Identidade e narrativa


“Somos isso que contamos de nós mesmos”.

Duas objeções. A narrativa, num certo aspecto (n’outro, parece ser o contrário), restringe a complexidade da experiência, atém-se ao que considera essencial. Mas, em todos os seus aspectos, quando simplifica ou quando intensifica a experiência, há na narrativa uma espécie de falsificação, maior ou menor, do vivido. Então, se nos identificamos com a nossa própria narrativa, nos falsificamos. Identifico-me com isso que, de fato, não fui (ou não fui completamente).

Segunda objeção, psicanalítica. Há uma outra história viva por trás, por baixo, da história que o eu conta ou impõe para si (a ambivalência do “si” aqui é proposital; pois o “si” é anterior a “eu” e a “ele”), e com a qual se identifica. Uma história que nunca é completamente narrada (inenarrável).

Terceira objeção, ética. A narrativa conta o que se passou. Inventa o passado. E a identidade: eu sou isso mesmo que fui. Idêntico a mim mesmo. Na ética, trata-se porém do devir, da metamorfose (uma outra figura diferente da mesma forma) ou, no limite, da transformação (dar-se uma forma diferente).








A expressão, a beleza e a coisa


1) Uma expressão do feio pode ser bela.

2) Uma expressão pode ser bela, sem falar do belo.

3) Não é porque fala do belo que uma expressão é bela.

4) Uma expressão pode ser bela, sem falar de beleza.

5) Uma bela expressão não necessariamente fala do belo.

6) Um texto não é belo porque fala do belo, porque tem o belo como objeto, ou porque tem o belo como referência.

7) A beleza da expressão não é a sua referência.

8) Não é bela uma expressão porque se refere ao belo.

9) Não é o belo objeto de referência que torna bela uma expressão.

10) Uma bela expressão que fale de coisas feias. Isso é totalmente possível.

11) Que uma bela expressão se refira a coisas feias, isso é totalmente possível.

12) Expressar belamente o feio, isso é possível.

13) Falar belamente do feio.

14) Uma fala pode ser bela, mesmo que fale do que é feio.

15) “Isso é feio, não quero vê-lo”. Mas se eu falo belamente do feio, você me ouve.

16) Objeto feio. Imagem bela do objeto feio.

17) Coisa feia. Ele fala com beleza de coisas feias.

18) Coisa feia. Imagem bela da coisa feia não torna bela a coisa feia.

19) Coisa feia. Imagem bela. Não porque pinte a coisa como bela. Mas bela no seu próprio ser.

20) Belo filme de uma coisa feia.

21) Vi um belo filme de uma coisa feia. Onde está a beleza, em mim, no filme, na coisa?

22) A coisa é feia; há uma bela expressão dela.

23) O que faz bela uma expressão não é a coisa que ela expressa.

23bis) O que constitui a beleza de uma expressão não é a coisa expressa.

24) A expressão que expressa a coisa feia pode ser bela.

25) O feio expresso pode aparecer belamente.

26) Como belo.

27) O feio pode ser expresso com beleza.




Da mistura de filosofias


Estamos convencidos (ao que nos parece; afinal, como podemos ter alguma certeza, depois de tanto caminharmos e nos enfraquecermos?) de que há filosofias e não a filosofia. Disso nos veio o gosto (ou a necessidade do gosto) pela mistura dos conceitos e pelos modos de caminhar, pela impureza do pensamento.

Cada filosofia é (parece ser) um caminho na linguagem. Mas a linguagem “é um labirinto de caminhos”*.

Por ser da linguagem, que é “um instrumento”**, uma ferramenta que trabalha o real, a filosofia é uma operação sobre o real. Depois de caminhar, o real já não é mais o mesmo, transformou-se. A filosofia trabalha o real ou parte do real, e o dispõe de um certo modo, por meio do qual, muitas vezes, novas realidades aparecem; velhas, desaparecem. Dizer que a filosofia produz o real talvez seja excessivo. Que as filosofias, no real, operam sobre o real, talvez mais ponderado.

Da nossa mistura decorre – como ocorre quando, sem um plano urbanístico mestre, vários arquitetos, várias equipes de engenheiros, operários, várias técnicas de construção agem em uma mesma cidade e em suas peças – que o real operado resultante é como uma Torre de Babel (muitas línguas, muitas superstições).





