Isso e o oposto disso


Em geral, pensamos que o oposto disso não tem nada a ver com isso (seja lá o que isso for!). Por exemplo: que a ciência nada tem a ver com a inconsciência.

Mas, tanto Freud quanto Aristóteles, nos dizem o oposto disso.

Freud: “os opostos, nas formas de expressão do inconsciente, como no sonho, são frequentemente representados pelo mesmo elemento”*.

Aristóteles: “A ciência dos opostos é uma só”**.

De onde virá tal ressonância? Será a metafísica (a filosofia primeira) uma das tais expressões do inconsciente?





(*) FREUD, Sigmund. O tema da escolha do cofrinho [1913]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 312.

(**) ARISTÓTELES. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. Γ, 2, 1004a9. P. 114.

Ditos (168) e ouvidos


– Isso que, agora, é pouco, e se acumula, amanhã será parte do muito.

(Em que medida este dito diz o mesmo que este, já conhecido: “não deixes para amanhã, o que podes fazer hoje”?)

(Solução 1, em que o valor é dado ao plano da linguagem: forma é conteúdo; varia a forma, logo, varia o conteúdo)

(Solução 2, valor dado ao pensamento: no fundo, nos dois ditos, diz-se o mesmo significado)


168


– Isso que, agora, é pouco, e se acumula, amanhã será parte do muito.



Rivalidade, competição, guerra


Três modos de estar entre humanos, enquanto potências. Rivalidade entre iguais, na divergência (os desejos singulares perseguem em comum bens divergentes). Competição, na concorrência (os desejos homogeneizados perseguem os mesmos bens, que, escassos, não bastam para todos). Guerra, no afrontamento (os desejos são opostos; na ruptura do comum, desejam o fim do que lhe é oposto).




Psico-político-análise: a nudez brasileira


É compreensível a repulsa melancólica que nós, brasileiros, experimentamos diante da política despida dos mitos republicanos do bem comum e da soberania popular*. Para nós, tudo se expôs, às claras.

Fim do mito e exposição da nudez são dois processos correlatos; pois, no mito, o nu oculto se mostra e age, mas apenas sob belas e suportáveis roupagens** (personas mascaradas***).

Isso que se expõe e se desnuda, com o fim do mito, são as excreções humanas políticas, que, no mito, permaneciam veladas, ou apareciam como anormais, tal como certas excreções humanas individuais. Em uma palavra: as fezes e as excreções do sexo, que fazem parte de nossa psique como o fundo submerso de um iceberg, estão expostos à vista e ao olfato. E isso é horripilante****.

A lei tem a função de manter oculta***** a nudez política humana, o amor do Eu (o narcisismo secundário), tirânico, sádico, sem lei, sem outro, infantil. Sem a lei, na negação do outro, o pior de nós, humanos, emerge. “Pois o ser humano, quando aperfeiçoado [pela lei democrática comum, isto é, pela presença divergente dos outros-rivais], é o melhor dos animais, mas, quando separado da lei e da justiça, ele é o pior de todos”******. Trata-se, nesse extrato de Aristóteles, – e é isso que justifica minha intercalação entre colchetes – da lei razoável, precisamente no sentido de uma lei que aperfeiçoa, pelo reconhecimento da alteridade.

No caso do Brasil, é pela própria lei (mas injusta, porque parcial) que se expõe o que precisaria permanecer encoberto. Isso nos enoja e nos entristece (a repulsa melancólica). No entanto, poderíamos ver aí uma vantagem. Uma possibilidade de amadurecimento diante da realidade e sob efeito dela. O reconhecimento da necessidade de ajustar a lei.

Nossa constituição política atual (nossa politeia) se mostra absolutamente incapaz de denegar os piores impulsos humanos, que estão efetivos nas atuais relações de potência (a dunasteia)*******.








(*) Fim do mito, fim da ideologia? Conferir: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. L’idéologie Allemande. (1845-1846) Première partie. Trad. H. Hildebrand. –: Nathan, 2003 [1846].

(**) FREUD, S. O tema da escolha do cofrinho [1913]. Trad. P. C. Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 301-316.

(***) HOBBES, T. Leviathan. Indianapolis/Cambridge: Hackett, 1994 [1651]. I, xvi, §3. P. 101.

(****) FREUD, S. Prefácio a “Ritos escatológicos do mundo inteiro” [1913]. Trad. P. C. Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 346-350.

