A erosão do vento
Os pensamentos sistemáticos, as experiências coesas e as vidas comunitárias sistemáticas sofreram a “erosão do vento”. Restaram dessas sistematicidades apenas fragmentos desconectados uns dos outros.
De tal maneira que, no mundo atual, nossos rostos-máscaras-personas são feitos da colagem impura desses fragmentos oriundos da erosão histórica de diversas fontes de experiência.
Não há nada de mal, de incorreto ou de prejudicial com a impureza. Essa colagem assistemática de sensibilidades, máximas morais, regras de vida, crenças e desejos desordenados e desencaixados é extremamente complexa e, talvez, nos tenha tornado extremamente inteligentes, adaptáveis e resistentes.
Mas essa resistência pode ser também a nossa infelicidade – se a nossa duração terminar por purificar nossas personas novamente em uma experiência coesa (tornando sistemático o assistemático).
Contra-tualismo
O contrato se dá entre duas ou mais partes.
O contratualismo fundamenta a justiça do contrato na ideia da igualdade entre as partes contratantes. Quanto mais as partes são iguais (em seu poder ou em sua ascendência sobre a decisão dos outros), mais o contrato tende a ser justo.
A igualdade absoluta é a identidade. O contrato absolutamente justo seria aquele estabelecido entre partes idênticas.
Partes idênticas, porém, já estão, desde o início, de acordo entre si, como estão de acordo consigo mesmas. Nada precisam, portanto, contratar.
Ou ainda: partes idênticas são, em absoluto, uma só e mesma parte. Como o contrato requer, no mínimo, duas partes, partes idênticas não podem passar um contrato que as ligue uma com a outra.
Conclusão: absolutamente falando, todo contrato é essencialmente injusto.
O contratualismo fundamenta a justiça do contrato na ideia da igualdade entre as partes contratantes. Quanto mais as partes são iguais (em seu poder ou em sua ascendência sobre a decisão dos outros), mais o contrato tende a ser justo.
A igualdade absoluta é a identidade. O contrato absolutamente justo seria aquele estabelecido entre partes idênticas.
Partes idênticas, porém, já estão, desde o início, de acordo entre si, como estão de acordo consigo mesmas. Nada precisam, portanto, contratar.
Ou ainda: partes idênticas são, em absoluto, uma só e mesma parte. Como o contrato requer, no mínimo, duas partes, partes idênticas não podem passar um contrato que as ligue uma com a outra.
Conclusão: absolutamente falando, todo contrato é essencialmente injusto.
Cursos da vida (curricula vitae)
Em geral, os pensadores que não gostam de balburdia,
discussão, conflito, passeiam pelos campos quase desertos que rodeiam a sua
cidade.
Os que gostam, pelos bairros centrais, em cujas ruas não se pode andar
sem se esbarrar em alguém.
Acontece alguns deles mudarem suas rotas. Depois
de uma volta no centro, saem atordoados na direção do campo.
C. V.
Para o desempregado, C.V. não indica curriculum vitae, mas “círculo vicioso”. Ou seja, para ele, fica claro que o curso da vida é um giro em espiral de fora para dentro (quando, na virtude, ele deveria girar de dentro para fora).
Monotonia, tédio, angústia
Fora do seu elemento, o humano diz (no campo, a mão estendida acima dos olhos, protegendo-os contra a luz): – aqui, reina a monotonia.
No seu elemento (na cidade, entre os humanos e as suas utilidades): – aqui, reina o tédio.
Em todo lugar (a qualquer momento, surge, ou desaparece): – a angústia.
No seu elemento (na cidade, entre os humanos e as suas utilidades): – aqui, reina o tédio.
Em todo lugar (a qualquer momento, surge, ou desaparece): – a angústia.
(Menos com o) Desejo de mais e mais
Dos “quatro remédios” (tetra pharmakon), que Epicuro nos receita, aquele do qual mais carecemos, para ser feliz, é saber que os bens realmente necessários, para tanto, são fáceis de obter.
O “grito da carne” (karkós phoné) não é a voz do desejo ilimitado, o desejo de mais e mais, que mais e mais nos distancia daquilo que é essencial para acalmar o mar de ondas que percorrem nossos corpos e seus humores.
A carne grita de fome, de sede, de frio e de calor...
Porém, quando a carne não grita mais, com que cera vedar os ouvidos para os sussurros do desejo de mais e mais que não se satisfaz com nada?
O “grito da carne” (karkós phoné) não é a voz do desejo ilimitado, o desejo de mais e mais, que mais e mais nos distancia daquilo que é essencial para acalmar o mar de ondas que percorrem nossos corpos e seus humores.
A carne grita de fome, de sede, de frio e de calor...
Porém, quando a carne não grita mais, com que cera vedar os ouvidos para os sussurros do desejo de mais e mais que não se satisfaz com nada?
Ironia
Quando o irônico diz “A” com ironia, ele não quer dizer (não tem em mente) (nem significa) “não-A”.