(*) WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophische Untersuchungen. Frankfurt: Suhrkamp, 2003 [1941]. #203. P. 134.

(**) Ibid. #569. P. 244.

166


Quando nos retiraremos (ou seremos retirados, tanto faz) do dualismo trágico-niilista? Quis dizer: dessa nossa situação (lançados de cá para lá e de volta) entre o trágico e o niilismo.



O instante imperial e os budismos


O mundo está em crise. Quer dizer, nesse instante, somos incapazes de apreendê-lo no pensamento. Incapazes de pensá-lo. O mundo parece não caber no pensamento (nem mesmo como capitalismo). Isso é possível? Ou isso apenas significa: um ótimo instante para os budismos?




O desejo de conhecer e a nova ideia: atração e repulsa


A ciência precisa do novo, para se encontrar – disso a atração; e não pode se deixar enganar pelo novo, para não se perder – disso a repulsa.




Um mesmo afeto pode ser causa da negação ou da aceitação de uma explicação


– Oh! Mas isso é nojento! É repulsivo!

Freud diz: n’isso está a causa da resistência à psicanálise. Isso explica a resistência à psicanálise*.

Wittgenstein, pelo contrário: n’isso está a causa da nossa adesão a ela. “Pode muito bem ser o fato de a explicação ser extremamente repulsiva que nos leva a adotá-la”**. Isso explica o sucesso da psicanálise.

Um mesmo afeto, a repulsa, assim, em diferentes sujeitos, é causa da negação ou da aceitação da explicação.

Em uns, a repulsa causa a negação da verdade: – Oh! Isso é nojento! Não pode ser verdade!

Em outros, a repulsa causa a aceitação como verdade: – Oh! Isso é nojento! Mas, devo confessar, é justamente isso que me atrai! Portanto, isso precisa ser verdade.




(*) Conferir, por exemplo: FREUD, Sigmund. As resistências à psicanálise [1925]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 16 (1923-1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 262. Neste texto, Freud enumera três razões inter-relacionadas da repulsa: isso é novo; isso é sexual; isso é judeu.

(**) Wittgenstein apud: ASSOUN, Paul-Laurent. Freud e Wittgenstein. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1990 [1988]. P. 41.


Analítica do golpe


Um golpe é uma enganação (ele me deu um golpe, me levou na conversa, e fez o que é contrário à lei); é também uma violência física (ele me deu um golpe, uma paulada). Há duas formas de violência, então, no golpe. Uma violência ao pensamento e à lei; uma violência ao corpo. Mas parece que essa distinção não nos importa muito. Ela não muda de fato a natureza do golpe. Golpe é golpe!

No entanto, um outro aspecto do golpe merece nossa atenção. Geralmente, diz-se que “A” deu um golpe em “B”. “B” sofreu um golpe. Alguém deu um golpe em “B”; então, é preciso saber quem. Ou ainda “A” deu um golpe; mas em quem? “A” enganou e bateu em quem?

Há golpe? Não há? Há engano? Há violência? Quem praticou o golpe? Quem sofreu o golpe? Que corpo foi violentado? Que lei foi violada? Mas essa lei não é ela mesma o resultado de um golpe? Pode ser, mas o que seria de nós humanos sem esse golpe? Sem a lei, não é o pior do humano que vem à tona? O poder faz a lei ou a suprime? Há golpe por aí? É evidente que sim! A realidade parece feita de golpes? Mas quem deu o golpe? Quem sofreu?

A analítica quer dar um impeachment no pensamento! Ela corrói a linguagem no seu uso. Precisamos ser pragmáticos (usuários das palavras) e não analíticos (não intérpretes das palavras). Viver as palavras vivas.

O impeachment será mais um golpe. E também é claro que o impeachment não vai melhorar nada. Outros golpes já foram dados e ainda estamos golpeados, e sendo golpeados, uns e outros, na nossa diferença. Então exigimos o nosso desimpedimento. A democracia está impedida. Desimpedir a democracia é fazer o que ainda nos resta de democracia, esse mínimo: uma nova eleição. Mas uma nova eleição sob as mesmas condições da última (com o muito dinheiro de uns poucos financiando as campanhas dos candidatos de umas poucas partes, e a mídia espetacular concentrada num partido ou num outro)?

Ora, e aquela reforma política anunciada? Não é esse o golpe que precisamos dar?





