Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens

Inteligência poética


Ao que parece, primeiramente apreendemos uma ideia de maneira poética, pela intuição da sua poesia. A poesia seria a primeira apreensão de uma ideia verdadeira, isto é, essencial e original; poesia, a nossa experiência primeva de uma ideia. Depois, a poesia – ou o encantamento da língua com a ideia – dissipa-se, ao se expressar como prosa, argumento, ciência, filosofia.

Acerca disso: a relação de Freud com Goethe (cuja poesia parece envolver de maneira sublime a ciência freudiana).




O que pode um texto de filosofia?


Mais interessante (porque mais importante) que a verdade de um texto filosófico, em si mesmo considerado, é o que se faz com ele. Seus efeitos de verdade.




Petição de princípio e a questão da fundamentação (exemplo da psicanálise)


Sim, a relação da psicanálise e do totemismo (enquanto ideias) constitui uma petição de princípio, segundo a análise linear da questão da fundamentação.

A psicanálise explica o totemismo, e essa explicação explicita e confirma a teoria psicanalítica.

Essa circularidade lógica é um problema impeditivo apenas quando se tem uma concepção arquitetônica da filosofia ou do pensamento. Digo arquitetônica, talvez não muito adequadamente, quando se entende a construção do pensamento a partir da metáfora da construção de uma casa, cujas partes mais elevadas se apoiam naquelas mais baixas, e finalmente naquelas assentadas sobre as suas sapatas fundamentais, que por sua vez se assentam num solo absolutamente firme.

A organização do pensamento (sua sistematização), no entanto, não se constrói verticalmente ou linearmente, mas em círculos ou em espiral. As partes ou as ideias do pensamento se desdobram indefinidamente umas das outras, incorrendo nesse processo necessariamente em contínuas petições de princípio, pelas quais aquelas ideias se afirmam, e também se transformam, mutuamente. Uma ideia do pensamento nunca é (realmente) separável da totalidade das outras.

Assim, a lógica da petição de princípio não é um impedimento, mas a efetividade (a lógica efetiva) do pensamento.






A economicidade da filosofia


Para mim, isto é, para alguém que como eu pensar ou não pensar nada acrescenta aos meios de conservação de sua existência, a filosofia é uma despesa improdutiva, uma extravagância. No entanto, ela não deixa de ser econômica.



Pensamento e crise


O acontecimento não é a crise do pensamento nem da ação. A crise do acontecimento é a incapacidade de julgar ou de determinar, definir, parar o pensamento, não de pensar. Justamente é a partir dos impasses de fora que se constitui e se intensifica o pensamento de fora, a modificação indefinida do pensamento, da potência de pensar, da potência de agir.

Não há modo de ser fora do pensamento, mas há o modo de ser do pensamento de fora. “De fora” não indica um objeto do pensamento, mas um modo, uma modificação, do pensamento.




A imagem mediatriz de Bergson


O esteta não se interessa tanto pela intuição filosófica, é verdade, mas pela imagem mediatriz, ligada a ela, e que é mais próxima dela que os conceitos de uma filosofia. Mesmo prisioneiro da imagem, e a intuição filosófica lhe permanecendo inacessível, ele estaria mais próximo da intuição do que o estudante de filosofia preso aos conceitos.




A de-finição em filosofia


A definição pode até aparecer no início, como na Ética de Spinoza, mas ela só se deixa alcançar quase no final (quase – porque não há fim). É, como a semente, a resultante última do processo que ela inaugura.


A coruja só levanta voo ao entardecer...



A filosofia é um tipo de discurso que cria conceitos ou ideias, ou os apreende em suas teias discursivas, quando já existentes. Os conceitos de uma filosofia estão intimamente articulados e atrelados uns aos outros. De modo que cada um interfere em cada outro, e não é possível suprimir ou modificar um conceito sem ajustar os restantes. As ideias/conceitos são os elementos de uma filosofia, elas se invocam, convocam, provocam. Inauguram uma possibilidade de perceber, descobrir ou inventar, e dizer o que há no mundo e como isso vai.

Na medida do presente, o conceito é sempre um passado.

Na medida em que não se deixa medir pelo seu tempo (unzeitgemäss, extemporâneo), no entanto, o conceito abre uma percepção/inteligência ou um modo de perceber/inteligir, que pode ser até futuro.






A supressão do pensamento crítico-filosófico

...(ou, o que dá no mesmo, seu confinamento a um círculo aristocrático)...

PECs, MPs do ensino no Brasil temeroso: as 1001 maneiras de repetir a morte de Sócrates.



O cinema do real, a filosofia e os “efeitos”


– Nada de “efeitos especiais”, proclama o cineasta-estudioso* da realidade-verdade (aquele que a busca, que se aplica pelo real sem truques).

Neste ponto, ao modo do cinema do real, a filosofia também é uma ciência dos “efeitos”, não apenas no sentido causal do termo, mas no sentido ótico, no sentido do reconhecimento visual-mental daqueles acréscimos de realidade que terminam por encobri-la (uma estranha fumaça que, apesar de ser um efeito de realidade, é também um truque, que lança um véu sobre o real, tal qual uma fantasia dominadora)**.

Que a filosofia seja uma ciência dos efeitos quer dizer que ela se esforça em revelar os efeitos – que são, ao mesmo tempo, índices e velamentos da verdade efetiva das coisas –, para desfazê-los.





(*) Conferir o uso que Barthes faz do termo latino studium. In: A câmara clara: Nota sobre a fotografia. Trad. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015 [1980]. P. 29.

(**) Para Aristóteles, a ciência é conhecimento das causas. Para Hobbes, dos efeitos. Mas Deleuze relembra que “efeito” tem ainda um sentido diferente, para além da causalidade. Conferir: DELEUZE, Gilles. Spinoza: Philosophie pratique. Paris: Minuit, 2003 [1981]. P. 18.

