Modificações modificadas e modificantes
Modos de ser (esqueçam-se, momentaneamente, como em latim, artigos de “os modos do ser”, em função individualizante)... modos de ser são modificações modificadas (mas não apenas) e modificantes. Não se modificam sem modificar.
– Modificações de quê?
Ora, resposta exige reintrodução de artigo. E está excluída de jogo.
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Não há modos que se modifiquem sem modificar, porque são partes de natureza e não como impérios dentro de impérios.
Reflexão e gestualidade
A premente questão dos afetos e da afetabilidade não advém apenas do fato de que somos seres sensíveis, afetáveis (entes ou modos de ser modificáveis), como também do fato de que somos seres produtores de afetos (entes ou modos de ser modificantes). E isto levanta a questão do gesto.
O gesto bem-refletido só pode colocar a produção de modificações (em nós mesmos e no que nos circunda, modos de ser humanos e não-humanos) no âmbito estratégico da generosidade.
O gesto bem-refletido só pode colocar a produção de modificações (em nós mesmos e no que nos circunda, modos de ser humanos e não-humanos) no âmbito estratégico da generosidade.
Amor de si, senhor de nós
Vive em nós, em nossa mente ou espírito, um modo de ser perverso: o amor de si.
Perverso, porque, sem ele, talvez não possamos viver, e, por isso, encontramo-nos dispostos a amá-lo e a cultuá-lo.
Além disso, acreditamos que ele nos ama – pensamos que aquele “si”, no seu nome, se refere a nós –, mas, se percebemos bem, ele só ama a si mesmo, como um modo existencial distinto e autônomo.
Tudo o que ele faz, o faz para si, para se enaltecer, para se expandir e se intensificar, em nós e por nossos meios. Usa-nos para isso.
Perverso, porque, sem ele, talvez não possamos viver, e, por isso, encontramo-nos dispostos a amá-lo e a cultuá-lo.
Além disso, acreditamos que ele nos ama – pensamos que aquele “si”, no seu nome, se refere a nós –, mas, se percebemos bem, ele só ama a si mesmo, como um modo existencial distinto e autônomo.
Tudo o que ele faz, o faz para si, para se enaltecer, para se expandir e se intensificar, em nós e por nossos meios. Usa-nos para isso.
Mecanismos afetivos XVIII – jogos de linguagem e afetos
A mãe recente de idade avançada se alegra ao revelar aos outros a novidade do seu filho. Quando fala dele, o chama de “meu bebê” (mesmo quando ele já completou três anos). A seus ouvidos, isto a rejuvenesce.
Diário de Moscou XIV
Procuro desprender-me, um instante, da imagem de Berlim, e perceber sem influências a Moscou invariável. Isso, porém, parece impossível.
Não apenas varia a minha percepção de uma vida em Moscou, mas varia também a própria variação.
Então, como julgar a respeito de uma vida em Moscou?
Não sei ainda se Moscou é uma só cidade ou tantas quantas são as minhas impressões variantes. Nem se há de fato uma vida em Moscou.
Os meus hábitos de pensamento e de afetos, no entanto, exigem que eu julgue. Eles imperam: – julgue, porque uma vida está em jogo!
Quando, como atitude filosófica, o correto seria cultivar o desprendimento do desejo em relação ao desejo de julgar e a suspensão momentânea de todo juízo a respeito de uma vida.
Esclareço, ao final dessa página de diário, o que pode não estar claro: uma vida não é uma vida individual, mas um gesto engajado em múltiplas relações.
Nós, os espíritos cativos
“Melhor morrer do que viver aqui.”*
Como, para nós, no início de nossa catividade, no pânico, impera a afirmação contrária:
– Melhor viver aqui do que morrer.
(*) NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 [1878]. Prólogo 3 [1886]. P. 9.
(*) NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 [1878]. Prólogo 3 [1886]. P. 9.
Solidão e responsabilidade, culpa
Meu sentimento de solidão aumenta à medida que aumenta a minha consciência de que a minha solidão envolve e determina, responsabilizando-me, a ausência de certos outros (não de uma alteridade indeterminada). Assim, sentindo-me só, estou, ao máximo, com certos outros em mente.
A solidão responsável aproxima-se do sentimento de culpa.
A solidão responsável aproxima-se do sentimento de culpa.