(*****) ARISTÓTELES, –. Politics. Trad. Benjamin Jowett. In: MCKEON, R. (Org.). The Basic Works of Aristotle. New York: Random House, 1941. I, 2, 1253a30. P. 1130.

(******) “Manter oculta” é uma forma de incluir-excluir. Conferir AGAMBEN, G. Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua I. Trad. H. Burigo. Belo Horizonte: Ufmg, 2004 [1995].

(*******) Para as relações entre politeia e dunasteia, conferir a lição de: FOUCAULT, M. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France, 1982-1983. Paris: Seuil/Gallimard, 2008 [1983]. P. 145.

Nota 9, quem disse?


Eu lhe apresento um número, por exemplo: 9, como expressão de um coletivo. Você tende a pensar: –  cada um disse “9”. Mas, 9 pode ser apenas a média que ninguém disse das notas que cada um de fato disse.





Sociologia antissocial e a mídia

A palavra “contemplação” (e não “teoria”) muitas vezes é utilizada para traduzir o grego “theoria”.

Disse, antes, que a sociologia atual é a contemplação da sociedade contemporânea. Quer dizer, em grande parte, nossa sociologia é espectadora (televisiva etc.). Contemplamos a imagem da sociedade, não a sociedade mesma. A imagem é uma obra de arte (muitas vezes coletiva, mecânica e involuntária). A imagem da sociedade é obra de uma arte social, que a nossa sociologia atual contempla e ajuda a reproduzir.



Sociologia antissocial



A sociologia atual (nossa contemplação da sociedade contemporânea) é antissocial. Ela insistentemente nos indica que não podemos esperar muito da sociedade, da qual, entretanto, dependemos. Estamos em tempos de éticas (e o plural aqui é muito importante), entendidas como soluções individuais ou modos de vida singulares. A política, esse modo de ser construtivo e comum entre modos de ser semelhantes, livres, amigos e rivais, tornou-se uma fantasia escolar. A amizade, que tece o social, está enfraquecida, restringe-se a encontros esporádicos, pequenos lampejos de amor, pequenas conexões, que, ainda, é verdade, surpreendentemente, mantêm vivo e flexível o tecido de que somos feitos. A rivalidade (que é um índice da heterogeneidade política, da diferença entre as disposições) cedeu à competição (a perseguição combativa das mesmas coisas), quando não ao ódio (que é a projeção da nossa tristeza para fora de nós em uma causa externa).


Nós e a democracia


Estamos, agora, diante da questão do tanto de verdade que uma democracia pode suportar: “Uma democracia que, ao mesmo tempo, possibilita o discurso-verdadeiro e o ameaça sem cessar”*.





(*) FOUCAULT, Michel. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France, 1982-1983. Paris: Seuil/Gallimard, 2008 [1983]. P. 168.



167


Não podemos, simplesmente, dar um tempo?



Como, pelo próprio princípio do real, somos levados ao irreal



Tudo começa com a exigência da realidade em postergarmos o prazer (o que Freud chamou de princípio da realidade). Aprendemos a postergar o prazer, para um momento futuro apropriado, e a encarar a premência da realidade no presente. Esse dispositivo razoável de adiamento do prazer, no entanto, acaba fixando-se; até a vida de prazer tornar-se possível apenas depois da vida e num outro mundo. Esse é o “mito religioso especial”*, que expressa a transformação do princípio da realidade em princípio da irrealidade.




(*) FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico [1911]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 117.

Si mesmo


Simone me fez a seguinte pergunta: – não sei para que serve o “mesmo”, quando se diz “si mesmo”; o “mesmo” aí me parece redundante.

Quando Simone me pergunta alguma coisa, parece-me (o que é uma ilusão; ela não pergunta, mas observa) que ela quer alguma resposta. Pois bem.

Não, Simone, “mesmo” ali não me parece reduntante.

Em, por exemplo, “para si” e “para si mesmo”, há uma diferença.

– Ele fez isso para si. – “Si” é ele mesmo, um outro “ele” ou “você”.

– Ele fez isso para si mesmo. – Nessa segunda enunciação, o “mesmo” tira a ambivalência do “si” da primeira, e indica que ele fez aquilo para si próprio. O “si mesmo” é uma referência ao “eu”. O “si” sozinho, não. A língua mostra que o “eu” não é o “si”.

