Insurreição brasileira


Vem-me à mente, nesses dias, a questão da “insurreição brasileira”...

Para saber se estamos diante de uma “espiritualidade política”, como no Irã de 1978-1979, precisamos nos perguntar se, para “mudar o Brasil”, estamos também dispostos a “mudar a nós mesmos”.

Enquanto a insurreição for simplesmente determinada pelo objeto dos afetos, i.e., enquanto a insurreição for contra um objeto considerado exterior ao modo de ser que nos constitui, a nós, os insurretos, ela será certamente política. Mas, só será também espiritual na medida em que envolver o seu contra-objeto em nossa própria subjetividade.


“Tudo é questão de método” – II

– Nada de certo escapa ao método certo.

Se você diz que a essência do mundo é científica, isto é, que o mundo inteiro pode ser expresso por meio de proposições verdadeiras, você oculta a essência política do mundo, expressa por meio de imperativos ou comandos de obediência, que não são nem verdadeiros nem falsos.


“Tudo é questão de método”


Ainda estamos assombrados pelo método (pela via certa).

– Nada de certo escapa ao método certo.

Ainda acreditamos que tudo de certo só nos chega de modo certo. E que o modo certo pode alcançar tudo o que é certo.

Entretanto, não podemos ter muitas vias até a mesma coisa certa? E não podemos nos deparar com coisas certas por acaso ou pela via errada? Não podemos ter em mãos coisas certas, sem conhecermos o modo certo de chegarmos até elas?



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A liberdade é fazer de si o que bem se entende,
ou o que se entende por bem?

Tudo (na sua abertura) são sentimentos de sentimentos

Isso que você me diz, nesse momento, é que não há verdades ou cristalizações. Então, tudo são modificações de modificações, ou seja, o que costumamos chamar de sentimentos.

Diário de Moscou XVI – O dinamismo inapreensível do ser ou a sua insustentável leveza

A caminho de Moscou, tudo em minha mente (e ela mesma inclusive) se descristaliza. Como se estivéssemos incondicionalmente atrelados a uma pérpetua e infinita estação de trem, passando apenas de um a outro cais, trocando de linhas e trilhos, sem qualquer verdadeira destinação ou destino.

É provável que, nessa imagem, eu esteja ainda sob o impacto da colocação dos filósofos: “não se pode cristalizar o ser”. O ser é solúvel em si mesmo (a grande estação ou biblioteca), e não há depósitos sedimentados, sequer características ou padrões de sedimentação, no fundo do ser. Só há trilhos e viagem, nenhuma identidade, nenhuma cidade, onde descer do trem.


A virtude, ao menos, na palavra

A virtude não vem depois da boa ação (uma ação correta, perpendicularmente reta, orientada pelo nosso vínculo comunitário, humano e com a natureza). Não é a ação boa que faz o virtuoso. Esse é o padrão da moral (um modelo dado de ação que, se imitado, é critério da virtude).

A virtude não é um fim a se alcançar mediante um comportamento moral. Mas um princípio, uma arché humana. A virtude é uma potência reta consigo mesma e, como tal, é já uma disposição da qual se seguem as ações boas. É o virtuoso (em sua reta potência) que faz a boa ação.

Ânimo vigoroso, generosidade, força e coragem, prudência, atenção, perspicácia, vinculação, numa palavra: fortitudo*.




(*) e4p73 e escólio. SPINOZA, Benedictus de. Ethica [1675]. In: Opera Posthuma. –: –, 1677.

Exercício acerca das questões

Qual dessas duas questões é a mais importante filosoficamente?

(1) – A mente existe imaterialmente?

(2) – Precisamos sempre esperar a fome para começar a cozinhar?



Iguais diferenças

– Todas as diferenças são uma única. Ou seja, toda diferença é igual. Assim, retomamos a diferença, profundamente, como igualdade.

Um exemplo deste pensamento enganado: se compreendermos, na sua essência, uma diferença particular, aquela entre “la vie à chaud” e “la vie a chaud”, compreenderemos toda outra diferença.