Semicompreensão metafísica III: intelecto e cérebro
Isso que define (ou seja, limita) a capacidade de penetração de um intelecto humano é a capacidade de refrigeração do cérebro.
Quando um cérebro esquenta, ele impede o pleno desdobramento (ou penetração) do intelecto.
Quando um cérebro esquenta, ele impede o pleno desdobramento (ou penetração) do intelecto.
Semicompreensão metafísica II: a linguagem ao infinito
Aumenta-se consideravelmente (isto é, ao infinito)
o âmbito da linguagem ao tomar os signos, não mais como representações das
coisas, mas como suas expressões ou manifestações imediatas.
A linguagem deixa de ser um meio, para se
tornar o modo infinito imediato.
Semicompreensão metafísica
Tonalidades de mundo
Para o desgraçado, todo elogio (não aquele que lhe é feito, mas aquele que é feito à situação que o desgraça) é tomado como uma palavra de consolo.
A fórmula do ensinar
Ou
(1) sabe-se, antes, o que é o ENSINAR e compreende-se a fórmula,
ou
(2) compreende-se, antes, a fórmula e, então, compreende-se o que é ENSINAR.
Dos ameríndios ao luxo
Ameríndios, agricultores em floresta. Imagem
que combate a necessidade do agrotóxico em
ambiente tropical (cheio de vermes).
– Mas, sem o veneno, não se produz tanto.
“Tanto” é o plus que se produz além do necessário e do suficiente, talvez, para a
troca (a qual, se necessária, não requer “tanto”). E “tanto-tanto” é o mais-que-plus, que o luxo exige.
O autodidata e o conhecimento de si
Aquele que aprende ao se conhecer aprende porque faz de si um outro, um desconhecido. O conhecimento de si envolve, assim, no perigo, essa abertura em si de um outro.
O aprendizado e o outro
Se eu acredito no autodidatismo?
Num certo sentido, não. Porque só aprendemos
se, em alguma medida, nos tornamos um outro.
Assim, à capacidade de aprender corresponde
uma capacidade de “se outrar”. O aprendizado, portanto, envolve a alteridade
(como faz, aliás, a relação de comando-obediência).
Isso não quer dizer, entretanto, que é
preciso a pessoa (o corpo, a fala e o olhar) de um mestre, se há, por exemplo,
um livro. Basta o livro, se o aprendiz está na capacidade de tomá-lo como um
outro (isto é, como algo que remeta à não-compreensão).
A alteridade é uma condição necessária do
aprendizado, embora não suficiente (precisaríamos falar no desejo).
Pichação preta e demão de tinta branca
Para Kant, assim como os objetos das
inclinações,
As inclinações elas próprias, porém, enquanto fontes da necessidade, têm tão-pouco um valor absoluto para que as desejemos elas mesmas que, antes pelo contrário, ficar inteiramente livre disso tem de ser o desejo universal de todo ser racional.*
Mas, se, a partir disso, eu digo que um
traço marcante da moral kantiana é que ela tem horror às inclinações humanas, na medida em que o humano é um ser racional (visando, idealmente, a um espaço de
liberdade vazio delas), como a natureza tem horror ao vácuo (preenchendo, porém, por
necessidade, o espaço), certamente, alguém imediatamente se manifestará (quase
indignado) para tornar menos marcante o que digo.
Fariam-me ler que, de fato,
As inclinações são, consideradas em si mesmas, boas, isto é, irrepreensíveis, e querer extirpá-las seria não apenas em vão, mas também nocivo e censurável; muito pelo contrário, temos tão-somente de domá-las, de tal sorte que elas não se desgastem umas às outras, mas, em vez disso, se deixem harmonizar em um todo ao qual se dá o nome de “felicidade”.**
Assim, para os eruditos escolados, o
refinamento da leitura de um texto exige sempre a leitura de um outro texto e
assim por diante. De modo que cada leitura, como uma demão de tinta branca que
atenua um pouco a força de uma pichação preta sobre um muro, atenua um pouco a
marca própria de uma outra leitura do pensamento. Com isso, a erudição escolada
tende a tornar todos filósofos em figuras sem tatuagens.
(*) KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido Antônio de Almeida. São Paulo:
Discurso Editorial : Barcarolla, 2009 [1785]. Segunda Seção. P. 241. Grifo meu.
(**) KANT (“A religião nos limites...”) apud
ALMEIDA, Guido Antônio de. Introdução
e notas. In: KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Discurso Editorial : Barcarolla,
2009 [1785]. P. 328, nota 328.
