Fenomenologia do espírito
Coloco um chapéu. Sinto a leve pressão da sua borda em volta do meu crânio e da pele que o envolve como um abraço, que me reconforta na tarefa solitária do meu labor.
A analítica
No processo analítico de pensamento, trata-se de partir de algo posto na ideia – uma evidência ou uma hipótese –, e mostrar suas dobras e seus desdobramentos tautológicos ou imanentes.
As dobras são os modos de reflexão internos, os constituintes constituídos pela própria evidência ou hipótese. Os desdobramentos são sua irradiação, seus raios, suas luzes, suas linhas de instituição, seus instituídos.
Na analítica da finitude, por exemplo, o que está posto, como evidente, substancial ou essencial é a condição finita do ser humano. A finitude aqui é a finitude positiva, não a privativa (não aquela que encontra sua gênese na privação de infinitude). As dobras da finitude são a fala, o trabalho e a vida. Os desdobramentos, o biopoder.
As dobras são os modos de reflexão internos, os constituintes constituídos pela própria evidência ou hipótese. Os desdobramentos são sua irradiação, seus raios, suas luzes, suas linhas de instituição, seus instituídos.
Na analítica da finitude, por exemplo, o que está posto, como evidente, substancial ou essencial é a condição finita do ser humano. A finitude aqui é a finitude positiva, não a privativa (não aquela que encontra sua gênese na privação de infinitude). As dobras da finitude são a fala, o trabalho e a vida. Os desdobramentos, o biopoder.
Eterno retorno do real
O princípio do eterno retorno afirma que este instante retornará em cada ciclo do tempo. Viveremos este mesmo instante novamente infinitas vezes. A ínfima dor que suportamos num instante é, segundo este princípio, uma dor infinita. Da mesma maneira, com o prazer, o ínfimo prazer de um instante, na verdade, é infinito. O instante, na sua repetição, em seu retorno infinito, é eternidade.
Viver o instante como eternidade é um princípio ético, isto é, uma regra de subjetivação (face à ética cristã, que considera que a eternidade extrapola o instante, e que submete o instante da vida a uma outra vida, salva e eterna).
Mas, talvez haja uma relação entre o eterno retorno do real e o deserto do real. No seu eterno retorno, o instante perde seu caráter de singularidade. Ao se eternizar, ele se torna uma repetição do mesmo, de si mesmo. O instante não inaugura nada, apenas repete. Nesse sentido, o eterno retorno é o tempo (como o deserto é o espaço) de uma impossível subjetivação (se a subjetivação é um esforço infinitesimal – mesmo que cego – de diferenciação ou de inauguração).
Viver o instante como eternidade é um princípio ético, isto é, uma regra de subjetivação (face à ética cristã, que considera que a eternidade extrapola o instante, e que submete o instante da vida a uma outra vida, salva e eterna).
Mas, talvez haja uma relação entre o eterno retorno do real e o deserto do real. No seu eterno retorno, o instante perde seu caráter de singularidade. Ao se eternizar, ele se torna uma repetição do mesmo, de si mesmo. O instante não inaugura nada, apenas repete. Nesse sentido, o eterno retorno é o tempo (como o deserto é o espaço) de uma impossível subjetivação (se a subjetivação é um esforço infinitesimal – mesmo que cego – de diferenciação ou de inauguração).
Deserto do real
No deserto, qualquer local é igual a qualquer outro. Absolutamente falando, no deserto não há movimento (se por movimento entendemos a variação de local numa duração).
Uma realidade desértica é estática (não se move) – em todo local se encontra o mesmo. O deserto é o espaço da impossível subjetivação (se a subjetivação é um esforço infinitesimal de diferenciação).
Uma realidade desértica é estática (não se move) – em todo local se encontra o mesmo. O deserto é o espaço da impossível subjetivação (se a subjetivação é um esforço infinitesimal de diferenciação).
Anjo-ângulo
Um erro (um signo ou um ato falho) fez o copista inglês de algum livro (não sei mais se de teologia ou de geometria) escrever ANGEL no lugar de ANGLE.
Respeito
Na palavra ‘respeito’ vige o mesmo radical vigente em ‘aspecto’, ‘espetáculo’; o que a coloca em relação com o olhar. Respeitar algo é também olhar para algo.
Luzes ou trevas
BBC: A Câmara baixa do Parlamento da Bélgica aprovou nesta quinta-feira uma lei que proíbe do uso do véu islâmico que cobre o rosto em locais públicos.
Isso é, claramente, uma forte limitação da liberdade religiosa.
Para alguns, esta limitação convoca, claramente, uma atitude de libertação.
Tanta clareza ofusca as trevas.
