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Em sonho, me veio a questão: – o que é isso, o pensamento? E a resposta: – um atributo da Natureza.
Personagens do exagero: o Grande Culpado e a Grande Vítima

Há mais de um ano – desde nosso passeio pelo Boulevard de P.-R. – procuro uma maneira de expressar a ideia de que o sentimento de culpa e o sentimento de ser vítima são como dois lados de uma mesma moeda, podendo, com muita facilidade, serem invertidos um no outro.
Agora, encontrei-a, pela imaginação de dois personagens do exagero. A figura do Grande Culpado – que se acha a causa de tudo o que vai mal no mundo – e a figura da Grande Vítima – que se considera o objeto paciente de todo o mal do mundo.
A Grande Vítima, justamente porque se considera o objeto final de todo o mal, pode se representar como a causa final de todo mal e, assim, num giro, se tornar o Grande Culpado.
O Grande Culpado, por sua vez, dolorido por se reconhecer como a causa de todo o mal do mundo, ao carregar em si esta grande dor, torna-se, num instante, a Grande Vítima.
Mesmo nos casos menos exagerados, essa inversão afetiva contínua da vítima em culpado e do culpado em vítima ocorre, como ocorre, para os nossos olhos, a troca contínua da aparência da face e da coroa numa moeda que gira verticalmente sobre um plano.
A preposição que falta: por + em
Para falar da imanência, nos falta uma preposição, que seria como a fusão (depois da soma) de duas preposições existentes: por + em. Fusão que nos permitiria referir, com uma só preposição, o agente e o paciente, num único ente, de uma ação, de uma razão, de uma causa.
Para evitar qualquer confusão, “por + em” nada tem a ver com a conjunção adversativa “porém”.
Para evitar qualquer confusão, “por + em” nada tem a ver com a conjunção adversativa “porém”.
Legitimidade x legalidade III: o direito racional
Nós ainda estamos envoltos com a imagem de que o direito (as leis e as penas) é racional. E que, portanto, sob essa imagem, o irremediavelmente irracional está fora do âmbito do direito. Não se julgam animais, julgam-se seres humanos racionais que fraquejam, que cedem conscientemente a tendências irracionais.
O problema é que esta concepção abre, no âmbito do próprio direito, a discussão acerca do que é e não é racional. E dá possibilidade ao réu de tornar-se sutilmente juiz.
Legitimidade x legalidade II: – Juiz e réu
É notável o esforço institucional para marcar e fixar (na hierarquia, na ordem do discurso, na arquitetura, na ergonomia, na indumentária...) as posições relativas do juiz e do réu.
Em situações em que este esforço é reduzido (eventualmente, por se tratar de situações menos institucionais) as posições tendem a se inverter iterativamente; o juiz tornando-se réu; o réu, juiz.
Em situações em que este esforço é reduzido (eventualmente, por se tratar de situações menos institucionais) as posições tendem a se inverter iterativamente; o juiz tornando-se réu; o réu, juiz.
Mundos possíveis
Este não é o melhor dos mundos possíveis. Mas é o único mundo (necessariamente). Não há, ao lado deste, nenhum outro.
Um mundo outro só se faz a partir deste mundo.
Assim, a especulação aponta desdobramentos ou heterotopias, não utopias.
Do pensamento ao pensamento
Com o pensamento não quero mais chegar a um termo (o pensado), mas a outro pensamento.
Legitimidade x legalidade
Nós ainda estamos envoltos com a ideia iluminista de que o racional é necessariamente bom.
Por isso, Breivik não quer ser (vere-)dito insano. Não ser julgado louco (diga-se: por um poder extrajurídico) – esta seria a única maneira de que suas opiniões islamofóbicas sejam publicamente discutidas sem separá-las da ideia de bem. Breivik reconhece a ilegalidade de suas ações, mas não a sua ilegitimidade.