A compreensão do núcleo aumenta com a não-compreensão da margem.
A intensidade da minha compreensão de, por exemplo,
três ideias aumenta se eu tiver acesso a dez
outras ideias, num primeiro instante, incompreensíveis, situadas à sua margem.
Aumentará ainda com o acesso, para além daquelas
dez, a mais cem ideias periféricas.
Assim, a não-compreensão favorece a
intensidade da compreensão (um pouco como o escuro intensifica o claro).
Como é difícil ser rei entre os Urubu

Sobre a tribo dos Urubu, François Huxley:
É papel do chefe ser generoso e dar tudo o que lhe pedem: em algumas tribos indígenas, pode-se reconhecer o chefe porque ele possui menos que os outros e traz os ornamentos mais miseráveis. O resto foi-se em presentes.*Ou seja, entre os Urubu, o avaro, que acumula riquezas, não é reconhecido como chefe. Enquanto, entre nós, a quantidade de poder (no sentido restrito e antidemocrático, de uma capacidade hierárquica de comandar) equivale à quantidade de riqueza. Se fôssemos Urubu, reconheceríamos os nossos chefes nos desmunidos e não nos munidos.
(A Igreja católica, pelo contrário, reconhece magnificamente a si mesma como chefe, por reconhecer e ao reconhecer no mundo a quantidade da miséria).
(*) Huxley apud CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 2. Troca e poder: filosofia da chefia indígena. P. 48.
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O que o desejo de uma exclusiva ciência positivista ou a antimetafísica tem a ver com o antipensamento?
Mito e história XII
A história é usualmente concebida como o
movimento de inovação pelo qual o humano socialmente se arranca de uma situação
mítica (estática e fechada – enfim, prisioneira dos tempos, da origem ao fim).
Para Clastres, a situação mítica já é, porém, uma
situação histórica se ela conter (e o mito, dependendo, pode favorecer isso)
alguma espécie de poder coercitivo.
Sociedades sem história, para ele, não são
sociedades míticas, mas sociedades sem poder político coercitivo. E a história é a história das formas de
coerção nas sociedades.
Nesse sentido, podemos dizer, as autênticas
lutas contra a dominação, isto é, quando não são lutas pelo poder coercitivo,
são lutas contra a história. (Agora nos chega mais clara a compreensão do dito-oracular de Herzog.)
Por isso, a tarefa do historiador, para Walter Benjamin, é “escovar a história a contrapelo”; quer dizer, é fazer a história
das lutas contra a história, para acabar com a história (na produção messiânica
da volta ao futuro, da volta ao mítico sem coerção – e o Messias pode entrar
pela nossa porta inesperadamente a qualquer momento).
Morreu um tirano (Diário de Moscou XIII)
A morte de um tirano de ferro não nos consola. Trata-se apenas de um prazer correlato à satisfação de um desejo vão.
Pois não é o ferro que se acopla ao tirano, mas o tirano à ferradura.
Só haverá consolo na nossa humana redenção. Só haverá redenção humana, quando não houver ferradura, da qual um tirano é apenas como um atributo.
Hoje morreu um tirano, não a tirania.
Pois não é o ferro que se acopla ao tirano, mas o tirano à ferradura.
Só haverá consolo na nossa humana redenção. Só haverá redenção humana, quando não houver ferradura, da qual um tirano é apenas como um atributo.
Hoje morreu um tirano, não a tirania.
Mito e história XI
A história, tal como ela conhece, é a narrativa das vitórias do efetivo. O efetivo é o que vence e derrota o que deve ser esquecido nos tempos.
A história é a narrativa das técnicas vencedoras na dominação da natureza. Mas a dominação da natureza, para ser efetiva, requer o esforço humano excessivo. Esse excesso só se alcança pela dominação dos humanos por outros humanos. A história, além de história das técnicas, é, portanto, a narrativa dessa dominação.
Assim, sob o efeito simples de um princípio do terceiro excluído, quando não há dominação, pode-se concluir que não há história?
(*) CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 11. P. 228.
A história é a narrativa das técnicas vencedoras na dominação da natureza. Mas a dominação da natureza, para ser efetiva, requer o esforço humano excessivo. Esse excesso só se alcança pela dominação dos humanos por outros humanos. A história, além de história das técnicas, é, portanto, a narrativa dessa dominação.