Na primeira expressão: – “vida” e “quente” são imanentes um  ao outro; na outra: “vida” e “quente” estão contingentemente unidos. Isto é, toda diferença é diferença entre imanência e transcendência.

La vie à chaud


Os hábitos realmente democráticos são passionais, interessados, contingentes, impulsivos, imoderados, intempestivos. Mas não é essa irracionalidade que refuta a democracia real.

Refutam-se os hábitos esfriados de uma democracia acalmada. Ela cheira a hipocrisia. Por baixo dessa impressão de crosta asserenada, vigora sempre a mesma vida acalorada.

A filosofia, a moral e o espelho


Quando se diz que a filosofia não deve ser como um espelho da natureza, por estas tortuosas vielas do dever, que nos fazem dar voltas sobre nossos próprios passos, já estamos a espelhar alguma coisa.

Afinal, a atitude moralizante não faz mais do que exigir de você que você se enxergue no espelho dela.



Ajuda (argumento por autoridade)

A compreensão abre um âmbito de não-compreensão, e se abre por ele.

Deleuze:
– É preciso sempre desconfiar dos filósofos: quando ficamos muito contentes de ter compreendido, é porque isso que compreendemos é uma condição para compreender ainda outra coisa que não compreendemos. Então, quero dizer, são sempre textos de muitos níveis...

Encontre-me, perdendo-me


Para que você não se prenda a uma imagem associada a mim, eu tenho vários nomes – e vários endereços eletrônicos (e-mails). Eu vivo em Moscou (já vivi em Berlim e Paris).

Mesmo assim, um dr-one, ou dois, dr-two, pode me localizar. Se não pode intuir-me, destrua-me.


Diário de Moscou XV – a visita de Bergson



Moscou não é um conceito, mas uma imagem.

Bergson, que encontrei durante sua visita a Moscou, colocou em suspenso, para a filosofia, o conhecimento por conceitos. Para ele, a essência movente do real não pode ser reconstituída a partir de conceitos que são elementos racionais imóveis.

O real (a coisa em si mesma) precisa ser apreendido por intuição imediata, num “esforço da imaginação”* e não da razão, que conhece mediante conceitos. Pois, os conceitos racionais são sempre derivados das propriedades que uma coisa compartilha com outras. O conceito conhece propriedades comuns e não a essência da coisa, que é sempre singular.

Essa intuição, essa “simpatia pela qual nos transportamos para o interior de um objeto para coincidir com aquilo que ele tem de único”**, é um ato simples que não comporta mediações simbólicas. E se a filosofia, enquanto metafísica, tem, no conhecimento do real, por procedimento intelectual (considerando aqui o esforço de imaginação um ato intelectual), a intuição, então a metafísica “é a ciência que pretende passar-se de símbolos”***. A metafísica, portanto, não pode falar do que, em si mesmo, é inexprimível.

Minha vida (e, particularmente, minha vida em Moscou), como objeto, é inexprimível. Só pode ser conhecida pela simpatia de um filósofo (que seja também o meu leitor).

Dessa vida minha posso oferecer ao leitor conceitos e imagens, mas nenhum dos dois pode representá-la, nem pode substituir a intuição que o conhecimento absoluto dela requer.

Conceitos são abstratos e só alcançam as propriedades comuns. As imagens, porém, têm a vantagem de serem concretas ou de “nos manter no concreto”****, pois permanecemos, com a imagem, ligados ao singular, apesar do distanciamento do símbolo.

Para fazer conhecer a minha vida (e particularmente em Moscou), segundo Bergson, eu deveria me valer de muitas imagens díspares, para que nenhuma delas possa “usurpar o lugar da intuição”*****.

Entretanto, eu uso apenas a imagem de Moscou. E Moscou-imagem toma o lugar da sua (e da minha própria) intuição de minha vida.

Ao menos, Moscou não é um conceito.