Por isso, Breivik não quer ser (vere-)dito insano. Não ser julgado louco (diga-se: por um poder extrajurídico) – esta seria a única maneira de que suas opiniões islamofóbicas sejam publicamente discutidas sem separá-las da ideia de bem. Breivik reconhece a ilegalidade de suas ações, mas não a sua ilegitimidade.
Breivik não se defende do asilo, mas defende a sua causa (do rótulo de insanidade) enquanto racional.
Valor pragmático
Sejam A e B duas pessoas diferentes. E “S”, uma sentença afirmada tanto por A como por B.
Ao enunciarem “S”, em geral, não é necessário que digam: – É verdade que S. Basta: – S!, para que se suponha uma pretensão de verdade tanto de A como de B.
Mas da simples afirmação de “S”, não podemos deduzir seu valor ou sentido pragmático. Ao se afirmar “S”, não se supõe que se diga ao mesmo tempo: – É bom que S. Nem tampouco: – É mau que S.
Por exemplo, Spinoza poderia afirmar isso mesmo que Calvino afirmara:
“Eu digo que a natureza humana é tal que cada homem seria [se pudesse] um senhor e um patrão sobre os seus vizinhos, e nenhum homem seria por sua boa vontade um súdito”*.Mas Calvino diria: – E isso é ruim. Spinoza, pelo contrário: – E isso não é bom nem ruim.
(*) CALVINO apud CURLEY, Edwin. Introduction and notes. In: HOBBES, Thomas. Leviathan. Indianapolis/Cambridge: Hackett, 1994. P. 58, nota 1.
Escolha, se puder
Com admiração, você olha para o grande mundo e diz: – tudo isso foi criado; toda coisa natural é um efeito. [disposição-seta]
Ou você diz: – tudo isso é criador; toda coisa natural é uma causa. [disposição-mãozinha]
Haveria uma terceira alternativa? E isso seria uma questão de escolha?
Hipertexto, hiper-real
Na superfície do real, porém, todo ponto é sensível e desdobrável... não há disposição-seta, sempre disposição-mãozinha.
Afinal...
Nada existe [que], a partir de sua natureza, algum efeito não se siga.
(SPINOZA, Ethica, e1p36)
A nobreza do comércio
O comércio, na sua variedade, parece ser a atividade material que dá possibilidades ao desdobramento da vida espiritual.
Talvez, por isso, quando a vida espiritual sucumbe e fracassa, o comércio ressurja como uma atividade alternativa.
O falante e o connaisseur
O falante aprendeu a utilizar – de modo mais ou menos aceitável – palavras que inicialmente não tinham para ele nenhum significado independentemente desse uso um pouco desajeitado. Mas a fala do falante evolui e essas palavras como que se coisificam.
Assim também ocorre com o connaisseur, que fala como se soubesse de tudo.
Assim também ocorre com o connaisseur, que fala como se soubesse de tudo.
No entanto, o connaisseur é um falante experimentado. Conhece o suficiente do uso das palavras para dar a impressão de que conhece as coisas.
Encontre-me na segunda à direita
Com o nosso modo singular de ser (isso que se designa por “privado”) cada vez mais universalmente mapeado (feito “público”), é importante, aqui, ali, dar falsas pistas.
Homo homini lupus
O humano é para o humano um lobo.
Nisso não se leia: – Os humanos estão uns para os outros como os lobos estão uns para os outros. E, sim: – Os humanos estão em relação uns com os outros como os lobos estão em relação com as ovelhas. / Homo homini pecus.
O humano é, para um outro, o lobo do humano; mas, também, a ovelha do humano.
Nesse meio, surge a função do pastor.
Humano para humano é lobo, ovelha e pastor.
Nesse meio, surge a função do pastor.
Humano para humano é lobo, ovelha e pastor.
