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Galeria, túnel, corredor


A fotografia (como diria Soulages) é uma arte das passagens. Entre tantas outras, desta: passagem da imagem da vida privada à imagem de vida pública.




Fotografias do escuro


O fotografável é o visível, aquilo que se escreve com a luz? Talvez, não. Podemos converter calor ou qualquer radiação não visível, mas captável e mensurável por um determinado tipo de sensor, em imagem fotográfica. Ou isso não seria fotografia?



Mundo-imagem-capital


No mundo de Berkeley: _ser é ser percebido ou perceber.
No mundo-imagem (Sontag): _ser é ser fotografado ou fotografar.

Assim, o capitalismo não é o mundo em que: _ser é ter.
Mas o mundo em que: _ser é ter ou ser tido.



O dia a dia do que não seria notável


A fotografia cotidiana (a foto qualquer) frequentemente nos mostra nada mais que o vulgo ou a coisa qualquer, quem e o que já estão aí como que desde sempre. Ela como que destaca do modo de ser da indiferença ou do tédio o que não merece ser mostrado, dia a dia.





Infinitas fotografias?


O número de imagens técnicas que um aparelho fotográfico digital pode produzir é muito elevado, mas finito. São, por exemplo: 6.000 x 4.000 pixels, com uma profundidade de 16 tons para cada uma das três cores. Isso possibilita: um total de 1.152.000.000 fotos. Das quais uma enormidade é semelhante a outra.



Para o lado da imagem


Sinto-me atraído, além das ideias, também, e às vezes até mais, para a imagem (que, assim como ocorre com atração para a ideia, se mostra em seus aspectos passivos – imagem-impressão – e simultaneamente ativos – imagem-expressão).

Ideia-imagem, um mesmo elemento em modos distintos – modos de pensamento. Não há ideia que não implique alguma imagem? E imagem, que não envolva alguma ideia?

Sobre a primeira questão, lembro-me da secular nota de Spinoza : “quase nada podemos inteligir acerca de que a imaginação não forme, imediatamente (è vestigio), alguma imagem”*.



(*) SPINOZA, Benedictus de. Correspondance. Trad. Maxime Rovere. Paris: GF Flammarion, 2010. Lettre XVII, §5. P. 124.





Fotografia chocha


A exaltação da fotografia chocha é o desejo de transvalorizar uma incapacidade técnico-artística num pretenso estado-final da arte? Ou uma atitude cínica diante da técnica-arte monárquica? Ou os dois ao mesmo tempo?



Imagem-coisa


Afirmar, simplesmente, que toda imagem é uma coisa (e que toda coisa é uma imagem) não seria uma tentativa de fuga diante daquilo que constitui toda imagem, a sua dubiedade essencial (simul transparente e opaca) (simul representação e apresentação)? Não seria fugir do problema ontológico da imagem? Não seria obedecer à imagem, à sua ordem de fuga?





A fotografia, um instantâneo?

Se prologamos o tempo de exposição fotográfica, por exemplo, por uns trinta segundos, aquilo que acontece em qualquer ato fotográfico, mesmo naqueles com um tempo de exposição bastante curto, torna-se perceptível. A fotografia não fixa o real, ela mostra, pelo contrário, o movimento de tudo. A fotografia se mostra como ela é, não um recorte instantâneo no fluxo real das coisas, mas como um procedimento de compressão do fluxo imagético real numa única imagem (que tomamos por instantânea).




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Toda fotografia é fotografia de um existente.
Mas, o que seria do existente, numa inversão,
se só fosse existente o que pudesse ser fotografado?


“Distancie-se de um ponto de vista.”*


Um corpo/um olho é um ponto de vista para o real; ao mesmo tempo, porém, faz parte dele. Sente-se-percebe-se-pensa-se numa distância; no entanto, é imanência. A superação-manutenção (a denegação) dessa inserção pontual no real, por meio da re-consideração-flexão de outros corpos (isto é, de outros pontos de vistas), intensifica a inserção de um corpo no real. Esse é o engajamento da razão.





(*) MAYSLES, Albert. Manifesto do documentário. Trad. Fábio Bonillo. In: LABAKI, Amir (Org.). A verdade de cada um. São Paulo: Cosac Naify, 2015. P. 128.


