Estou com a impressão de que toda a minha vida, 
Absolutamente toda, 
(vida é sensação e desejo) 
Girou em torno de Alice. 
A cada vez que a encontro (sensação), não é bem ela. 
E quando algo insiste em se dar o nome de Alice, 
Preciso que desapareça (desejo). 




A minha tristeza, ou quase desespero, 
é que Alice não seja Ela,
e Ela não seja Alice. 









Alice, durante a minha existência, teve vários outros nomes. 








Como Alice

Há coisas das quais não sabemos falar com precisão.
Pois não são exatamente como as coisas são.
No entanto, podemos lhes dar um nome.

Como Alice. 

Com o nome, coisifica-se o inefável que nos afeta, 
e assim encontra um lugar preciso na gramática 
e uma marca precisa na memória. 
E tudo fica um pouco mais calmo, 
aparentemente sob controle.

 


 

 

Alice, já estou me esquecendo de tudo o que eu tinha pra te contar.

 


 

‘desejo’

‘desejo’, antes de ser outra coisa, é um lugar para o meu olhar. 

‘desejo’ me aparece, primeiro, em sua materialidade de palavra, como um certo arranjo de algumas letras do alfabeto. Letras são figuras, são imagens visíveis, desenhadas ou impressas sobre papel ou tela. Nós, leitores, porém, nos habituamos a tomar essas figuras como sinais para fonemas. Por isso, lidamos com a palavra escrita como se, a partir dela, ouvíssemos, ou pudéssemos ouvir, uma sequência sonora limitada no tempo, com variações internas de qualidade e intensidade, que surge do silêncio e se acaba nele. 

Mas quero tratar ou brincar com a palavra ‘desejo’ em sua visibilidade, enquanto imagem visual (e, portanto, atemporal). Se apago a calda da letra j, fico com a figura i. A palavra ‘desejo’, com isso, fica assim: ‘deseio’. 
Posso introduzir nessa imagem, um espaço em branco, de tal maneira a obter ‘de seio’. Desde então, meu olhar passa a ver no lugar do ‘desejo’ também ‘de seio’.

 




a pele envelhecida
– que sentiu a pele dela –
parte de meu corpo
minhas memórias descascam
como se destacam os simulacros
lançados além
da imagem-eu




Ainda tenho a fantasia
de uma mulher de verdade (?) 
ajoelhada aos meus pés
vestindo a fantasia de Alice­

– ela seria Alice



meu amor por Alice é ilusão
porque Alice é ilusão
ou porque é ilusão meu amor por ela

ao modo cartesiano
até essa árvore pode ser ilusão
ou esse cachorro que passa

o uso da vida é feito delas:
ilusões, alices, árvores, cachorros
e das passagens


im-preciso esquecer-me de Alice
a cada instante de dia
se abro os olhos, não a vejo
se a penso, não a vejo
é apenas seu nome
e meu afeto flutuante
que reaparecem entre os instantes


Quando pararmos de falar...



Alice, deixe-me dizer:
Eu te amo
Logo ficarei em silêncio
Meu amor não vai durar
Mais que o tempo de
Eu enunciá-lo



Alice é als ob (como se...).
Um sonho que me acalenta.
Apenas um sonho, digo-me,
quando acordo.
Apenas uma alucinação,
quando penso e fecho os olhos (Caeiro).
Se não penso,
de olhos wide open,
eu sinto seus dedos
entre os meus.
A carícia mais real
e profunda,
que eu possa esperar
de uma fantasia. 


Alice me fez cortar legume do seu jeito
E me disse o momento certo de colocar sal no ovo
E que eu precisava de um microondas
E me mostrou onde e como plantar árvores
E muitas outras coisas
Fiz tudo como ela sugeriu
Obedeci às suas sugestões como se fossem ordens

E então... com seu sopro 
Sem me pedir licença
Ela apagou a chama de uma vela
E se escureceu








 

 

Eu não estou exatamente isolado, pois embora eu não busque entrar em contato com o mundo, ainda penso muito nele, à espreita de que algo dele (Alice) entre em contato comigo.

Alice não é algo qualquer do mundo, mas um qualquer ausente. 
 


A ninguém mais do que a essa alucinação – que Alice foi – eu dedicaria tantas horas do meu dia.

(parênteses:)
‘Alucinação’, enquanto palavra, tem a mesmíssima etimologia indo-europeia, que a palavra ‘Alice’: “alc”... Que no alemão dá “als” – elemento que compõe a expressão que indica a suspensão momentânea do princípio ou do teste de realidade: “als ob” (como se...).

A alucinação é uma fantasia junto à ilusão de ser vivenciada.
Sem a vivência, Alice tornou-se apenas fantasia.