Quiasmas: túneis do tempo, instantaneidades do espaço
Isto, em torno da ideia social do celibato, que Kafka havia anotado em seu diário (24/11/1911), aquele aforisma imemorável do Talmud: “Um homem sem mulher não é uma criatura humana”, também passava da pluma de Gide, em 192..., para a boca de um de seus personagens, o médico Marchant, através do diário de Évéline:
[ÉVÉLINE:] ...eu disse simplesmente [e, por estar envergonhada, sem a necessária ênfase] que os casamentos não eram todos felizes. Ao quê, Marchant respondeu, logo de pronto, que, se o casamento não era sempre bom, o celibato, pelo contrário, era sempre ruim... “ao menos, para as mulheres”, ele acrescentou com certo sarcasmo. (16/11/1894)
GIDE, André. L’école des femmes. Collection Folio. Paris: Gallimard, 1984 [1929]. P. 45.
Mecanismos afetivos XVI – afetos sociais
Afetos que são paixões não funcionam sozinhos, mas em aglomerados afetivos. No caso humano, os afetos são propriamente afetos sociais – um afeto em um indivíduo pressupõe, se reforça ou se enfraquece com um outro afeto que lhe corresponde em outros indivíduos.
Por exemplo, a arrogância em um (a soberba, o orgulho inervado) se potencializa com a inveja em outro. Se ninguém inveja o arrogante, sua arrogância despenca.
Teoria e prática
Isso que se segue parece válido ainda hoje.
Há pelo menos dois modos de relação entre a teoria política e a transformação da sociedade.
1. De maneira normativa: quando a teoria propõe o modelo sócio-político que deve ser implementado.
2. De maneria desimpeditiva: nesse caso, não se trata de propor um modelo teórico, mas de desconstruir (eventualmente reconstruindo uma outra) a narrativa histórica fatalista que enquadra e encerra, de maneira necessária, a vida nos seus moldes presentes. Assim, a vida como ela é fica desobstruída e se abre aos seus próprios desdobramentos.
“[...] a maior parte dos movimentos revolucionários que se desenvolveram no mundo recentemente estiveram mais próximos de Rosa Luxemburgo do que de Lênin: eles deram mais crédito à espontaneidade das massas do que à análise teórica”.
FOUCAULT, Michel. Revenir à l’histoire [1970]. In: Dits et écrits. Vol. I. 1954-1975. Paris: Quarto Gallimard, 2001. P. 1140.
Há pelo menos dois modos de relação entre a teoria política e a transformação da sociedade.
1. De maneira normativa: quando a teoria propõe o modelo sócio-político que deve ser implementado.
2. De maneria desimpeditiva: nesse caso, não se trata de propor um modelo teórico, mas de desconstruir (eventualmente reconstruindo uma outra) a narrativa histórica fatalista que enquadra e encerra, de maneira necessária, a vida nos seus moldes presentes. Assim, a vida como ela é fica desobstruída e se abre aos seus próprios desdobramentos.
A vida só não é o alvo
A vida como arqueiro, arco e flecha, mas não como alvo.
Isso não quer dizer que o alvo esteja fora da vida – pois a vida não tem fora, apenas um limite que recua indefinidamente –, mas que o alvo da vida não existe senão na nossa imaginação.
Vida como lançamento
Potência da vida: – ser ao mesmo tempo o arqueiro (uma potência lançadora), o arco (de que o arqueiro se serve para lançar) e a flecha (aquilo que se lança).
A vida só não é o alvo.
A vida só não é o alvo.
Quiasmas
É notável a fixação de Kafka com a ideia de celibato (que é diferente da ideia de solidão). Ele havia anotado em seu diário (24/11/1911) esse aforisma do Talmud: “Um homem sem mulher não é uma criatura humana”*.
De outro lugar**, Michel Foucault, ao falar da exclusão, apresenta as categorias da atividade humana:
1. Produção material econômica;
2. Reprodução da sociedade;
3. Linguagem;
4. Atividades lúdicas e festivas.
Com esta tipologia, pode-se dizer, fica racionalizada a experiência talmúdica: (*+**); do seguinte modo.
