Que liberdade?

[...] se me abstenho, como em liberdade o posso fazer e de fato o faço, de toda e qualquer crença de experiência [...]*
Que liberdade? Não é este poder de liberdade um pressuposto, um preconceito, que a autêntica filosofia deveria colocar entre parênteses? E este fato de liberdade, uma ilusão?



(*) HUSSERL, Edmund. Meditações cartesianas [1929]. Trad. Pedro M. S. Alves. In: Meditações cartesianas e Conferências de Paris: de acordo com o texto de Husserliana I. 1 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. §8. P. 57. Grifo meu.

O que é o fato, o que é a essência?

Ora, indistinguíveis reflexos de um no outro, se, essencialmente e de fato, há o fato das essências e a essência dos fatos.

Aqui, lá, acolá II

Em vez de uma Filosofia unitária e viva, temos uma literatura filosófica crescendo sem limites e quase sem coerência; em vez de uma séria confrontação de teorias conflitantes que, porém, tornam manifesta, pelo seu próprio confronto, a sua solidariedade íntima, a sua comunidade nas convicções fundamentais e a sua fé imperturbável numa Filosofia verdadeira, temos uma atividade de recensão e de crítica aparentes no lugar de um sério filosofar com outros e de uns para os outros.*
O naufrágio da unidade do pensamento. A esquizofrenia da consciência filosófica. Isso, de fato, nos dá a pensar. Isso nos alegra. Não perdemos, com essa alegria, a seriedade. Mas, a sisudez. Esta é a disposição da filosofia atual; não, talvez, a sua “decomposição atual”, em “sua atividade desorientada”.




(*) HUSSERL, Edmund. Meditações cartesianas [1929]. Trad. Pedro M. S. Alves. In: Meditações cartesianas e Conferências de Paris: de acordo com o texto de Husserliana I. 1 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. §2. P. 42.

Tudo é questão de método IX

Podemos, por outro lado, fazer do embaraço outra coisa que um problema. Antes, uma potência de ser! Fazer da imaginação como que uma potência livre. Não procuraremos respostas, não nos colocaremos problematicamente. Afinal, como diz a sugestão elísia:
A maneira de questionar prescreve um certo tipo de resposta, e fixá-la, desde já, seria decidir de nossa solução.*

(*) MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard, 1964 [1960]. P. 208.




Aqui, lá, acolá

As filosofias (apesar de sua pretensão) não remetem a um mesmo e único universo. Por isso, não se ligam, complementam, afrontam. Elas abrem universos, como que paralelos.
– Você diz ter encontrado a verdadeira filosofia. Como sabe disso, em relação a todas já propostas e que serão propostas?*

(*) Albert Burgh. In: SPINOZA, Benedictus de. Correspondance. Trad. Maxime Rovere. Paris: GF Flammarion, 2010. Lettre LXVII. P. 337.

Realismo radical

Com a realidade das essências singulares, com certeza, não só escapamos da síntese, da ideia de que o conceito é “a unidade característica do que está nele subsumido”*, como, também, da análise.

Não é pela análise (contramovimento da síntese) que apreenderemos o que realmente é o que é (sem ser também o que não é), o singular.



(*) ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985 [1944]. P. 29.

Isto é evidente! IV

O sujeito transcendental é um sujeito de carne e osso? Ao menos, como “espectador transcendental”* ele parece possuir olhos. Afinal, ele vê. Mas, ele vê sem os órgãos da visão? Ou os olhos do corpo serão mais propriamente seus do que do eu-no-mundo (o eu separado de si)?

Além disso, veja, o espectador transcendental tem o poder de ver tudo no mundo (todas as coisas visíveis, nessa possibilidade), mas não o olho mesmo do eu-no-mundo, como se o olho mesmo não fizesse parte do mundo.

Onde, no mundo, dá-se a observar um Sujeito metafísico?
Tu dizes: aqui ocorre exatamente como com o Olho e o Campo de Visão. Mas o Olho, na realidade efetiva, tu não o vês.
E nada no Campo de Visão permite concluir que ele seja visto a partir de um olho.**




(*) HUSSERL, Edmund. Conferências de Paris [1929]. Trad. Pedro M. S. Alves. In: Meditações cartesianas e Conferências de Paris: de acordo com o texto de Husserliana I. 1 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. P. 14.

(**) WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. 3 ed. São Paulo: Edusp, 2001 [1921]. Prop. 5.633. P. 246.

“Agir por interesse”

O “agir por interesse”*, entre outras coisas, é parte da vida de apego. Só o desapego permite a livre ação, uma ação sem outra motivação (ou determinação) além de si mesma: agir por agir, desejo sem objeto.