Assim, sob o efeito simples de um princípio do terceiro excluído, quando não há dominação, pode-se concluir que não há história?
“A propriedade essencial [...] da sociedade primitiva é exercer um poder absoluto e completo sobre tudo que a compõe, é interditar a autonomia de qualquer um dos subconjuntos que a constituem, é manter todos os movimentos internos, conscientes e inconscientes, que alimentam a vida social, nos limites e na direção desejados pela sociedade. A tribo manifesta, entre outras (e pela violência se for necessário), sua vontade de preservar essa ordem social primitiva, interditando a emergência de um poder político individual, central e separado. Sociedade à qual nada escapa, que nada deixa sair de si mesma, pois todas as saídas estão fechadas. Sociedade que por conseguinte, deveria eternamente se reproduzir sem que nada de substancial a afete através do tempo.”*
(*) CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 11. P. 228.
Diário XII
Em Moscou, eu realizo que a minha pele são camadas “exteriores” superpostas que meu ser incorpora, dinamicamente e prazerosamente, até a última extremidade (a que está mais para fora) do meu casaco.
Ao passo que, em Berlim, naquele minúsculo apartamento superaquecido, eu pensava a minha pele negativamente, quer dizer, como aquela última camada do mundo que eu não podia extrair de mim sem dor.
Diário XI - Felicidade em Moscou II
A estadia de Asja em Moscou, apesar de
curta, transformou a cidade aos meus olhos.
Poderia imaginar que a primavera havia
chegado (quando, na verdade, aproximamo-nos do inverno mais rigoroso).
O afeto monstruoso voltou à sua caverna para pintar, resmungando raivosamente contra o
mundo primaveril, aquilo que um dia se tornará, com a fermentação da história, arte.
Diário X
Isso que mais temo, neste momento, em relação à minha estadia em Moscou, é que ela, prolongando-se, faça de mim mais um moscovita (quero dizer, em respeito aos hábitos, eu temo tornar-me, por exemplo, mais um usuário de vodka barata, comedor de frituras e de outros gêneros gordurosos, assíduo frequentador de algum bar de periferia). Eu tornar-me moscovita é o momentaneamente impensável.
Diário IX – Felicidade em Moscou
Depois de reler Epicuro, neste momento de minha vida, chamou-me à atenção a sua regra de autossuficiência.
Asja, por razão da minha dependência em relação a ela, talvez, como ele o diz, me perturbe a alma mais do que ela seja, como eu a sinto, um elemento incontornável da minha felicidade.
Quer dizer, o remédio para a minha falta de Asja não é a Asja mesma, mas eu perceber que minha dependência, a minha necessidade de Asja, é um engano do meu desejo de felicidade. Eu não preciso da presença de Asja para ser feliz, pelo contrário, eu tenho que ser independente de Asja, se quero ser feliz.
Asja está em Moscou há alguns dias. Passamos alguns momentos juntos excelentes (eu disse “excelentes” para não dizer “muito felizes”) e outros não tão excelentes. Ela me serviu de intérprete em várias ocasiões, o que me fez conhecer um pouco mais o tão estranho, do meu ponto de vista, espírito dos moscovitas.
Em uma dessas noites, uma nevasca inadvertida nos deixou aprisionados, durante uma hora quase insuportável para mim, em um pequeno bar de um bairro periférico, cheio de moscovitas animados de vodka que cantavam, a plenos pulmões, canções populares conhecidas de todos. Perguntava-me se eles eram realmente felizes assim como estavam, ou se tratava-se de um engano seu.
Todos enganam-se com o tipo de felicidade que desejam?
Diário de uma viagem VIII
O meu motivo consciente para essa visita a Moscou
é a avaliação de minha adesão ou não ao Partido. Mas eu sinto que, no
fundo, embora eu não as possa manifestar, as causas da minha viagem são outras
e não são tão minhas.
Aquela frase, “A viagem rejuvenesce as coisas, e ela envelhece a relação a si mesmo”, não sai da minha cabeça nem do
meu coração. O meu sentimento de estranhamento, comigo e com a cidade,
alienante, não cede sem retomar terreno. Por vezes, volta, como a pontada de um
recordista, na sua maior intensidade. Chega, pelo estreitamento que provoca, a
fazer arder o peito.