– Um ser plenamente socializado ou plenamente humano (se o humano é um ser essencialmente social) se exerce em todos estes tipos de atividade. E deixa de ser humano à medida que – como o celibatário em relação à reprodução social – deixa de exercer plenamente sua ação em uma ou outra destas categorias.
* Conferir: DAVID, Claude. Notices, bibliographies, notes rectificatives aux traductions, notes et variantes. In: KAFKA, Franz. Oeuvres complètes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980. P. 865.
** FOUCAULT, Michel. La folie et la société. Texto 83 [1970]. In: DEFERT, Daniel; EWALD, François; LAGRANGE, Jacques (Orgs.). Michel Foucault: Dits et écrits. Vol. I. 1954-1975. Paris: Quarto Gallimard, 2001. P. 996-1003.
De outro lugar**, Michel Foucault, ao falar da exclusão, apresenta as categorias da atividade humana:
1. Produção material econômica;
2. Reprodução da sociedade;
3. Linguagem;
4. Atividades lúdicas e festivas.
Com esta tipologia, pode-se dizer, fica racionalizada a experiência talmúdica: (*+**); do seguinte modo.
– Um ser plenamente socializado ou plenamente humano (se o humano é um ser essencialmente social) se exerce em todos estes tipos de atividade. E deixa de ser humano à medida que – como o celibatário em relação à reprodução social – deixa de exercer plenamente sua ação em uma ou outra destas categorias.
* Conferir: DAVID, Claude. Notices, bibliographies, notes rectificatives aux traductions, notes et variantes. In: KAFKA, Franz. Oeuvres complètes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980. P. 865.
** FOUCAULT, Michel. La folie et la société. Texto 83 [1970]. In: DEFERT, Daniel; EWALD, François; LAGRANGE, Jacques (Orgs.). Michel Foucault: Dits et écrits. Vol. I. 1954-1975. Paris: Quarto Gallimard, 2001. P. 996-1003.
Theatrum philosophicum
1. O teatro é filosófico, talvez, porque não seja apenas uma construção do real. Todo real, a própria realidade, a estrutura do real, seria teatral – potências investidas em formas e papéis em parte pré-definidos, embora sempre reinventados em interpretações.
2. Por outro lado, a filosofia é teatral, porque, talvez, não se dê sem o investimento dialógico de múltiplos personagens conceituais e sem a sua interpretação (por exemplo: por meio da interpretação do conflito entre a CONSCIÊNCIA MORAL e o AMOR DE SI).
2. Por outro lado, a filosofia é teatral, porque, talvez, não se dê sem o investimento dialógico de múltiplos personagens conceituais e sem a sua interpretação (por exemplo: por meio da interpretação do conflito entre a CONSCIÊNCIA MORAL e o AMOR DE SI).
O bom, o útil, o agradável e a vida como ela deve ser
O VULGO: – Que maravilha unir ao útil o agradável.
A CONSCIÊNCIA DO VULGO: – Muito bem, isso pode ser uma maravilha. Mas, para mim, o útil só se une, eventualmente, ao agradável porque são coisas da mesma espécie, que dizem respeito a sujeitos particulares, a você, àquele ali, àquele outro. E o que concerne sujeitos particulares não pode ser exigido de todos. Eu não sou a sua consciência, eu sou a consciência de todos vocês. O que é agradável para você pode não ser agradável para um outro (aliás, saiba que, para mim, que apenas penso, nada é agradável nem desagradável, o que não quer dizer que tudo me seja indiferente). De outra espécie, porém, é o bom. O bom é o que deve valer para todos e para você, em particular. O bom não é bom porque se une ao útil e ao agradável, pelo contrário, o bom é bom, justamente, porque é independente do útil e do agradável, porque vale para mim, que sou em você, para lhe indicar o caminho do bem supremo e cada vez que você se afasta dele. E, sendo assim, o bom é bom por si mesmo independentemente de qualquer vantagem ou prazer. Então, no critério de suas boas ações, esqueça-se do útil e do agradável.