Retrato


Por retrato, entendo a fotografia de uma coisa que sabe estar sendo fotografada.


Sob controle


O objetivo do imperium é o controle (na medida do possível). Controle da variação incontrolável dos ventos da fortuna, ora favoráveis, ora desfavoráveis. O desejo de segurança e comodidades, de felicidade do corpo mole portanto, é honesto. A honestidade desse desejo indica sua viabilidade-componibilidade no conjunto dos outros desejos e dos desejos dos outros. O controle é honesto, nesse sentido.

Viver sob controle é a vida consciente, que é uma vida social, na linguagem. A linguagem trata do geral (mesmo no nome próprio). Ter tudo sob controle, isso é uma técnica. Na fotografia, por exemplo. A fotografia como espelho do real. A consciência fotográfica mostra o real como ele é. O real-como-ele-é da consciência, no entanto, é o real profundamente elaborado, transformado, mediado pela sua apreensão linguística, em vista da reação pragmática, do controle, do desejo de felicidade ou de não-infelicidade. Sob controle, aprendemos mais a evitar a infelicidade do que nos arriscar na felicidade.

Ter tudo sob controle na fotografia é dominar a técnica, pela repetição, quando a vida não se repete nunca.


Fotografia: conhecer e conhecer totalmente


Um é conhecer; outro, conhecer totalmente.

Conhecer totalmente responde a duas condições: conhecer a essência toda da coisa conhecida, e conhecer a coisa sem nada de nós misturado nela.

Não há conhecimento total de coisa nenhuma, concordo. Mas isso não que dizer que não conheçamos as coisas que imaginamos/fotografamos.

O conhecimento de qualquer coisa é inesgotável. São inesgotáveis o conhecimento da coisa mesma e o dos aspectos da coisa, das nossas relações com ela.





O real é fotografável


Propriedade do filósofo, mas não do profeta:

– “Quem ouve o filósofo torna-se filósofo. Quem ouve o profeta, por sua vez, não se torna profeta” (Spinoza).

O real tem a seguinte propriedade (tal como o filósofo, o real comunica, “dá do seu espírito”):

– Tudo que vem do toque/resvalo, da estima, do pensamento, da percepção, da escuta, da fotografia do real se soma ao real e o modifica. Logo, toda foto é e modifica o real.


A expressão, a beleza e a coisa


1) Uma expressão do feio pode ser bela.

2) Uma expressão pode ser bela, sem falar do belo.

3) Não é porque fala do belo que uma expressão é bela.

4) Uma expressão pode ser bela, sem falar de beleza.

5) Uma bela expressão não necessariamente fala do belo.

6) Um texto não é belo porque fala do belo, porque tem o belo como objeto, ou porque tem o belo como referência.

7) A beleza da expressão não é a sua referência.

8) Não é bela uma expressão porque se refere ao belo.

9) Não é o belo objeto de referência que torna bela uma expressão.

10) Uma bela expressão que fale de coisas feias. Isso é totalmente possível.

11) Que uma bela expressão se refira a coisas feias, isso é totalmente possível.

12) Expressar belamente o feio, isso é possível.

13) Falar belamente do feio.

14) Uma fala pode ser bela, mesmo que fale do que é feio.

15) “Isso é feio, não quero vê-lo”. Mas se eu falo belamente do feio, você me ouve.

16) Objeto feio. Imagem bela do objeto feio.

17) Coisa feia. Ele fala com beleza de coisas feias.

18) Coisa feia. Imagem bela da coisa feia não torna bela a coisa feia.

19) Coisa feia. Imagem bela. Não porque pinte a coisa como bela. Mas bela no seu próprio ser.

20) Belo filme de uma coisa feia.

21) Vi um belo filme de uma coisa feia. Onde está a beleza, em mim, no filme, na coisa?

22) A coisa é feia; há uma bela expressão dela.

23) O que faz bela uma expressão não é a coisa que ela expressa.

23bis) O que constitui a beleza de uma expressão não é a coisa expressa.

24) A expressão que expressa a coisa feia pode ser bela.

25) O feio expresso pode aparecer belamente.

26) Como belo.

27) O feio pode ser expresso com beleza.