A pulsão para a verdade
Vivemos em um mundo de inverdades (abandonados no deserto? sim, mas também com um adicional de liberdade). Isso nos constrange, nos impede, nos limita, nos entristece? Por isso, nossa pulsão para a verdade pode ser dita erótica (ou melhor, a força erótica assume a veste de uma potente vontade de verdade). Obviamente, isso comporta um perigo: abraçar-se à “verdade” a qualquer custo, por não suportar a visão abismal e a vida abandonada no deserto, sem heróis que nos guiem (sem Moisés). Um mundo de inverdades se mostra, no momento, como a condição da multidão livre – por isso, aproveitemos do sol, do ar, da água, dessas verdades, no deserto do real.
Sob controle
O objetivo do imperium é o controle (na medida do possível). Controle da variação incontrolável dos ventos da fortuna, ora favoráveis, ora desfavoráveis. O desejo de segurança e comodidades, de felicidade do corpo mole portanto, é honesto. A honestidade desse desejo indica sua viabilidade-componibilidade no conjunto dos outros desejos e dos desejos dos outros. O controle é honesto, nesse sentido.
Viver sob controle é a vida consciente, que é uma vida social, na linguagem. A linguagem trata do geral (mesmo no nome próprio). Ter tudo sob controle, isso é uma técnica. Na fotografia, por exemplo. A fotografia como espelho do real. A consciência fotográfica mostra o real como ele é. O real-como-ele-é da consciência, no entanto, é o real profundamente elaborado, transformado, mediado pela sua apreensão linguística, em vista da reação pragmática, do controle, do desejo de felicidade ou de não-infelicidade. Sob controle, aprendemos mais a evitar a infelicidade do que nos arriscar na felicidade.
Ter tudo sob controle na fotografia é dominar a técnica, pela repetição, quando a vida não se repete nunca.
Fotografia: conhecer e conhecer totalmente
Um é conhecer; outro, conhecer totalmente.
Conhecer totalmente responde a duas condições: conhecer a essência toda da coisa conhecida, e conhecer a coisa sem nada de nós misturado nela.
Não há conhecimento total de coisa nenhuma, concordo. Mas isso não que dizer que não conheçamos as coisas que imaginamos/fotografamos.
O conhecimento de qualquer coisa é inesgotável. São inesgotáveis o conhecimento da coisa mesma e o dos aspectos da coisa, das nossas relações com ela.
O real é fotografável
Propriedade do filósofo, mas não do profeta:
– “Quem ouve o filósofo torna-se filósofo. Quem ouve o profeta, por sua vez, não se torna profeta” (Spinoza).
O real tem a seguinte propriedade (tal como o filósofo, o real comunica, “dá do seu espírito”):
– Tudo que vem do toque/resvalo, da estima, do pensamento, da percepção, da escuta, da fotografia do real se soma ao real e o modifica. Logo, toda foto é e modifica o real.
Camponeses e bandidos II
O camponês: é o regime da consciência: um mecanismo de memória e antecipação constantes em relação ao presente: o passado vivido projetado no vivido por segurança e proteção. Ele nos faz rir (a nós, camponeses ou bandidos).
O samurai: a ação é ligada à compleição inteira, complexa e singular do agente. Por isso, ela é séria (diria Bergson). Não é ação da consciência (não é refletida), nem da inconsciência (nada ignora, nem a sua própria tragédia).
E o bandido? Ele gesticula automaticamente, inconsciente do todo que é. Dá espadadas para quaisquer dos lados. Seus gestos, ora querem proteger desesperadamente uma parte do seu corpo, essa ou aquela, ora atacar na esperança de uma vitória. Estimam-se mestres e bravos, atuam como covardes e escravos. Sua mão porta à frente um sabre, seu corpo aponta para a retaguarda. Essa inadequação (Bergson) é o que os torna cômicos. Neles também, rimos de nós mesmos.
E o bandido? Ele gesticula automaticamente, inconsciente do todo que é. Dá espadadas para quaisquer dos lados. Seus gestos, ora querem proteger desesperadamente uma parte do seu corpo, essa ou aquela, ora atacar na esperança de uma vitória. Estimam-se mestres e bravos, atuam como covardes e escravos. Sua mão porta à frente um sabre, seu corpo aponta para a retaguarda. Essa inadequação (Bergson) é o que os torna cômicos. Neles também, rimos de nós mesmos.
