Colapso ou zênite do presente
Na língua hebraica, não há o tempo do
presente. Os nomes das ações (os verbos) se referem ou ao passado (ad
Praeteritum) ou ao futuro (ad Futurum).
A razão disso parece ser que [os antigos hebreus] não reconheciam senão estas duas partes do tempo, e consideravam o tempo presente como um ponto, isto é, como termo do passado e início do futuro; digo: parece que comparavam o tempo com uma linha, cujos pontos, certamente, deviam considerar tal como a extremidade de uma parte e o princípio de uma outra.*
A minha impressão (sentimento, opinião e interpretação) é exatamente oposta a essa. Para mim, é como se houvesse apenas o tempo presente,
não pontual, mas gordo e envolvente. Parece-me que todos os pontos da linha (do
plano ou do volume) estão copresentes, simultaneamente atuantes uns sobre os
outros, embora meu olhar esteja fixo sobre um trecho dela, um segmento da linha
ou do plano ao qual minha atenção se cola; todo o restante permanecendo, mas
fora de foco. É minha atenção que divide e fragmenta o tempo. Meu olhar, que estabelece o
foco. Meu passo, a distância. Sem que minha vontade, nisso, como em todas as coisas,
tenha uma função determinante, ou atue autonomamente.
(*) SPINOZA, Benedictus de. Abrégé de grammaire hébraïque. Trad. Joël Askénazi e Jocelyne Askénazi-Gerson.
3 ed. Paris: Vrin, 2006 [1677]. P. 131, in fine.
Eurocéfalo
A crença de que existe no homem uma relação estreita entre o tamanho do cérebro e o desenvolvimento das faculdades intelectuais é confirmada (is supported) pela comparação entre os crânios das raças selvagens e das civilizadas, dos povos antigos e modernos, e pela analogia do conjunto das séries vertebradas. O Dr. J. Barnard Davis (1869) provou, por meio de muitas medições cuidadosas, que a capacidade interna média do crânio, nos europeus, é de 92.3 polegadas cúbicas; nos americanos, 87.5; nos asiáticos, 87.1; e, nos australianos, somente 81.9 polegadas.*
Tese: – o tamanho do cérebro é diretamente proporcional ao nível de desenvolvimento das faculdades intelectuais (imitação, memória, atenção, imaginação, razão).
Prova: – os cérebros dos europeus são maiores do que os dos americanos; estes, do que os dos asiáticos, que, por sua vez, são maiores que os dos australianos.
Que isso constitua uma prova para a tese pressupõe uma premissa oculta: – as faculdades intelectuais dos europeus são superiores, nessa ordem, às dos ameríndios, às dos asiáticos e às dos australianos.
Pode permanecer oculta, porque essa premissa é, como um axioma, uma evidência de todos conhecida.
Ora, o que nos leva a aceitar tal premissa?
O fato do domínio europeu (colonialismo e imperialismo, no século XIX, e seus desdobramentos) sobre todas as outras culturas da terra, bárbaras ou civilizadas.
Afinal, o domínio econômico-político é resultante da superioridade da raça europeia. Somente as capacidades intelectuais maiores do que as das outras culturas humanas garantem a eficácia europeia na luta geral pela existência.
Uma comunidade que inclua um grande número de indivíduos bem-dotados cresce em número e é vitoriosa frente às outras comunidades menos bem-dotadas. (**)
(*) DARWIN, Charles. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [1871]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 859. Grifo meu.
(**) Ibid. P. 864
A posição da cabeça se tornou uma ameaça à evolução humana
Como a cabeça humana – onde, no momento, se localiza o
cérebro, o órgão humano que se tornou o mais eficaz na luta pela existência – está posicionada na extremidade do corpo, distante do seu centro de gravidade,
o cérebro não pode continuar a crescer e ganhar peso sem ameaçar, em breve, o equilíbrio do corpo humano ereto.
Assim, algumas variações genéticas seriam
recomendáveis: – ou retornamos à posição do quadrúpede, ou deslocamos o cérebro para o
centro do corpo, na direção da barriga.
Estruturas ou dispositivos de desejo
Diversas partes ou subsistemas estão em estrutura (isto é, intimamente
relacionadas umas às outras numa rede de desejo) quando a modificação ou a variação de uma delas
implica, simultaneamente, em modificações ou variações de adequação nas outras partes, com a consequente conservação da sua estrutura ou da sua relação.
