Golpe e revolução


Ortega y Gasset pensou a revolução como o transbordamento das forças sociais sobre o “poder público”, que é a força estatal, a força que o Estado possui para reprimir o levante social.

Para ele, o poder público, atualmente (ele escrevia em 1927), é muito superior às forças sociais, de tal modo que a revolução tornou-se impossível, pelo menos na Europa. “¡Adiós revoluciones para siempre! Ya no cabe en Europa más que lo contrario: el golpe de Estado”*.

Assim, com o excesso do poder público, as únicas variações possíveis nos regimes políticos ocorrem por meio de golpes de Estado. Uma troca de figuras comandantes. O comando do poder público passa para as mãos daqueles que, com maior facilidade, ou seja, com a menor violência possível, podem garantir o controle das forças sociais.





(*) ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas. P. 84.




A carruagem deixa rastos na lama porque é pesada


As palavras que dizemos são pesadas. Pesam naqueles a quem as dirigimos. Pesam em nós que as pronunciamos.


Objetos do desejo imbecil


Até que ponto estamos, de fato, nesta disposição do nosso modo de ser?

Falo desta:

Não poder mais se privar no imediato de nenhum pequeno prazer. Não poder mais experimentar o desprazer da menor privação, sequer temporariamente. Tudo tem de ser imediatamente satisfeito. Tudo que se propõe virtualmente ao nosso desejo como objeto, transforma-se, de imediato, em falta, em carência essencial.




Maioria mínima

Problema da maioria simples: por exemplo, 50,5% contra 49,5% dos votantes; digamos, com uma “pequena” abstenção de 20%. Uma minoria, aí, decide.


Luta pelo reconhecimento


Certamente: há aí um desejo... mas quanto não há, nesse desejo, de dominado (de não livre, de determinado pelo outro, de alterius juris)? quanto não há de despojamento do direito, nessa luta por direitos? Quanto não há, na luta pelo reconhecimento, de desejo de ser [bem-]dominado?




Salus


Bartleby, postado ante a janela que se abre para uma parede cega de um outro prédio. A 2 ou 3 metros do seu nariz. E, a uma altura praticamente infinita. Diante do muro. Perceber (enfatizar, ou poduzir) distinções.


Extrema lucidez e alucinação


A extrema lucidez afinal não enxerga as sombras que a sua luz intensa projeta (historicamente). A sua luz, que há, sobra por sobre as sombras. Isso é a alucinação.



Incertitude jurídica e alucinação: Kafka


As leis de natureza são por natureza fixas. As leis jurídicas (que querem imitá-las no crédito), porém, sofrem em nosso momento de uma instabilidade alucinante. Como a maré, entram em vigor, e em seguida se retiram, para voltar no instante. Então, como ficamos? De tal maneira que já não sabemos o que está juridicamente vigente e o que não está. Sem lei, com lei. Ou com lei, sem lei?




A massa vem depois III - a “autêntica” filosofia


Vejamos o exemplo de OyG, na sua crítica ao “hombre-masa”.

“la masa... necessita referir su vida a la instancia superior, constituida por las minorias excelentes [...] los hombres excelentes [...] sin ellos [...] la humanidad no existiria en lo que tiene de más essencial [...] El día que vuelva a imperar en Europa una auténtica filosofía – única coisa que puede salvarla – se volverá a caer en la cuenta de que el hombre es, tenga de ello ganas o no, un ser constitutivamente forzado a buscar una instancia superior”.
ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas.: 1936. P. 82.

A massa vem depois II


...Assim, alguns dos críticos da massa inclinaram-se para líderes supostamente enobrecidos. Com o desejo de evitar a massa, desviaram-se para o lado da sua causa: os nazismos, os fascismos, os personalismos, as ditaduras, os regimes de heróis virtuosos... (como, em pista viciada de boliche, as bolas, para a canaleta).