Restaram os governados e os governantes.
Diário de Berlim _ inflexio
Nossa dificuldade com o cinema é artística (técnica): é fazê-lo, não pensá-lo. Isso não ocorre com a fotografia.
Camponeses e bandidos
– Os sete samurais (Kurosawa, 1954) –
Três tipos humanos (três disposições afetivas): o camponês, o samurai, o bandido. Destes, os dois primeiros são puros:
O camponês é o humano submetido às paixões cativantes: mediocridade, superstição, medo, esperança, humildade, mesquinharia, espírito de poupança, contenção, vingança, coletivismo, trabalho e reprodução – aliado à natureza vital, é o alimento e a condição do humano animal.
O samurai é o individual virtuoso, livre: ambição (amor à honra), gosto do risco e da arte da guerra, coragem frente à morte, grandeza da alma, tragicidade (em todas as situações, sempre sai perdendo, e se sabe assim; por isso, desaparecerão), amor do expoente – é capaz do sacrifício da condição natural da qual depende.
O bandido é o revoltado covarde: preguiçoso, desregrado demais para aceitar a condição camponesa, mas pequeno e vicioso demais para se tornar um samurai.
O bandido é o revoltado covarde: preguiçoso, desregrado demais para aceitar a condição camponesa, mas pequeno e vicioso demais para se tornar um samurai.
No filme: Kikuchiyo, nascido camponês, se torna samurai e morre. Mantém, num só, a animalidade camponesa, a determinação e o individual samurai; por isso é cômico, tanto para camponeses, como para virtuosos.
Os samurais desapareceram desde então (século XVI).
Restaram os camponeses e os bandidos que somos.
Na massa, os rostos
Na massa, os rostos apontam,
olham, pensam, numa mesma direção...
Não há o face-a-face.
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A filosofia: uma atividade no impensado.
(avançar através da fronteira, ou retraçá-la em uma experiência-limite)
Liberdade e razão
Procuremos não definir a liberdade a partir da razão (dizer
livre todo aquele que age segundo ideias racionais). Mas, pelo contrário, a razão a partir da
liberdade (são racionais todos aqueles meus pensamentos que tendem a produzir no real a
minha liberdade; irracionais, os que tendem a reproduzir a minha catividade).
Riso: atenção e distração
Para Bergson, rimos do distraído, porque nele a vida se distrai, e isso lhe faz padecer os eventos mais impensados.
O contrário da distração é a vida atenta a si mesma: isso é a vida livre. A atenção à vida é seriedade, liberdade.
Porém, o que há de mais discutido, hoje em dia, entre os pedagogos, do que a constatação de que vivemos distraidamente e incapazes de aprender?
Vivemos desatentos, somos cômicos. Riria de nós aquele que nos prestasse a sua atenção. No entanto, no mundo da distração completa (uma imagem do pedagogo), ninguém prestaria atenção a nada e, assim, não haveria ocasião para o riso.
Mas, há o riso. Então, há atenção? Para Bergson, o atento, por meio do riso, corrige a distração da vida. “O riso é a própria correção. O riso é um certo gesto social, que sublinha e reprime uma certa distração especial dos homens e dos eventos”*.
Curioso parece, então, que o riso seja considerado o sinal de uma distração também naquele que ri. Afinal, não é verdade que quem ri se distrai? Quem ri deixa de prestar atenção à vida, mas, por isso, se torna cômico?
(*) BERGSON, Henri. Le rire. Paris: GF Flammarion, 2013 [1900]. P. 113.
Até que ponto é verdade que não rimos do que é sério?
O que é sério, por definição, não nos faz rir. Nossos atos de liberdade, por exemplo, são profundos, criadores, artísticos, espirituais, admiráveis, aumentam a nossa autoestima e, por isso, são sérios.
Kkk... Tomados do exterior, porém, podemos (enquanto cínicos debochados) ter uma outra visão sobre nossos supostos atos livres... Nos orgulhamos de nossa liberdade, quando, de fato, estamos submetidos à necessidade da natureza e alheios a nós mesmos! Aparece ao cínico como cômico esse nosso orgulho, fruto da ignorância de nossa própria situação. O que é interiormente sério e admirável pode ser, portanto, exteriormente cômico e vexaminoso!
Assim, se, como diz Bergson, “tudo o que é sério na vida vem da nossa liberdade”*, então o cínico debochado estaria a rir o tempo todo.