Assim:
– o mito, para Dumézil, é uma estrutura;
– o indivíduo e os impérios, para Spinoza, são
estruturas;
– vários sistemas anatômicos da espécie
humana, para Darwin, são estruturas (lei da variação correlata).
Perceba você, portanto, que:
– alguns (muitos, mas não todos) dos seus atos, pensamentos e sentimentos são estruturais: possuem sua razão, não propriamente em você mesmo, mas no dispositivo, ou seja, na relação estruturada que seu ser ou desejo mantém com o ser ou desejo de outras pessoas e coisas;
– se todos os seus atos etc. fossem estruturais, não haveria acontecimento, apenas eventos.
Unidade sintática da política: a preposição
A ação é
uma relação de um humano a outro humano (não, por exemplo, de um humano a uma
coisa).
Mas, ainda, a ação, enquanto tal, requer sentido*. E o
sentido da ação é a relação humana explicitada (tornada consciente).
Explicitar uma relação é expressá-la.
Nessa passagem para o âmbito da linguagem, o
sentido se expressa como significado.
Por isso, a significação (isto é, a maneira
pela qual se indica o significado ou o sentido conscientizado de uma ação) deve
mostrar a relação.
Na linguagem, o nome da relação (o relativum) é a preposição (praepositivum)**.
Assim, pelo menos no tocante à ação (à ética
e à política), a semântica (o estudo da significação e dos sentidos) lida,
antes de tudo, com preposições.
Lista de preposições no português: a,
contra, até, para, por, de, desde, ante, trás, sob, sobre, com, sem, em,
entre***.
(*) A partir de Weber, a ação social se
define como um comportamento humano (um ato exterior ou íntimo, uma omissão,
uma tolerância), ao qual o agente ou os agentes atribuem um sentido que se orienta pelo comportamento dos outros. Conferir: WEBER,
Max. Économie et société. T. 1. Les
catégories de la sociologie. Trad. diversos. Paris:
Plon, 1995 [1920]. Cap. 1, §1. P. 28.
Nota: Esse humanismo da teoria da ação como ação humana me incomoda. Mas vale momentaneamente. Pessoalmente, eu
preferiria uma teoria da ação mais geral: – a ação (como também a paixão) é uma relação.
(**) SPINOZA, Benedictus de. Abrégé de grammaire hébraïque. Trad. Joël Askénazi e Jocelyne Askénazi-Gerson.
3 ed. Paris: Vrin, 2006 [1677]. P. 66-67.
(***) BECHARA, Evanildo. Moderna
gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2002. P. 300. Veja-se também a lista completa (incluindo as locuções
prepositivas) na p. 305.
Um tino para a comunidade
O fato de que “algo” faça mal a A indica,
por si só, alguma comunidade entre este “algo” e A.
Spinoza: – “[...] coisa nenhuma pode ser, para nós, boa ou má, se não tiver algo [em] comum conosco [...]”*.
Portanto, pode-se excogitar, o fato de que
“algo” faça mal tanto a A como a B indica alguma comunidade entre A e B.
Darwin: – “O Homem (Man) é capaz de receber dos animais inferiores, e de comunicar-lhes, certas doenças como a hidrofobia, a varíola etc. Com muito mais evidência do que a comparação sob o melhor dos microscópios ou com a ajuda da melhor análise química, este fato prova a forte semelhança entre os seus tecidos e sangue, tanto no detalhe da sua estrutura como na sua composição”.**
Mas, finalmente, esses fatos podem indicar
nada mais do que um traço de caráter comum não às coisas, mas aos que falam
delas: – o tino filosófico ou a mania de
perceber ou de inventar, constantemente, comunidades entre as mais diversas
coisas.
Proust: – “um certo filósofo que só se satisfaz quando descobre, entre duas obras, entre duas sensações, uma parte comum”.***
(*) SPINOZA, Benedictus de. Ethica [1675]. In: Opera Posthuma, 1677.
e4p29.
(**) DARWIN, Charles. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [1871]. In: From So Simple a Beginning: The
Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 784.
(***) PROUST, Marcel. La
Prisionnière. Col. Folio
Classique. Paris: Gallimard, 2011 [1923]. P. 6.
O primeiro
Aquela ideia filosófica por excelência de que tudo é um (água, ar, fogo ou Deus) toma, com a biologia, já prenhe da noção de história, a variante: tudo vem de um:
(*) DARWIN, Charles. On the Origin of Species by Means of Natural Selection [1859]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 756.