É ou tudo ou nada

Os pensadores-escritores arrumam e amarram suas ideias como contas num colar, firmemente vinculadas umas às outras. Você gosta de uma ou outra peça? Então tem que engolir todas... É que, sozinhas, as ideias parecem carecer de força elementar, precisar das outras para ficarem de pé. Quem sabe mais tarde, você pode ficar apenas com algumas, como a lembrança de um sabor preciosamente guardado, e regurgitar várias delas?





Pão e circo


Na maior parte do tempo buscamos uma vida de pão e circo (quando isso nos é dado pelo soberano, nem precisamos buscar, nem fazer nada).

Se buscamos: ou é porque nos falta – e estamos sob a linha da satisfação; ou é porque somos insaciáveis – e a linha da satisfação sempre recua como um horizonte (ou sempre a empurramos para além de onde estamos). É até difícil distinguir se a satisfação nos falta ou se nos falha.

Mas refrigerante e tv (que nos são dados em massa pela sociedade do espetáculo) não nos bastam. Ah, isso não!

Dizemos que refrigerante não é pão; nem tv, circo. O que é pão? O que é circo, então? Afinal, cada um vai precisar responder a seu modo. Mas, em geral, pão e circo são a felicidade. A felicidade passiva: a distribuição do pão e do circo. A felicidade ativa: a conquista deles.





Homonímia: entre duas coisas, de comum, apenas o nome

Uma fonte de erro: tomar a comunidade de nome (de gênero, de ideia ou de essência comum) como critério de identidade.

Assim, Francisco M. S. foi preso pelo nome: http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2016/03/faxineiro-passa-25-anos-preso-por-engano-no-lugar-de-irmao-de-criacao.html

----

De...

– o dedo extirpado (separado do corpo)

e de...

– o dedo vivo (no corpo vivo integrado)

...o nome é o mesmo, mas as coisas nomeadas realmente distintas: um dedo é desanimado; outro, animado.


Conferir: Aristóteles, Partes dos animais, I, 641a19-21.


O movimento das ideias fixas


Nenhuma ideia fixa é tão fixa e sem movimento como ela se afirma. Pois qualquer ideia fixa pode ser uma ideia desconhecida ou uma ideia descoberta. Do desconhecimento à sua descoberta, a ideia fixa apresenta, portanto, um movimento. Não é totalmente a mesma, uma ideia fixa oculta que se tornou uma ideia fixa descoberta.



Entre duas alternativas


Entre duas alternativas, a criança, em meio aos seus desejos, sem saber o que escolher, escolhe as duas...  (Platão, O Sofista, 249d3). O adulto escolhe a que considera ser a melhor alternativa ou a menos pior. O ancião, que já não tem mais escolha, rejeita as duas.



Ouse pensar por si


Pensar é, de alguma maneira, mover-se, animar-se. O corpo animado pensa. A alma (pensamento parcial) é “princípio de movimento” no próprio corpo.

Quem tem no próprio corpo o princípio ou lei de seu movimento, este move-se sem ser movido, ou pensa por si.

Quem não o tem é movido. É um corpo inanimado, quase sem alma; pensa pelo outro, ou como que não pensa, é dominado pelo pensamento/comando/lei do outro.





165


[Ao contrário de Terêncio:] ainda (por falta de experiência, talvez) me surpreendo com os humanos.


O encantador desejo de paraíso


O paraíso não há? Há, talvez, o desejo de retorno (o que Freud chama de pulsão de morte) ao estágio anterior à vida (à vida como ela é: a vida no trágico, a vida do confronto cotidiano e necessário com a finitude). Esse encantador desejo de retorno é negação do trágico, negação da verdade efetiva das coisas, narcisismo secundário.






Eu o coloco entre os mais imprevisíveis

O ser humano está, para mim, entre os mais imprevisíveis (suas ações sobre minhas ações são, então, das mais inevitáveis).

Que incrível, não? Não deveria o ser humano ser o mais previsível para o outro ser humano? Afinal, o que há de mais comum ao humano, na natureza, do que outro humano? É o que afirma o prudente Terêncio: “Homo sum, nihil humani a me alienum puto” (Do humano, nada me parece estranho).

Disso se segue que: ou não sou humano, ou não sou prudente.