No entanto, contrariando o cinismo, e fisgando o que há de Spinoza em Bergson, seria possível, na natureza, ser livre verdadeiramente. A verdadeira liberdade é o desdobramento no real (ou na vida) da necessidade da sua própria natureza, exclusivamente.
Ok, o que é livre é sério. Mas, como não somos inteiramente livres, podemos, livremente, rir de nós mesmos. Já o escravo enquanto escravo não pode (pode apenas deplorar a sua situação e impasse). Rir de si mesmo – olhe como eu faço o que faço, automaticamente, mecanicamente, como possuído; isso é engraçado, porque poderia ser diferente – já é um ato da liberdade, por envolver alguma autocompreensão e vislumbrar um outro modo de ser. O escravo enquanto escravo permanece sempre sério, nunca ri de si mesmo.
Nesse sentido, rir de si mesmo é um gesto de liberdade. Surge do livre-conhecimento do que é trágico em nós e se crê livre (e por isso é cômico).
Por sua vez, o riso do cínico debochado é um riso escravo (ele não ri de si mesmo; para rir, precisa dos outros).
(*) BERGSON, Henri. Le rire. Paris: GF Flammarion, 2013 [1900]. P. 108.
A cidade organizando a vida
A racionalização da vida – a coordenação eficaz e repetida de nosso espírito e de nossos gestos com os instrumentos e aparelhos dispostos pela cidade para os mais diversos fins, de tal modo que os fins da cidade acabam por se substituir aos fins do espírito – é “o mecanismo superposto à vida”*. E isso é, para Bergson, o cômico (le comique), o que nos faz rir.
No entanto, a vida racionalizada, ela mesma, quase não ri de si própria; porque, eficaz e repetida, já não é vida, já que “a lei fundamental da vida é a de não se repetir jamais!”**.
Assim, à medida que a racionalização da vida envolve mais e mais os corpos, ela deixa de ser risível. Ela chega então a nos fazer querer chorar?
(*) BERGSON, Henri. Le rire. Paris: GF Flammarion, 2013 [1900]. P. 88.
Assim, à medida que a racionalização da vida envolve mais e mais os corpos, ela deixa de ser risível. Ela chega então a nos fazer querer chorar?
(*) BERGSON, Henri. Le rire. Paris: GF Flammarion, 2013 [1900]. P. 88.
(**) P. 80.
Golpe e revolução
Ortega y Gasset pensou a revolução como o transbordamento das forças sociais sobre o “poder público”, que é a força estatal, a força que o Estado possui para reprimir o levante social.
Para ele, o poder público, atualmente (ele escrevia em 1927), é muito superior às forças sociais, de tal modo que a revolução tornou-se impossível, pelo menos na Europa. “¡Adiós revoluciones para siempre! Ya no cabe en Europa más que lo contrario: el golpe de Estado”*.
Assim, com o excesso do poder público, as únicas variações possíveis nos regimes políticos ocorrem por meio de golpes de Estado. Uma troca de figuras comandantes. O comando do poder público passa para as mãos daqueles que, com maior facilidade, ou seja, com a menor violência possível, podem garantir o controle das forças sociais.
(*) ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas. P. 84.
A carruagem deixa rastos na lama porque é pesada
As palavras que dizemos são pesadas. Pesam naqueles a quem as dirigimos. Pesam em nós que as pronunciamos.
Objetos do desejo imbecil
Até que ponto estamos, de fato, nesta disposição do nosso modo de ser?
Falo desta:
Não poder mais se privar no imediato de nenhum pequeno prazer. Não poder mais experimentar o desprazer da menor privação, sequer temporariamente. Tudo tem de ser imediatamente satisfeito. Tudo que se propõe virtualmente ao nosso desejo como objeto, transforma-se, de imediato, em falta, em carência essencial.
Maioria mínima
Problema da maioria simples: por exemplo, 50,5% contra 49,5% dos votantes; digamos, com uma “pequena” abstenção de 20%. Uma minoria, aí, decide.
De dois males, é claro, preferimos o menor, e até lutamos por ele
Entre ser dominado e ser bem-dominado, o que preferimos?
Que lutemos por nosso próprio mal! (isso é o golpe!)