...provavelmente, [ou seja, não é um absurdo afirmar que] todos os seres orgânicos que uma vez viveram nesta terra descendem de alguma única forma primordial, na qual a vida foi insuflada pela primeira vez.*
(*) DARWIN, Charles. On the Origin of Species by Means of Natural Selection [1859]. In: From So Simple a Beginning: The Four Great Books of Charles Darwin. New York: Norton, 2006. P. 756.
Os crentes infiéis
A voz do teólogo:
– Se há algo que não merece o pensamento, isto é o evidente. O que merece ser pensado é o “mistério” (o oculto, que está por trás ou acima do evidente).
Curiosamente, entretanto, para nós, os verdadeiros crentes, apesar de infiéis, sequer o
evidente se põe acima da problematização. Muito pelo contrário, o mais problemático
é, de fato, o evidente.
Aliás, nada é mais evidente que a realidade.
Mesmo assim e por isso mesmo, é sempre ela o objeto e o ambiente do nosso
pensamento, até na imaginação.
– A realidade, mesmo se ela é necessária, não é completamente previsível.*
* PROUST, Marcel. La Prisionnière. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2011 [1923]. P. 4.
Realidade X vontade
Frequentemente, para provar a independência da
realidade (o seu estado per se ou em si) se lhe opõe a vontade. Porém, o fato de a realidade resistir e até mesmo
opor-se à vontade não testemunha contra a realidade da vontade nem contra a
voluntariedade da realidade.
O desejo de mais e mais
Há uma remissão do desejo de mais e mais para aquela concepção hierárquica do cosmos, na qual, cada patamar é como um degrau mais extenso (toda estância presente é um patamar, jamais o lugar de um repouso absoluto).
Rei real
“A realidade é rei”, embora o rei diga o inverso: (que o real não é substância, mas atributo) – a realidade é um atributo do rei.
Consequentemente, segundo os monarquistas-realistas, para algo se tornar real, tem que ser atribuído ao rei.
Consequentemente, segundo os monarquistas-realistas, para algo se tornar real, tem que ser atribuído ao rei.
Entre uma realidade e outra
Um abismo enorme nos separa de toda outra realidade além dessa que nos rege. Esse abismo, porém, não é intransponível.
O encanto do liberalismo II
O liberalismo pensa: “cada um conta por um e
não mais do que um”. Ou, ainda: cada um é um “cidadão livre e igual”.
Entretanto, a
equivalência entre cada um produz a indiferença entre todos. O tecido social se torna homogêneo e
pulverizado. A vida social “retorna ao pó” de que é composta (às partículas individuais das
quais, pensa o liberal, o social é essencialmente feito).
Desse modo, a terrível serpente que vive por
dentro da máscara liberal é o individualismo (a ideia de que cada um,
individualmente, é uma substância, que pode ser
concebida per se e portanto deve ser autônoma –
o que significa que, economicamente, deve viver de seus próprios recursos e,
ético-politicamente, deve dar a si mesma as suas próprias regras).
E a consequência do individualismo é a
solidão.
E a consequência da solidão, no humano, é o
sentimento de insegurança, o desamparo e o medo.
E a consequência da insegurança é,
finalmente, a força amparadora (pastoral) do Estado – isso que acaba
por negar, ao menos parcialmente, a essência do liberalismo.
Assim, a consequência última do
individualismo é a sociedade composta por uma multidão de indivíduos e pelo Estado
– frias instituições do Estado (escolas,
hospitais, centros de assistência social, prisões, exércitos...) e indivíduos independentes uns dos outros como únicos elementos sociais.
Mas, a nossa valsa catastrófica não termina por
aí.
Contra o liberalismo e o Estado que dele
advém e, ao mesmo tempo, o nega, outras serpentes nos injetam seu veneno
mortífero: a força não liberal, a força de um conjunto vivo sem indivíduos que possam viver por si mesmos,
ou seja, solitariamente.
Começando pelo fim: ...imaginadas, não interpretadas
De repente, não tenho mais o que esperar.
Não espero mais nada do mundo. Ele já me deu todas as respostas e todos os
bens, todas as dúvidas e todos os males, que ele dispunha absolutamente em si.
Agora, posso estar aqui, ou não estar.
O mundo e a fortuna (meus destinos) se abrem
diante de mim como um espaço absolutamente anômalo, indistinto, indeterminado,
homogêneo e fortuito.
