Estou com a impressão de que toda a minha vida,
Absolutamente toda,
(vida é sensação e desejo)
Girou em torno de Alice.
A cada vez que a encontro (sensação), não é bem ela.
E quando algo insiste em se dar o nome de Alice,
Preciso que desapareça (desejo).
Como Alice
Há coisas das quais não sabemos falar com precisão.
Pois não são exatamente como as coisas são.
No entanto, podemos lhes dar um nome.
Como Alice.
Com o nome, coisifica-se o inefável que nos afeta,
e assim encontra um lugar preciso na gramática
e uma marca precisa na memória.
E tudo fica um pouco mais calmo,
aparentemente sob controle.
‘desejo’
‘desejo’, antes de ser outra coisa, é um lugar para o meu olhar.
‘desejo’ me aparece, primeiro, em sua materialidade de palavra, como um certo arranjo de algumas letras do alfabeto. Letras são figuras, são imagens visíveis, desenhadas ou impressas sobre papel ou tela. Nós, leitores, porém, nos habituamos a tomar essas figuras como sinais para fonemas. Por isso, lidamos com a palavra escrita como se, a partir dela, ouvíssemos, ou pudéssemos ouvir, uma sequência sonora limitada no tempo, com variações internas de qualidade e intensidade, que surge do silêncio e se acaba nele.
Mas quero tratar ou brincar com a palavra ‘desejo’ em sua visibilidade, enquanto imagem visual (e, portanto, atemporal). Se apago a calda da letra j, fico com a figura i. A palavra ‘desejo’, com isso, fica assim: ‘deseio’.
Posso introduzir nessa imagem, um espaço em branco, de tal maneira a obter ‘de seio’. Desde então, meu olhar passa a ver no lugar do ‘desejo’ também ‘de seio’.
Alice me fez cortar legume do seu jeito
E me disse o momento certo de colocar sal no ovo
E que eu precisava de um microondas
E me mostrou onde e como plantar árvores
E muitas outras coisas
Fiz tudo como ela sugeriu
Obedeci às suas sugestões como se fossem ordens
E então... com seu sopro
Sem me pedir licença
Ela apagou a chama de uma vela
E se escureceu
A ninguém mais do que a essa alucinação – que Alice foi – eu dedicaria tantas horas do meu dia.
(parênteses:)
‘Alucinação’, enquanto palavra, tem a mesmíssima etimologia indo-europeia, que a palavra ‘Alice’: “alc”... Que no alemão dá “als” – elemento que compõe a expressão que indica a suspensão momentânea do princípio ou do teste de realidade: “als ob” (como se...).
A alucinação é uma fantasia junto à ilusão de ser vivenciada.
Sem a vivência, Alice tornou-se apenas fantasia.
Preciso falar de Alice
Até que consiga visualizá-la
e depois esquecer seu nome
Da fala, à imagem
Da imagem, ao encobrimento
Alice me dava rasteiras
Quando eu menos esperava
Minhas expectativas egoicas tombavam como
Tomba um capoeirista
Como naquele dia
Em que eu esperava o encontro amoroso
E ela trouxe a irmã
Como naquele outro
Em que se despiu e deitou a meu lado
Mas não me deixou tocá-la
Ela não é Alice
Alice não é ela
Uma indefinição nos sentimentos. Falta o nome, faltam os nomes. Não sei bem o que sinto, nem o que dizer a respeito: saudades, paixão amorosa, culpa, ódio, inveja, ciúmes, coragem, indiferença, despeito, vergonha... Nem sei por quê. Nem sei claramente em direção a que pessoa ou situação. Quando fixo o objeto, o sentimento varia, oscila. Quando fixo o sentimento, o objeto se multiplica, e se dilui. Isso parece ser angústia: um plasma afetivo sem a ideia do objeto, uma carga nervosa e instável, a nua afetividade borbulhando lentamente por baixo do esterno.
Alice no país de Moscou
Assim acontecia:
a última parte do bolo, ou a maior, ou talvez a mais gostosa,
Alice não me dava, mas guardava para si.
Ali-si.
Ah... lice...
Alice me faz falta.
Sinto-me esvaziado sem ela.
Mas, sob exame, sei que não há nada nela que eu precise.
Há, aliás, muitas coisas nela
que eu nem quero por perto.
Não é Alice que me faz falta.
O que me faz falta é que Alice não me faça falta.
Que minha falta não seja a falta de Alice.
É a falta aberta como uma ferida que nunca cicatriza.
É a falta da falta.
Coloquemos assim, em um exercício, como um postulado:
há a natureza e, por outro lado, o mundo.
O mundo é artifício humano. A arte, contraposta à natureza, é o que faz do ser humano um ser além do natural. Cada língua é fruto da arte. É uma invenção humana. Não é natural. É tradicional. Não vem com os genes, mas com a cultura. O discurso é o processo de articulação das falas, das opiniões, das afirmações e das negações. É no discurso que se dá a narrativa. O sentido se alcança pela narrativa. O sentido é uma apreensão do mundo como sequência temporal de acontecimentos concatenados, de acontecimentos que surgem uns dos outros de maneira coerente e compreensível.
É pela narrativa que o mundo faz sentido.
É pela impossibilidade da narrativa que o mundo se torna absurdo.