Isso é, claramente, uma forte limitação da liberdade religiosa.
Para alguns, esta limitação convoca, claramente, uma atitude de libertação.
Tanta clareza ofusca as trevas.
Duas questões
Se a pergunta que a metafísica faz esquecer é: – por que há o Ente e não antes o Nada? –, esta outra: – por que o Mesmo e não antes o Outro? – é a pergunta que a subjetividade não cessa de se colocar.
Diluição e decantação
Tudo isso aparece para se diluir no esquecimento, na inutilidade, no motivo nenhum, na finalidade nenhuma. Nessa fala vigora um silêncio decantado, que é um fundo sonoro, idêntico, contínuo, de fonemas acumulados e indistinguíveis.
É o falar do anjo da história que se vira para frente.
É o falar do anjo da história que se vira para frente.
Sade, o bárbaro
Sade e a minuciosa ordem da barbárie.
O ritual bárbaro.
O deus bárbaro.
Teologia bárbara.
Racionalidade bárbara.
O Outro repetindo o Mesmo.
O Mesmo é só um avatar do Outro.
O mesmo-Outro, o outro-Mesmo.
O ritual bárbaro.
O deus bárbaro.
Teologia bárbara.
Racionalidade bárbara.
O Outro repetindo o Mesmo.
O Mesmo é só um avatar do Outro.
O mesmo-Outro, o outro-Mesmo.
Matéria e antimatéria
À frente da cidade, o bárbaro.
Cidades bárbaras. Civilizações bárbaras. A negação da ordem tem ordem. O inconsciente como linguagem. O caos ordenado.
Há também império no bárbaro? Há império bárbaro? Se o bárbaro constitui um império, então haveria uma filosofia bárbara, uma antifilosofia?
Cidades bárbaras. Civilizações bárbaras. A negação da ordem tem ordem. O inconsciente como linguagem. O caos ordenado.
Há também império no bárbaro? Há império bárbaro? Se o bárbaro constitui um império, então haveria uma filosofia bárbara, uma antifilosofia?
O selvagem, o bárbaro e a cidade
O pensamento selvagem é autodomesticável ou domesticável, ele constitui a essência mesma da filosofia, como o selvagem é a essentia actuosa da cidade. Haveria também, talvez, o pensamento bárbaro, indomável, aquele sempre de fora, aquele que nunca penetra na fortaleza da filosofia.
A questão da filosofia: há o bárbaro no pensamento? Há algo que escapa ao império, ao chicote e à cadeira da filosofia, à sua espada e ao seu escudo?
Domar é canalizar, ordenar, organizar. Domar é dominar, colocar sob império.
A questão da filosofia: há o bárbaro no pensamento? Há algo que escapa ao império, ao chicote e à cadeira da filosofia, à sua espada e ao seu escudo?
Domar é canalizar, ordenar, organizar. Domar é dominar, colocar sob império.
Camadas
Abordar a filosofia na sua historicidade nos coloca imediatamente numa espécie de petição de princípio. Na perspectiva da história da filosofia, estamos desde já sob uma interpretação moderna da filosofia. É o moderno falando modernamente, ou seja, a partir de si mesmo para si mesmo.
E isso pode ser evitado?
Talvez, as filosofias não se sucedam no tempo, mas se fixem, aqui, lá, no espaço do pensamento. Esse espaço é único? Pergunta que equivale a essa outra: as filosofias são comensuráveis?
Ou, pelo contrário, serão elas todas de espaços todos outros? Se for assim, então, só podemos reatualizá-las (perceber apenas suas projeções em nosso plano), nunca podendo nos deslocar de nós mesmos? Não se pode fazer a experiência absoluta do outro?
E isso pode ser evitado?
Talvez, as filosofias não se sucedam no tempo, mas se fixem, aqui, lá, no espaço do pensamento. Esse espaço é único? Pergunta que equivale a essa outra: as filosofias são comensuráveis?
Ou, pelo contrário, serão elas todas de espaços todos outros? Se for assim, então, só podemos reatualizá-las (perceber apenas suas projeções em nosso plano), nunca podendo nos deslocar de nós mesmos? Não se pode fazer a experiência absoluta do outro?
Ética, política e metafísica – interpretando Foucault

Três elementos irredutíveis e ao mesmo tempo indissociáveis uns dos outros: poder-verdade-sujeito.
Uma experiência envolve estes três elementos, mas a partir da perspectiva do sujeito.
Uma governamentalidade envolve estes três elementos, mas a partir da perspectiva do poder.
Um pensamento, os mesmos três elementos, mas a partir da verdade.
Ética, política e metafísica.