As esquinas, os prédios e os comportamentos
moscovitas são absolutamente novos; por outro lado, a minha dor mostra-se mais
velha; é uma dor de princípio, o horror de uma imaginação infantil.
O anúncio da chegada de Asja, em menos de
48h, não é, não imediatamente, para mim, um alívio. Embora eu a
queira muito ao meu lado, e deseje ardentemente a ocasião e o bem de um beijo, como
aqueles que trocávamos em Berlim em toda intimidade e conforto emocional, a
visita anunciada de Asja aumenta a minha ansiedade. Coloca-me um desafio que abala
o meu precário equilíbrio, assim que eu o reconquisto. Será possível eu me
sentir bem com ela? Será possível ela se sentir bem comigo, em Moscou? O que será
que ela pensa, apesar de eu não cogitar lhe perguntar algo sobre isso, da minha eventual adesão ao Partido?
Rapidamente, é curioso, deixa-se o centro de
Moscou, mesmo a pé. Depois de alguns poucos quilômetros, a cidade, quer
dizer, seu centro, desaparece literalmente aos nossos pés. O programa prevê a construção de
moradias e a complementação da urbanização. Por enquanto, parece apenas uma
promessa a se realizar num futuro distante. É verdade, em Moscou, o que está mais
presente é o futuro, que todos aqui estão fabricando.
História na natureza
Para Hegel, a natureza não tem história.
Nesse sentido, pode-se dizer, Darwin é o Cristo da natureza. Ele a salva desvelando a sua historicidade constitutiva da qual nós fazemos parte.
“As mudanças na natureza, apesar de serem infinitamente diversas, mostram apenas um círculo que sempre se repete; na natureza, nada de novo acontece sob o sol e, por isso, o jogo multiforme das suas configurações traz consigo o tédio”.*Só o espírito e a sua história (e o Cristo tem parte nisso) nos salva do tédio, e rompe o circuito fechado da natureza.
Nesse sentido, pode-se dizer, Darwin é o Cristo da natureza. Ele a salva desvelando a sua historicidade constitutiva da qual nós fazemos parte.
(*) HEGEL, G. W. F. A razão na história: Introdução à filosofia da história universal. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1995 [1822-1830]. P. 127.
Diário VII
Todos aqui falam do clima como se fossem
climatólogos e o clima, verdadeiramente previsível.
– A tal hora vai nevar, por meia hora, não passa disso, pode contar.
– Às 18h, a nevasca vai dar uma trégua, você vai ver. Depois volta.
– Desse jeito, você pode ter certeza, a neve vai continuar a cair por três dias.
– Em janeiro, pode escrever, neva o mês inteiro, até o meio de fevereiro.
Não consegui ainda verificar nenhuma dessas
proposições, porque não são propriamente científicas (como as entendem os modernistas e os formalistas russos).
Primeiro, porque, do jeito que são formuladas, comportam sempre, no mínimo, uma
parte de verdade.
Segundo, porque comportam também o estreito vínculo dos climatólogos com o que eles afirmam. Você querer verificá-las é sinal de que você desconfia deles e não apenas das suas proposições.
Terceiro, porque pressupõem que você tenha compreendido bem o seu significado. O que quer dizer que, se você, por acaso, mostrar a falibilidade de alguma dessas proposições, estará mostrando, de fato, que você não a entendeu direito.
Diário VI
Descobri um sebo a poucas ruas do hotel em que estou hospedado nestes primeiros dias em Moscou (cidade em que não poderei permanecer por muito tempo, se não conseguir alugar um apartamento por um valor mais acessível) (um conhecido italiano prometeu-me encontrar um que fosse adequado para mim) (quando ele me disse isso, logo pensei: como ele poderia saber o que era, para mim, adequado ou não?).
E, no sebo, descobri vários livros em francês. Um deles, particularmente, me chamou a atenção. A capa e as páginas iniciais faltavam, haviam se descolado, ou sido arrancadas. Assim, não pude conhecer o título da obra nem seu autor. Mas, logo na introdução, uma frase sublinhada a lápis dizia o seguinte: “Le voyage rajeuni les choses, et il veillit le rapport à soi”*.
(*) [Cá, entre nós, eu posso dar uma tradução, “A viagem rejuvenesce as coisas, e ela envelhece a relação a si mesmo”, e a referência que Benjamin estava impossibilitado de citar: FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité II: L’usage des plaisirs. Paris: Gallimard, 1984. P. 19.]