Luta pelo reconhecimento
Certamente: há aí um desejo... mas quanto não há, nesse desejo, de dominado (de não livre, de determinado pelo outro, de alterius juris)? quanto não há de despojamento do direito, nessa luta por direitos? Quanto não há, na luta pelo reconhecimento, de desejo de ser [bem-]dominado?
Salus
Bartleby, postado ante a janela que se abre para uma parede cega de um outro prédio. A 2 ou 3 metros do seu nariz. E, a uma altura praticamente infinita. Diante do muro. Perceber (enfatizar, ou poduzir) distinções.
Extrema lucidez e alucinação
A extrema lucidez afinal não enxerga as sombras que a sua luz intensa projeta (historicamente). A sua luz, que há, sobra por sobre as sombras. Isso é a alucinação.
Incertitude jurídica e alucinação: Kafka
As leis de natureza são por natureza fixas. As leis jurídicas (que querem imitá-las no crédito), porém, sofrem em nosso momento de uma instabilidade alucinante. Como a maré, entram em vigor, e em seguida se retiram, para voltar no instante. Então, como ficamos? De tal maneira que já não sabemos o que está juridicamente vigente e o que não está. Sem lei, com lei. Ou com lei, sem lei?
A massa vem depois III - a “autêntica” filosofia
Vejamos o exemplo de OyG, na sua crítica ao “hombre-masa”.
“la masa... necessita referir su vida a la instancia superior, constituida por las minorias excelentes [...] los hombres excelentes [...] sin ellos [...] la humanidad no existiria en lo que tiene de más essencial [...] El día que vuelva a imperar en Europa una auténtica filosofía – única coisa que puede salvarla – se volverá a caer en la cuenta de que el hombre es, tenga de ello ganas o no, un ser constitutivamente forzado a buscar una instancia superior”.
ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas.: 1936. P. 82.
A massa vem depois II
...Assim, alguns dos críticos da massa inclinaram-se para líderes supostamente enobrecidos. Com o desejo de evitar a massa, desviaram-se para o lado da sua causa: os nazismos, os fascismos, os personalismos, as ditaduras, os regimes de heróis virtuosos... (como, em pista viciada de boliche, as bolas, para a canaleta).
Foucault já nos alertara sobre isso, inclusive a respeito de críticos do capitalismo, na ideia de que “o capitalismo produz a massa” [...] “Vocês encontram em Sombart [o sociólogo do primeiro nazismo] de fato, desde os anos 1900, esta crítica que vocês bem conhecem e que se tornou, hoje em dia, um dos lugares-comuns de um pensamento do qual não sabemos ao certo qual é a articulação e a ossatura, crítica da sociedade de massa, sociedade do homem unidimensional, sociedade da autoridade, sociedade de consumo, sociedade do espetáculo etc. É isso o que dizia Sombart. É disso que os nazistas se apropriaram...”*
(*) FOUCAULT, Michel. Naissance de la biopolitique: Cours au Collège de France, 1978-1979. Paris: Seuil/Gallimard, 2004 [1979]. P. 117.
A massa vem depois
A crítica à massa funciona mais ou menos assim:
– A massa é indolente, inobediente, quer governar, mas não se governa. Ela precisa da liderança do nobre (do ser humano destacado) para governá-la, para que se mantenham as medidas, e ela chegue a algum lugar.
No entanto, essa crítica toma o efeito pela causa, pois é a liderança, a dominação, que produz a massa e não o contrário.
Isso é o que nos diz Freud, se o lermos com atenção (isto é, com tempo): “...ele [o líder] os compeliu, por assim dizer, à psicologia da massa. Seus ciúmes sexuais e sua intolerância vieram a ser, em última análise, as causas da psicologia da massa”*. O líder é a causa da massa, não o efeito. A massa vem depois.
(*) FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu [1921]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Obras completas. Vol. 15 (1920-1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 87.
Disposição índia XIV, ainda OyG
Frequentemente, a plebe é alvo de um preconceito: dizem-lhe massa: ela é não mais que plebe ou o desejo de cada um de levar a vida ex suo ingenio.
A massa enquanto massa (homogênea, impensante, imbecil, recessiva) provavelmente existe, mas temos de prestar atenção no que dizem aqueles que se atacam à massa. Não estariam, na verdade, atacando a plebe, na defesa da nobreza hierárquica, contra os exercícios democráticos?
Ortega y Gasset, em seu “livro lúcido”*, por exemplo, fala mal do “hombre-masa”: “el hombre vulgar, [que] antes dirigido, ha resuelto gobernar el mundo”...