Coragem e silêncio
Notemos, por princípio, que a coragem é uma virtude, mas que a virtude envolve tanto a fala como o silêncio.
Em geral, para falar, ao invés de permanecer calado, é preciso uma dose de coragem. Mas, silenciar também pode ser um ato positivo de resistência (exemplo do torturado).
Em geral, silenciar é um ato de covardia. Mas, tomar a palavra e preencher com a fala o silêncio do que não se pode dizer é covardia (exemplo da atitude tirânica).
Coragem e covardia, em relação ao silêncio, estão associadas de duas maneiras: (1) coragem de falar e covardia de silenciar, e (2) coragem de silenciar e covardia de falar.
Toda a questão é saber quando nos encontramos numa situação, quando na outra.
Em geral, para falar, ao invés de permanecer calado, é preciso uma dose de coragem. Mas, silenciar também pode ser um ato positivo de resistência (exemplo do torturado).
Em geral, silenciar é um ato de covardia. Mas, tomar a palavra e preencher com a fala o silêncio do que não se pode dizer é covardia (exemplo da atitude tirânica).
Coragem e covardia, em relação ao silêncio, estão associadas de duas maneiras: (1) coragem de falar e covardia de silenciar, e (2) coragem de silenciar e covardia de falar.
Toda a questão é saber quando nos encontramos numa situação, quando na outra.
Vocação II
Por vocação, costumeiramente, compreendemos um talento individual. Mas vocação também se compreende como um chamado, um apelo.
A vocação, no primeiro sentido, pode ser a base de uma ética que se associa, se acrescentarmos ao primeiro o segundo sentido, a uma metafísica.
A vocação, no primeiro sentido, pode ser a base de uma ética que se associa, se acrescentarmos ao primeiro o segundo sentido, a uma metafísica.
Liberdade e fraqueza de espírito
Sinal de sua fraqueza, nos espíritos livres sempre se instaura um recuo, uma dúvida, um receio diante de um imperativo, diante de um dever.
Eles ficam com a impressão de que não têm suficiente força física e determinação intelectual para uma moral.
Eles ficam com a impressão de que não têm suficiente força física e determinação intelectual para uma moral.
Irradiação e solidão
Um pensador que alcança alguma irradiação do seu pensar – expor-se a um pensamento é como expor-se a uma forma de radiação –, sabe, sente que, quando ele pensa, já não pensa sozinho.
A população
A população já é uma redução da multiplicidade do múltiplo. Essa redução já é uma apreensão. Essa apreensão já é governo.
Só multitudo (sem o artigo) é ingovernável.
Só multitudo (sem o artigo) é ingovernável.
Saul/Paulo
Com o indivíduo, a mutação de Saul a Paulo se dá pela graça, pelo acontecimento (não pela fortuna). Essa mutação permanece sempre aberta, possível, já que desconhecemos as causas que a determinam e quando elas se reúnem.
Da mesma forma, com o múltiplo enquanto múltiplo, com a multitudo, a sua mutação, a sua passagem para um estado de multidão-Paulo tem que passar pelo levante e não pela revolução. Desconhecemos o que faz uma multitudo se erguer e correr perigo, enquanto as causas da revolução são conhecidas.
Da mesma forma, com o múltiplo enquanto múltiplo, com a multitudo, a sua mutação, a sua passagem para um estado de multidão-Paulo tem que passar pelo levante e não pela revolução. Desconhecemos o que faz uma multitudo se erguer e correr perigo, enquanto as causas da revolução são conhecidas.
O vidro
Voltemos a Proust, à questão do vidro do aquário e à diferença de pressão entre o interior p e o exterior p':

Se tomarmos um plano (uma lâmina muitíssimo fina) que passe no interior do vidro, a diferença entre as pressões dos dois lados do plano, ∂p, deve tender a zero, ou o vidro não manteria sua estabilidade interna.
Se percorrermos assim o interior do vidro, de um lado a outro, a cada minipasso, encontramos a mesma diferença minimal de pressões, de modo que, no total, no somatório infinito do infinitamente pequeno, a diferença de pressões se faz considerável, embora tenda a zero em cada local.
Isso explica por que não basta uma grande diferença de pressões para que haja uma revolução. É preciso o levante. E o ímpeto do levante é inexplicável. Como diria M. Clavel, é algo, na terra, que corresponde à graça divina da salvação.

Se tomarmos um plano (uma lâmina muitíssimo fina) que passe no interior do vidro, a diferença entre as pressões dos dois lados do plano, ∂p, deve tender a zero, ou o vidro não manteria sua estabilidade interna.