A CONSCIÊNCIA DO VULGO: – Muito bem, isso pode ser uma maravilha. Mas, para mim, o útil só se une, eventualmente, ao agradável porque são coisas da mesma espécie, que dizem respeito a sujeitos particulares, a você, àquele ali, àquele outro. E o que concerne sujeitos particulares não pode ser exigido de todos. Eu não sou a sua consciência, eu sou a consciência de todos vocês. O que é agradável para você pode não ser agradável para um outro (aliás, saiba que, para mim, que apenas penso, nada é agradável nem desagradável, o que não quer dizer que tudo me seja indiferente). De outra espécie, porém, é o bom. O bom é o que deve valer para todos e para você, em particular. O bom não é bom porque se une ao útil e ao agradável, pelo contrário, o bom é bom, justamente, porque é independente do útil e do agradável, porque vale para mim, que sou em você, para lhe indicar o caminho do bem supremo e cada vez que você se afasta dele. E, sendo assim, o bom é bom por si mesmo independentemente de qualquer vantagem ou prazer. Então, no critério de suas boas ações, esqueça-se do útil e do agradável.
Nós, os moralistas e a vida como ela deve ser
OS MORALISTAS: – não adianta de nada você expor,
contra nós, os seus argumentos com base na vida como ela é. Porque nós não tratamos
da vida como ela é, mas da vida como ela deve
ser. É a vida como ela deve ser que exige o regulamento da vida como ela é, e isso jamais será, por nós, invertido. Nós proibimos, em nome da própria
lei da liberdade, o caminho do que é para o que deve ser.
O time deles e a vida como ela é
O time deles tem mil jogadores, o seu, talvez, onze. Como é que você quer jogar bola com eles? Por que pôr o nome do time deles, no placar, versus o nome do seu time?
O temerário é um imprudente. E imprudência não é coragem.
O temerário é um imprudente. E imprudência não é coragem.
Nós, os moralistas e a vida como ela é
Para os moralistas, o grande inimigo do dever (e do respeito à lei pela lei) é o amor de si, de um si tal como ele é (e, por extensão, o amor da vida tal como ela é).
Agir por dever é elevar-se acima do amor de si próprio no amor da humanidade.
Mas a humanidade, aí, não é composta de “sis”, entes concretos, singulares, que amam a si próprios, e, sim, é a ideia da liberdade de um ser racional. Livre, porque sua vontade é desconectada de qualquer estímulo externo e capaz de se subordinar, querendo-a, à legislação que ele mesmo pensa e profere.
E o amor, aí, não é uma alegria, mas um “amor prático”, ou seja, um respeito, que não é causa do reto querer no sujeito, mas efeito dele.
Agir por dever é elevar-se acima do amor de si próprio no amor da humanidade.
Mas a humanidade, aí, não é composta de “sis”, entes concretos, singulares, que amam a si próprios, e, sim, é a ideia da liberdade de um ser racional. Livre, porque sua vontade é desconectada de qualquer estímulo externo e capaz de se subordinar, querendo-a, à legislação que ele mesmo pensa e profere.
E o amor, aí, não é uma alegria, mas um “amor prático”, ou seja, um respeito, que não é causa do reto querer no sujeito, mas efeito dele.
Surpresa
De repente, eu percebi – depois de usá-lo durante muitos dias, sem pensar nessa eventualidade – que o meu tubo de pasta de dente estava quase no fim.
Memórias de uma pesquisa: Erro para resultado
Às vezes eu percebia um erro de percurso, mas isso, para o meu espanto, não alterava coisa alguma no resultado a que eu havia chegado ao cometer aquele erro.