Desapego, vida livre, vida feliz – é desfazer a “união gloriosa”* do nosso ser esclarecido com “conceitos vagos e experimentos erráticos”*.




(*) Francis Bacon apud ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985 [1944]. P. 19.

Embaraço

Afinal, relativamente a um certo aspecto do real, somos aristotélicos ou spinozistas?

Para nós, há uma ciência de tudo – tudo é, na sua singularidade, inteligível (Spinoza)? Ou há, sim, um domínio do real que excede à inteligência – a infinita gama real de singularidades, que existe apesar de inapreensível (Aristóteles)?

Só no desdobramento político desses princípios, se desfará o impasse metafísico.

Aplausos


(eu decido aplaudir) Um voto isolado conta, mas não muda nada, não influencia. Já a presença, na medida em que não é quantitativa, mas qualitativa, tem a potência de influenciar, contagiar, de ser influenciada e de ser contaminada, embora ainda não conte. (mútua determinação de uma potência pública de aplaudir ou não)

Acontecimento puro

Acontecimento é acidente, modificação.

Um acontecimento puro é um acidente puro. Simples acontecer ou qualidade simples. Um acidente que não é modificação de alguma coisa. Um acidente livre, em si. Predicado sem sujeito. Devir ou qualidade absolutos. Nada de antes persiste no acontecimento puro. Um acidente puro, sem substância. Um acidente, enfim, que é suporte de si mesmo.

Imagem-exemplo: o gozo na amamentação de um recém-nascido esfomeado. Não há substrato algum (nenhum objeto ou sujeito) da saciação nem do leite, nem eu, nem ela. Apenas passagem da dor ao prazer.


Tudo é questão de método VIII

Aristóteles: “sem nos colocar, antes de tudo, o problema, é como se caminhássemos sem saber aonde vamos”*. Além disso, a posição do problema envolve em si a forma da solução; afinal, diz Aristóteles, só o problema nos permite reconhecer, encontrar, descobrir algo como solução. O problema vem antes da solução. E se há solução, a sua forma ou condição de possibilidade vem junto com o problema.

Daí, a importância da problematização quando estamos no embaraço – acorrentados, sem poder avançar (conferir o amor de Foucault pela problematização). Fazer do embaraço um verdadeiro problema é, com certeza, o início da ação, a compressão, o aperto da mola da pulsão movente.

Mas será esse o único método do conhecer e do agir? Buscar e caminhar para onde já se sabe, de antemão, querer chegar? O caminho com a forma da finalidade pré-estabelecida?

O andar sem problemas do flâneur. Ir e dirigir-se ao azar dos encontros. Não se dão, com isso, também, soluções? Não se encontra, apenas nisso, o inesperado?









(*) ARISTÓTELES, –. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. B (III), 1, 995a32. P. 70.

Filosofia e ficção

Orientamo-nos no pensamento por esse princípio de liberdade: “que toda ontologia seja analisada como uma ficção”*.

No entanto, isso não significa o desimpedimento simples e absoluto do filósofo (justamente, é a resistência do ar que torna possível o vôo da pomba) (e, se a liberdade é uma força atuante e não um alívio, um dom ou um presente de aniversário, somos mais livres quando estamos a cinco passos do tirano) (a nossa capacidade de agir aumenta junto com a nossa capacidade de padecer).

O pensamento, na sua história de invenções, se desdobra “constrangido a compor com o real”**.





(*) FOUCAULT, Michel. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France, 1982-1983. Paris: Seuil/Gallimard, 2008 [1983]. P. 285.

(**)ARISTÓTELES. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. A, 5, 986b31. P. 27.

A sacralização da filosofia

– Você pode até pensar, mas pousar entre os filósofos... que pretensão!

Não vale muito (é até mesmo, a meu ver, nocivo) fazer da filosofia uma atividade para poucos, algo inacessível, muito difícil, para a maioria dos pensadores por mais esforçados que sejam.

Afinal: “A teoria da verdade [a filosofia] é, em certo sentido, difícil, e, em outro sentido, fácil. A prova disso: ninguém pode alcançar a verdade adequadamente, nem perdê-la completamente”*.

Certo, a filosofia já não pretende, há tempos, à contemplação da verdade. Mas isso não invalida a colocação, muito pelo contrário.

A sacralização da filosofia serve apenas a um desejo de glória desdobrado em desejo de dominação, à maneira da sacralização da teologia pelos teólogos.

De fato, tudo depende do alvo almejado. Se a mira é suficientemente ampla, qualquer um pode ser arqueiro (“quem não meteria uma flecha numa porta?”**).