Se percorrermos assim o interior do vidro, de um lado a outro, a cada minipasso, encontramos a mesma diferença minimal de pressões, de modo que, no total, no somatório infinito do infinitamente pequeno, a diferença de pressões se faz considerável, embora tenda a zero em cada local.
Isso explica por que não basta uma grande diferença de pressões para que haja uma revolução. É preciso o levante. E o ímpeto do levante é inexplicável. Como diria M. Clavel, é algo, na terra, que corresponde à graça divina da salvação.
Vocação
Foucault dá sua ideia de informaçãoBLOG:
“O que eu disse aqui não é ‘o que eu penso’, mas frequentemente aquilo acerca do que eu me pergunto se não o poderíamos pensar.”*
(*) FOUCAULT, Michel. Pouvoirs et stratégies. Texto 218 [1977]. In: Dits et écrits. Vol. II. 1976-1988. Paris: Quarto Gallimard, 2001. P. 428.
“O que eu disse aqui não é ‘o que eu penso’, mas frequentemente aquilo acerca do que eu me pergunto se não o poderíamos pensar.”*
(*) FOUCAULT, Michel. Pouvoirs et stratégies. Texto 218 [1977]. In: Dits et écrits. Vol. II. 1976-1988. Paris: Quarto Gallimard, 2001. P. 428.
Esquema do aquário
Sem pensar muito, eu diria que a pressão interna em um aquário, no fundo, é maior do que a pressão externa do ar que envolve o aquário.
Uma prova simples, mas pensada, dessa intuição, para mostrar sua correção, poderia ser a seguinte.

Por um pequeno furo feito na parede de vidro do aquário é a água que jorra para fora e não o ar que borbulha para dentro.
Não sei se isso responde e em que medida à “grande questão social” levantada por Proust: “saber se a parede de vidro protegerá para sempre o festim dos animais maravilhosos e se as gentes obscuras, que os observam avidamente na noite, não virão os colher no seu aquário e os comer”*.
(*) PROUST, Marcel. À l’ombre des jeunes filles en fleurs. Paris: Gallimard, 1988 [1919]. P. 249f.
Uma prova simples, mas pensada, dessa intuição, para mostrar sua correção, poderia ser a seguinte.

Por um pequeno furo feito na parede de vidro do aquário é a água que jorra para fora e não o ar que borbulha para dentro.
Não sei se isso responde e em que medida à “grande questão social” levantada por Proust: “saber se a parede de vidro protegerá para sempre o festim dos animais maravilhosos e se as gentes obscuras, que os observam avidamente na noite, não virão os colher no seu aquário e os comer”*.
(*) PROUST, Marcel. À l’ombre des jeunes filles en fleurs. Paris: Gallimard, 1988 [1919]. P. 249f.
A diferença entre moral religiosa e moral filosófica, prescrição e conselho
A moral religiosa prescreve na forma e com a força da lei.
Enquanto a moral religiosa prescreve, a moral filosófica aconselha.
Mas, à medida que a moral filosófica, para quem a segue, se torna também uma paixão – e isso acontece muito frequentemente (amor do conselho, amor do conselheiro) –, sua força escapa ao sujeito aconselhado. E, na injunção filosófica, vemos também surgir a força do conselheiro.
“Para ser salvo, faça isso, não faça aquilo, e se fizer o contrário do que é prescrito, queimará eternamente no fogo dos infernos”.A moral religiosa governa com base na esperança de recompensas e no medo das punições. Recompensas e punições que têm uma eficácia tremenda, pois, Deus sendo onisciente e onipotente, o julgamento divino é infalível e irrevogável.
Enquanto a moral religiosa prescreve, a moral filosófica aconselha.
“Faça isso, não faça aquilo, porque assim seria melhor para você ou para o mundo (e indiretamente para você)”.Como tem a forma de um conselho e não de uma prescrição legal, idealmente, a injunção moral filosófica recebe sua força apenas do sujeito aconselhado. Cabe a ele, ativamente e por si mesmo, fazer de si um sujeito moral.
Mas, à medida que a moral filosófica, para quem a segue, se torna também uma paixão – e isso acontece muito frequentemente (amor do conselho, amor do conselheiro) –, sua força escapa ao sujeito aconselhado. E, na injunção filosófica, vemos também surgir a força do conselheiro.
O tirano e o soberano
O tirano faz e só quer fazer o que lhe interessa e agrada, sem pensar nem querer fazer o que agrada a todos em comum.
O soberano quer o que é o bem comum.