O que terá “Si”mone a me dizer sobre isso?



O eu e o si


O eu é uma imagem de si. Uma imagem perdida de si. Uma imagem que se perdeu de si. O eu é uma imagem que se agarra a si mesma.



Princípio de identidade


Eu sou isso. Isso sou eu. Eu sou eu.

A identidade é uma espécie de transitividade:
(A=B; B=C; então: A=C)
(A=B; B=A; então: A=A)

que passa por algo de objetivo (por algo de exterior ou, talvez, por algo que se exterioriza; aqui chamado de “isso”).


Identidade e narrativa


“Somos isso que contamos de nós mesmos”.

Duas objeções. A narrativa, num certo aspecto (n’outro, parece ser o contrário), restringe a complexidade da experiência, atém-se ao que considera essencial. Mas, em todos os seus aspectos, quando simplifica ou quando intensifica a experiência, há na narrativa uma espécie de falsificação, maior ou menor, do vivido. Então, se nos identificamos com a nossa própria narrativa, nos falsificamos. Identifico-me com isso que, de fato, não fui (ou não fui completamente).

Segunda objeção, psicanalítica. Há uma outra história viva por trás, por baixo, da história que o eu conta ou impõe para si (a ambivalência do “si” aqui é proposital; pois o “si” é anterior a “eu” e a “ele”), e com a qual se identifica. Uma história que nunca é completamente narrada (inenarrável).

Terceira objeção, ética. A narrativa conta o que se passou. Inventa o passado. E a identidade: eu sou isso mesmo que fui. Idêntico a mim mesmo. Na ética, trata-se porém do devir, da metamorfose (uma outra figura diferente da mesma forma) ou, no limite, da transformação (dar-se uma forma diferente).








A expressão, a beleza e a coisa


1) Uma expressão do feio pode ser bela.

2) Uma expressão pode ser bela, sem falar do belo.

3) Não é porque fala do belo que uma expressão é bela.

4) Uma expressão pode ser bela, sem falar de beleza.

5) Uma bela expressão não necessariamente fala do belo.

6) Um texto não é belo porque fala do belo, porque tem o belo como objeto, ou porque tem o belo como referência.

7) A beleza da expressão não é a sua referência.

8) Não é bela uma expressão porque se refere ao belo.

9) Não é o belo objeto de referência que torna bela uma expressão.

10) Uma bela expressão que fale de coisas feias. Isso é totalmente possível.

11) Que uma bela expressão se refira a coisas feias, isso é totalmente possível.

12) Expressar belamente o feio, isso é possível.

13) Falar belamente do feio.

14) Uma fala pode ser bela, mesmo que fale do que é feio.

15) “Isso é feio, não quero vê-lo”. Mas se eu falo belamente do feio, você me ouve.

16) Objeto feio. Imagem bela do objeto feio.

17) Coisa feia. Ele fala com beleza de coisas feias.

18) Coisa feia. Imagem bela da coisa feia não torna bela a coisa feia.

19) Coisa feia. Imagem bela. Não porque pinte a coisa como bela. Mas bela no seu próprio ser.

20) Belo filme de uma coisa feia.

21) Vi um belo filme de uma coisa feia. Onde está a beleza, em mim, no filme, na coisa?

22) A coisa é feia; há uma bela expressão dela.

23) O que faz bela uma expressão não é a coisa que ela expressa.

23bis) O que constitui a beleza de uma expressão não é a coisa expressa.

24) A expressão que expressa a coisa feia pode ser bela.

25) O feio expresso pode aparecer belamente.

26) Como belo.

27) O feio pode ser expresso com beleza.




Da mistura de filosofias


Estamos convencidos (ao que nos parece; afinal, como podemos ter alguma certeza, depois de tanto caminharmos e nos enfraquecermos?) de que há filosofias e não a filosofia. Disso nos veio o gosto (ou a necessidade do gosto) pela mistura dos conceitos e pelos modos de caminhar, pela impureza do pensamento.

Cada filosofia é (parece ser) um caminho na linguagem. Mas a linguagem “é um labirinto de caminhos”*.