Do outro a narciso, de narciso à massa


Quando diante do mundo, a vida entre os iguais é uma espécie de suplício, dor e sofrimento, quando o mundo recusa ao indivíduo prazer, glória e riquezas, deixando-lhe apenas humilhação e fraquezas, é compreensível, para evitar a total falência e gerar um tanto de satisfação consigo mesmo, o recuo e a retroflexão, sobre o próprio eu, do amor aos outros e às coisas do mundo. Nessas condições, o próprio eu individual se torna objeto do seu amor (que, em condições opostas, está dirigido para fora, para o mundo); e o mundo, um reino de narcisos (essas flores cuja beleza interessa e apraz somente a si mesmas).

A intensidade retroflexiva da força amorosa (libidinal) é, porém, instável. Ao se acumular no eu, ela procura, ao mesmo tempo, cada vez mais intensamente, a sua destinação primeira: o fora. Mas, marcada pelo movimento de retroflexão, essa destinação impulsiva já não se pode dar no mundo na direção dos outros, da alteridade, da pluralidade. Ela precisa apenas repetir, ou refletir, o seu objeto (o eu) fora de si, identificando-se com o mundo. Nessas condições, só é possível amar o mundo se o mundo se torna o eu; o eu, o mundo. Isso é a forma da massa.






O imprevisível, o improvável e o preferível


O imprevisível é o acontecimento (que ainda escapa ao cone espacial e temporal do conhecimento determinado). O previsível, por sua vez, o mero evento.

No limiar do imprevisível, está o improvável (no limiar da eventualidade e à beira do trágico).

Situar-se ali ou aqui: às vezes, é uma questão de preferência (isto é, de acomodação/disposição do narcisismo).






O sensível mais próximo do puramente inteligível


O céu de estrelas é a imagem que, para nós, mais se aproxima da eternidade: ainda assim, move-se, perceptivelmente.

(Aristóteles pensava as estrelas como substâncias sensíveis eternas)







O devir sob controle


Nós atribuímos a geração e a corrupção, o devir, o aparecer ou o desaparecer de tudo o que aparece ou desaparece de nossa vista, sentidos, cabeça e humor, a quatro causas, à arte, à natureza, à fortuna (a deusa dos bons e dos maus ventos, da sorte e do azar) ou, ainda, ao acaso.

Mas, para Aristóteles (Metafísica, 12, 1070a5-10), na realidade, as causas são apenas de dois tipos. As coisas existem ou a partir da arte ou a partir da natureza.

A fortuna (Tyche) significa, de fato, apenas uma privação de arte. Se uma coisa de arte dá certo ou não (um bolo, por exemplo), isso não depende da sorte ou do azar, mas só da competência do artista. Um artista pleno, certo, sempre produz artes plenas, certas, infalivelmente. Um artista incerto, que não domina totalmente a sua arte, ora produz coisas certas, ora incertas. E isso não depende da fortuna, mas da capacidade do artista.

O acaso (ou a contingência sem causa, automática, automatos), por sua vez, é apenas uma privação de natureza (como necessidade causal). Se uma coisa natural não vem a ser de modo pleno (uma monstruosidade, por exemplo), isso não se deve ao acaso, mas a uma privação, uma insuficiência, de natureza.

Nada, porém, nos força a pensar como Aristóteles. Nada nos força a pensar de um jeito ou de outro, senão a própria realidade, a própria verdade do real, que conduz o nosso pensamento (ocasionalmente, para o lado da sorte ou do azar, ocasionalmente, para o monstruoso).





Filosofia sociológica do tipo humano normatizado, na sua relação com a massa

O tipo humano normatizado (ou, como se costuma dizer, complexo), vinculado a mentalidades e comportamentos padronizados, enquadrados em normas, constitui um sistema de diferenças.

Um sistema de diferenças é um mecanismo de confinamento e isolamento do humano em sua individualidade; individualidade essa, determinada por sua persona, pelo seu papel específico no sistema de diferenças.

A individualização normatizada é um efeito de uma multiplicidade de ordens (comandos), por isso, a um sistema de diferenças corresponde um sistema de poderes, uma hierarquia.

Indivíduos isolados uns dos outros, de fato, se desconhecem (ou, o que dá no mesmo, só se conhecem, a si e aos outros, em razão do seu isolamento e normatização). Em seu isolamento, os indivíduos são dotados de um poderoso “temor do contato do desconhecido”*. Pois todo contato se apresenta como uma possibilidade de ruptura do isolamento em sua persona que constitui o indivíduo normatizado.