(*) ARISTÓTELES. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. II, 1, 993a30. P. 59.

(**) Ibid. 993b5. P. 60.

Isto é evidente! III

A tragédia do inevidente é a sua evidência (seu ser visível que essencialmente nos escapa aos olhos).

“Qual é a tragédia? É preciso o interdito para dar valor àquilo que arranha o interdito”*.





(*) ANTELO, Raúl. O lugar do erotismo. In: BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. P. 24.

Prática erótica da linguagem III

Jean-Luc Nancy: “le sexe est sens”*. É a significância. O valor sempre erótico da palavra-ação, como sentido, como encadeamento de corpos, palavras e desejos.




(*) Citado em: ANTELO, Raúl. O lugar do erotismo. In: BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. P. 21.

(o que é isto?) III

Sou consciente do meu desejo (palavra-ação), mas não do seu sentido, isto é, do seu encadeamento. Não sou consciente do que determina o meu desejo (isso é impossível para o humano), no seu encadeamento com os desejos dos outros.

Por isso, para mim, o meu inconsciente são os outros. Meu inconsciente são os desejos dos outros encadeados ao meu.

O inconsciente é inevidente e sem sentido. Na heteronomia do sentido, é dos outros, também, que se dá a norma do sentido (como encadeamento de palavras-ações).

O inconsciente tem sentido (encadeamento) mas não tem evidência (não é nem visível nem inteligível) – não pode ser objeto de uma ciência positivista.

(o que é isto?) II – Definição de inconsciente

Por definição (entenda-se, por definição eidética, sem a posição necessária da existência), o inconsciente é o inevidente, e é inevidenciável (isto que não pode ser posto, de modo absoluto, em evidência, diante dos olhos, em inteligência).

Assim, não há (apesar da sua definição eidética) um conceito de inconsciente. Só o evidenciável é conceituável. O conceito tem que ser evidentemente (o modo de ser do conceito é a essência).

Segue-se que não há o inconsciente em si. Mas apenas o inconsciente – (o que é isto?) – para mim.

Aliás, em Nietzsche, toda pergunta pela essência (o que é isto?) tem que se dar num modo solar (desde um solo), sob a forma de: – o que é isto para mim?

Isto é evidente! II

Fazer do critério do sentido a auto-evidência – esta é a dobra narcísica de Descartes, na negação da heteronomia do sentido.

Isto é evidente!

O evidente: algo absolutamente pensável – o inteligível. Um modo certo e determinado do pensamento que de alguma maneira ainda nos escapa à inteligência.

O evidente: algo absolutamente visível, que de algum modo nos escapa aos olhos.


Sentido e evidência

No sentido (no ter, no fazer sentido) não há evidência necessária. Uma palavra, uma ação (tanto faz), tem sentido por simples encadeamento com outras palavras-ações. E, nesse encadeamento (que é o sentido), pode não haver nada de evidente.

Prática erótica da linguagem II

Minha potência significadora (nem significante, nem significada, mas a potência ficcional ou articuladora de ideias) só alcança “flashes de sentido”* – finitude do encadeamento. Por isso, o aforismo; a significância deste aforismo.





(*) ANTELO, Raúl. O lugar do erotismo. In: BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. P. 20.

Da certeza

Na natureza tudo é certo. Só há o incerto no ver e no pensar (aestimare) de uma parte da natureza: o eu como um “pedacinho do mundo”*.

Mas, para mim, o incerto é o que há de mais certo.



(*) HUSSERL, Edmund. Conferências de Paris [1929]. Trad. Pedro M. S. Alves. In: Meditações cartesianas e Conferências de Paris: de acordo com o texto de Husserliana I. 1 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. P. 7.



126


Já preciso de uma ideia certa de certeza para encontrar a primeira certeza. Se não, como a reconheceria?


Manifesto

Não estaremos totalmente canalizados, domesticados, enfim: disciplinados.

Esta não será a nossa disposição.

Isso, porém, não é uma promessa.

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Há um modo verbal adequado para o manifesto (no latim: o particípio futuro). Não é o futuro do indicativo. Não indica um acontecimento, uma ação futuros. Mas, uma simples disposição, nem presente nem futura; uma disposição absoluta, atemporal, que orienta o futuro, no entanto, apenas relativamente a uma ação temporalmente determinada. Ou seja, propriamente, trata-se de um modo verbal estratégico (ação sobre ação) que anuncia uma ação que se dará a partir de outra uma ação, esta, sim, determinada no tempo passado, presente ou futuro.