Foucault já nos alertara sobre isso, inclusive a respeito de críticos do capitalismo, na ideia de que “o capitalismo produz a massa” [...] “Vocês encontram em Sombart [o sociólogo do primeiro nazismo]  de fato, desde os anos 1900, esta crítica que vocês bem conhecem e que se tornou, hoje em dia, um dos lugares-comuns de um pensamento do qual não sabemos ao certo qual é a articulação e a ossatura, crítica da sociedade de massa, sociedade do homem unidimensional, sociedade da autoridade, sociedade de consumo, sociedade do espetáculo etc. É isso o que dizia Sombart. É disso que os nazistas se apropriaram...”*




(*) FOUCAULT, Michel. Naissance de la biopolitique: Cours au Collège de France, 1978-1979. Paris: Seuil/Gallimard, 2004 [1979]. P. 117.

A massa vem depois


A crítica à massa funciona mais ou menos assim:

– A massa é indolente, inobediente, quer governar, mas não se governa. Ela precisa da liderança do nobre (do ser humano destacado) para governá-la, para que se mantenham as medidas, e ela chegue a algum lugar.

No entanto, essa crítica toma o efeito pela causa, pois é a liderança, a dominação, que produz a massa e não o contrário.

Isso é o que nos diz Freud, se o lermos com atenção (isto é, com tempo): “...ele [o líder] os compeliu, por assim dizer, à psicologia da massa. Seus ciúmes sexuais e sua intolerância vieram a ser, em última análise, as causas da psicologia da massa”*. O líder é a causa da massa, não o efeito. A massa vem depois.





(*) FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu [1921]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Obras completas. Vol. 15 (1920-1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 87.



Disposição índia XIV, ainda OyG


Frequentemente, a plebe é alvo de um preconceito: dizem-lhe massa: ela é não mais que plebe ou o desejo de cada um de levar a vida ex suo ingenio.

A massa enquanto massa (homogênea, impensante, imbecil, recessiva) provavelmente existe, mas temos de prestar atenção no que dizem aqueles que se atacam à massa. Não estariam, na verdade, atacando a plebe, na defesa da nobreza hierárquica, contra os exercícios democráticos?

Ortega y Gasset, em seu “livro lúcido”*, por exemplo, fala mal do “hombre-masa”: “el hombre vulgar, [que] antes dirigido, ha resuelto gobernar el mundo”...

E, logo em seguida, para mostrar que a vida fácil, a vida de gozo, a disposição índia, leva a “su irremediable degeneración”, ele escreve [segurem o estômago, Calibãs!]:

“Así, para referirme a una dimensión muy concreta de la vida corporal, recordaré que la espécie humana ha brotado en zonas del planeta donde la estación caliente quedaba compensada por una estación de frío intenso. En los trópicos el animal hombre degenera, y vice versa, las razas inferiores – por exemplo, los pigmeos – han sido empujadas hacia los trópicos por razas nacidas después que ellas y superiores en la escala de evolución”** .





(*) HUISMAN, Denis. Dicionário de obras filosóficas. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1993]. P. 475.

(**) ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas: 1936. P. 71 - 74.

Ética da excelência e ética da diferença


Tomamos a ética [por um momento] como processo de individuação. E a individuação, como relação a grupo. Na individuação, o singular destaca-se. Mas a relação a grupo pode ser de dois tipos (indicados por preposições diferentes).

Na ética da excelência, o singular destaca-se no grupo. É o mesmo, mas destaca-se como o melhor do mesmo. Virtude como excelência. Entre os músicos, o bom músico (o bom tocador de lira...). Entre um grupo de humanos, trata-se de ser o melhor entre eles, o excelente.

Na ética da diferença, o singular destaca-se do grupo. É o outro, destaca-se pela diferença em relação ao grupo do qual emerge. Entre um grupo de humanos, trata-se de outro modo de ser, de não mais fazer parte deste grupo.Virtude como diferença.