E, no sebo, descobri vários livros em francês. Um deles, particularmente, me chamou a atenção. A capa e as páginas iniciais faltavam, haviam se descolado, ou sido arrancadas. Assim, não pude conhecer o título da obra nem seu autor. Mas, logo na introdução, uma frase sublinhada a lápis dizia o seguinte: “Le voyage rajeuni les choses, et il veillit le rapport à soi”*.
(*) [Cá, entre nós, eu posso dar uma tradução, “A viagem rejuvenesce as coisas, e ela envelhece a relação a si mesmo”, e a referência que Benjamin estava impossibilitado de citar: FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité II: L’usage des plaisirs. Paris: Gallimard, 1984. P. 19.]
Diário V
A língua russa é, materialmente, como uma muralha, uma espécie de gosma, expelida
pelas bocas dos moscovitas, assim que se abrem, que vai se petrificando, e que se interpõe entre mim e
eles, separando-nos da maneira mais radical. O russo me aprisiona.
Mas isso, para um estrangeiro, pode
acontecer também frente a outras instituições comuns, como os costumes, as tradições,
as castas, as classes, as raças ou, até mesmo, a arquitetura...
Diário IV
Almoço em uma cantina de trabalhadores, situada ao
lado de um restaurante típico, surpreendentemente elegante, provavelmente
frequentado por funcionários do partido.
Grandes mesas num salão suficientemente
aquecido por um sistema que me pareceu eficaz, e que nunca tinha visto antes.
Quando me aproximei das caldeiras, que dispunham de grandes pás circulantes que
distribuíam o ar quente, mas umidificado, por todo o salão, pude perceber uma
plaqueta metálica indicando sua fabricação e procedência alemãs (tratava-se, então,
de uma oferta de solidariedade do sindicato berlinense? Como saber?).
Em um grande samovar, servia-se chá, mas tão
açucarado que eu não consegui beber. Os moscovitas colocam açúcar em tudo, numa
quantidade insuportável para um organismo berlinense. Abandonei meu copo quente
de chá, o mais discretamente que pude, sobre uma mesa em que se empilhavam
pratos e talheres sujos que voltariam para a cozinha.
Sentei-me numa mesa vazia, com meu prato de
comida. Pouco depois, juntaram-se a mim, vários trabalhadores com pratos cheios
ao máximo. Uma jarra de chá doce foi colocada entre eles. Um jovem, que não
retirou de sobre sua cabeça o seu gorro de lã, fez sinal de que eu poderia me
servir, se quisesse. Declinei, e agradeci.
Passei alguns momentos aliviado, entre os
trabalhadores e seu frescor. Conversavam animadamente entre si. Embora eu nada compreendesse,
podia perceber que compartilhavam muitas ideias, e que havia, entre eles, todo
um mundo em comum, às quais e ao qual eu não tinha o menor acesso.
Diário de Moscou III
Ontem, planejei visitar o Ministério da Saúde. Não havia conseguido informações sobre os horários de abertura. Não pude falar com nenhum de meus poucos conhecidos de Moscou. Se tivesse consultado Asja, internada em uma instituição do Ministério, ela certamente teria sabido me informar a respeito. Mas eu não tive forças de ir até ela, por razões diversas. Sai o mais cedo que pude, também porque resolvi dirigir-me até o hospital a pé. O frio me concedeu uma trégua nesses últimos dias. Não é tão cortante como de costume (hoje, ele já voltou com sua intensidade habitual). Pensei que alguns passos pela cidade só podiam me fazer bem.
A caminho, apesar do comunismo, em vários momentos, tive a impressão de ouvir aqueles cantos coletivos e lentos que são típicos das igrejas. Não poderia dizer de onde vinham precisamente. Eram sons difusos, oscilantes, que se misturavam aos sons laicos da cidade de Moscou (na verdade, Moscou é uma cidade mais silenciosa que a maioria das cidades). Às vezes, porém, podia ouvir sua força coletiva quase distintamente, para que logo novamente se plasmassem, sem se perderem, com o fundo sonoro geral. Moscou pareceu-me uma cidade construída sobre um mar de religiosidade, cuja maré, oprimida, assim que puder, vai se elevar novamente à tona, para dominar a música da vida comunista.