2 caminhos do si

Este (que devemos a Nietzsche, a Bataille): ir além de si, na “superação da consciência objetiva, que as paredes da crisálida limitavam”*.

Eu me perdi por outro caminho: ir alhures de si.





(*) BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. P. 62.

Palimpsesto

Em nossas páginas do século XXI, ainda se leem as do século XX. Nas do século XX, as do século XIX. Mas essa sub-sequência para por aí.

(o que é isto?)

– Por exemplo: o que é isto, a filosofia?

A única maneira de responder é apontar (com o dedo cheio de verrugas): é isto! e isto! e ainda isto!

– Responda sem apontar!

Impossível, sem perder o isto (e talvez junto as verrugas e o dedo).



Prática erótica da linguagem


(para)

ler   escrever

(e)










Cf: ANTELO, Raúl. O lugar do erotismo. In: BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. P. 21.

Biopolítica ou bio-economia

Subtítulos: Governo econômico dos modos de viver, Administração da vida pela publicação da intimidade dos lares


Dispositivo

O desejo é vida. E a vida não é, de fato, conceituável*.

A vida é o único e múltiplo “horizonte absoluto ou plano de imanência”**, e, como tal, jamais se deixa lançar adiante da vista (enquanto eidos, forma, aspecto visual e inteligível de uma essência), sem também se deixar ocultar atrás da vista – no, momentaneamente, invisível e impensável.

Assim, não é por nada, que o diabolizado Donald Rumsfeld falou do known known (do que sabemos saber, do que salta aos olhos, do evidente), do known unknown (disso que sabemos desconhecer) e do diabólico unknown unknown (disso que desconhecemos desconhecer)***.

Um modo de ser ou de viver (bios, modus vivendi) é uma determinação do desejo, uma disposição (hexis***-*) adquirida mediante o hábito, a autoformação ou o adestramento.

A determinação objetiva do desejo só se dá em um dispositivo. O dispositivo nada mais é do que uma máquina de captura, governo, direção e orientação dos desejos que o constituem.

Essa máquina de desejos é também evidenciável como uma prática discursiva***-**. Quer dizer, compreende a regulação de um modo de objetivação que lança adiante, que torna objetivo, que põe o desejo à mostra (e, na verdade, com efeito, simultaneamente, o oculta), numa evidência, numa sua determinação, como desejo de alguma coisa.

O dispositivo é um dispositivo do desejo. Por isso, sem desejo envolvido (na objetivação e na ocultação ou, dito de outro modo, na consciência e na inconsciência) não há dispositivo.

A genealogia propriamente dita ou a ontologia do presente

Lentamente e cada vez mais profundamente, nosso desejo tem se associado a um objeto determinado, o dinheiro (o símbolo de tudo, o símbolo por excelência). Põe-se à vista, portanto, o desejo como desejo de dinheiro, como simples interesse econômico, como desejo do lar.

Em sociedades monetárias, nas quais a moeda regula o ritmo da economia dos desejos, o dinheiro se torna o ícone, o índice e o símbolo de qualquer alegria, de qualquer aumento do desejo, e, por isso, o bem mais desejado, o sumo, o mais elevado objeto da avareza e da emulação***-***.

Assim, evidentemente, por exemplo, já não disputamos um simples campeonato de futebol apenas por disputar ou para vencer, mas razoavelmente para ganhar os prêmios financeiros decorrentes da vitória (que se torna, cada vez mais, apenas um meio para alcançar o prêmio)***-***-*.

Desse modo, nesse presente, a visão geral, panorâmica, de um macro-economista, como Rubens Ricupero, pode pensar o mundo sem pensar nas singularidades: os múltiplos modos de viver, os lares, os desejos. Nessa visão panorâmica, o mundo se mostra como uma série (finitíssima) de cinco alternativas de dispositivos, que ignora e desconsidera, como irrelevante, qualquer acontecimento, porque concebe e predispõe os desejos enquanto eventos sob uma lei econômica objetiva***-***-**.



(*) Conferir o artigo de Ferris Jabr, Why Nothing Is Truly Alive, no NYT. Sem perder de vista o site de Theo Jansen: www.strandbeest.com.

(**) DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia?. Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997 [1991]. P. 52.

(***) “Reports that say that something hasn’t happened are always interesting to me, because as we know, there are known knowns; there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns — the ones we don’t know we don’t know. And if one looks throughout the history of our country and other free countries, it is the latter category that tend to be the difficult ones”. Donald Rumsfeld citado por Errol Moris, em artigo no NYT.