(*) BERGSON, Henri. Introdução à metafísica [1903]. In: O pensamento e o movente: Ensaios e conferências. São Paulo: Martins Fontes, 2006. P. 184.
(**) Ibid. P. 187.
(***) Ibid. P. 188.
(****) Ibid. P. 192.
(*****) Ibid. P. 192.

Modificações modificadas e modificantes


Modos de ser (esqueçam-se, momentaneamente, como em latim, artigos de “os modos do ser”, em função individualizante)... modos de ser são modificações modificadas (mas não apenas) e modificantes. Não se modificam sem modificar.

– Modificações de quê?

Ora, resposta exige reintrodução de artigo. E está excluída de jogo.

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Não há modos que se modifiquem sem modificar, porque são partes de natureza e não como impérios dentro de impérios.


Reflexão e gestualidade

A premente questão dos afetos e da afetabilidade não advém apenas do fato de que somos seres sensíveis, afetáveis (entes ou modos de ser modificáveis), como também do fato de que somos seres produtores de afetos (entes ou modos de ser modificantes). E isto levanta a questão do gesto.

O gesto bem-refletido só pode colocar a produção de modificações (em nós mesmos e no que nos circunda, modos de ser humanos e não-humanos) no âmbito estratégico da generosidade.



Amor de si, senhor de nós

Vive em nós, em nossa mente ou espírito, um modo de ser perverso: o amor de si.

Perverso, porque, sem ele, talvez não possamos viver, e, por isso, encontramo-nos dispostos a amá-lo e a cultuá-lo.

Além disso, acreditamos que ele nos ama – pensamos que aquele “si”, no seu nome, se refere a nós –, mas, se percebemos bem, ele só ama a si mesmo, como um modo existencial distinto e autônomo.

Tudo o que ele faz, o faz para si, para se enaltecer, para se expandir e se intensificar, em nós e por nossos meios. Usa-nos para isso.

Mecanismos afetivos XVIII – jogos de linguagem e afetos


A mãe recente de idade avançada se alegra ao revelar aos outros a novidade do seu filho. Quando fala dele, o chama de “meu bebê” (mesmo quando ele já completou três anos). A seus ouvidos, isto a rejuvenesce.

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É preciso, para contar uma vida, contar a história inteira e não somente uma parte dela.


Diário de Moscou XIV


Procuro desprender-me, um instante, da imagem de Berlim, e perceber sem influências a Moscou invariável. Isso, porém, parece impossível.

Não apenas varia a minha percepção de uma vida em Moscou, mas varia também a própria variação.

Então, como julgar a respeito de uma vida em Moscou?

Não sei ainda se Moscou é uma só cidade ou tantas quantas são as minhas impressões variantes. Nem se há de fato uma vida em Moscou.

Os meus hábitos de pensamento e de afetos, no entanto, exigem que eu julgue. Eles imperam: – julgue, porque uma vida está em jogo!

Quando, como atitude filosófica, o correto seria cultivar o desprendimento do desejo em relação ao desejo de julgar e a suspensão momentânea de todo juízo a respeito de uma vida.

Esclareço, ao final dessa página de diário, o que pode não estar claro: uma vida não é uma vida individual, mas um gesto engajado em múltiplas relações.


Nós, os espíritos cativos


No início de um espírito livre está a afirmação impetuosa e ingovernável:

“Melhor morrer do que viver aqui.”*

Como, para nós, no início de nossa catividade, no pânico, impera a afirmação contrária:

– Melhor viver aqui do que morrer.








(*) NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 [1878]. Prólogo 3 [1886]. P. 9.


Solidão e responsabilidade, culpa

Meu sentimento de solidão aumenta à medida que aumenta a minha consciência de que a minha solidão envolve e determina, responsabilizando-me, a ausência de certos outros (não de uma alteridade indeterminada). Assim, sentindo-me só, estou, ao máximo, com certos outros em mente.

A solidão responsável aproxima-se do sentimento de culpa.



Semicompreensão metafísica III: intelecto e cérebro

Isso que define (ou seja, limita) a capacidade de penetração de um intelecto humano é a capacidade de refrigeração do cérebro.