Por ser da linguagem, que é “um instrumento”**, uma ferramenta que trabalha o real, a filosofia é uma operação sobre o real. Depois de caminhar, o real já não é mais o mesmo, transformou-se. A filosofia trabalha o real ou parte do real, e o dispõe de um certo modo, por meio do qual, muitas vezes, novas realidades aparecem; velhas, desaparecem. Dizer que a filosofia produz o real talvez seja excessivo. Que as filosofias, no real, operam sobre o real, talvez mais ponderado.

Da nossa mistura decorre – como ocorre quando, sem um plano urbanístico mestre, vários arquitetos, várias equipes de engenheiros, operários, várias técnicas de construção agem em uma mesma cidade e em suas peças – que o real operado resultante é como uma Torre de Babel (muitas línguas, muitas superstições).





(*) WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophische Untersuchungen. Frankfurt: Suhrkamp, 2003 [1941]. #203. P. 134.

(**) Ibid. #569. P. 244.

166


Quando nos retiraremos (ou seremos retirados, tanto faz) do dualismo trágico-niilista? Quis dizer: dessa nossa situação (lançados de cá para lá e de volta) entre o trágico e o niilismo.



O instante imperial e os budismos


O mundo está em crise. Quer dizer, nesse instante, somos incapazes de apreendê-lo no pensamento. Incapazes de pensá-lo. O mundo parece não caber no pensamento (nem mesmo como capitalismo). Isso é possível? Ou isso apenas significa: um ótimo instante para os budismos?




O desejo de conhecer e a nova ideia: atração e repulsa


A ciência precisa do novo, para se encontrar – disso a atração; e não pode se deixar enganar pelo novo, para não se perder – disso a repulsa.




Um mesmo afeto pode ser causa da negação ou da aceitação de uma explicação


– Oh! Mas isso é nojento! É repulsivo!

Freud diz: n’isso está a causa da resistência à psicanálise. Isso explica a resistência à psicanálise*.

Wittgenstein, pelo contrário: n’isso está a causa da nossa adesão a ela. “Pode muito bem ser o fato de a explicação ser extremamente repulsiva que nos leva a adotá-la”**. Isso explica o sucesso da psicanálise.

Um mesmo afeto, a repulsa, assim, em diferentes sujeitos, é causa da negação ou da aceitação da explicação.

Em uns, a repulsa causa a negação da verdade: – Oh! Isso é nojento! Não pode ser verdade!

Em outros, a repulsa causa a aceitação como verdade: – Oh! Isso é nojento! Mas, devo confessar, é justamente isso que me atrai! Portanto, isso precisa ser verdade.




(*) Conferir, por exemplo: FREUD, Sigmund. As resistências à psicanálise [1925]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 16 (1923-1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 262. Neste texto, Freud enumera três razões inter-relacionadas da repulsa: isso é novo; isso é sexual; isso é judeu.

(**) Wittgenstein apud: ASSOUN, Paul-Laurent. Freud e Wittgenstein. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1990 [1988]. P. 41.


Analítica do golpe


Um golpe é uma enganação (ele me deu um golpe, me levou na conversa, e fez o que é contrário à lei); é também uma violência física (ele me deu um golpe, uma paulada). Há duas formas de violência, então, no golpe. Uma violência ao pensamento e à lei; uma violência ao corpo. Mas parece que essa distinção não nos importa muito. Ela não muda de fato a natureza do golpe. Golpe é golpe!

No entanto, um outro aspecto do golpe merece nossa atenção. Geralmente, diz-se que “A” deu um golpe em “B”. “B” sofreu um golpe. Alguém deu um golpe em “B”; então, é preciso saber quem. Ou ainda “A” deu um golpe; mas em quem? “A” enganou e bateu em quem?

Há golpe? Não há? Há engano? Há violência? Quem praticou o golpe? Quem sofreu o golpe? Que corpo foi violentado? Que lei foi violada? Mas essa lei não é ela mesma o resultado de um golpe? Pode ser, mas o que seria de nós humanos sem esse golpe? Sem a lei, não é o pior do humano que vem à tona? O poder faz a lei ou a suprime? Há golpe por aí? É evidente que sim! A realidade parece feita de golpes? Mas quem deu o golpe? Quem sofreu?

A analítica quer dar um impeachment no pensamento! Ela corrói a linguagem no seu uso. Precisamos ser pragmáticos (usuários das palavras) e não analíticos (não intérpretes das palavras). Viver as palavras vivas.