Todo bem e todo mal, toda resposta e toda dúvida,
todas as diferenças e distinções precisam ser, doravante, imaginadas.
O encanto do liberalismo
Provo do fruto do liberalismo. Não haveria, por trás desse desfrute, a artimanha de uma serpente?
A erosão do vento
Os pensamentos sistemáticos, as experiências coesas e as vidas comunitárias sistemáticas sofreram a “erosão do vento”. Restaram dessas sistematicidades apenas fragmentos desconectados uns dos outros.
De tal maneira que, no mundo atual, nossos rostos-máscaras-personas são feitos da colagem impura desses fragmentos oriundos da erosão histórica de diversas fontes de experiência.
Não há nada de mal, de incorreto ou de prejudicial com a impureza. Essa colagem assistemática de sensibilidades, máximas morais, regras de vida, crenças e desejos desordenados e desencaixados é extremamente complexa e, talvez, nos tenha tornado extremamente inteligentes, adaptáveis e resistentes.
Mas essa resistência pode ser também a nossa infelicidade – se a nossa duração terminar por purificar nossas personas novamente em uma experiência coesa (tornando sistemático o assistemático).
Contra-tualismo
O contrato se dá entre duas ou mais partes.
O contratualismo fundamenta a justiça do contrato na ideia da igualdade entre as partes contratantes. Quanto mais as partes são iguais (em seu poder ou em sua ascendência sobre a decisão dos outros), mais o contrato tende a ser justo.
A igualdade absoluta é a identidade. O contrato absolutamente justo seria aquele estabelecido entre partes idênticas.
Partes idênticas, porém, já estão, desde o início, de acordo entre si, como estão de acordo consigo mesmas. Nada precisam, portanto, contratar.
Ou ainda: partes idênticas são, em absoluto, uma só e mesma parte. Como o contrato requer, no mínimo, duas partes, partes idênticas não podem passar um contrato que as ligue uma com a outra.
Conclusão: absolutamente falando, todo contrato é essencialmente injusto.
O contratualismo fundamenta a justiça do contrato na ideia da igualdade entre as partes contratantes. Quanto mais as partes são iguais (em seu poder ou em sua ascendência sobre a decisão dos outros), mais o contrato tende a ser justo.
A igualdade absoluta é a identidade. O contrato absolutamente justo seria aquele estabelecido entre partes idênticas.
Partes idênticas, porém, já estão, desde o início, de acordo entre si, como estão de acordo consigo mesmas. Nada precisam, portanto, contratar.
Ou ainda: partes idênticas são, em absoluto, uma só e mesma parte. Como o contrato requer, no mínimo, duas partes, partes idênticas não podem passar um contrato que as ligue uma com a outra.
Conclusão: absolutamente falando, todo contrato é essencialmente injusto.
Cursos da vida (curricula vitae)
Em geral, os pensadores que não gostam de balburdia,
discussão, conflito, passeiam pelos campos quase desertos que rodeiam a sua
cidade.
Os que gostam, pelos bairros centrais, em cujas ruas não se pode andar
sem se esbarrar em alguém.
Acontece alguns deles mudarem suas rotas. Depois
de uma volta no centro, saem atordoados na direção do campo.
C. V.
Para o desempregado, C.V. não indica curriculum vitae, mas “círculo vicioso”. Ou seja, para ele, fica claro que o curso da vida é um giro em espiral de fora para dentro (quando, na virtude, ele deveria girar de dentro para fora).
Monotonia, tédio, angústia
Fora do seu elemento, o humano diz (no campo, a mão estendida acima dos olhos, protegendo-os contra a luz): – aqui, reina a monotonia.
No seu elemento (na cidade, entre os humanos e as suas utilidades): – aqui, reina o tédio.
Em todo lugar (a qualquer momento, surge, ou desaparece): – a angústia.
No seu elemento (na cidade, entre os humanos e as suas utilidades): – aqui, reina o tédio.
Em todo lugar (a qualquer momento, surge, ou desaparece): – a angústia.
(Menos com o) Desejo de mais e mais
Dos “quatro remédios” (tetra pharmakon), que Epicuro nos receita, aquele do qual mais carecemos, para ser feliz, é saber que os bens realmente necessários, para tanto, são fáceis de obter.