Quando um cérebro esquenta, ele impede o pleno desdobramento (ou penetração) do intelecto.

Semicompreensão metafísica II: a linguagem ao infinito


Aumenta-se consideravelmente (isto é, ao infinito) o âmbito da linguagem ao tomar os signos, não mais como representações das coisas, mas como suas expressões ou manifestações imediatas.

A linguagem deixa de ser um meio, para se tornar o modo infinito imediato.

Semicompreensão metafísica



Com os anos (e o embate da reflexão que vem de fora, reflexão que é como as ondas insistentemente agentes sobre o hermetismo das pedras), aquilo que representava o vazio do objeto (ou a incapacidade de sua representação completa) tornou-se o próprio objeto (não a sua representação). Mas não há nisso, verdadeiramente, nenhuma transformação. Pois o objeto em si equivale à representação do vazio que há nele.


Tonalidades de mundo

Para o desgraçado, todo elogio (não aquele que lhe é feito, mas aquele que é feito à situação que o desgraça) é tomado como uma palavra de consolo.

A fórmula do ensinar



Ou

(1) sabe-se, antes, o que é o ENSINAR e compreende-se a fórmula,

ou

(2) compreende-se, antes, a fórmula e, então, compreende-se o que é ENSINAR.


Dos ameríndios ao luxo


Ameríndios, agricultores em floresta. Imagem que combate a necessidade do agrotóxico em ambiente tropical (cheio de vermes).

– Mas, sem o veneno, não se produz tanto.

“Tanto” é o plus que se produz além do necessário e do suficiente, talvez, para a troca (a qual, se necessária, não requer “tanto”). E “tanto-tanto” é o mais-que-plus, que o luxo exige.


O autodidata e o conhecimento de si

Aquele que aprende ao se conhecer aprende porque faz de si um outro, um desconhecido. O conhecimento de si envolve, assim, no perigo, essa abertura em si de um outro.

O aprendizado e o outro


Se eu acredito no autodidatismo?

Num certo sentido, não. Porque só aprendemos se, em alguma medida, nos tornamos um outro.

Assim, à capacidade de aprender corresponde uma capacidade de “se outrar”. O aprendizado, portanto, envolve a alteridade (como faz, aliás, a relação de comando-obediência).

Isso não quer dizer, entretanto, que é preciso a pessoa (o corpo, a fala e o olhar) de um mestre, se há, por exemplo, um livro. Basta o livro, se o aprendiz está na capacidade de tomá-lo como um outro (isto é, como algo que remeta à não-compreensão).

A alteridade é uma condição necessária do aprendizado, embora não suficiente (precisaríamos falar no desejo).

Pichação preta e demão de tinta branca


Para Kant, assim como os objetos das inclinações,
As inclinações elas próprias, porém, enquanto fontes da necessidade, têm tão-pouco um valor absoluto para que as desejemos elas mesmas que, antes pelo contrário, ficar inteiramente livre disso tem de ser o desejo universal de todo ser racional.*
Mas, se, a partir disso, eu digo que um traço marcante da moral kantiana é que ela tem horror às inclinações humanas, na medida em que o humano é um ser racional (visando, idealmente, a um espaço de liberdade vazio delas), como a natureza tem horror ao vácuo (preenchendo, porém, por necessidade, o espaço), certamente, alguém imediatamente se manifestará (quase indignado) para tornar menos marcante o que digo.

Fariam-me ler que, de fato,
As inclinações são, consideradas em si mesmas, boas, isto é, irrepreensíveis, e querer extirpá-las seria não apenas em vão, mas também nocivo e censurável; muito pelo contrário, temos tão-somente de domá-las, de tal sorte que elas não se desgastem umas às outras, mas, em vez disso, se deixem harmonizar em um todo ao qual se dá o nome de “felicidade”.**
Assim, para os eruditos escolados, o refinamento da leitura de um texto exige sempre a leitura de um outro texto e assim por diante. De modo que cada leitura, como uma demão de tinta branca que atenua um pouco a força de uma pichação preta sobre um muro, atenua um pouco a marca própria de uma outra leitura do pensamento. Com isso, a erudição escolada tende a tornar todos filósofos em figuras sem tatuagens.