O impeachment será mais um golpe. E também é claro que o impeachment não vai melhorar nada. Outros golpes já foram dados e ainda estamos golpeados, e sendo golpeados, uns e outros, na nossa diferença. Então exigimos o nosso desimpedimento. A democracia está impedida. Desimpedir a democracia é fazer o que ainda nos resta de democracia, esse mínimo: uma nova eleição. Mas uma nova eleição sob as mesmas condições da última (com o muito dinheiro de uns poucos financiando as campanhas dos candidatos de umas poucas partes, e a mídia espetacular concentrada num partido ou num outro)?

Ora, e aquela reforma política anunciada? Não é esse o golpe que precisamos dar?





É ou tudo ou nada

Os pensadores-escritores arrumam e amarram suas ideias como contas num colar, firmemente vinculadas umas às outras. Você gosta de uma ou outra peça? Então tem que engolir todas... É que, sozinhas, as ideias parecem carecer de força elementar, precisar das outras para ficarem de pé. Quem sabe mais tarde, você pode ficar apenas com algumas, como a lembrança de um sabor preciosamente guardado, e regurgitar várias delas?





Pão e circo


Na maior parte do tempo buscamos uma vida de pão e circo (quando isso nos é dado pelo soberano, nem precisamos buscar, nem fazer nada).

Se buscamos: ou é porque nos falta – e estamos sob a linha da satisfação; ou é porque somos insaciáveis – e a linha da satisfação sempre recua como um horizonte (ou sempre a empurramos para além de onde estamos). É até difícil distinguir se a satisfação nos falta ou se nos falha.

Mas refrigerante e tv (que nos são dados em massa pela sociedade do espetáculo) não nos bastam. Ah, isso não!

Dizemos que refrigerante não é pão; nem tv, circo. O que é pão? O que é circo, então? Afinal, cada um vai precisar responder a seu modo. Mas, em geral, pão e circo são a felicidade. A felicidade passiva: a distribuição do pão e do circo. A felicidade ativa: a conquista deles.





Homonímia: entre duas coisas, de comum, apenas o nome

Uma fonte de erro: tomar a comunidade de nome (de gênero, de ideia ou de essência comum) como critério de identidade.

Assim, Francisco M. S. foi preso pelo nome: http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2016/03/faxineiro-passa-25-anos-preso-por-engano-no-lugar-de-irmao-de-criacao.html

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De...

– o dedo extirpado (separado do corpo)

e de...

– o dedo vivo (no corpo vivo integrado)

...o nome é o mesmo, mas as coisas nomeadas realmente distintas: um dedo é desanimado; outro, animado.


Conferir: Aristóteles, Partes dos animais, I, 641a19-21.


O movimento das ideias fixas


Nenhuma ideia fixa é tão fixa e sem movimento como ela se afirma. Pois qualquer ideia fixa pode ser uma ideia desconhecida ou uma ideia descoberta. Do desconhecimento à sua descoberta, a ideia fixa apresenta, portanto, um movimento. Não é totalmente a mesma, uma ideia fixa oculta que se tornou uma ideia fixa descoberta.



Entre duas alternativas


Entre duas alternativas, a criança, em meio aos seus desejos, sem saber o que escolher, escolhe as duas...  (Platão, O Sofista, 249d3). O adulto escolhe a que considera ser a melhor alternativa ou a menos pior. O ancião, que já não tem mais escolha, rejeita as duas.



Ouse pensar por si


Pensar é, de alguma maneira, mover-se, animar-se. O corpo animado pensa. A alma (pensamento parcial) é “princípio de movimento” no próprio corpo.

Quem tem no próprio corpo o princípio ou lei de seu movimento, este move-se sem ser movido, ou pensa por si.

Quem não o tem é movido. É um corpo inanimado, quase sem alma; pensa pelo outro, ou como que não pensa, é dominado pelo pensamento/comando/lei do outro.





165


[Ao contrário de Terêncio:] ainda (por falta de experiência, talvez) me surpreendo com os humanos.


O encantador desejo de paraíso


O paraíso não há? Há, talvez, o desejo de retorno (o que Freud chama de pulsão de morte) ao estágio anterior à vida (à vida como ela é: a vida no trágico, a vida do confronto cotidiano e necessário com a finitude). Esse encantador desejo de retorno é negação do trágico, negação da verdade efetiva das coisas, narcisismo secundário.






Eu o coloco entre os mais imprevisíveis

O ser humano está, para mim, entre os mais imprevisíveis (suas ações sobre minhas ações são, então, das mais inevitáveis).