Mas, no fundo, dizem alguns, este soberano (que quer o bem comum) é um tirano, pois este, ao tornar objetivo o bem comum, acaba por impor a sua visão de bem. Por isso, como não há bem verdadeiramente comum, o soberano deve querer o justo, apenas o justo, e deve separar o justo do bem. O justo é o equilíbrio, na coexistência, dos diferentes bens próprios, tirânicos. Na justiça, todos permaneceríamos tirânicos.
O soberano quer o que é o bem comum.
Mas, no fundo, dizem alguns, este soberano (que quer o bem comum) é um tirano, pois este, ao tornar objetivo o bem comum, acaba por impor a sua visão de bem. Por isso, como não há bem verdadeiramente comum, o soberano deve querer o justo, apenas o justo, e deve separar o justo do bem. O justo é o equilíbrio, na coexistência, dos diferentes bens próprios, tirânicos. Na justiça, todos permaneceríamos tirânicos.
37
A política não é apenas uma ordenação da experiência da coexistência, porque ela também pretende ordenar o que já existiu, o que ainda não existe e o que não existirá jamais.
36
O ideal da política: do jogo das vontades tirânicas obter relações de soberania, ao menos exteriormente.
Melhor voando?
Um pensamento chegou. Quis apanhá-lo de vez. Escapou-me.
Deitar por escrito é um modo de enjaular o pensamento.
Estará melhor voando do que em minhas mãos?
Não estarei, pelo contrário, eu melhor nas suas?
Deitar por escrito é um modo de enjaular o pensamento.
Estará melhor voando do que em minhas mãos?
Não estarei, pelo contrário, eu melhor nas suas?
Sem-x
Estamos aí, entre os terráqueos sem-terra, entre os moradores sem-teto, entre os trabalhadores sem-emprego, entre os pios sem-igreja, entre os políticos sem-partido.
Nesse caso, seríamos como uma falta daquilo que define o ser que somos.
Seríamos x sem-x; seríamos nada.
De fato, na real, estamos, mas não somos assim. Pois a propriedade (da terra ou do teto), o emprego, a igreja e o partido, que compõem nossa civilização, são apenas alterações confusas, imaginárias, históricas, artificiais, humanas do mesmo fundo de barbárie.
Nesse caso, seríamos como uma falta daquilo que define o ser que somos.
Seríamos x sem-x; seríamos nada.
De fato, na real, estamos, mas não somos assim. Pois a propriedade (da terra ou do teto), o emprego, a igreja e o partido, que compõem nossa civilização, são apenas alterações confusas, imaginárias, históricas, artificiais, humanas do mesmo fundo de barbárie.
Vida boa
A vida boa dos gregos não é a nossa vida rica, saudável, branca, segura, gostosa, consumidora. É a vida virtuosa. E a virtude, como diz Spinoza, é potência.
Vida boa é vida de potência, vida essencial, de desdobramentos, vida de cão.
Vida boa é vida de potência, vida essencial, de desdobramentos, vida de cão.
Desejo de ser e dispositivo
O desejo de ser assume uma forma (um objeto) num dispositivo. Pode tornar-se, por exemplo, desejo de saúde, de segurança, de sexualidade, de pureza, de satisfação de carências econômicas, de Deus, conforme o dispositivo.
O dispositivo político, o imperium, é sempre também uma forma de apreensão do desejo de ser, originariamente, indeterminado – mediante sua determinação. No dispositivo, o desejo de ser ganha um objeto (o que não quer dizer que ele seja, na medida em que é indeterminado, subjetivo).
O dispositivo político, o imperium, é sempre também uma forma de apreensão do desejo de ser, originariamente, indeterminado – mediante sua determinação. No dispositivo, o desejo de ser ganha um objeto (o que não quer dizer que ele seja, na medida em que é indeterminado, subjetivo).
Paráfrases: essência e potência
Buscar entender a essência como potência.
A essência, não como algo inerte (como mancha de tinta num quadro) ou como um modelo ideal.
Essência, como algo a partir do que se desdobram as dobras de um ser, que são as suas propriedades.
Essência, ligada a um querer, a um desejo intrínseco de si. Desdobramentos na existência, a uma oportunidade, a uma situação.
A essência, não como algo inerte (como mancha de tinta num quadro) ou como um modelo ideal.
Essência, como algo a partir do que se desdobram as dobras de um ser, que são as suas propriedades.
Essência, ligada a um querer, a um desejo intrínseco de si. Desdobramentos na existência, a uma oportunidade, a uma situação.
Qualidade de vida e morte
Nossa qualidade de vida é um critério econômico da dignidade da vida. Uma vida digna para nós é aquela vida feliz, aquela vida de contínua satisfação de suas próprias carências.
Para nós, que compreendemos a vida como procissão, desfile, festival de carências (a vida econômica), a vida feliz poderia aparecer, paradoxalmente, como o exercício de um suicídio continuado.