Para o indivíduo, todo contato com um outro é uma ameaça erótica ao isolamento ou à descontinuidade individual**.

Todo contato é uma ameaça de morte. E isso se liga, diretamente, ao fato de que a essência da ordem é a ordem de fuga. Foge, senão te mato! A obediência à ordem é a fuga, ou seja, o envolver-se, o dobrar-se para dentro de uma persona, de um indivíduo normatizado que obedece a ordens. As ordens são as mais variadas injunções que perfazem o espírito humano.

A maneira cada vez mais moderna de se desfazer da normatização e do isolamento individual (tão modernos), no sistema de diferenças, é abolir as diferenças, a normatização e a descontinuidade pela produção mais ou menos espontânea de uma massa humana aberta (ou contínua).

Mais ou menos espontânea... A espontaneidade ou não, esse é o enigma político da massa.






(*) CANETTI, Elias. Massa e poder. 4ª reimpressão. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

(**) BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957].



Dois tipos humanos: o simples e o complexo?

O contraste na civilização não se dá, de fato, entre os tipos humanos simples e complexos; os primeiros, vinculados a mentalidades e comportamentos humildes, tradicionais, pouco elaborados; os segundos, a uma mentalidade e comportamento urbanos, que se complicaram, porque foram expostos às grandes contradições que constituem o mundo moderno.

O contraste na civilização se dá entre o tipo de humano simples e o tipo de humano normatizado; este último, vinculado a mentalidades e comportamentos disciplinados, enquadrados em normas, relativas à regularidade dos diversos papeis funcionais que compõem um sistema de diferenças estabilizado.

Não, portanto, entre o simples e o complexo, mas entre o simples e o normatizado.






Da urgência das urgências para a vida

A questão mais urgente para o indivíduo, certamente: – vale a pena continuar a viver? essa vida merece ser vivida?

No entanto, temos, não exatamente uma questão, mas um problema no ralo, a água do chuveiro não escoa, e inunda o banheiro e, logo, o assoalho do quarto, que demora dias para secar. Isso é realmente urgente. Essa urgência suspende a urgência menos imediata de nossos outros problemas e questões sem respostas. Ou, talvez, um vazamento de gaz no fogão seja ainda mais urgente. E, assim, essas urgências imediatas nos ajudam a viver e a decidir como viver.




A taxa crescente do desemprego

Inegavelmente, temos uma crise no emprego. Mas a crise também se encontra na nossa incapacidade de julgar o que o emprego e o desemprego de fato significam. Somente uma sociedade (dirigida por um partido) de trabalhadores (ou por um partido de “industriais” – industriais e trabalhadores são pólos de uma mesma relação) encara o aumento do desemprego (numa sociedade que mesmo assim pode garantir a satisfação das carências básicas) como problema e não como um plus de liberdade. O que podem, afinal, fazer de si humanos liberados do trabalho que se autocompreendem como essencialmente dedicados ao trabalho?

1958: “– O que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta. Certamente, nada poderia ser pior.”*

2018: Pela renda mínima universal...



(*) ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001 [1958]. P. 13.

O antirrei

Quando nasceu, todos, mas cada um a seu modo, segundo a sua própria imagem, tinham certeza de que estavam diante de um futuro rei.

Ele, pelo contrário, percorreu toda a sua vida, e dedicou todo o seu reinado, para provar que estavam todos enganados.


Falhar: fala-filho


Falar é pôr um filho no mundo. Fazer um filho, por sua vez, é pôr uma fala no mundo. Fala e filho são falhas no mundo, que de outro modo seria sem falhas, sem filhos, sem falas.






Diário de Moscou XXXV


Como um moribundo, com seu último fôlego, que basta para não mais do que três palavras...



Dose de mentira


A liberdade de um corpo é uma certa quantidade, que se mede pela dose de verdade que ele suporta. Mas também a mentira não é ilimitadamente suportável. A partir de uma certa dose, que depende do corpo, o corpo precisa expeli-la também.

O recurso contra a verdade é o narcótico, a ilusão, a fantasia, a magia, às vezes o humor. O recurso contra a mentira, sempre, a revolta, a nudez, a exposição à morte, às vezes o humor.

Agora, seria preciso pensar um corpo sem verdades e sem mentiras. Puro humor?




Diário de Moscou XXXIV – O manifesto moscovita se explica


Para falar segundo uma fórmula que sabemos ser excessiva: – nós, do MIVDCATCFDF, estamos cansados de ser razoáveis...