(*) KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido Antônio de Almeida. São Paulo: Discurso Editorial : Barcarolla, 2009 [1785]. Segunda Seção. P. 241. Grifo meu.

(**) KANT (“A religião nos limites...”) apud ALMEIDA, Guido Antônio de. Introdução e notas. In: KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Discurso Editorial : Barcarolla, 2009 [1785]. P. 328, nota 328.

A compreensão do núcleo aumenta com a não-compreensão da margem.


A intensidade da minha compreensão de, por exemplo, três ideias aumenta se eu tiver acesso a dez outras ideias, num primeiro instante, incompreensíveis, situadas à sua margem.

Aumentará ainda com o acesso, para além daquelas dez, a mais cem ideias periféricas.

Assim, a não-compreensão favorece a intensidade da compreensão (um pouco como o escuro intensifica o claro).


Como é difícil ser rei entre os Urubu





Sobre a tribo dos Urubu, François Huxley:
É papel do chefe ser generoso e dar tudo o que lhe pedem: em algumas tribos indígenas, pode-se reconhecer o chefe porque ele possui menos que os outros e traz os ornamentos mais miseráveis. O resto foi-se em presentes.* 
Ou seja, entre os Urubu, o avaro, que acumula riquezas, não é reconhecido como chefe. Enquanto, entre nós, a quantidade de poder (no sentido restrito e antidemocrático, de uma capacidade hierárquica de comandar) equivale à quantidade de riqueza. Se fôssemos Urubu, reconheceríamos os nossos chefes nos desmunidos e não nos munidos.

(A Igreja católica, pelo contrário, reconhece magnificamente a si mesma como chefe, por reconhecer e ao reconhecer no mundo a quantidade da miséria).




(*) Huxley apud CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 2. Troca e poder: filosofia da chefia indígena. P. 48.


103

Para falarmos de filosofia, em filosofia, precisamos de muitos parênteses.

102

– (Alguma) filosofia é um pensamento poético, quer dizer: (auto)produtor e (auto)produzido.

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O que o desejo de uma exclusiva ciência positivista ou a antimetafísica tem a ver com o antipensamento?

Mito e história XII


A história é usualmente concebida como o movimento de inovação pelo qual o humano socialmente se arranca de uma situação mítica (estática e fechada – enfim, prisioneira dos tempos, da origem ao fim).

Para Clastres, a situação mítica já é, porém, uma situação histórica se ela conter (e o mito, dependendo, pode favorecer isso) alguma espécie de poder coercitivo.

Sociedades sem história, para ele, não são sociedades míticas, mas sociedades sem poder político coercitivo. E a história é a história das formas de coerção nas sociedades.

Nesse sentido, podemos dizer, as autênticas lutas contra a dominação, isto é, quando não são lutas pelo poder coercitivo, são lutas contra a história. (Agora nos chega mais clara a compreensão do dito-oracular de Herzog.)

Por isso, a tarefa do historiador, para Walter Benjamin, é “escovar a história a contrapelo”; quer dizer, é fazer a história das lutas contra a história, para acabar com a história (na produção messiânica da volta ao futuro, da volta ao mítico sem coerção – e o Messias pode entrar pela nossa porta inesperadamente a qualquer momento).

Morreu um tirano (Diário de Moscou XIII)

A morte de um tirano de ferro não nos consola. Trata-se apenas de um prazer correlato à satisfação de um desejo vão.

Pois não é o ferro que se acopla ao tirano, mas o tirano à ferradura.

Só haverá consolo na nossa humana redenção. Só haverá redenção humana, quando não houver ferradura, da qual um tirano é apenas como um atributo.

Hoje morreu um tirano, não a tirania.


Mito e história XI

A história, tal como ela conhece, é a narrativa das vitórias do efetivo. O efetivo é o que vence e derrota o que deve ser esquecido nos tempos.