Ao vivermos com qualidade de vida e de maneira feliz satisfazemos e eliminamos, ao menos momentaneamente e parcialmente, as carências que caracterizam a essência, o próprio ser da nossa vida (como existência).
Para nós, que compreendemos a vida como procissão, desfile, festival de carências (a vida econômica), a vida feliz poderia aparecer, paradoxalmente, como o exercício de um suicídio continuado.
Ao vivermos com qualidade de vida e de maneira feliz satisfazemos e eliminamos, ao menos momentaneamente e parcialmente, as carências que caracterizam a essência, o próprio ser da nossa vida (como existência).
Vida de filósofo (ilustre)
Difícil dizer o que vem primeiro: a vida do filósofo ou sua filosofia; se ele adapta sua vida à sua filosofia, ou se, ao contrário, faz sua filosofia com a forma da sua vida.
Proximidades notáveis IV - Liquidez e fundamentalismo
A oposição é sinal de alguma comunidade.
O oposto da experiência da liquidez é o fundamentalismo. Mas a experiência da liquidez, na medida em que se liga a uma vontade, e quer se tornar absoluta, se torna um fundamentalismo.
O fato de haver uma relação conflituosa entre liquidez e fundamento indica uma semelhança, pois aqui também vale o seguinte princípio:
– Duas naturezas que nada têm em comum uma com a outra não se afetam, isto é, uma nada pode fazer à outra, que seja bom ou mau.
O oposto da experiência da liquidez é o fundamentalismo. Mas a experiência da liquidez, na medida em que se liga a uma vontade, e quer se tornar absoluta, se torna um fundamentalismo.
O fato de haver uma relação conflituosa entre liquidez e fundamento indica uma semelhança, pois aqui também vale o seguinte princípio:
– Duas naturezas que nada têm em comum uma com a outra não se afetam, isto é, uma nada pode fazer à outra, que seja bom ou mau.
Relações entre teoria e prática
Os filósofos, além de pensar, são éticos. O que não quer dizer que sejam moralistas, mas que levam uma vida de filósofo, que colocam sua vida no jogo do seu pensamento, e seu pensamento no jogo de sua vida.
Lanterna na mão: – procura-se o filósofo pelas noites nas praças públicas.
Lanterna na mão: – procura-se o filósofo pelas noites nas praças públicas.
Falas que não se falam
As falas se ordenam segundo registros determinados, matrizes de palavras em sua ordenação recíproca, certas ideias.
De tal modo que, se der falarmos o mesmo do mesmo, mas segundo registros diferentes, registros que não se encaixam, que não se superpõem, uma comunicação termo a termo é impossível.
Na distância dos registros, uma fala não fala à outra. E se, eventualmente, se percebe uma comunidade (percebe-se que se fala o mesmo do mesmo), isso se deve a uma amizade que se impõe, como predisposição que atenua as diferenças.
A amizade, por isso, pode encobrir as idiossincrasias, como as pontes que varam grandes abismos.
De tal modo que, se der falarmos o mesmo do mesmo, mas segundo registros diferentes, registros que não se encaixam, que não se superpõem, uma comunicação termo a termo é impossível.
Na distância dos registros, uma fala não fala à outra. E se, eventualmente, se percebe uma comunidade (percebe-se que se fala o mesmo do mesmo), isso se deve a uma amizade que se impõe, como predisposição que atenua as diferenças.
A amizade, por isso, pode encobrir as idiossincrasias, como as pontes que varam grandes abismos.
Justiça e beleza
O justo, como o belo, numa compreensão remota, refere-se à correspondência de uma proporção, à simetria.
A definição remota de justiça, como atribuição a cada um do que é seu, coloca o jurídico no âmbito da proporção. No justo trata-se de distribuir a coisa a cada um na exata proporção que lhe é devida (imagem da balança).
Na definição remota do belo, por outro lado, encontramos a mesma noção de simetria – alcançar o belo pelo simétrico (em confronto com o remoto, Kant, muito romanticamente, vai dizer que não há uma teoria racional do belo – ou seja, o belo, como o divino, em Kant, tornou-se um limite para a razão).
De modo que, remotamente, o injusto nos repugna como o feio, e o feio como o injusto. Muito facilmente, portanto, passamos do feio ao injusto, do feio ao mal, do feio ao afastamento do que é divino, do que é justo e belo.
A definição remota de justiça, como atribuição a cada um do que é seu, coloca o jurídico no âmbito da proporção. No justo trata-se de distribuir a coisa a cada um na exata proporção que lhe é devida (imagem da balança).
