Eu não estou exatamente isolado, pois embora eu não busque entrar em contato com o mundo, ainda penso muito nele, à espreita de que algo dele (Alice) entre em contato comigo.
Alice não é algo qualquer do mundo, mas um qualquer ausente.
A ninguém mais do que a essa alucinação – que Alice foi – eu dedicaria tantas horas do meu dia.
(parênteses:)
‘Alucinação’, enquanto palavra, tem a mesmíssima etimologia indo-europeia, que a palavra ‘Alice’: “alc”... Que no alemão dá “als” – elemento que compõe a expressão que indica a suspensão momentânea do princípio ou do teste de realidade: “als ob” (como se...).
A alucinação é uma fantasia junto à ilusão de ser vivenciada.
Sem a vivência, Alice tornou-se apenas fantasia.
Preciso falar de Alice
Até que consiga visualizá-la
e depois esquecer seu nome
Da fala, à imagem
Da imagem, ao encobrimento
Alice me dava rasteiras
Quando eu menos esperava
Minhas expectativas egoicas tombavam como
Tomba um capoeirista
Como naquele dia
Em que eu esperava o encontro amoroso
E ela trouxe a irmã
Como naquele outro
Em que se despiu e deitou a meu lado
Mas não me deixou tocá-la
Ela não é Alice
Alice não é ela
Uma indefinição nos sentimentos. Falta o nome, faltam os nomes. Não sei bem o que sinto, nem o que dizer a respeito: saudades, paixão amorosa, culpa, ódio, inveja, ciúmes, coragem, indiferença, despeito, vergonha... Nem sei por quê. Nem sei claramente em direção a que pessoa ou situação. Quando fixo o objeto, o sentimento varia, oscila. Quando fixo o sentimento, o objeto se multiplica, e se dilui. Isso parece ser angústia: um plasma afetivo sem a ideia do objeto, uma carga nervosa e instável, a nua afetividade borbulhando lentamente por baixo do esterno.
Assim acontecia:
a última parte do bolo, ou a maior, ou talvez a mais gostosa,
Alice não me dava, mas guardava para si.
Ali-si.
Alice me faz falta.
Sinto-me esvaziado sem ela.
Mas, sob exame, sei que não há nada nela que eu precise.
Há, aliás, muitas coisas nela
que eu nem quero por perto.
Não é Alice que me faz falta.
O que me faz falta é que Alice não me faça falta.
Que minha falta não seja a falta de Alice.
É a falta aberta como uma ferida que nunca cicatriza.
É a falta da falta.
Coloquemos assim, em um exercício, como um postulado:
há a natureza e, por outro lado, o mundo.
O mundo é artifício humano. A arte, contraposta à natureza, é o que faz do ser humano um ser além do natural. Cada língua é fruto da arte. É uma invenção humana. Não é natural. É tradicional. Não vem com os genes, mas com a cultura. O discurso é o processo de articulação das falas, das opiniões, das afirmações e das negações. É no discurso que se dá a narrativa. O sentido se alcança pela narrativa. O sentido é uma apreensão do mundo como sequência temporal de acontecimentos concatenados, de acontecimentos que surgem uns dos outros de maneira coerente e compreensível.
É pela narrativa que o mundo faz sentido.
É pela impossibilidade da narrativa que o mundo se torna absurdo.