A história é a narrativa das técnicas vencedoras na dominação da natureza. Mas a dominação da natureza, para ser efetiva, requer o esforço humano excessivo. Esse excesso só se alcança pela dominação dos humanos por outros humanos. A história, além de história das técnicas, é, portanto, a narrativa dessa dominação.

Assim, sob o efeito simples de um princípio do terceiro excluído, quando não há dominação, pode-se concluir que não há história?

“A propriedade essencial [...] da sociedade primitiva é exercer um poder absoluto e completo sobre tudo que a compõe, é interditar a autonomia de qualquer um dos subconjuntos que a constituem, é manter todos os movimentos internos, conscientes e inconscientes, que alimentam a vida social, nos limites e na direção desejados pela sociedade. A tribo manifesta, entre outras (e pela violência se for necessário), sua vontade de preservar essa ordem social primitiva, interditando a emergência de um poder político individual, central e separado. Sociedade à qual nada escapa, que nada deixa sair de si mesma, pois todas as saídas estão fechadas. Sociedade que por conseguinte, deveria eternamente se reproduzir sem que nada de substancial a afete através do tempo.”*




(*) CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2003 [1974]. Cap. 11. P. 228.

Diário XII


Em Moscou, eu realizo que a minha pele são camadas “exteriores” superpostas que meu ser incorpora, dinamicamente e prazerosamente, até a última extremidade (a que está mais para fora) do meu casaco.

Ao passo que, em Berlim, naquele minúsculo apartamento superaquecido, eu pensava a minha pele negativamente, quer dizer, como aquela última camada do mundo que eu não podia extrair de mim sem dor.


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Professor não é missionário.
(Quer dizer, a sua referência aos alunos não é a da salvação.)

Diário XI - Felicidade em Moscou II


A estadia de Asja em Moscou, apesar de curta, transformou a cidade aos meus olhos.

Poderia imaginar que a primavera havia chegado (quando, na verdade, aproximamo-nos do inverno mais rigoroso).

O afeto monstruoso voltou à sua caverna para pintar, resmungando raivosamente contra o mundo primaveril, aquilo que um dia se tornará, com a fermentação da história, arte.






Diário X

Isso que mais temo, neste momento, em relação à minha estadia em Moscou, é que ela, prolongando-se, faça de mim mais um moscovita (quero dizer, em respeito aos hábitos, eu temo tornar-me, por exemplo, mais um usuário de vodka barata, comedor de frituras e de outros gêneros gordurosos, assíduo frequentador de algum bar de periferia). Eu tornar-me moscovita é o momentaneamente impensável.

Diário IX – Felicidade em Moscou


Depois de reler Epicuro, neste momento de minha vida, chamou-me à atenção a sua regra de autossuficiência.

Asja, por razão da minha dependência em relação a ela, talvez, como ele o diz, me perturbe a alma mais do que ela seja, como eu a sinto, um elemento incontornável da minha felicidade.

Quer dizer, o remédio para a minha falta de Asja não é a Asja mesma, mas eu perceber que minha dependência, a minha necessidade de Asja, é um engano do meu desejo de felicidade. Eu não preciso da presença de Asja para ser feliz, pelo contrário, eu tenho que ser independente de Asja, se quero ser feliz.

Asja está em Moscou há alguns dias. Passamos alguns momentos juntos excelentes (eu disse “excelentes” para não dizer “muito felizes”) e outros não tão excelentes. Ela me serviu de intérprete em várias ocasiões, o que me fez conhecer um pouco mais o tão estranho, do meu ponto de vista, espírito dos moscovitas.

Em uma dessas noites, uma nevasca inadvertida nos deixou aprisionados, durante uma hora quase insuportável para mim, em um pequeno bar de um bairro periférico, cheio de moscovitas animados de vodka que cantavam, a plenos pulmões, canções populares conhecidas de todos. Perguntava-me se eles eram realmente felizes assim como estavam, ou se tratava-se de um engano seu.

Todos enganam-se com o tipo de felicidade que desejam?