Falar não excessivamente exprime uma opinião razoável (nos termos de Aristóteles: uma verdade grosseira, imprecisa, aproximada, 1094b20), não narcísica (ou mágica) que leva em consideração, de maneira constitutiva, a opinião de muitos outros (1098b25-30).

Com uma formulação excessiva, não razoável e mágica, queremos apenas dar expressão a uma ideia outra. Nosso propósito, portanto, não é nos dirigir à verdade, mas à gente razoável.

A ideia que exprimimos criticamente – não à guerra, não ao petróleo, não à melancolia! – e positivamente – viva a democracia, a energia solar e a alegria da vida em comum! – é certamente excessiva, no sentido de que ela não encontra, na situação atual, suas condições existenciais.

Mas a ideia oposta (a civilização da guerra, do petróleo e da tristeza) é tão excessiva quanto aquela que propomos, e pela qual manifestamos, no sentido de que ela está rapidamente perdendo suas condições existenciais no ser, em direção ao nada, pois ela é certamente inadequada.

“A gente de França deve...” antes de ser uma fórmula do dever é uma forma mal-expressa do manifesto. Diríamos: “A gente de França, nós iremos...”, se nós, moscovitas, pudéssemos, também nesse caso, empregar a primeira pessoa do plural.



Diário de Moscou XXXIII – Manifesto moscovita

Os moscovitas-internacionalistas-verdadeiros-democratas-comunistas-ateus-trágicos-cínicos-felizes-de-frança, MIVDCATCFDF, têm isso para si certo: ao mostrar a sua absoluta inadequação ao que acontece com a gente em França e no mundo, a gente de França deve forçar o atual governo francês a “abdicar” de seu posto a seu favor, para que a gente de França estabeleça uma reforma política (democrática: não à guerra!), econômica (comunista: não ao petróleo e derivados!) e ética (eudaimonista: não à melancolia!). Sob o calor dessa situação? Não, mas dentro de duas semanas ou dois meses.





Diário de Moscou XXXII – Moscovitas do Mercado

.




Ontogênese da paixão pela justiça social

Para Freud, o desejo de equidade (tratamento igual) e o esforço dos indivíduos na reivindicação e implantação de uma justiça social é, no seu dinamismo ontogenético, uma “formação reativa” derivada de uma conclusão dos jogos de potência (dynamis): “Quando não se pode ser o favorito, então nenhum dos outros deve ser favorecido”*.



(*) FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu [1921]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Obras completas. Vol. 15 (1920-1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 81.

160


O real é como um canal (olho-ouvido) pelo qual perpassam, em seu modo material (imagens-sons), verdades eternas evanescentes.



A essência do documentário II


A questão da essência do documentário: – o que é um documentário? O que faz do cine-documentário algo específico e distinto do restante do cinema?

Há o cinema. Há, primeiramente, a ficção, como gênero cinematográfico.

A ficção fílmica envolve a imaginação, a fantasia e, no espectador, um certo esquecimento do real, uma entrega momentânea ao devaneio, à ilusão. A ficção é mais ou menos independente do modo como as coisas realmente acontecem. Há um relativo descompromisso com a verdade, diante da ênfase colocada nas questões plásticas ou estéticas.

Há, por outro lado, o documentário. Então, deve haver algo de específico ao documentário, que o torne distinto da ficção, que faça do documentário um segundo gênero de cinema.

Isso aparece imediatamente no material do documentário. Esse material é a verdade da realidade. O cine-documentário (à diferença do cinema-ficção) filma/mostra a realidade, o real. O documentário espelha o real.

*

Temos, então, no documentário, uma composição feita com um material imagético bruto (imagens e sons) captados diretamente do real.

Muito bem. Porém, nessa composição que é o documentário, esse material bruto captado precisa ser capturado.

A composição do documentário é uma elaboração do real, na medida em que é uma elaboração do seu material imagético bruto sob algum princípio de realidade, que dá alguma coesão e coerência ao que se filma e se mostra.

Esse princípio de realidade, o documentarista, na medida em que ele se destina à verdade, o pressupõe como constituinte do real e, ao mesmo tempo, do filme.

No filme, o princípio de realidade orienta a seleção dos planos filmados, a montagem.

De alguma maneira, o documentarista, na sua busca de inteligibilidade do real, na busca da coesão e da coerência das imagens e sons, submete o material bruto a esse princípio de realidade pressuposto.