E, logo em seguida, para mostrar que a vida fácil, a vida de gozo, a disposição índia, leva a “su irremediable degeneración”, ele escreve [segurem o estômago, Calibãs!]:
“Así, para referirme a una dimensión muy concreta de la vida corporal, recordaré que la espécie humana ha brotado en zonas del planeta donde la estación caliente quedaba compensada por una estación de frío intenso. En los trópicos el animal hombre degenera, y vice versa, las razas inferiores – por exemplo, los pigmeos – han sido empujadas hacia los trópicos por razas nacidas después que ellas y superiores en la escala de evolución”** .
(*) HUISMAN, Denis. Dicionário de obras filosóficas. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1993]. P. 475.
(**) ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas: 1936. P. 71 - 74.
Ética da excelência e ética da diferença
Na ética da excelência, o singular destaca-se no grupo. É o mesmo, mas destaca-se como o melhor do mesmo. Virtude como excelência. Entre os músicos, o bom músico (o bom tocador de lira...). Entre um grupo de humanos, trata-se de ser o melhor entre eles, o excelente.
Na ética da diferença, o singular destaca-se do grupo. É o outro, destaca-se pela diferença em relação ao grupo do qual emerge. Entre um grupo de humanos, trata-se de outro modo de ser, de não mais fazer parte deste grupo.Virtude como diferença.
Escuridão
[luzes/visão][está difícil pensar][as poucas palavras
saem como bolhas de ar desde a profundeza][seguir em f...]
Ontologia política
O nosso regime ontológico[-ético]-político[-econômico] goza (sem silêncio), quando afirmamos que o nosso grande problema é a corrupção sistêmica dos políticos.
Ontologia aqui é a história da constituição do sistema dos nossos modos de ser.
Político-psicanálise V: – o nosso grande problema: a corrupção?
Certa relação de causa sistêmica a efeito de superfície funciona desse jeito: se eliminamos um efeito, a causa produz, repete, o efeito seguinte numa série indefinida. Um efeito deixa de ser, outro, outros ocupam seu lugar.
O nosso problema político, portanto, não é a corrupção, não é uma questão moral, de fraqueza moral dos políticos profissionais. Tomar a corrupção como o nosso problema por excelência encobre a realidade do real político. Toma o efeito pela causa.
A corrupção é apenas um dos derivados, e não o mais importante, do regime dos modos de ser, do modo de funcionamento do ser político historicamente constituído, da nossa ontologia política, da história da constituição dos nossos modos de ser politicamente entre os outros.
Nosso atoleiro, nossa repetição compulsiva, isso em que ainda nos eternizamos, ainda é a escravidão – ou seja, um tipo de relação política de produção. Uma fixação histórica. Na repetição, o tempo não passa.
Ética como individuação e o grupo
Pensar (por um momento) a ética como processo de individuação.
A ética, ainda assim, pode remeter ao grupo. A individuação é
um processo de singularização. O indivíduo que se singulariza, a partir de uma
elaboração, de um aperfeiçoamento, de um trabalho que efetua sobre si
mesmo, é alguém que faz de si um indivíduo singular, destacando-se de um grupo. Mas
destacar-se de um grupo de pertença, fazer de si mesmo um indivíduo de
destaque, alguém de destacado, pode ter como finalidade o ingresso em um outro grupo, que é um grupo
seleto. Isso quer dizer um grupo escolhido.
20 centavos bastam, por um momento
A favor dessa colocação, noto que a minha relação ergonômica a objetos transformou-se
desde que eu deixei crescer, apenas 2 ou 3 mm além do habitual, as unhas dos dedos da mão direita (salvo a do mindinho). Com isso, apresentou-se também uma leve mudança em minha
disposição mental (estado, capacidade
afetiva, personalidade, engenho).
Disposição índia XIII – OyG
Ao ler Ortega y Gasset* (parecem dois, mas se trata de um só), quando ele fala do vulgo e do nobre, não posso me impedir de lembrar daquelas duas disposições que eu havia mencionado, a disposição índia e a disposição superação-de-si.
Mas a orientação de OyG, a maneira com que OyG passeia pelo mundo dividido em dois, é exatamente adversa à minha. OyG condena peremptoriamente, em nome do que é nobre, o vulgo, o selvagem, que para ele é igual ao bárbaro, como um perigo vital. Aí novamente a vida... e, portanto, a biopolítica.