Genealogia

Foucault, novamente.

Genealogia é o estudo do vir a ser de um objeto, seja uma noção (um modo de pensar), seja uma prática (um modo de agir), por meio do estudo das lutas, dos enfrentamentos e das alianças dos diversos poderes, forças e resistências, historicamente envolvidos na sua gênese ou produção.


174


A filosofia: uma atividade no impensado.
(avançar através da fronteira, ou retraçá-la em uma experiência-limite)





A origem dos neologismos na filosofia


Alguns obtêm a destreza na escrita antes de filosofar. Já sabem escrever habilmente, antes de começarem a escrever filosoficamente. Seus primeiros textos filosóficos já surgem bem-escritos. Já possuem toda a língua, antes de fazerem filosofia.

Outros só adquirem a técnica e o domínio da língua no momento em que começam a pensar filosoficamente, tomam a técnica da língua como uma exigência filosófica. Possuem a língua à medida que se desenvolve sua filosofia.

Em geral, os primeiros nunca se valem de neologismos.



Problematizar


A filosofia, ou seja, o pensamento especulativo, não tem o compromisso de desprender da experiência os seus conceitos, mas procura forjar os conceitos capazes de abrir a experiência ao pensamento. Abrir a experiência ao pensamento quer dizer tornar a experiência, e isso que acontece numa experiência, um campo plástico para a atividade de pensar, um campo problemático. Fazer da experiência um problema, isso é abrir a experiência ao pensamento.


171


Não há ideia mais obscura e confusa do que a ideia de uma ideia clara e distinta.


Filosofias: criadoras de problemas


A nossa dificuldade com uma certa filosofia (nosso estranhamento) está, muitas vezes, ligada ao fato de que não compreendemos, não enxergamos, os problemas que ela levanta, ou não consideramos problemáticas as suas questões, porque elas não nos afetam.

Por que uma filosofia vê (ou inventa) nisso um problema, quando para nós tudo parece tão simples? A nossa dificuldade pode ser a nossa apatia ou o engano de uma filosofia. Nossa questão então toma a seguinte forma: – os problemas que uma filosofia aponta nos são pertinentes, quer dizer, podem nos afetar?

No entanto, somos frequentemente forçados, pelos disciplinadores, a fazer de conta que vemos problemas onde, verdadeiramente, não vemos nenhum.




Da mistura de filosofias


Estamos convencidos (ao que nos parece; afinal, como podemos ter alguma certeza, depois de tanto caminharmos e nos enfraquecermos?) de que há filosofias e não a filosofia. Disso nos veio o gosto (ou a necessidade do gosto) pela mistura dos conceitos e pelos modos de caminhar, pela impureza do pensamento.

Cada filosofia é (parece ser) um caminho na linguagem. Mas a linguagem “é um labirinto de caminhos”*.

Por ser da linguagem, que é “um instrumento”**, uma ferramenta que trabalha o real, a filosofia é uma operação sobre o real. Depois de caminhar, o real já não é mais o mesmo, transformou-se. A filosofia trabalha o real ou parte do real, e o dispõe de um certo modo, por meio do qual, muitas vezes, novas realidades aparecem; velhas, desaparecem. Dizer que a filosofia produz o real talvez seja excessivo. Que as filosofias, no real, operam sobre o real, talvez mais ponderado.

Da nossa mistura decorre – como ocorre quando, sem um plano urbanístico mestre, vários arquitetos, várias equipes de engenheiros, operários, várias técnicas de construção agem em uma mesma cidade e em suas peças – que o real operado resultante é como uma Torre de Babel (muitas línguas, muitas superstições).





(*) WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophische Untersuchungen. Frankfurt: Suhrkamp, 2003 [1941]. #203. P. 134.

(**) Ibid. #569. P. 244.

O instante imperial e os budismos


O mundo está em crise. Quer dizer, nesse instante, somos incapazes de apreendê-lo no pensamento. Incapazes de pensá-lo. O mundo parece não caber no pensamento (nem mesmo como capitalismo). Isso é possível? Ou isso apenas significa: um ótimo instante para os budismos?




O desejo de conhecer e a nova ideia: atração e repulsa


A ciência precisa do novo, para se encontrar – disso a atração; e não pode se deixar enganar pelo novo, para não se perder – disso a repulsa.




Um mesmo afeto pode ser causa da negação ou da aceitação de uma explicação


– Oh! Mas isso é nojento! É repulsivo!

Freud diz: n’isso está a causa da resistência à psicanálise. Isso explica a resistência à psicanálise*.

Wittgenstein, pelo contrário: n’isso está a causa da nossa adesão a ela. “Pode muito bem ser o fato de a explicação ser extremamente repulsiva que nos leva a adotá-la”**. Isso explica o sucesso da psicanálise.

Um mesmo afeto, a repulsa, assim, em diferentes sujeitos, é causa da negação ou da aceitação da explicação.

Em uns, a repulsa causa a negação da verdade: – Oh! Isso é nojento! Não pode ser verdade!

Em outros, a repulsa causa a aceitação como verdade: – Oh! Isso é nojento! Mas, devo confessar, é justamente isso que me atrai! Portanto, isso precisa ser verdade.




(*) Conferir, por exemplo: FREUD, Sigmund. As resistências à psicanálise [1925]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 16 (1923-1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 262. Neste texto, Freud enumera três razões inter-relacionadas da repulsa: isso é novo; isso é sexual; isso é judeu.

(**) Wittgenstein apud: ASSOUN, Paul-Laurent. Freud e Wittgenstein. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1990 [1988]. P. 41.