Escuridão



[luzes/visão][está difícil pensar][as poucas palavras saem como bolhas de ar desde a profundeza][seguir em f...]


Ontologia política


O nosso regime ontológico[-ético]-político[-econômico] goza (sem silêncio), quando afirmamos que o nosso grande problema é a corrupção sistêmica dos políticos.

Ontologia aqui é a história da constituição do sistema dos nossos modos de ser.


Político-psicanálise V: – o nosso grande problema: a corrupção?


Certa relação de causa sistêmica a efeito de superfície funciona desse jeito: se eliminamos um efeito, a causa produz, repete, o efeito seguinte numa série indefinida. Um efeito deixa de ser, outro, outros ocupam seu lugar.

O nosso problema político, portanto, não é a corrupção, não é uma questão moral, de fraqueza moral dos políticos profissionais. Tomar a corrupção como o nosso problema por excelência encobre a realidade do real político. Toma o efeito pela causa.

A corrupção é apenas um dos derivados, e não o mais importante, do regime dos modos de ser, do modo de funcionamento do ser político historicamente constituído, da nossa ontologia política, da história da constituição dos nossos modos de ser politicamente entre os outros.

Nosso atoleiro, nossa repetição compulsiva, isso em que ainda nos eternizamos, ainda é a escravidão – ou seja, um tipo de relação política de produção. Uma fixação histórica. Na repetição, o tempo não passa.







Ética como individuação e o grupo



Pensar (por um momento) a ética como processo de individuação. 

A ética, ainda assim, pode remeter ao grupo. A individuação é um processo de singularização. O indivíduo que se singulariza, a partir de uma elaboração, de um aperfeiçoamento, de um trabalho que efetua sobre si mesmo, é alguém que faz de si um indivíduo singular, destacando-se de um grupo. Mas destacar-se de um grupo de pertença, fazer de si mesmo um indivíduo de destaque, alguém de destacado, pode ter como finalidade o ingresso em um outro grupo, que é um grupo seleto. Isso quer dizer um grupo escolhido.




20 centavos bastam, por um momento



A favor dessa colocação, noto que a minha relação ergonômica a objetos transformou-se desde que eu deixei crescer, apenas 2 ou 3 mm além do habitual, as unhas dos dedos da mão direita (salvo a do mindinho). Com isso, apresentou-se também uma leve mudança em minha disposição mental (estado, capacidade afetiva, personalidade, engenho).



Disposição índia XIII – OyG


Ao ler Ortega y Gasset* (parecem dois, mas se trata de um só), quando ele fala do vulgo e do nobre, não posso me impedir de lembrar daquelas duas disposições que eu havia mencionado, a disposição índia e a disposição superação-de-si.

Mas a orientação de OyG, a maneira com que OyG passeia pelo mundo dividido em dois, é exatamente adversa à minha. OyG condena peremptoriamente, em nome do que é nobre, o vulgo, o selvagem, que para ele é igual ao bárbaro, como um perigo vital. Aí novamente a vida... e, portanto, a biopolítica.

E mais, a diferença entre o nobre e o humano vulgar, para ele, é uma questão moral. O nobre reconhece e assume o esforço necessário para superar a si mesmo. O vulgo, indolente, vive sem esforço; apenas usufrui dos frutos do esforço civilizatório.

“Um livro lúcido”, assim alguém julgou esse ensaio de OyG. Não me parece, no entanto, que haja lucidez ali, mas uma arraigada impossibilidade de enxergar o que estava acontecendo, porque preconceituosa. O preconceito é indesculpável no pensador, pois no preconceito deixa-se de pensar.

(*) ORTEGA Y GASSET, José. La Rebelión de las Masas. 1936.

Disposição índia XII, XI, X, IX, VIII, VII, VI, V, IV, III, II, I

Toda nudez será castigada


Escrito em algum lugar (não importa onde), em torno a Nelson Rodrigues e aos anos 1960: ...“uma sociedade corrupta, dominada pela hipocrisia, despreparada para os desafios da modernidade”.