E mais, a diferença entre o nobre e o humano vulgar, para ele, é uma questão moral. O nobre reconhece e assume o esforço necessário para superar a si mesmo. O vulgo, indolente, vive sem esforço; apenas usufrui dos frutos do esforço civilizatório.
“Um livro lúcido”, assim alguém julgou esse ensaio de OyG. Não me parece, no entanto, que haja lucidez ali, mas uma arraigada impossibilidade de enxergar o que estava acontecendo, porque preconceituosa. O preconceito é indesculpável no pensador, pois no preconceito deixa-se de pensar.
(*) ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas. 1936.
Disposição índia XII, XI, X, IX, VIII, VII, VI, V, IV, III, II, I
Toda nudez será castigada
Escrito em algum lugar (não importa onde), em torno a Nelson Rodrigues e aos anos 1960: ...“uma sociedade corrupta, dominada pela hipocrisia, despreparada para os desafios da modernidade”.
Psico-político-análise: a nudez brasileira
Massa, plebe e miopia
Difícil discernir, num falante, quando se trata de desprezo da massa (da homogeneidade) ou de desprezo da plebe (do que não é nobre), pois a plebe não está, em geral, massificada ou homogeneizada. Diz-se da plebe que ela é massa. Ela é tratada como se fosse. Muitas vezes, no entanto, isso é apenas um sintoma de miopia (de quem olha de longe e não enxerga bem).
Nobre é o indivíduo especial que se destaca da plebe, do vulgo, do humano vulgar, de algum modo, seja pelo talento artístico, pela formação intelectual, pela beleza, pela riqueza, pela raça ou seja por que for. Na sua pretensa distância, o nobre míope – ou quem se imagina nobre por, além de ser míope, sofrer também de hipermetropia – percebe a plebe sempre como massa.
Psico-políticanálise IV: fascismo e narcisismo
O que é o fascismo na sua relação com um certo narcisismo e com a negação do Outro? Um certo amor da forma do Mesmo. Um certo ódio da forma do Outro. O fascismo é o ódio ao Outro? Ódio à liberdade? Fascismo, a política cativante da massa?
A origem dos neologismos na filosofia
Alguns obtêm a destreza na escrita antes de filosofar. Já sabem escrever habilmente, antes de começarem a escrever filosoficamente. Seus primeiros textos filosóficos já surgem bem-escritos. Já possuem toda a língua, antes de fazerem filosofia.
Outros só adquirem a técnica e o domínio da língua no momento em que começam a pensar filosoficamente, tomam a técnica da língua como uma exigência filosófica. Possuem a língua à medida que se desenvolve sua filosofia.
Em geral, os primeiros nunca se valem de neologismos.
Apropriações consolidadas na linguagem
“Homens” – para referir-se a todos os humanos: mulheres inclusive.
“Americanos” – para referir-se aos estado-unidenses, com exclusão de todos os outros americanos.
Problematizar
Contragolpe
Faltou o contragolpe.
Dilma dizia: é golpe! E de fato foi. Mas ela não reagiu como se fosse. Dilma, ela mesma, não levou o golpe a sério: não deu o contragolpe. Afastou-se, tranquilamente, na aparência e no respeito da aparência da legalidade. Poderia ter permanecido fisicamente no seu posto, até que a polícia ou o exército viesse, pela violência, afastá-la.
INDIGN-
O terrível fel da indignação... essa paixão pode ser paralisante (nos subtraindo a potência da ação)...
O obscuro lugar da lei
Paradoxo jurídico:
– Usam a lei para se esconderem da lei.
“Este(s) se refugia(m) na obscuridade do não-ser e, vinculado(s) a ela, se camufla(m); é a obscuridade do lugar que torna difícil reconhecê-lo(s)”*.
(*) PLATÃO. Le Sophiste. Trad. Nestor L. Cordero. Paris: GF Flammarion, 1993. 254a. P. 170.
– Usam a lei para se esconderem da lei.
“Este(s) se refugia(m) na obscuridade do não-ser e, vinculado(s) a ela, se camufla(m); é a obscuridade do lugar que torna difícil reconhecê-lo(s)”*.
(*) PLATÃO. Le Sophiste. Trad. Nestor L. Cordero. Paris: GF Flammarion, 1993. 254a. P. 170.
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