O “grito da carne” (karkós phoné) não é a voz do desejo ilimitado, o desejo de mais e mais, que mais e mais nos distancia daquilo que é essencial para acalmar o mar de ondas que percorrem nossos corpos e seus humores.
A carne grita de fome, de sede, de frio e de calor...
Porém, quando a carne não grita mais, com que cera vedar os ouvidos para os sussurros do desejo de mais e mais que não se satisfaz com nada?
O “grito da carne” (karkós phoné) não é a voz do desejo ilimitado, o desejo de mais e mais, que mais e mais nos distancia daquilo que é essencial para acalmar o mar de ondas que percorrem nossos corpos e seus humores.
A carne grita de fome, de sede, de frio e de calor...
Porém, quando a carne não grita mais, com que cera vedar os ouvidos para os sussurros do desejo de mais e mais que não se satisfaz com nada?
Ironia
Quando o irônico diz “A” com ironia, ele não quer dizer (não tem em mente) (nem significa) “não-A”.
Ele se posiciona entre “A” e “não-A”.
Ele se posiciona entre “A” e “não-A”.
ironia (ironia (A)) ≠ A
Saussure, eu lhe digo, sussurre...
a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra
nunca realmente idêntica a si mesma
entretanto... já devo ter perdido a conta
– a quantas andamos? esta será a 5ª, a 4ª GGM?
nunca realmente idêntica a si mesma
entretanto... já devo ter perdido a conta
– a quantas andamos? esta será a 5ª, a 4ª GGM?
Em meio a isso, num mar
Estar em meio a isso (issos): um mar de ondas, que nos fazem submergir, uma após a outra, em intervalos muito curtos; suficientemente curtos para que não enchamos os pulmões de ar (e devenhamos balão ou anjo); suficientemente longos para que não percamos o fôlego de maneira absoluta (pedra).
Estar em meio a isso e, ainda assim, ser livre para o pensar (o pensar que se quer, o pensar das ondas). Não façamos da liberdade um vazio. Para além de (ao modo do com) a sobrevivência, a liberdade.
A liberdade, em meio.
Estar em meio a isso e, ainda assim, ser livre para o pensar (o pensar que se quer, o pensar das ondas). Não façamos da liberdade um vazio. Para além de (ao modo do com) a sobrevivência, a liberdade.
A liberdade, em meio.
Princípio biográfico
A natureza tem seus princípios (archai), suas linhas de pulsão, seu campo de forças, imanente e... histórico, seu campo (não de regras) de canais de escoamento, de condução, de formação, de redistribuição, de concentração de sua causalidade e potência. Assim, também, uma vida humana.
Como exemplo disponível, esse princípio biográfico: – entre dois pontos, inventar e percorrer sempre um caminho complicado. (De tal modo complicado, que, muitas vezes, perde-se da vista e da mente o segundo ponto).
Como exemplo disponível, esse princípio biográfico: – entre dois pontos, inventar e percorrer sempre um caminho complicado. (De tal modo complicado, que, muitas vezes, perde-se da vista e da mente o segundo ponto).
“Conceder”
Somos também obrigados a fazer concessões ao pensamento de humanos cujas vozes, para nós, soam dentre as mais adversas. Assim, seu pensamento repete-se a nosso modo:
A verdade se encobre com a resposta – mas, se desvela com o questionar.
Teologia e estratégia
– As pedras estão todas soltas!
Diante disso, não assumir uma visão apocalíptica (o mundo está ruindo), mas uma atitude estratégica (isto é, contemporânea).
Metafísica e estratégia
O pensamento metafísico (como chamá-lo?) caminha assim: assenta seu passo num solo firme, seguro, absolutamente garantido, antes de dar um próximo passo. Quanto mais tempo dedica, e quanto mais segurança obtém no primeiro fundamento – acredita –, tanto mais rapidamente poderá caminhar na sequência. – Todo seu impulso se encontra, portanto, no fundamento.
O pensamento estratégico não exige (porque não pode exigir) garantia absoluta de nenhum solo. Caminha sempre como que sobre ovos ou pedras soltas. As opções que toma nos seus passos estão sempre condicionadas à consideração das variações que podem ocorrer, a qualquer momento, nas sendas alternativas que se lhe apresentam para ir adiante ou, se preciso, para recuar. O seu impulso não provém da firmeza de nenhum solo, mas do próprio movimento. Quanto menos se assenta nas pedras (afinal, elas estão todas soltas), mais autônomo – para ele – se torna seu caminhar.
