As imagens parecem se oferecer à imaginação num prazer imediato, que demanda aderência.
As essências, à inteligência num labor dolorido, que impele a um afastamento.
Se nós supomos um mundo, cujos habitantes não possam senão copiar ou fotografar os objetos sem ter a possibilidade de tocá-los, eles não conseguiriam, senão com muita dificuldade, se fazer uma ideia exata da sua forma. O conhecimento dessa forma, acessível somente a um pequeno número de sábios, não apresentaria senão um interesse muito fraco*.Aparente no texto de Le Bon, essa projeção parece derivar da desconfiança, historicamente enraizada, em relação às “foules” (termo que significa, em Le Bon, uma “potência unicamente destrutiva”**, e que costuma ser traduzido por “massas”, mas precisamente designa as classes populares, que o autor considera “pouco aptas ao raciocínio”***). Já discutimos aqui como essa desconfiança pode estar associada a uma miopia, que leva à indistinção entre massa e plebe.
O anseio por este indivíduo [o líder, der Führer] está latente no povo há mais de uma década. Nós não queremos nos iludir: no momento em que a primeira palavra de comando severa, mas justa, de uma vontade realmente pessoal atingir o povo alemão, as pessoas entrarão em formação e cerrarão fileiras [...] e este respirará aliviado, pois saberá novamente para onde está indo.
H. Z. apud KRACAUER, Siegfried. O ornamento da massa. Trad. Carlos Eduardo Jordão Machado, Marlene Holzhausen. São Paulo: Cosac Naify, 2009. P. 132.
Se fosse tão fácil imperar sobre as almas como [é imperar] sobre as línguas [censurando-as], cada um [dos imperadores] reinaria em segurança, e não haveria qualquer império violento. Com efeito, cada um viveria segundo o engenho dos imperadores e apenas segundo o seu decreto julgaria do verdadeiro e do falso, do bom e do mau, do justo e do injusto. Mas isso é impossível, que o ânimo de alguém esteja absolutamente sob o domínio de outrem!*Nesse caso: a violência dos impérios aparece como índice das resistências, não exatamente como um mal.
A luta começa com a perpétua conquista interna das faculdades “inferiores” do indivíduo: as suas faculdades sensuais e apetitivas. A sua subjugação é considerada, pelo menos desde Platão, um elemento constitutivo da razão humana, a qual é, assim, repressiva em sua própria função. A luta culmina na conquista da natureza externa [...].*
O poder do imperadores não está contido apenas nisso – poder coagir os humanos por medo –, mas em tudo isso absolutamente que eles possam fazer para que os humanos se submetam (obsequantur) ao mandatos dos imperadores*.Assim, todo império será uma manifestação do Pai primevo (Freud) ou do Leão que proclamou a ordem primeva (fuja! – fugir é obedecer à ordem primeva para não morrer) (Canetti)?
A partir das leis do apetite, cada um é atirado em divergência (ex legibus appetitus unusquique diverse trahitur)
SPINOZA, Benedictus de. Oeuvres III: Traité théologico-politique. Paris: PUF, 2009 [1670]. XVI, §5. P. 509.