Eu não estou exatamente isolado, pois embora eu não busque entrar em contato com o mundo, ainda penso muito nele, à espreita de que algo dele (Alice) entre em contato comigo.

Alice não é algo qualquer do mundo, mas um qualquer ausente. 
 


A ninguém mais do que a essa alucinação – que Alice foi – eu dedicaria tantas horas do meu dia.

(parênteses:)
‘Alucinação’, enquanto palavra, tem a mesmíssima etimologia indo-europeia, que a palavra ‘Alice’: “alc”... Que no alemão dá “als” – elemento que compõe a expressão que indica a suspensão momentânea do princípio ou do teste de realidade: “als ob” (como se...).

A alucinação é uma fantasia junto à ilusão de ser vivenciada.
Sem a vivência, Alice tornou-se apenas fantasia.



Preciso falar de Alice
Até que consiga visualizá-la 
e depois esquecer seu nome
Da fala, à imagem
Da imagem, ao encobrimento

Alice me dava rasteiras
Quando eu menos esperava
Minhas expectativas egoicas tombavam como
Tomba um capoeirista

Como naquele dia
Em que eu esperava o encontro amoroso
E ela trouxe a irmã

Como naquele outro
Em que se despiu e deitou a meu lado
Mas não me deixou tocá-la







Ela não é Alice
Alice não é ela




Ela não é Alice.
Alice não é ela.

A regra de vida de Spinoza: “Melancholiam expellere”.
A regra de vida de Freud: “wo Es war, soll Ich werden”.
A tradução e a fusão delas duas: “lutar contra a barbárie”. 



Essa ausência de objeto se chama Alice.
Essa ausência de lugar, Moscou.





Uma indefinição nos sentimentos. Falta o nome, faltam os nomes. Não sei bem o que sinto, nem o que dizer a respeito: saudades, paixão amorosa, culpa, ódio, inveja, ciúmes, coragem, indiferença, despeito, vergonha... Nem sei por quê. Nem sei claramente em direção a que pessoa ou situação. Quando fixo o objeto, o sentimento varia, oscila. Quando fixo o sentimento, o objeto se multiplica, e se dilui. Isso parece ser angústia: um plasma afetivo sem a ideia do objeto, uma carga nervosa e instável, a nua afetividade borbulhando lentamente por baixo do esterno.




Alice no país de Moscou

Assim acontecia: 
a última parte do bolo, ou a maior, ou talvez a mais gostosa, 
Alice não me dava, mas guardava para si. 

Ali-si.


Ah... lice...

Alice me faz falta. 
Sinto-me esvaziado sem ela. 
Mas, sob exame, sei que não há nada nela que eu precise. 
Há, aliás, muitas coisas nela 
que eu nem quero por perto. 
Não é Alice que me faz falta. 
O que me faz falta é que Alice não me faça falta. 
Que minha falta não seja a falta de Alice. 
É a falta aberta como uma ferida que nunca cicatriza. 
É a falta da falta. 



Saudade cã é a que não se pode matar, 
sem que o cão saudoso morra junto. 


 

Trata-se de estar apegado ao apego, 
não exatamente ao objeto do apego. 


 

O amor impossível é aquele que me permite 
manter-me na fantasia do amor perfeito, 
na fantasia do retorno ao paraíso perdido.
 


 

Coloquemos assim, em um exercício, como um postulado:
há a natureza e, por outro lado, o mundo.

O mundo é artifício humano. A arte, contraposta à natureza, é o que faz do ser humano um ser além do natural. Cada língua é fruto da arte. É uma invenção humana. Não é natural. É tradicional. Não vem com os genes, mas com a cultura. O discurso é o processo de articulação das falas, das opiniões, das afirmações e das negações. É no discurso que se dá a narrativa. O sentido se alcança pela narrativa. O sentido é uma apreensão do mundo como sequência temporal de acontecimentos concatenados, de acontecimentos que surgem uns dos outros de maneira coerente e compreensível.

É pela narrativa que o mundo faz sentido.
É pela impossibilidade da narrativa que o mundo se torna absurdo. 

Portanto, sentido e absurdo dizem respeito ao mundo, e não à natureza. 




A natureza humana é tal que ela envolve, modificando-se, seus próprios artifícios.






Nossa tradição básica
(e derradeira, nos passos das destruições)
é a nossa língua.

É simples. E a nossa língua nos transmite.
Eu sonho com isso. = Eu desejo isso.









Enquanto o trágico dura
– e o herói trágico luta contra o destino –,
o mítico está em suspense.

Mas quando o herói fracassa
– conforme seu destino –,
o trágico termina, e o mítico retorna.


Não ENGANE

Hoje é DIA DO TRABALHADOR,
não dia do trabalho.




Eu te perdia a cada vez
E a cada vez 
eu me tornava mais como você
Hoje fiz o jardim que você queria 
Teu último pedido 
Já posso me perder



Mediunidade

Dela posso ouvir, em ocasiões especiais, a voz, e até ver a imagem. Mas, sem o corpo, ela permanece intangível. É como falar com os mortos.