Que incrível, não? Não deveria o ser humano ser o mais previsível para o outro ser humano? Afinal, o que há de mais comum ao humano, na natureza, do que outro humano? É o que afirma o prudente Terêncio: “Homo sum, nihil humani a me alienum puto” (Do humano, nada me parece estranho).

Disso se segue que: ou não sou humano, ou não sou prudente.






Do outro a narciso, de narciso à massa


Quando diante do mundo, a vida entre os iguais é uma espécie de suplício, dor e sofrimento, quando o mundo recusa ao indivíduo prazer, glória e riquezas, deixando-lhe apenas humilhação e fraquezas, é compreensível, para evitar a total falência e gerar um tanto de satisfação consigo mesmo, o recuo e a retroflexão, sobre o próprio eu, do amor aos outros e às coisas do mundo. Nessas condições, o próprio eu individual se torna objeto do seu amor (que, em condições opostas, está dirigido para fora, para o mundo); e o mundo, um reino de narcisos (essas flores cuja beleza interessa e apraz somente a si mesmas).

A intensidade retroflexiva da força amorosa (libidinal) é, porém, instável. Ao se acumular no eu, ela procura, ao mesmo tempo, cada vez mais intensamente, a sua destinação primeira: o fora. Mas, marcada pelo movimento de retroflexão, essa destinação impulsiva já não se pode dar no mundo na direção dos outros, da alteridade, da pluralidade. Ela precisa apenas repetir, ou refletir, o seu objeto (o eu) fora de si, identificando-se com o mundo. Nessas condições, só é possível amar o mundo se o mundo se torna o eu; o eu, o mundo. Isso é a forma da massa.






O imprevisível, o improvável e o preferível


O imprevisível é o acontecimento (que ainda escapa ao cone espacial e temporal do conhecimento determinado). O previsível, por sua vez, o mero evento.

No limiar do imprevisível, está o improvável (no limiar da eventualidade e à beira do trágico).

Situar-se ali ou aqui: às vezes, é uma questão de preferência (isto é, de acomodação/disposição do narcisismo).






O sensível mais próximo do puramente inteligível


O céu de estrelas é a imagem que, para nós, mais se aproxima da eternidade: ainda assim, move-se, perceptivelmente.

(Aristóteles pensava as estrelas como substâncias sensíveis eternas)







O devir sob controle


Nós atribuímos a geração e a corrupção, o devir, o aparecer ou o desaparecer de tudo o que aparece ou desaparece de nossa vista, sentidos, cabeça e humor, a quatro causas, à arte, à natureza, à fortuna (a deusa dos bons e dos maus ventos, da sorte e do azar) ou, ainda, ao acaso.

Mas, para Aristóteles (Metafísica, 12, 1070a5-10), na realidade, as causas são apenas de dois tipos. As coisas existem ou a partir da arte ou a partir da natureza.

A fortuna (Tyche) significa, de fato, apenas uma privação de arte. Se uma coisa de arte dá certo ou não (um bolo, por exemplo), isso não depende da sorte ou do azar, mas só da competência do artista. Um artista pleno, certo, sempre produz artes plenas, certas, infalivelmente. Um artista incerto, que não domina totalmente a sua arte, ora produz coisas certas, ora incertas. E isso não depende da fortuna, mas da capacidade do artista.

O acaso (ou a contingência sem causa, automática, automatos), por sua vez, é apenas uma privação de natureza (como necessidade causal). Se uma coisa natural não vem a ser de modo pleno (uma monstruosidade, por exemplo), isso não se deve ao acaso, mas a uma privação, uma insuficiência, de natureza.

Nada, porém, nos força a pensar como Aristóteles. Nada nos força a pensar de um jeito ou de outro, senão a própria realidade, a própria verdade do real, que conduz o nosso pensamento (ocasionalmente, para o lado da sorte ou do azar, ocasionalmente, para o monstruoso).





Filosofia sociológica do tipo humano normatizado, na sua relação com a massa

O tipo humano normatizado (ou, como se costuma dizer, complexo), vinculado a mentalidades e comportamentos padronizados, enquadrados em normas, constitui um sistema de diferenças.

Um sistema de diferenças é um mecanismo de confinamento e isolamento do humano em sua individualidade; individualidade essa, determinada por sua persona, pelo seu papel específico no sistema de diferenças.