Ele se posiciona entre “A” e “não-A”.
Ele se posiciona entre “A” e “não-A”.
ironia (ironia (A)) ≠ A
Saussure, eu lhe digo, sussurre...
a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra a guerra
nunca realmente idêntica a si mesma
entretanto... já devo ter perdido a conta
– a quantas andamos? esta será a 5ª, a 4ª GGM?
nunca realmente idêntica a si mesma
entretanto... já devo ter perdido a conta
– a quantas andamos? esta será a 5ª, a 4ª GGM?
Em meio a isso, num mar
Estar em meio a isso (issos): um mar de ondas, que nos fazem submergir, uma após a outra, em intervalos muito curtos; suficientemente curtos para que não enchamos os pulmões de ar (e devenhamos balão ou anjo); suficientemente longos para que não percamos o fôlego de maneira absoluta (pedra).
Estar em meio a isso e, ainda assim, ser livre para o pensar (o pensar que se quer, o pensar das ondas). Não façamos da liberdade um vazio. Para além de (ao modo do com) a sobrevivência, a liberdade.
A liberdade, em meio.
Estar em meio a isso e, ainda assim, ser livre para o pensar (o pensar que se quer, o pensar das ondas). Não façamos da liberdade um vazio. Para além de (ao modo do com) a sobrevivência, a liberdade.
A liberdade, em meio.
Princípio biográfico
A natureza tem seus princípios (archai), suas linhas de pulsão, seu campo de forças, imanente e... histórico, seu campo (não de regras) de canais de escoamento, de condução, de formação, de redistribuição, de concentração de sua causalidade e potência. Assim, também, uma vida humana.
Como exemplo disponível, esse princípio biográfico: – entre dois pontos, inventar e percorrer sempre um caminho complicado. (De tal modo complicado, que, muitas vezes, perde-se da vista e da mente o segundo ponto).
Como exemplo disponível, esse princípio biográfico: – entre dois pontos, inventar e percorrer sempre um caminho complicado. (De tal modo complicado, que, muitas vezes, perde-se da vista e da mente o segundo ponto).
“Conceder”
Somos também obrigados a fazer concessões ao pensamento de humanos cujas vozes, para nós, soam dentre as mais adversas. Assim, seu pensamento repete-se a nosso modo:
A verdade se encobre com a resposta – mas, se desvela com o questionar.
Teologia e estratégia
– As pedras estão todas soltas!
Diante disso, não assumir uma visão apocalíptica (o mundo está ruindo), mas uma atitude estratégica (isto é, contemporânea).
Metafísica e estratégia
O pensamento metafísico (como chamá-lo?) caminha assim: assenta seu passo num solo firme, seguro, absolutamente garantido, antes de dar um próximo passo. Quanto mais tempo dedica, e quanto mais segurança obtém no primeiro fundamento – acredita –, tanto mais rapidamente poderá caminhar na sequência. – Todo seu impulso se encontra, portanto, no fundamento.
O pensamento estratégico não exige (porque não pode exigir) garantia absoluta de nenhum solo. Caminha sempre como que sobre ovos ou pedras soltas. As opções que toma nos seus passos estão sempre condicionadas à consideração das variações que podem ocorrer, a qualquer momento, nas sendas alternativas que se lhe apresentam para ir adiante ou, se preciso, para recuar. O seu impulso não provém da firmeza de nenhum solo, mas do próprio movimento. Quanto menos se assenta nas pedras (afinal, elas estão todas soltas), mais autônomo – para ele – se torna seu caminhar.
A verdade e o múltiplo
– A verdade é uma só. Se conversarmos educadamente, se deixarmos falar o outro, se o ouvirmos, se ponderarmos nossa posição pelas colocações e argumentos do outro, chegaremos necessariamente a um consenso, que, se não é a expressão da própria verdade, pelo menos, será a posição mais próxima à verdade que, numa determinada situação, nós poderemos alcançar.
– Nada disso. Ou melhor, também ainda isso: para vivermos juntos e com a verdade, não precisamos estar necessariamente em consenso, e fazer convergir nossas opiniões em uma só e comum. Existe o que se pode chamar de compromisso. Eu cedo nisso, e o outro naquilo. Compromisso é uma espécie de ponto de equilíbrio dos desejos (não é um contrato). E se alcança por barganha. Não se alcança por argumentos apenas, mas também por um jogo de forças.
– Mas, isso degenera em violência.
– A força não é sempre fisicamente manifesta. Falo de um jogo dos desejos-forças.
– Nada disso. Ou melhor, também ainda isso: para vivermos juntos e com a verdade, não precisamos estar necessariamente em consenso, e fazer convergir nossas opiniões em uma só e comum. Existe o que se pode chamar de compromisso. Eu cedo nisso, e o outro naquilo. Compromisso é uma espécie de ponto de equilíbrio dos desejos (não é um contrato). E se alcança por barganha. Não se alcança por argumentos apenas, mas também por um jogo de forças.