Psico-político-análise: a nudez brasileira




Massa, plebe e miopia


Difícil discernir, num falante, quando se trata de desprezo da massa (da homogeneidade) ou de desprezo da plebe (do que não é nobre), pois a plebe não está, em geral, massificada ou homogeneizada. Diz-se da plebe que ela é massa. Ela é tratada como se fosse. Muitas vezes, no entanto, isso é apenas um sintoma de miopia (de quem olha de longe e não enxerga bem).

Nobre é o indivíduo especial que se destaca da plebe, do vulgo, do humano vulgar, de algum modo, seja pelo talento artístico, pela formação intelectual, pela beleza, pela riqueza, pela raça ou seja por que for. Na sua pretensa distância, o nobre míope – ou quem se imagina nobre por, além de ser míope, sofrer também de hipermetropia – percebe a plebe sempre como massa.





Psico-políticanálise IV: fascismo e narcisismo


O que é o fascismo na sua relação com um certo narcisismo e com a negação do Outro? Um certo amor da forma do Mesmo. Um certo ódio da forma do Outro. O fascismo é o ódio ao Outro? Ódio à liberdade? Fascismo, a política cativante da massa?






A origem dos neologismos na filosofia


Alguns obtêm a destreza na escrita antes de filosofar. Já sabem escrever habilmente, antes de começarem a escrever filosoficamente. Seus primeiros textos filosóficos já surgem bem-escritos. Já possuem toda a língua, antes de fazerem filosofia.

Outros só adquirem a técnica e o domínio da língua no momento em que começam a pensar filosoficamente, tomam a técnica da língua como uma exigência filosófica. Possuem a língua à medida que se desenvolve sua filosofia.

Em geral, os primeiros nunca se valem de neologismos.



Apropriações consolidadas na linguagem


“Homens” – para referir-se a todos os humanos: mulheres inclusive.
“Americanos” – para referir-se aos estado-unidenses, com exclusão de todos os outros americanos.




Problematizar


A filosofia, ou seja, o pensamento especulativo, não tem o compromisso de desprender da experiência os seus conceitos, mas procura forjar os conceitos capazes de abrir a experiência ao pensamento. Abrir a experiência ao pensamento quer dizer tornar a experiência, e isso que acontece numa experiência, um campo plástico para a atividade de pensar, um campo problemático. Fazer da experiência um problema, isso é abrir a experiência ao pensamento.


Contragolpe


Faltou o contragolpe.

Dilma dizia: é golpe! E de fato foi. Mas ela não reagiu como se fosse. Dilma, ela mesma, não levou o golpe a sério: não deu o contragolpe. Afastou-se, tranquilamente, na aparência e no respeito da aparência da legalidade. Poderia ter permanecido fisicamente no seu posto, até que a polícia ou o exército viesse, pela violência, afastá-la.



INDIGN-


O terrível fel da indignação... essa paixão pode ser paralisante (nos subtraindo a potência da ação)...





O obscuro lugar da lei

Paradoxo jurídico:
– Usam a lei para se esconderem da lei.

“Este(s) se refugia(m) na obscuridade do não-ser e, vinculado(s) a ela, se camufla(m); é a obscuridade do lugar que torna difícil reconhecê-lo(s)”*.



(*) PLATÃO. Le Sophiste. Trad. Nestor L. Cordero. Paris: GF Flammarion, 1993. 254a. P. 170.

171


Não há ideia mais obscura e confusa do que a ideia de uma ideia clara e distinta.


Filosofias: criadoras de problemas


A nossa dificuldade com uma certa filosofia (nosso estranhamento) está, muitas vezes, ligada ao fato de que não compreendemos, não enxergamos, os problemas que ela levanta, ou não consideramos problemáticas as suas questões, porque elas não nos afetam.