A verdade e o múltiplo
– A verdade é uma só. Se conversarmos educadamente, se deixarmos falar o outro, se o ouvirmos, se ponderarmos nossa posição pelas colocações e argumentos do outro, chegaremos necessariamente a um consenso, que, se não é a expressão da própria verdade, pelo menos, será a posição mais próxima à verdade que, numa determinada situação, nós poderemos alcançar.
– Nada disso. Ou melhor, também ainda isso: para vivermos juntos e com a verdade, não precisamos estar necessariamente em consenso, e fazer convergir nossas opiniões em uma só e comum. Existe o que se pode chamar de compromisso. Eu cedo nisso, e o outro naquilo. Compromisso é uma espécie de ponto de equilíbrio dos desejos (não é um contrato). E se alcança por barganha. Não se alcança por argumentos apenas, mas também por um jogo de forças.
– Mas, isso degenera em violência.
– A força não é sempre fisicamente manifesta. Falo de um jogo dos desejos-forças.
– Nada disso. Ou melhor, também ainda isso: para vivermos juntos e com a verdade, não precisamos estar necessariamente em consenso, e fazer convergir nossas opiniões em uma só e comum. Existe o que se pode chamar de compromisso. Eu cedo nisso, e o outro naquilo. Compromisso é uma espécie de ponto de equilíbrio dos desejos (não é um contrato). E se alcança por barganha. Não se alcança por argumentos apenas, mas também por um jogo de forças.
– Mas, isso degenera em violência.
– A força não é sempre fisicamente manifesta. Falo de um jogo dos desejos-forças.
A pulsão pelo um – III et sic in infinitum
O que vem em primeiro para o conhecimento: a
física (mas esta já ficou um pouco para trás) ou
a biologia? A biologia ou a economia?
Para nós (mais para trás ainda, para os retardatários), a briga é esta:
– A ciência primeira é a metafísica ou a política?
Talvez esta briga nossa seja a briga entre
duas pulsões: – entre a pulsão pelo um e a pulsão pelo múltiplo ...entre [o amor/dominação] e [os amores/insurreições].
A pulsão pelo um – II...
Disso, que afirmamos na ideia, com as palavras, é sempre bom dar um exemplo real (aos empiristas):
– “...a velha insinuação de que todo pensador importante tem essencialmente uma única ideia fundamental”* – da qual todo o resto do seu pensamento é apenas derivado.
Uma única ideia fundamental? Se você a detém, você detém o pensador em suas mãos.
E podemos ir além. Ora, e essas ideias fundamentais de cada um dos pensadores importantes, não seriam elas todas uma única e mesma ideia? Não se pode reduzir todo o pensamento possível a uma única e mesma condição? – (O que seria, para mim, uma grande infelicidade) –
(*) FREDE, Dorothea. The question of being: Heidegger’s project. In: GUIGNON, Charles B. (Org.). The Cambrigde Companion to Heidegger. 2 ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. P. 42.
(*) FREDE, Dorothea. The question of being: Heidegger’s project. In: GUIGNON, Charles B. (Org.). The Cambrigde Companion to Heidegger. 2 ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. P. 42.
A pulsão pelo um
Podemos perceber, por todo canto, isso que nos aparece – digamos – como uma enorme pulsão pelo um.
Uma pulsão não é necessariamente um querer, mas uma força-desejo (ou melhor, forças).
Uma enorme força redutora ao apreensível e ao manipulável. Ela reduz a multiplicidade para que a tenhamos em mente e entre as mãos.
Para que se diga: – eu a tenho na palma de minha mão.
Atenção
– A minha atenção é atraída para diferentes objetos saltitantes. Dessa maneira, o meu grande esforço de atenção é focá-la num objeto que mereça atenção.
Até mesmo ser acometido dessa ideia, em sua revelação, é uma distração da atenção.
Até mesmo ser acometido dessa ideia, em sua revelação, é uma distração da atenção.
O Monstruoso
Nosso modo de viver coletivo no mundo, afinal, é um monstro (com seus aspectos ou caretas: a sociedade de consumo, do espetáculo, a sociedade industrialmente avançada, a revolução burguesa, o império, o capitalismo, o biopoder).
Nós criamos um monstro (não no sentido de que ele seja uma criatura nossa, mas no sentido de que nós o cultivamos e cultuamos; como quando dizemos: “criamos um boi”). Um monstro que vive não apenas às nossas custas, mas da nossa carne-no-mundo. Um deus-afeto monstruoso (um Leviatã).