(***-*) ARISTÓTELES. Éthique à Nicomaque. Trad. Jules Tricot [1990, 2007]. Paris: Vrin, 2012. I, 1103b20-25. P. 96.

(***-**) FOUCAULT, Michel. L’archéologie du savoir. Paris: Gallimard, 1969. P. 65.

(***-***) Conferir: SPINOZA. Ética, e4cap28.

(***-***-*) conferir: globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2014/03/queda-do-fla-na-libertadores-pode-comprometer-orcamento-em-r-10-mi.html

(***-***-**) Conferir RICUPERO, Rubens. Desindustrialização precoce: futuro ou presente do Brasil? Le Monde Diplomatique Brasil, ano 7, número 80, março 2014.

Grandeza da alma


Em casa, só, de camisa e cueca. Num momento de magnanimidade, visto uma bermuda, para recobrar a dignidade humana, solitariamente.

Proposições científicas improváveis III

Serra da Capivara – PI – BR – América do Sul


Apesar da Serra da Capivara, o pensamento científico dominante continua baseado na hipótese da origem única do ser humano – mesmo quando aceita a tese de que, desde a África, o humano chegou à América não só pelo Estreito de Bering, como também pelo Atlântico.

Ainda não se chegou, cientificamente, à realidade da tese da múltipla origem geográfica do humano (isto é, à tese da inexistência da humanidade).



Proposições científicas improváveis II

Foram detectados altos índices de resíduos agrotóxicos nas sementes de mamão originadas de lavouras controladas orientadas para o mercado*.

Entretanto, o consumidor, em geral, descarta as sementes de mamão, e ingere somente a polpa**.

Logo...



(*) Ferryboat Cientific Magazine, 2013, vol 5, nº 4, p. 234.
(**) FCM, 2014, vol 1, nº 2, p. 14.




------x--------


semente (não) somente
se (não) só
mente (não) mente






Este será o dia!

E quanto à exigência – não apenas viver, mas saber o que se faz da própria vida –, quê?

Que significa esse controle-consciência da sua própria vida? Isso é o quê? Que mais do que pretender posicionar a vida diante de si, e fazer da vida um objeto? Recuar diante da vida, para que ela se posicione assim adiante, isso é sequer possível?

That'll be the day! Repete incessantemente o trágico Ethan (John Wayne), em filme de John Ford.

Analogia por analogia, a vida (aqui, está para o ser, para a potência, para o plano de imanência, para...) é como o horizonte absoluto. Imersos, não podemos recuar em relação a ele, que está, desde sempre e inexoravelmente, também por trás de nós.

O dia da vida-objeto – este será o dia!

Honestidade e confiança


Podemos confiar no humano honesto. Ele vai agir ou deixar de agir segundo a ideia comum do dever. Por isso, também, é preciso desconfiarmos dele.


A honestidade na filosofia

O que seria a honestidade na filosofia?

No uso da vida, dizem-nos, é viver, obstinadamente, segundo o dever (honeste vivere)*. E o dever, no viver, é algo de que todos nós teríamos a mesma ideia comum, apesar de obscura e confusa.

Muito bem. No entanto, a vida filosófica não é um uso comum da vida:
A própria questão diretriz de Husserl, uma questão na qual ele se aprofundou com uma conscienciosidade penetrante, era:
_ como é que posso me tornar um filósofo sincero?**
A sinceridade filosófica é uma obstinação a não avançar, publicamente, qualquer tese da qual não se tenha uma plena justificação racional intimamente adquirida.

Na filosofia, então, a vida honesta é um devir. Na vida filosófica, a obstinação da honestidade não é uma obstinação na sinceridade; mas, obstina-se a tornar-se sincero. A honestidade filosófica não é a sinceridade mesma, mas um devir sincero.

Nesse devir, nesse movimento incessante, avançam-se sem cessar as mais desbaratadas hipóteses.

O filósofo honesto reconhece, ao menos para si, constantemente, a sua própria insinceridade.






(*) KANT, Immanuel. Metafísica dos Costumes I: Princípios Metafísicos da Doutrina do Direito . Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2004 [1797]. P. 43.

(**) GADAMER, Hans-Georg. O movimento fenomenológico [1963]. Trad. Marco Antônio Casanova. In: Hegel, Husserl, Heidegger. Petrópolis: Vozes, 2012. P. 147.

Uma questão de justiça

A cada um segundo as suas capacidades (uma interpretação do princípio: jus suum cuique tribuendi). 

Por isso, proclama o vulgo:
_ “Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação.”*



(*) PROUST, Marcel. A fugitiva. Trad. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Globo, 2012 [1923]. P. 23.