Como se, num momento intermediário, eu calculasse 2+5 = 9, seguisse adiante, somando e subtraindo outros valores, até chegar a um resultado X, e, mais tarde, percebesse aquele erro, e o corrigisse, sem que isso modificasse, porém, o resultado final X já alcançado.
Agora eu sei que – como aquele raciocínio intermediário, correto ou torto, não alterava em nada minhas conclusões – eu podia me passar dele sem qualquer prejuízo, porque o meu resultado era independente do processo que me havia levado até ele; embora eu saiba, também, que eu, particularmente, não teria chegado àquele resultado sem passar por esse erro.
Como se, num momento intermediário, eu calculasse 2+5 = 9, seguisse adiante, somando e subtraindo outros valores, até chegar a um resultado X, e, mais tarde, percebesse aquele erro, e o corrigisse, sem que isso modificasse, porém, o resultado final X já alcançado.
Agora eu sei que – como aquele raciocínio intermediário, correto ou torto, não alterava em nada minhas conclusões – eu podia me passar dele sem qualquer prejuízo, porque o meu resultado era independente do processo que me havia levado até ele; embora eu saiba, também, que eu, particularmente, não teria chegado àquele resultado sem passar por esse erro.
Quiasma: língua_pensamento VII: A profundidade das reformas ortográficas
Às vezes sinto como se meu espírito fosse constituído de camadas correspondentes aos sucessivos regimes da língua. A cada reforma ortográfica, a cada conjunto de supressões ou acréscimos de letras, de formas de acentuação, de palavras no léxico, uma nova camada se instaura, cobrindo, mas apenas parcialmente, a anterior, sob um novo modo de formatação da fala ou ortofonia.
Puro-impuro II: invenção de uma genealogia
Os predicados puro e impuro são derivados de um uso inicial que era estritamente material. Assim, se distinguiam o “ouro puro” do “ouro impuro”, porque o impuro continha numa mistura outros metais.
À pureza sem mistura e à impureza da mistura logo se vincularam também predicados morais. O ouro puro, por exemplo, entrava no comércio justo entre humanos virtuosos. O ouro impuro, no injusto, entre humanos sem virtude, viciosos e falsificadores.
A ideia da separação entre a alma e o corpo reforçou o uso moral dos predicados puro e impuro. Uma alma pura era aquela que não sucumbia às tentações, inclinações ou apetites do corpo (entendido como a origem dos vícios). Purificar a alma era separar e afastar dela todos os vícios que provinham do corpo.
O bom moralmente puro, então, foi considerado em referência somente à alma purificada e descartava todo tipo de utilidade ou de prazer próprios ao corpo.
Só mais tarde, mas ainda imbuídos do uso moral, os predicados puro e impuro foram aplicados também ao conhecimento. O conhecimento puro foi entendido como aquele estritamente racional e purificado de qualquer influência do corpo, e o impuro, aquele que carregava em si, falsificando-se num certo sentido*, também elementos sensuais ou da sensibilidade.
À pureza sem mistura e à impureza da mistura logo se vincularam também predicados morais. O ouro puro, por exemplo, entrava no comércio justo entre humanos virtuosos. O ouro impuro, no injusto, entre humanos sem virtude, viciosos e falsificadores.
A ideia da separação entre a alma e o corpo reforçou o uso moral dos predicados puro e impuro. Uma alma pura era aquela que não sucumbia às tentações, inclinações ou apetites do corpo (entendido como a origem dos vícios). Purificar a alma era separar e afastar dela todos os vícios que provinham do corpo.
O bom moralmente puro, então, foi considerado em referência somente à alma purificada e descartava todo tipo de utilidade ou de prazer próprios ao corpo.
Só mais tarde, mas ainda imbuídos do uso moral, os predicados puro e impuro foram aplicados também ao conhecimento. O conhecimento puro foi entendido como aquele estritamente racional e purificado de qualquer influência do corpo, e o impuro, aquele que carregava em si, falsificando-se num certo sentido*, também elementos sensuais ou da sensibilidade.