Preciso falar de Alice
Até que consiga visualizá-la 
e depois esquecer seu nome
Da fala, à imagem
Da imagem, ao encobrimento

Alice me dava rasteiras
Quando eu menos esperava
Minhas expectativas egoicas tombavam como
Tomba um capoeirista

Como naquele dia
Em que eu esperava o encontro amoroso
E ela trouxe a irmã

Como naquele outro
Em que se despiu e deitou a meu lado
Mas não me deixou tocá-la







Ela não é Alice
Alice não é ela




Ela não é Alice.
Alice não é ela.

A regra de vida de Spinoza: “Melancholiam expellere”.
A regra de vida de Freud: “wo Es war, soll Ich werden”.
A tradução e a fusão delas duas: “lutar contra a barbárie”. 



Essa ausência de objeto se chama Alice.
Essa ausência de lugar, Moscou.





Uma indefinição nos sentimentos. Falta o nome, faltam os nomes. Não sei bem o que sinto, nem o que dizer a respeito: saudades, paixão amorosa, culpa, ódio, inveja, ciúmes, coragem, indiferença, despeito, vergonha... Nem sei por quê. Nem sei claramente em direção a que pessoa ou situação. Quando fixo o objeto, o sentimento varia, oscila. Quando fixo o sentimento, o objeto se multiplica, e se dilui. Isso parece ser angústia: um plasma afetivo sem a ideia do objeto, uma carga nervosa e instável, a nua afetividade borbulhando lentamente por baixo do esterno.




Alice no país de Moscou

Assim acontecia: 
a última parte do bolo, ou a maior, ou talvez a mais gostosa, 
Alice não me dava, mas guardava para si. 

Ali-si.


Ah... lice...

Alice me faz falta. 
Sinto-me esvaziado sem ela. 
Mas, sob exame, sei que não há nada nela que eu precise. 
Há, aliás, muitas coisas nela 
que eu nem quero por perto. 
Não é Alice que me faz falta. 
O que me faz falta é que Alice não me faça falta. 
Que minha falta não seja a falta de Alice. 
É a falta aberta como uma ferida que nunca cicatriza. 
É a falta da falta. 



Saudade cã é a que não se pode matar, 
sem que o cão saudoso morra junto. 


 

Trata-se de estar apegado ao apego, 
não exatamente ao objeto do apego. 


 

O amor impossível é aquele que me permite 
manter-me na fantasia do amor perfeito, 
na fantasia do retorno ao paraíso perdido.
 


 

Coloquemos assim, em um exercício, como um postulado:
há a natureza e, por outro lado, o mundo.

O mundo é artifício humano. A arte, contraposta à natureza, é o que faz do ser humano um ser além do natural. Cada língua é fruto da arte. É uma invenção humana. Não é natural. É tradicional. Não vem com os genes, mas com a cultura. O discurso é o processo de articulação das falas, das opiniões, das afirmações e das negações. É no discurso que se dá a narrativa. O sentido se alcança pela narrativa. O sentido é uma apreensão do mundo como sequência temporal de acontecimentos concatenados, de acontecimentos que surgem uns dos outros de maneira coerente e compreensível.

É pela narrativa que o mundo faz sentido.
É pela impossibilidade da narrativa que o mundo se torna absurdo. 

Portanto, sentido e absurdo dizem respeito ao mundo, e não à natureza. 




A natureza humana é tal que ela envolve, modificando-se, seus próprios artifícios.






Nossa tradição básica
(e derradeira, nos passos das destruições)
é a nossa língua.

É simples. E a nossa língua nos transmite.
Eu sonho com isso. = Eu desejo isso.









Enquanto o trágico dura
– e o herói trágico luta contra o destino –,
o mítico está em suspense.

Mas quando o herói fracassa
– conforme seu destino –,
o trágico termina, e o mítico retorna.


Não ENGANE

Hoje é DIA DO TRABALHADOR,
não dia do trabalho.




Eu te perdia a cada vez
E a cada vez 
eu me tornava mais como você
Hoje fiz o jardim que você queria 
Teu último pedido 
Já posso me perder



Mediunidade

Dela posso ouvir, em ocasiões especiais, a voz, e até ver a imagem. Mas, sem o corpo, ela permanece intangível. É como falar com os mortos.








RETINA.Brasil 6 – Segunda-feira, 13 de outubro, 15h-18h

6º Colóquio Internacional RETINA.Brasil

13 outubro 2025, das 15h às 18h (Brasil).
Evento ON-LINE. 