No hospital, nada encontrei que já não esperasse. O hospital é o lugar mais sujo e desorganizado. As pessoas que lá estavam eram as mais pobres, tinham o pior aspecto, e o desleixo era geral. O chão estava praticamente coberto de papéis úmidos pisados [falta a imagem dos plásticos descartáveis]. Algumas senhoras, com um lenço amarrado sobre os cabelos, eram encarregadas de varrer o chão, com grandes rodos cobertos por um pano imundo. Alguns minutos depois que passavam, tudo estava como antes, as pessoas continuavam a jogar no chão toda espécie de coisas para as quais não tinham mais utilidade.
Não há qualquer separação entre o público e os consultórios dos médicos e as enfermarias. Os doentes e os visitantes vagueavam, com seus chinelos tradicionais, alguns enfeitados com curiosos bibelôs, pelos corredores, pelas salas de repouso, pelas grandes enfermarias, com seus formulários à mão à procura de alguma coisa ou de algum responsável. Entre os pacientes, eu talvez fosse o único a calçar botas.
Os atendentes têm péssimo humor, pior que o do moscovita comum.
[Para a descrição da consulta médica e das suas consequências, a referência a Benjamin é impraticável. Vivemos hoje uma realidade medical absolutamente distinta, em Moscou tanto quanto em Berlim.]
Memórias do cárcere
Memórias do cárcere? Sade, Gramsci, Negri, Artaud, Rivière... tantos escreveram em cárcere. Não me refiro às memórias do tempo vivido no cárcere (Levi, Solzhenitsyn), mas às memórias de um encarcerado, que o soltam, e deixam livre (e portanto salvo), apesar dos muros e das grades.
Diário II
Passei o dia de hoje com o terrível
sentimento de que fui covarde, escolhendo vir aqui apenas porque era um caminho mais
fácil do que a permanência em Berlim. Pois, agora, Moscou me parece pouco. As pessoas são rudes,
descuidadas e, por isso, feias. Nada acontece. Embora eu saiba que, assim como
eu a sinto, essa não seja a Moscou real.
Ou seja, o asco que me provoca o cheiro das
ruas de Moscou transforma-se em ódio de mim mesmo. Odeio-me pelo que
decidi e pelas consequências da minha decisão, que arrasta Asja para
cá também. Em que medida isso comprometerá o nosso amor?
Só agora eu entendo o que A., meu amigo de
Berlim, quis dizer, quando me perguntou se os moscovitas são feios. Sim,
querido A., agora posso responder-te, as pessoas aqui são feias, entristece-me
olhar para elas.
A fila no Ministério das Finanças consumiu
algumas horas da minha tarde, apenas para saber se a remessa de dinheiro, que havia sido feita em meu nome, desde Berlim, já estava disponível. O tempo todo vinha-me à mente
a imagem dos elegantes halls com colunas em
mármore dos bancos de Berlim, com seus funcionários impecáveis em paletó e
gravata (halls que, entretanto, eu achava
opressores, esnobes e discrepantes com a realidade material dos próprios
funcionários e dos clientes, quando eu estava por lá), causando-me uma estranha
espécie de saudade de algo que, na verdade, eu não aprecio.
No saguão do Ministério de Finanças de
Moscou, atrás e diante do balcão simples, feito com chapas de madeira, as
roupas são sujas, mal-passadas, esgarçadas. Muitos vestem, por ali também, aqueles chinelos abertos que os moscovitas usam para ficar em casa.
O funcionário atende as pessoas, e discute
suas demandas, na frente de todas as outras, sem qualquer preocupação com a sua
privacidade.
Quando descobrem de onde eu venho, os moscovitas me dizem: – o único problema aqui é o frio, você precisa aprender a driblá-lo.
Diário
Hoje foi um dia completamente atípico.
Nuvens e chuva. Foi o primeiro dia em que não transpirei como um queijo em
processo de cura.
Todo diário que eu escreva remeterá (num
estado dependência ou por imitação) ao diário de Walter Benjamin*. As descrições
e os afetos de Benjamin em Moscou são um traço mnêmico indelével, que canaliza,
para aquele que o leu uma vez, qualquer outra descrição diária de impressões
que surjam da relação entre um cronista estrangeiro em viagem por um lugar
humano, uma cidade.
A diferença entre a forma do diário de Benjamin
e a do meu é a seguinte. A dele se dava no contexto de um intervalo de tempo e
de um retorno iminente a Berlim. Na minha forma, o tempo de minha estadia em
Moscou é indefinido (com sabor de um presente eterno – sempiternidade).