Nessa medida, a valorização do conhecimento puro sobre o impuro se explica apenas por uma ideia do que seja um comércio virtuoso, aquele no qual a moeda de troca não é falsificada.
Não falamos com intenções traduzíveis
Quando um falante do inglês diz: “good morning”, ele não quer dizer: “bom dia”, mas “gud-mor-niin”.
Puro-impuro I: A vida como ela é
“A vida como ela é” é essa superfície mesma em que a vida se exprime imanentemente (isto é, em si mesma).
Para quem assim a concebe (veja, por exemplo, Alberto Caeiro em o Guardador de Rebanhos) é absolutamente ilegítima qualquer tentativa de se colocar acima (elevando-se até o universal) ou abaixo (aprofundando-se até o fundamento) dessa superfície.
Para “a vida como ela é” não há o puro nem o impuro.
Para quem assim a concebe (veja, por exemplo, Alberto Caeiro em o Guardador de Rebanhos) é absolutamente ilegítima qualquer tentativa de se colocar acima (elevando-se até o universal) ou abaixo (aprofundando-se até o fundamento) dessa superfície.
Para “a vida como ela é” não há o puro nem o impuro.
Homofonia IV: meta-homofonia
A homofonia em primeiro nível é material:
1) Havia a via.
2) Ouviu ou viu.
3) Contudo, com tudo.
4) Cuidado com a manhã, não com amanhã.
A meta-homofonia se dá num segundo nível.
No alinhamento ritmado por homofonias: (1) + (2) + (3) + (4)...
Num sentido meta-homofônico, “(1) + (2) + (3) + (4)...” diz o mesmo que “(1) + (1) + (1) + (1)...”:
Se a homofonia é material, a meta-homofonia é da ordem do ritmo.
E o ritmo é sobrematerial ou formal.
1) Havia a via.
2) Ouviu ou viu.
3) Contudo, com tudo.
4) Cuidado com a manhã, não com amanhã.
A meta-homofonia se dá num segundo nível.
No alinhamento ritmado por homofonias: (1) + (2) + (3) + (4)...
Havia a via. Ouviu ou viu. Contudo, com tudo. Com a manhã, com amanhã...
Num sentido meta-homofônico, “(1) + (2) + (3) + (4)...” diz o mesmo que “(1) + (1) + (1) + (1)...”:
Havia a via. Havia a via. Havia a via. Havia a via...
Se a homofonia é material, a meta-homofonia é da ordem do ritmo.
E o ritmo é sobrematerial ou formal.
A via
Minha salvação, eu a encontro mais no imperfeito, porque vago, confuso, flexível, do que no perfeito.
Contudo, todas as coisas são perfeitas (omnia perfecta). E eu me salvo, também, com isso.
Contudo, todas as coisas são perfeitas (omnia perfecta). E eu me salvo, também, com isso.
Quiasma: uma espécie de portal
Convergência divergente. Divergência convergente.
Por um quiasma, um regime de narrativa se aproxima de outro, para se afastar novamente. Ou o inverso.
Por um quiasma, enfim, pode-se efetuar o salto de um a outro regime de narrativa.
Devir_futuro
Devir não é o futuro, mas a produção do futuro, a futurização do presente (isto é, a própria presentificação).
Do parafuso, até a alma?
Um parafuso gira num certo sentido. Para fazer um parafuso girar num sentido certo é preciso uma chave de fenda com o giro certo. E, para que a chave gire certo, uma mão que a gire...
Não saltar daqui para a mente.
{Os nervos que contraem os músculos do braço certos.}
{Os nervos que contraem os músculos do braço certos.}
Ponta de alfinete
A intensificação
do desejo – o fervor – não tem a ver com devir ponto, mas com devir
infinito.
Faça a sua escolha
Dois modos de ser coletivos: o modo do pastor e do rebanho; o modo da matilha de lobos.
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