A individualização normatizada é um efeito de uma multiplicidade de ordens (comandos), por isso, a um sistema de diferenças corresponde um sistema de poderes, uma hierarquia.

Indivíduos isolados uns dos outros, de fato, se desconhecem (ou, o que dá no mesmo, só se conhecem, a si e aos outros, em razão do seu isolamento e normatização). Em seu isolamento, os indivíduos são dotados de um poderoso “temor do contato do desconhecido”*. Pois todo contato se apresenta como uma possibilidade de ruptura do isolamento em sua persona que constitui o indivíduo normatizado.

Para o indivíduo, todo contato com um outro é uma ameaça erótica ao isolamento ou à descontinuidade individual**.

Todo contato é uma ameaça de morte. E isso se liga, diretamente, ao fato de que a essência da ordem é a ordem de fuga. Foge, senão te mato! A obediência à ordem é a fuga, ou seja, o envolver-se, o dobrar-se para dentro de uma persona, de um indivíduo normatizado que obedece a ordens. As ordens são as mais variadas injunções que perfazem o espírito humano.

A maneira cada vez mais moderna de se desfazer da normatização e do isolamento individual (tão modernos), no sistema de diferenças, é abolir as diferenças, a normatização e a descontinuidade pela produção mais ou menos espontânea de uma massa humana aberta (ou contínua).

Mais ou menos espontânea... A espontaneidade ou não, esse é o enigma político da massa.






(*) CANETTI, Elias. Massa e poder. 4ª reimpressão. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

(**) BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957].



Dois tipos humanos: o simples e o complexo?

O contraste na civilização não se dá, de fato, entre os tipos humanos simples e complexos; os primeiros, vinculados a mentalidades e comportamentos humildes, tradicionais, pouco elaborados; os segundos, a uma mentalidade e comportamento urbanos, que se complicaram, porque foram expostos às grandes contradições que constituem o mundo moderno.

O contraste na civilização se dá entre o tipo de humano simples e o tipo de humano normatizado; este último, vinculado a mentalidades e comportamentos disciplinados, enquadrados em normas, relativas à regularidade dos diversos papeis funcionais que compõem um sistema de diferenças estabilizado.

Não, portanto, entre o simples e o complexo, mas entre o simples e o normatizado.






Da urgência das urgências para a vida

A questão mais urgente para o indivíduo, certamente: – vale a pena continuar a viver? essa vida merece ser vivida?

No entanto, temos, não exatamente uma questão, mas um problema no ralo, a água do chuveiro não escoa, e inunda o banheiro e, logo, o assoalho do quarto, que demora dias para secar. Isso é realmente urgente. Essa urgência suspende a urgência menos imediata de nossos outros problemas e questões sem respostas. Ou, talvez, um vazamento de gaz no fogão seja ainda mais urgente. E, assim, essas urgências imediatas nos ajudam a viver e a decidir como viver.




A taxa crescente do desemprego

Inegavelmente, temos uma crise no emprego. Mas a crise também se encontra na nossa incapacidade de julgar o que o emprego e o desemprego de fato significam. Somente uma sociedade (dirigida por um partido) de trabalhadores (ou por um partido de “industriais” – industriais e trabalhadores são pólos de uma mesma relação) encara o aumento do desemprego (numa sociedade que mesmo assim pode garantir a satisfação das carências básicas) como problema e não como um plus de liberdade. O que podem, afinal, fazer de si humanos liberados do trabalho que se autocompreendem como essencialmente dedicados ao trabalho?

1958: “– O que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta. Certamente, nada poderia ser pior.”*

2018: Pela renda mínima universal...



(*) ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001 [1958]. P. 13.

O antirrei

Quando nasceu, todos, mas cada um a seu modo, segundo a sua própria imagem, tinham certeza de que estavam diante de um futuro rei.

Ele, pelo contrário, percorreu toda a sua vida, e dedicou todo o seu reinado, para provar que estavam todos enganados.


Falhar: fala-filho


Falar é pôr um filho no mundo. Fazer um filho, por sua vez, é pôr uma fala no mundo. Fala e filho são falhas no mundo, que de outro modo seria sem falhas, sem filhos, sem falas.






Diário de Moscou XXXV


Como um moribundo, com seu último fôlego, que basta para não mais do que três palavras...