Na definição remota do belo, por outro lado, encontramos a mesma noção de simetria – alcançar o belo pelo simétrico (em confronto com o remoto, Kant, muito romanticamente, vai dizer que não há uma teoria racional do belo – ou seja, o belo, como o divino, em Kant, tornou-se um limite para a razão).
De modo que, remotamente, o injusto nos repugna como o feio, e o feio como o injusto. Muito facilmente, portanto, passamos do feio ao injusto, do feio ao mal, do feio ao afastamento do que é divino, do que é justo e belo.
Paráfrases: desejo e objeto
Realmente, não há como orientar o desejo pela ideia de bem. Pois é a ideia de bem que se forma a partir do desejo.
Não podemos primeiro e de maneira independente nos representar a ideia de bem, para depois desejá-la. Pois é a partir das inclinações do nosso desejo que formamos nossa ideia de bem real.
Entretanto, nosso desejo não é por natureza inclinado, não nasce determinado por objetos, para objetos. Ele precisa inclinar-se, isto é, ganhar o hábito da inclinação na direção de objetos que lhe são eventualmente apresentados como bens, como desejáveis.
Na formação do hábito, com numa captura, o desejo, naturalmente indeterminado, se determina, ganha um objeto, torna-se desejo de objetos pré-determinados.
Os dispositivos de poder são como arapucas do desejo.
Não podemos primeiro e de maneira independente nos representar a ideia de bem, para depois desejá-la. Pois é a partir das inclinações do nosso desejo que formamos nossa ideia de bem real.
Entretanto, nosso desejo não é por natureza inclinado, não nasce determinado por objetos, para objetos. Ele precisa inclinar-se, isto é, ganhar o hábito da inclinação na direção de objetos que lhe são eventualmente apresentados como bens, como desejáveis.
Na formação do hábito, com numa captura, o desejo, naturalmente indeterminado, se determina, ganha um objeto, torna-se desejo de objetos pré-determinados.
Os dispositivos de poder são como arapucas do desejo.
Apego às causas de alegria
Muitas de nossas dificuldades, superstições, temores, sofrimentos (desideria, longings), se originam de nossa tendência para buscar prolongar indefinidamente, se não a eternizar, a fruição de bens fortuitos, dos bens, prazeres, alegrias, amores, que podemos atribuir não a nós mesmos, mas à fortuna.
Mecanismos afetivos VIII – a escolha do sucessor
É explicável a tendência do imperador para escolher um sucessor um pouco menos habilidoso, um pouco menos apto ao exercício do poder do que ele mesmo.
Se escolhesse alguém mais capaz, sentiria inveja, pensando que o povo honraria seu sucessor mais do que a ele.
Por outro lado, se o imperador ama de fato aquele que escolheu como seu sucessor – poderia se objetar –, ele teria todo interesse de que o povo também o amasse, pois sendo seu amante, o imperador se alegraria com o seu sucesso. Em geral, porém, o imperador não escolhe seu sucessor por amor, mas porque é forçado pela lei ou por outros motivos alheios a si.
Entretanto, por medo de perder o amor do povo e até mesmo de ser odiado por ele, o imperador não escolheria alguém muito menos habilidoso do que ele mesmo, nem se o amasse. Se escolhesse assim, imaginaria que também seria considerado pelo povo como uma causa do seu desgosto com o sucessor, que no final das contas teria sido escolhido por ele.
Se escolhesse alguém mais capaz, sentiria inveja, pensando que o povo honraria seu sucessor mais do que a ele.
Por outro lado, se o imperador ama de fato aquele que escolheu como seu sucessor – poderia se objetar –, ele teria todo interesse de que o povo também o amasse, pois sendo seu amante, o imperador se alegraria com o seu sucesso. Em geral, porém, o imperador não escolhe seu sucessor por amor, mas porque é forçado pela lei ou por outros motivos alheios a si.
Entretanto, por medo de perder o amor do povo e até mesmo de ser odiado por ele, o imperador não escolheria alguém muito menos habilidoso do que ele mesmo, nem se o amasse. Se escolhesse assim, imaginaria que também seria considerado pelo povo como uma causa do seu desgosto com o sucessor, que no final das contas teria sido escolhido por ele.
Poder e potência
Poder tem a ver com a possibilidade de afirmar ou negar, de se dar ou não se dar. Potência, com a necessidade, com o que se afirma necessariamente, com o que necessariamente se dá.
Ora, o acontecimento é necessário, se dá e se afirma necessariamente. Ele se refere unicamente à potência.
O eventual é o contingente, o que pode ou não se dar, se afirmar. Mas, isso só é pensável a partir de uma perspectiva humana, como imaginável. Por isso, o poder é uma coisa que se refere à imaginação.