– Não podemos nada contra ele? Num equilíbrio mortífero muito grande, ele assimila tudo o que lançamos contra ele, até mesmo, a nossa subjetivação mais rebelde. Um monstro feito de carne e carnívoro; um monstro-afeto afetado de nossos afetos.
A lança que matará o dragão – pois o Monstruoso é certamente um ser finito, como todas as coisas da natureza – será uma metástase imanente (uma revolução da sua própria patologia) ou um objeto transcendente?
Nós criamos um monstro (não no sentido de que ele seja uma criatura nossa, mas no sentido de que nós o cultivamos e cultuamos; como quando dizemos: “criamos um boi”). Um monstro que vive não apenas às nossas custas, mas da nossa carne-no-mundo. Um deus-afeto monstruoso (um Leviatã).
– Não podemos nada contra ele? Num equilíbrio mortífero muito grande, ele assimila tudo o que lançamos contra ele, até mesmo, a nossa subjetivação mais rebelde. Um monstro feito de carne e carnívoro; um monstro-afeto afetado de nossos afetos.
A lança que matará o dragão – pois o Monstruoso é certamente um ser finito, como todas as coisas da natureza – será uma metástase imanente (uma revolução da sua própria patologia) ou um objeto transcendente?
Uma questão
Desejo, prazer, prudência – como estas palavras se articulam umas com as outras? Mas, não me responda com desejo, nem com prazer, nem com prudência.
Sentido da vida
O que eu pensava que aconteceria no fim, acontece durante.
– Com isso, o fim é o nada. O fim deixa de ser um sentido para mim. E, assim, tudo perde sentido, porque o meio já não aponta mais para nada.
Mas, vejamos. Se, o sentido, nós o colocamos no fim, então, é o durante que não tem sentido em si. Há muitos caminhos para se chegar a um fim. E este caminho meu, pode ser substituído por outro. Se o fim é tudo, o nada está no durante.
O sentido tem necessariamente essa forma: (a) –> (z)?
Não poderia ter essa outra: (a), simplesmente (a)?
– Com isso, o fim é o nada. O fim deixa de ser um sentido para mim. E, assim, tudo perde sentido, porque o meio já não aponta mais para nada.
Mas, vejamos. Se, o sentido, nós o colocamos no fim, então, é o durante que não tem sentido em si. Há muitos caminhos para se chegar a um fim. E este caminho meu, pode ser substituído por outro. Se o fim é tudo, o nada está no durante.
O sentido tem necessariamente essa forma: (a) –> (z)?
Não poderia ter essa outra: (a), simplesmente (a)?
Essência no fim ou no começo? Potencial ou atual? – III
Pode nos parecer estranho que
isso-que-faz-com-que-uma-coisa-seja-realmente-o-que-ela-é esteja no seu fim e não na sua atualidade (não no seu devir,
mas no seu acabamento).
Já que, para nós, isso-que-faz é geralmente
uma causa fazedora, uma causa eficiente.
Entretanto, é preciso reconhecer que, para
nós, essa causa fazedora, nós a concebemos em geral como externa à coisa e,
sendo externa, ela não nos parece ligada à natureza própria da coisa.
Aristóteles pensa em meio às nossas próprias
colocações.
Aristóteles concilia nossas duas opiniões comuns (a de que isso-que-faz tem que ser uma
causa e a de que a causa fazedora é externa à coisa) com a sua ideia de que a natureza da coisa é a sua finalidade, dizendo-nos
que essa finalidade é uma causa – uma causa final.
Ora, a força causal de um fim só pode ser
atrativa.
O fim só exerce o seu poder (ou o seu princípio
de força) sobre a efetuação do real atraindo-a para si.
A causalidade final, em termos físicos, é
uma espécie de força gravitacional – dá o movimento do mundo, porém, não exige
seu colapso; pelo contrário, mantém tudo em ordem, e girando, e circulando, em
torno do fim último como causa primeira.
Essência no fim ou no começo? Potencial ou atual? – II
O que você prefere? – Pois, talvez, isso seja uma questão para a sua preferência.
Que sua essência – isso que você realmente é
– esteja no seu fim ou que esteja atual, aqui e agora?
Uma coisa é realmente isso que ela se tornará, talvez, um
dia?