Zoom: 

https://us02web.zoom.us/j/81128764767


Em 2025, o Colóquio Internacional RETINA.Brasil
chega à sua sexta edição. Pesquisa e Criação formam um par dinâmico e afim. A atividade de Pesquisa alimenta a Criação, seja de obras de arte, seja de conceitos. A atividade de Criação, por outro lado, dá sentido à Pesquisa, abrindo-a para o que ela ainda não experimentou. A Criação sem Pesquisa é possível, mas seus efeitos ficam entregues ao acaso. A Pesquisa que não se desdobra em Criação é como alimento acumulado que não encontra uso. Em RETINA.Brasil 6, alguns participantes do grupo RETiiNA.Internacional terão a ocasião de apresentar suas atividades de Pesquisa e Criação.É justamente tendo em vista a dinâmica da Pesquisa e da Criação que François Soulages dirige a coleção RETINA.CRÉATION, que conta atualmente com 25 livros publicados, em 11 línguas diferentes. Em cada livro, o francês se combina com uma outra língua e com imagens.

 

PROGRAMA | Segunda-feira, 13 de outubro

15h00     Abertura

15h10     François Soulages (Paris 8) 
– Um ponto e nada mais (performance-vidéo)

16h00     Gilbertto Prado (UAM, ECA-USP)
– Uma introdução à mostra Portais, Passadiços e Pomanders

16h30     Suzete Venturelli (UAM, UnB) 
– Além da Superfície

17h00     Gustavo H. L. Ferreira (UFT) 
– Navegando entre caixas pretas                        

17h30     Leon Farhi Neto (UFT) 
– Afinidade eletiva entre aparelho e dinheiro

17h50     François Soulages (Presidente-fundador de RETiiNA.International - RETiiNA: Recherches Esthétiques & Théorétiques sur les images et imaginaires Nouveaux & Anciens)
– Encerramento

Na organização dos conflitos sociais e políticos, como na organização do ser, não parece haver criação espontânea. Hoje, a extrema-direita organizada, por dar livre vazão à força destruidora, pode enfim reforçar a formação de um campo progressista aglutinado, durável e combativo (que, por ser combativo, explicite a sua própria força destruidora). A extrema-direita pode reforçar dialeticamente a esquerda-extrema e a luta de forças. Mas parece uma ilusão pensar que um dia essa luta acabe, e acabe com um vencedor.




num mundo sem sentido algum…
tudo é gratuito
e nada serve de fato a alguma coisa
a mediocridade é tão insignificante quanto a grandeza da alma
esse é o pior (em termos econômicos) ceticismo



digamos:
quanto mais eu conheço, mais triste eu fico

a solução (para não sofrer) poderia ser a ignorância
[prefiro não conhecer, assim não sofro]
mas a ignorância não pode ser jamais meta da sabedoria
o sábio deseja conhecer, mas não deixa, sabiamente, o conhecimento entristecê-lo

assim há uma diferença entre conhecimento e sabedoria
ou deve haver
sabedoria e sofrimento não vão juntos

 Lógica é a arte de distinguir as boas das más ideias.

O luto quase nunca é de um só. É uma afecção coletiva (envolve e costura um grupo de indivíduos).


Crítica e genealogia – 2

Talvez fique melhor assim:

Crítica – as condições de qualquer experiência possível.

Mas isso mesmo é o que inviabiliza a possibilidade da própria crítica.


Ao invés de crítica, portanto: arquealogia
e a noção de um a priori histórico.




Associação por palavras

Nossas línguas são limitadas. Assim, necessariamente, com palavras iguais falamos de situações diferentes e até mesmo muito diferentes. As palavras estabelecem um vínculo associativo entre situações. Essas associações ora favorecem, ora distorcem, a perspicácia e o discernimento do pensamento.




Crítica e genealogia

A crítica busca as condições de possibilidade de uma experiência.
A genealogia, as inflexões de forças e ideias que constituíram uma experiência.
















claro:
cultura é memória
afinal
Mnemosyne é a mãe 
de todas as musas
– inspirações 
das sublimações

obscuro:
a sombra da Memória
talvez seu amante
é porém
Esquecimento


deve haver um outro acesso
ao passado e à glória:
este está barrado

mas o que é o passado,
senão uma imagem presente
parcialmente empurrada 
para a inexistência
por outras imagens 
que afirmam
sua maior presença?

o tempo
então
seria o efeito dessa luta
entre as imagens

esta imagem em particular
mostra um passado 
glorioso
mas a gente duvida
do valor (da força)
dessa glória

a glória é só uma imagem
em luta com outras
uma imagem de nós mesmos 
que nos alegra enquanto 
a imaginamos alegrar os outros


imagem-fantasia
imagem de corpos que não existem
ou numa situação nunca vista:
de corpos existentes
em situação inexistente