(*) BENJAMIN, Walter. Diário de Moscou. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Schwartz, 1984 [1927].
A invenção do tempo
Foi preciso, para suportar o peso do presente como algo eterno, o humano inventar o tempo. Não penso tanto, agora, no passado, mas no futuro, como possibilidade de um presente melhor, e no sentimento correlato da esperança.
O futuro pode não existir, metafisicamente falando, mas, para a existência humana, é, em certas situações, de grande utilidade.
Há uma certa concepção do futuro (futuro no mundo, como plasticidade do presente, presente que pode ser modelado pela ação humana, para melhorar a existência) que nos é útil.
O futuro pode não existir, metafisicamente falando, mas, para a existência humana, é, em certas situações, de grande utilidade.
Há uma certa concepção do futuro (futuro no mundo, como plasticidade do presente, presente que pode ser modelado pela ação humana, para melhorar a existência) que nos é útil.
Efeitos do afeto monstruoso
Às vezes, a falsa ideia de um futuro absolutamente livre do presente se torna um alívio para o afeto monstruoso existente, pois:
1) Sob o afeto monstruoso, o presente se carrega de futuro. Os muitos anos a vir se acumulam no presente (que precisa pensar cada momento futuro como se fosse exclusivamente do seu encargo).
2) O momento presente parece se estender para sempre, eliminando o futuro. Todas as emoções presentes, que constituem o afeto monstruoso, parecem se estender indefinidamente na direção do futuro. O presente tende a perceber-se como eterno.
Assim, se conseguimos imaginar a maleabilidade do presente (como passageiro), e dar ao tempo sua forma remediadora e promissora, pode renascer a esperança.
1) Sob o afeto monstruoso, o presente se carrega de futuro. Os muitos anos a vir se acumulam no presente (que precisa pensar cada momento futuro como se fosse exclusivamente do seu encargo).
2) O momento presente parece se estender para sempre, eliminando o futuro. Todas as emoções presentes, que constituem o afeto monstruoso, parecem se estender indefinidamente na direção do futuro. O presente tende a perceber-se como eterno.
Assim, se conseguimos imaginar a maleabilidade do presente (como passageiro), e dar ao tempo sua forma remediadora e promissora, pode renascer a esperança.
Imaginação e imprudência
Nossa potência de imaginar nos fornece
milhares de motivos para nos alegrar e milhares para nos entristecer.
Pressionada pela necessidade, a imaginação prefere naturalmente os primeiros.
Assim, ela tende a constituir o mundo
imaginário como mais favorável do que ele talvez seja em realidade. Mas é
justamente esse engano imaginado (apesar de um pouco imprudente) que incita o
desejo a produzir o imaginário no real.
O humano prudente é, de fato, um humano de perspicácia
(seu intelecto e seu olhar perfuram o presente, para distinguir, nele, outros
modos de ser). O prudente não se difere do imprudente porque deixa de lado a imaginação,
mas porque imagina coisas alegres quase reais (isto é, coisas cuja realidade pode
se articular com as outras realidades atuantes no momento).
Uma espécie de afetos
Um afeto muito antigo, profundo. Dominador e
engolidor, quando presente. Um afeto em si mesmo sem história, que não progride
nem muda – um afeto vital (conectado à mais negra bílis). Um afeto que volta,
vez por outra, cru, nu, sem máscaras – não é possível interpretá-lo, porque ele nada significa.
Ressurge, hoje, de um calabouço escondido, onde é mantido pelas
potentes travas da existência, como um monstro medonho que, por sua
malignidade, é trancado atrás de sete portões e sete chaves, produzidos com sete
diferentes metais.
Todo afeto está ligado à imaginação. Este, à imaginação de coisas monstruosas. Assim, vai contra a própria imaginação, que, por princípio, se esforça por imaginar coisas que nos causam alegria.
“A mente, tanto quanto pode, esforça-se por imaginar coisas que aumentem ou favoreçam a potência de agir do corpo”. (Spinoza, Ethica III, prop. 12)
Um círculo sem circunferência nem centro
A ideia de que o mundo não tem nem origem nem fim geográficos, segue-se da seguinte constatação: – em qualquer lugar que você se encontre haverá sempre um outro mais central e um outro mais periférico.
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