

O primitivo não teria sido negado ou definitivamente superado no contemporâneo, mas apenas denegado, reprimido, posto em suspenso, e, nessa suspensão, ainda seria atuante.



Palavrão freudiano II


O “novo” caminho-interpretativo que passava por Freud já não nos leva adiante. Percorrê-lo nos traz de volta, sabemos agora – depois da destruição do complexo de Édipo* –, sempre ao mesmo lugar. Isso não quer dizer que devemos sem mais descartá-lo, para seguir adiante. Mas, sim, que devemos, radicalmente, perguntarmo-nos: _que necessidade temos de ir adiante? _E o que ir adiante significa?



(*) DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. L’Anti-Oedipe: Capitalisme et schizophrénie. Paris: Minuit, 1973.

Antes de mais nada, descrever. Mas como?

A posição ou atitude científica de Freud: “Toda tentativa de explicação deve ser precedida pela descrição daquilo a ser explicado”*. 

Mas, a ciência não se limita à anterioridade da observação-descrição. Ela, antes de observar-descrever, pensa. Sem pensar e inventar suas funções, ela sequer poderia descrever. O pensamento funcional prepara e, nisso, antecede a observação.




(*) FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Obras completas. Vol 15 (1920-1923). Trad. Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 17.