Ou: uma coisa é realmente isso que faz o seu
tornar-se?
Essência no fim ou no começo? Potencial ou atual?
Para Aristóteles, a natureza de uma coisa –
sua essência, isso que mostra o que ela realmente é – está no seu fim, que é
também o seu máximo, a sua excelência, a sua realização plena. Assim, ao longo
da duração da coisa, sua essência é apenas potencial.
Para Spinoza, muito pelo contrário, a
natureza de uma coisa – sua realidade – está na sua potência atual, que é
também o seu princípio, a partir do qual as coisas que lhe dizem respeito acontecem.
Já o fim de uma natureza é indefinido – afinal, ninguém sabe o que uma coisa
finalmente pode.
Ação III
Há algo ou tudo na ação que se refere à amizade (ou, mais precisamente, à relação humana).
Ou se age em direção a um amigo, ou junto com um amigo, ou contra um inimigo (em “um amigo”, leia-se, não exatamente “um humano”, mas “um outro”).
Por isso, a ação requer significado.
Como o significado é relacional (ele só se fixa, em realidade, por relações), a ação não é de um sujeito: a ação nunca parte do agente sozinho.
Daí, também, uma possível teoria semântica: “O significado se encontra nas preposições”.
Ação II
Pensar é agir sem se mexer? Mas isso é um paradoxo!
Inventa-se (inventar é sempre, também, descobrir o que já estava lá) a
alma – movimento e princípio do movimento. Afinal, o corpo sem alma não se
move. E, como disse Platão: o que é, para si mesmo, o princípio do próprio movimento
é imortal.
– Não se preocupe (don’t worry!). Você age, mesmo quieto (em latim, quies = repouso que não se mexe) e sempiternamente.
Assim: não é exatamente a alma pensadora que é prisioneira do corpo quieto,
mas o corpo falador que é escravo dessa dominação (toda invenção – e toda ação é uma invenção – é uma outra maneira de dominar).
Ação
Há sempre algo que me impede (devem ser algumas cordas, mas eu não as vejo, nem vejo onde cortá-las).
Para falar a verdade...
A verdade é tão elevada que nada abaixo dela pode lhe servir de medida.
Assim, não podemos julgar a verdade por meio da falsidade.
Só a verdade é norma para a verdade (veritas index sui).
E, assim, o velho, o muito velho critério epistemológico do saber só pode ser uma verdade auto-evidente.
Descartes encontrou a sua norma (a sua pedra de toque) na certeza de um saber absoluto.
Sócrates, por seu lado, encontrou sua verdade em um não-saber.
E Nietzsche, no auge do paradoxo e da corrupção, encontrou sua verdade numa não-verdade.
Assim, não podemos julgar a verdade por meio da falsidade.
Só a verdade é norma para a verdade (veritas index sui).
E, assim, o velho, o muito velho critério epistemológico do saber só pode ser uma verdade auto-evidente.
Descartes encontrou a sua norma (a sua pedra de toque) na certeza de um saber absoluto.
“Eu penso” é o conteúdo, o objeto de um saber reflexivo (pensamento de pensamento, na forma de “eu sei que eu penso”) cuja certeza inquestionável deve valer como norma para todo outro saber.
Sócrates, por seu lado, encontrou sua verdade em um não-saber.
“Eu não sei de nada”. E assim “só sei que nada sei” – que é o saber de sua ignorância: e também a maior das ciências (como o “eu penso”). Ele se servia dela para “quebrar o pescoço” dos seus interlocutores. E, por isso, foi acusado e condenado por “corromper os jovens da cidade”.
E Nietzsche, no auge do paradoxo e da corrupção, encontrou sua verdade numa não-verdade.
“Não há verdade. Tudo é permitido”.
A arrogância do discípulo
Quando você for à “escola”, pense na inscrição que deveria figurar no arco do seu portal de entrada.
“O ensinamento não pode se inscrever senão em uma alma consciente de sua ignorância”*.
O arco é muito baixo.
Para entrar, é preciso dobrar o pescoço.
Como fazem os súditos.
(*) GOLDSCHMIDT, Victor. La religion de Platon [1949]. In: Platonisme et pensée contemporaine. Paris: Vrin, 2000. P. 30.
(*) GOLDSCHMIDT, Victor. La religion de Platon [1949]. In: Platonisme et pensée contemporaine. Paris: Vrin, 2000. P. 30.
Assinar:
Postagens (Atom)