Por que uma filosofia vê (ou inventa) nisso um problema, quando para nós tudo parece tão simples? A nossa dificuldade pode ser a nossa apatia ou o engano de uma filosofia. Nossa questão então toma a seguinte forma: – os problemas que uma filosofia aponta nos são pertinentes, quer dizer, podem nos afetar?

No entanto, somos frequentemente forçados, pelos disciplinadores, a fazer de conta que vemos problemas onde, verdadeiramente, não vemos nenhum.




Voar


– Os passarinhos naturalmente não sentem o peso da história, como nós. Mas é por isso que eles podem voar?



No dispositivo de mercado, só há interesse?


A sensação de fome é uma forma de interesse, a força com que se manifesta o instinto de autoconservação próprio a tudo o que existe e que, como existente, persevera no existir.

A determinação exclusiva do interesse como interesse econômico (a ponto de se considerar o econômico como o único interesse relevante, estando todos os demais neutralizados como estímulos para a ação) corresponde à inserção dos corpos na situação histórica do dispositivo de mercado.


Sistemas-ovo


O ovo é o paradigma do sistema psíquico isolado de estímulos do mundo externo.

Nesse modelo do sistema-ovo, temos o tipo de império formado pelo soberano asiático ou amarelo e pela extensa corte pálida e translúcida, reunida ao seu entorno.



Psico-político-análise III: representante e representado


O representante tem em relação ao representado a mesma relação que a lei estabelece com a nudez humana: o representante mantém oculto (mantém e oculta, mantém ocultando) o representado.



Psico-político-análise II: biopolítica, tanatopolítica, pulsão de vida, pulsão de morte


Os opostos, então, não abrem dois caminhos distintos, mas apenas um único e mesmo, seja na consciência (na ciência), seja no inconsciente.

Assim, talvez fique mais fácil entender a intrigante copresença da biopolítica e da tanatopolítica (copresença que invoca a questão: por que, justamente, ao dedicarem-se à vida e ao agirem em nome dela, os governos se tornam tão assassinos?).


Isso e o oposto disso II


Eu escolhi! Então: eu escolhi escolher! Et sic in infinitum...

“Como o elemento da escolha veio a fazer parte do mito [...]?”. “A escolha se acha no lugar [do seu oposto] da necessidade [...]”*.






(*) FREUD, Sigmund. O tema da escolha do cofrinho [1913]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 314.

Isso e o oposto disso


Em geral, pensamos que o oposto disso não tem nada a ver com isso (seja lá o que isso for!). Por exemplo: que a ciência nada tem a ver com a inconsciência.

Mas, tanto Freud quanto Aristóteles, nos dizem o oposto disso.

Freud: “os opostos, nas formas de expressão do inconsciente, como no sonho, são frequentemente representados pelo mesmo elemento”*.

Aristóteles: “A ciência dos opostos é uma só”**.

De onde virá tal ressonância? Será a metafísica (a filosofia primeira) uma das tais expressões do inconsciente?





(*) FREUD, Sigmund. O tema da escolha do cofrinho [1913]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 312.

(**) ARISTÓTELES. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. Γ, 2, 1004a9. P. 114.

Ditos (168) e ouvidos


– Isso que, agora, é pouco, e se acumula, amanhã será parte do muito.

(Em que medida este dito diz o mesmo que este, já conhecido: “não deixes para amanhã, o que podes fazer hoje”?)

(Solução 1, em que o valor é dado ao plano da linguagem: forma é conteúdo; varia a forma, logo, varia o conteúdo)

(Solução 2, valor dado ao pensamento: no fundo, nos dois ditos, diz-se o mesmo significado)


168


– Isso que, agora, é pouco, e se acumula, amanhã será parte do muito.