Ora, o acontecimento é necessário, se dá e se afirma necessariamente. Ele se refere unicamente à potência.
O eventual é o contingente, o que pode ou não se dar, se afirmar. Mas, isso só é pensável a partir de uma perspectiva humana, como imaginável. Por isso, o poder é uma coisa que se refere à imaginação.
Fragmentos de informação
A informaçãoBLOG é fragmentária, não porque se exponha em fragmentos, mas porque seu conteúdo informativo não é jamais inteiro, não se completa jamais. A informaçãoBLOG não é uma pequena dose de uma informação em dose inteira.
A dose inteira nunca vem, nem portanto a overdose.
E você? Você se contenta apenas com o parcial?
O parcial traz algum contentamento, jamais uma satisfação plena.
Pelo menos, no contentamento com o parcial, estaria refutado o dito do Eclesiastes (1:18) sobre a overdose, que afirma: qui auget scientiam, auget dolorem (quem aumenta a ciência, aumenta a dor).
A informação a pequenas doses provê uma satisfação que não se anula, nem se acumula.
A dose inteira nunca vem, nem portanto a overdose.
E você? Você se contenta apenas com o parcial?
O parcial traz algum contentamento, jamais uma satisfação plena.
Pelo menos, no contentamento com o parcial, estaria refutado o dito do Eclesiastes (1:18) sobre a overdose, que afirma: qui auget scientiam, auget dolorem (quem aumenta a ciência, aumenta a dor).
A informação a pequenas doses provê uma satisfação que não se anula, nem se acumula.
O papel da verossimilhança e da verdade para a vida
Spinoza aceita o verossímil (o que se assemelha à verdade), e reconhece que no uso da vida, na maior parte do tempo, não é preciso conhecer a verdade para agir bem. Mas, o limite do verossímil é a verdade. Ou seja, o verossímil não pode contradizer a verdade, sob pena de nos engajarmos numa via absolutamente falsa e, sendo falsa, necessariamente nociva à salvação, à beatitudo ou à liberdade.
Spinoza aceita o imaginário desde que não contradiga a verdade.
Nietzsche, por outro lado, põe em conflito a verdade e a utilidade. De fato, essa é a sua questão: por que devemos considerar o verdadeiro como necessariamente útil à vida? Não seria antes o contrário? Não seria a verdade algo que prejudica a vida?
Spinoza aceita o imaginário desde que não contradiga a verdade.
Nietzsche, por outro lado, põe em conflito a verdade e a utilidade. De fato, essa é a sua questão: por que devemos considerar o verdadeiro como necessariamente útil à vida? Não seria antes o contrário? Não seria a verdade algo que prejudica a vida?
Política sem obediência
No bioimpério: a docilidade na obediência se dá pela consciência de si não apenas como corpo, mas a partir daquilo que elimina a potência do corpo (o mal).
No império ortodoxo sobre o espiritual: a docilidade na obediência é obtida a partir da consciência de si não apenas como alma, mas a partir daquilo que limita a potência da alma (o bem como um imperador externo que aprendemos a amar).
A vera espiritualidade política (assim como a verdadeira corporeidade política, que em nada seria diferente) fixa a potência e não o limite da alma, isto é, elimina a experiência da obediência. No fundo, a obediência exige a representação de um imperador externo.
No império ortodoxo sobre o espiritual: a docilidade na obediência é obtida a partir da consciência de si não apenas como alma, mas a partir daquilo que limita a potência da alma (o bem como um imperador externo que aprendemos a amar).
A vera espiritualidade política (assim como a verdadeira corporeidade política, que em nada seria diferente) fixa a potência e não o limite da alma, isto é, elimina a experiência da obediência. No fundo, a obediência exige a representação de um imperador externo.
Amor fati II
O amor fati enquanto amor do acontecimento é também uma ratio vivendi (um princípio de orientação da existência) na direção do sumo bem, a beatitudo, pois:
Tomar “todas as coisas como necessárias” é inteligi-las como acontecimentos regidos pelo determinismo (no sentido do nosso determinismo, ou seja, podemos inteligir as coisas como necessárias, mas só podemos imaginá-las, representá-las, como possíveis).
À medida que a mente intelige todas as coisas como necessárias, nessa medida tem maior potência sobre os afetos, ou menos padece por eles. (Spinoza, e5p6)
Tomar “todas as coisas como necessárias” é inteligi-las como acontecimentos regidos pelo determinismo (no sentido do nosso determinismo, ou seja, podemos inteligir as coisas como necessárias, mas só podemos imaginá-las, representá-las, como possíveis).
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