Às vezes, também, é no próprio material imagético bruto que o cineasta-documentarista encontra, descobre, esse princípio de realidade.

*

A captação e a composição do material imagético bruto ou real de imagens e sons documentais indicam uma captura do real (que é muito mais do que uma simples captação).

Sob análise, poderíamos dizer que essa captura se efetua sob dois operadores.

Um operador sensível, imagético ou plástico, atuante nas escolhas de enquadramento, de iluminação, de captação do som, de trilha sonora, na seleção plástica e na justaposição, repetição, afastamentos das cenas e dos planos.

E um operador inteligível ou cognitivo, atuante na inteligibilidade, na interpretação, na ordenação e na articulação do material imagético, sob algum princípio de realidade, para a produção da verdade.

Certamente, eles não são dois operadores distintos, mas, antes, dois aspectos da operação fílmica do documentário revelados pela análise.

*

Esse elemento operador plástico somado ao operador cognitivo constituem o que poderíamos chamar de elemento estético incontornável ao documentário (que envolve um princípio plástico e um princípio de inteligibilidade).

Que esse elemento estético seja incontornável quer dizer que ele pertence à essência do documentário.

O reconhecimento desse elemento estético, como uma operação sobre o real que é distinta da própria realidade, nos deixa, perigosamente, muito próximos da ficção.

Mas, por que perigosamente? Por que sentimos aí algum perigo? Porque todo elemento ficcional (próprio à ficção, à imaginação e distinto da própria realidade), constatado no documentário, o coloca sob suspeita, gera desconfiança.

Nós acreditamos que o documentário espelha o real e, por isso, não aceitamos que o documentário manipule o real. Uma manipulação artística do real, uma técnica de manipulação do real: isso é a ficção, não o documentário!

*

Quando, para nós espectadores, está disposta e estabelecida, a priori, antes da própria experiência fílmica, a afirmação: “– isto é um documentário”, nós entramos na sala de cinema sob o selo de um pacto. O espectador entra com sua confiança na peça documental; e o documentarista, com o compromisso com a verdade.

DOCUMENTARISTA: – Isso é um documentário! Isso é a verdade do real!
ESPECTADOR: – E nós acreditamos! Em primeira ordem... até segunda ordem...

Esse pacto de realidade é colocado sob suspeita (ou até mesmo totalmente suspenso) com a evidenciação dos elementos estéticos. Quando o espectador percebe a aspereza dos operadores plásticos e cognitivos empregados na técnica do documentarista, ele se retira do pacto, parcialmente ou integralmente, colocando em cheque o caráter de veridicção do documentário.

De maneira geral e no limite, essa evidenciação dos elementos estéticos coloca em risco o próprio status de documentário, fazendo o filme bascular do gênero documentário para o gênero da ficção, isto é, do segundo para o primeiro gênero de cinema.

Assim, à medida que o espectador aprimora sua ciência cinematográfica, à medida que para ele se tornam evidentes os elementos estéticos (plásticos e cognitivos) incontornáveis ao documentário, até mesmo nas suas espécies mais imediatas (nas captações fílmicas supostamente menos mediadas por esses elementos estéticos) como na reportagem de atualidade ao vivo, mais ele desqualifica o caráter documental do documentário.

O espectador compreende que esse elemento estético está presente desde o momento da captação em imagens e sons dos fatos reais, por exemplo, já no enquadramento. Nessa medida, toda captação do real já se mostra como uma abstração da complexidade real, como um recorte intencional de algo que o documentarista quer mostrar. Nessa medida, em toda captação e composição do real no material imagético já está em jogo uma interpretação do real, distinta do próprio real, que evidencia uma vontade de saber, que é também uma vontade de poder sobre o real.

Isso faz de toda captação do real uma captura (uma apropriação, uma tomada de posse). Nessa captura, enreda-se eventualmente o espectador.

Na gênese do documentário, inexoravelmente, encontra-se, então, esse elemento estético, esse elemento de invenção que pode ser dito ficcional. Isso quer dizer que a essência do documentário é uma quimera? Que ela não existe? Que tudo no cinema é ficção?

*

De toda maneira, há nesse elemento estético do documentário, precisamente no operador cognitivo do material imagético bruto, algo que, talvez, possamos resguardar, se nós abandonarmos a nossa ideia mais imediata de que o documentário filma o real, de que o documentário espelha, numa mostração, o real.