Rivalidade, competição, guerra


Três modos de estar entre humanos, enquanto potências. Rivalidade entre iguais, na divergência (os desejos singulares perseguem em comum bens divergentes). Competição, na concorrência (os desejos homogeneizados perseguem os mesmos bens, que, escassos, não bastam para todos). Guerra, no afrontamento (os desejos são opostos; na ruptura do comum, desejam o fim do que lhe é oposto).




Psico-político-análise: a nudez brasileira


É compreensível a repulsa melancólica que nós, brasileiros, experimentamos diante da política despida dos mitos republicanos do bem comum e da soberania popular*. Para nós, tudo se expôs, às claras.

Fim do mito e exposição da nudez são dois processos correlatos; pois, no mito, o nu oculto se mostra e age, mas apenas sob belas e suportáveis roupagens** (personas mascaradas***).

Isso que se expõe e se desnuda, com o fim do mito, são as excreções humanas políticas, que, no mito, permaneciam veladas, ou apareciam como anormais, tal como certas excreções humanas individuais. Em uma palavra: as fezes e as excreções do sexo, que fazem parte de nossa psique como o fundo submerso de um iceberg, estão expostos à vista e ao olfato. E isso é horripilante****.

A lei tem a função de manter oculta***** a nudez política humana, o amor do Eu (o narcisismo secundário), tirânico, sádico, sem lei, sem outro, infantil. Sem a lei, na negação do outro, o pior de nós, humanos, emerge. “Pois o ser humano, quando aperfeiçoado [pela lei democrática comum, isto é, pela presença divergente dos outros-rivais], é o melhor dos animais, mas, quando separado da lei e da justiça, ele é o pior de todos”******. Trata-se, nesse extrato de Aristóteles, – e é isso que justifica minha intercalação entre colchetes – da lei razoável, precisamente no sentido de uma lei que aperfeiçoa, pelo reconhecimento da alteridade.

No caso do Brasil, é pela própria lei (mas injusta, porque parcial) que se expõe o que precisaria permanecer encoberto. Isso nos enoja e nos entristece (a repulsa melancólica). No entanto, poderíamos ver aí uma vantagem. Uma possibilidade de amadurecimento diante da realidade e sob efeito dela. O reconhecimento da necessidade de ajustar a lei.

Nossa constituição política atual (nossa politeia) se mostra absolutamente incapaz de denegar os piores impulsos humanos, que estão efetivos nas atuais relações de potência (a dunasteia)*******.








(*) Fim do mito, fim da ideologia? Conferir: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. L’idéologie Allemande. (1845-1846) Première partie. Trad. H. Hildebrand. –: Nathan, 2003 [1846].

(**) FREUD, S. O tema da escolha do cofrinho [1913]. Trad. P. C. Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 301-316.

(***) HOBBES, T. Leviathan. Indianapolis/Cambridge: Hackett, 1994 [1651]. I, xvi, §3. P. 101.

(****) FREUD, S. Prefácio a “Ritos escatológicos do mundo inteiro” [1913]. Trad. P. C. Lima de Souza. In: Obras completas. Vol. 18 (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. P. 346-350.

(*****) ARISTÓTELES, –. Politics. Trad. Benjamin Jowett. In: MCKEON, R. (Org.). The Basic Works of Aristotle. New York: Random House, 1941. I, 2, 1253a30. P. 1130.

(******) “Manter oculta” é uma forma de incluir-excluir. Conferir AGAMBEN, G. Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua I. Trad. H. Burigo. Belo Horizonte: Ufmg, 2004 [1995].

(*******) Para as relações entre politeia e dunasteia, conferir a lição de: FOUCAULT, M. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France, 1982-1983. Paris: Seuil/Gallimard, 2008 [1983]. P. 145.

Nota 9, quem disse?


Eu lhe apresento um número, por exemplo: 9, como expressão de um coletivo. Você tende a pensar: –  cada um disse “9”. Mas, 9 pode ser apenas a média que ninguém disse das notas que cada um de fato disse.