Podemos resguardar, no operador cognitivo, no princípio de realidade utilizado, posto em prática, posto em filme, pelo documentarista, na produção cinematográfica da verdade, um elemento próprio, específico, essencial, do documentário.

É preciso, então, nos inclinarmos para esse princípio de realidade que permite e orienta a filmagem do real, desde a captação das imagens e sons e a sua seleção, até a montagem, que justapõe, articula, potencializa esse material bruto.

Eu entendo que esse princípio de realidade que se põe em jogo no documentário (e não na ficção) é o que a filosofia (e a epistemologia) chama de uma teoria da verdade.

Podemos pensar que a essência do documentário envolve, geneticamente, uma teoria da verdade determinada, e que o documentário a filma, isto é, que o documentário põe em filme, ao pôr em prática, essa teoria.

Esse pôr em prática, em filme, essa teoria da verdade determinada, envolve, certamente, uma técnica específica, uma técnica de filmagem, uma técnica de montagem. Essa técnica não nos parece algo diferente dessa teoria da verdade, mas se confunde totalmente com ela.

Portanto, a teoria da verdade em jogo no documentário é, ao mesmo tempo, uma teoria, posta em prática, sobre a maneira de se produzir verdadeiramente a verdade. Uma teoria da verdade que é, simultaneamente, uma teoria da técnica da produção fílmica da verdade, uma técnica do documentário.

Essa teoria da verdade filmada, que é também uma técnica de produção da verdade, é a essência do documentário.

*

Essa teoria da verdade constituinte da essência do documentário, por sua vez, coloca o documentário numa relação essencial com a essência da filosofia.



Pensamento-cinema 5, 1ª lição: DOC/o real e a verdade


Depois da lição introdutória, proferida por Adriano Mansanera,
a primeira lição do curso Pensamento-cinema 5 ocorrerá nesta

QUARTA, 4/11/2015, às 19h, no CineSESC.
Tema: DOC/o real e a verdade.
Apresentação: Leon Farhi Neto

pensamentocinema.blogspot.com.br

Metafísica e animismo


A filosofia moderna diz que, até Kant, vivíamos (os metafísicos) sob o império de um certo animismo.

Quer dizer, compreendíamos o mundo externo, metafisicamente, por meio de uma exteriorização (projeção sobre o mundo) da nossa própria organização psíquica.

Por isso e desde então, nos caberia: “recolocar [de volta] na alma humana o que o animismo nos ensina a respeito da natureza das coisas”*.



(*) FREUD, Sigmund. Totem et tabou. Trad. Serge Jankélévitch. Paris: Payot, 1965 [1913]. P. 141. Peço perdão pela inserção, entre colchetes, do pleonasmo.

Spinoza e os outros: três liberdades

A liberdade, para Spinoza, tem três aspectos: o ético, o político e o econômico.

DEFINIÇÕES

A liberdade ética é alcançada pelo ser humano que é conduzido pela reta visão da própria mente e, não, cegamente, pelo jogo variável e instável dos afetos.

A liberdade política, quando não há obediência a um outro.

A liberdade econômica, por sua vez, é a liberdade de não ser servo/escravo, ou seja, a liberdade de produzir a sua própria utilidade e não apenas a utilidade de um outro.

PROPOSIÇÃO

Estas três liberdades estão articuladas de tal maneira que é impossível alcançar a liberdade ética, sem alcançar, simultaneamente, as outras duas.

DEMONSTRAÇÃO

O ser cativo é, ao mesmo tempo, o ser que serve a um outro e não a si próprio, que obedece o que lhe comanda um outro e o que se deixa guiar pelos afetos.

O grau zero de liberdade parece ser a liberdade econômica. Se produzo o que me serve, sou economicamente livre, mesmo eventualmente obedecendo às ordens de alguém. Mas não posso ser politicamente livre e, ao mesmo tempo, servo. Já que servir aos outros, sem obedecer-lhes, é um contrassenso (está em oposição com o desejo que somos).

No entanto, pergunto-me, posso ser politicamente livre (fazer de tudo, sem obedecer a ninguém) sem ser eticamente livre, isto é, sendo guiado, não pelos próprios olhos da mente, mas pelos afetos? Bom, parece que não. Já que o jogo dos afetos está ligado à relação de um ser com os outros.