– Mas, isso degenera em violência.
– A força não é sempre fisicamente manifesta. Falo de um jogo dos desejos-forças.
A pulsão pelo um – III et sic in infinitum
O que vem em primeiro para o conhecimento: a
física (mas esta já ficou um pouco para trás) ou
a biologia? A biologia ou a economia?
Para nós (mais para trás ainda, para os retardatários), a briga é esta:
– A ciência primeira é a metafísica ou a política?
Talvez esta briga nossa seja a briga entre
duas pulsões: – entre a pulsão pelo um e a pulsão pelo múltiplo ...entre [o amor/dominação] e [os amores/insurreições].
A pulsão pelo um – II...
Disso, que afirmamos na ideia, com as palavras, é sempre bom dar um exemplo real (aos empiristas):
– “...a velha insinuação de que todo pensador importante tem essencialmente uma única ideia fundamental”* – da qual todo o resto do seu pensamento é apenas derivado.
Uma única ideia fundamental? Se você a detém, você detém o pensador em suas mãos.
E podemos ir além. Ora, e essas ideias fundamentais de cada um dos pensadores importantes, não seriam elas todas uma única e mesma ideia? Não se pode reduzir todo o pensamento possível a uma única e mesma condição? – (O que seria, para mim, uma grande infelicidade) –
(*) FREDE, Dorothea. The question of being: Heidegger’s project. In: GUIGNON, Charles B. (Org.). The Cambrigde Companion to Heidegger. 2 ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. P. 42.
(*) FREDE, Dorothea. The question of being: Heidegger’s project. In: GUIGNON, Charles B. (Org.). The Cambrigde Companion to Heidegger. 2 ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. P. 42.
A pulsão pelo um
Podemos perceber, por todo canto, isso que nos aparece – digamos – como uma enorme pulsão pelo um.
Uma pulsão não é necessariamente um querer, mas uma força-desejo (ou melhor, forças).
Uma enorme força redutora ao apreensível e ao manipulável. Ela reduz a multiplicidade para que a tenhamos em mente e entre as mãos.
Para que se diga: – eu a tenho na palma de minha mão.
Atenção
– A minha atenção é atraída para diferentes objetos saltitantes. Dessa maneira, o meu grande esforço de atenção é focá-la num objeto que mereça atenção.
Até mesmo ser acometido dessa ideia, em sua revelação, é uma distração da atenção.
Até mesmo ser acometido dessa ideia, em sua revelação, é uma distração da atenção.
O Monstruoso
Nosso modo de viver coletivo no mundo, afinal, é um monstro (com seus aspectos ou caretas: a sociedade de consumo, do espetáculo, a sociedade industrialmente avançada, a revolução burguesa, o império, o capitalismo, o biopoder).
Nós criamos um monstro (não no sentido de que ele seja uma criatura nossa, mas no sentido de que nós o cultivamos e cultuamos; como quando dizemos: “criamos um boi”). Um monstro que vive não apenas às nossas custas, mas da nossa carne-no-mundo. Um deus-afeto monstruoso (um Leviatã).
– Não podemos nada contra ele? Num equilíbrio mortífero muito grande, ele assimila tudo o que lançamos contra ele, até mesmo, a nossa subjetivação mais rebelde. Um monstro feito de carne e carnívoro; um monstro-afeto afetado de nossos afetos.
A lança que matará o dragão – pois o Monstruoso é certamente um ser finito, como todas as coisas da natureza – será uma metástase imanente (uma revolução da sua própria patologia) ou um objeto transcendente?
Nós criamos um monstro (não no sentido de que ele seja uma criatura nossa, mas no sentido de que nós o cultivamos e cultuamos; como quando dizemos: “criamos um boi”). Um monstro que vive não apenas às nossas custas, mas da nossa carne-no-mundo. Um deus-afeto monstruoso (um Leviatã).
– Não podemos nada contra ele? Num equilíbrio mortífero muito grande, ele assimila tudo o que lançamos contra ele, até mesmo, a nossa subjetivação mais rebelde. Um monstro feito de carne e carnívoro; um monstro-afeto afetado de nossos afetos.
A lança que matará o dragão – pois o Monstruoso é certamente um ser finito, como todas as coisas da natureza – será uma metástase imanente (uma revolução da sua própria patologia) ou um objeto transcendente?
Uma questão
Desejo, prazer, prudência – como estas palavras se articulam umas com as outras? Mas, não me responda com desejo, nem com prazer, nem com prudência.
Sentido da vida
O que eu pensava que aconteceria no fim, acontece durante.
– Com isso, o fim é o nada. O fim deixa de ser um sentido para mim. E, assim, tudo perde sentido, porque o meio já não aponta mais para nada.
Mas, vejamos. Se, o sentido, nós o colocamos no fim, então, é o durante que não tem sentido em si. Há muitos caminhos para se chegar a um fim. E este caminho meu, pode ser substituído por outro. Se o fim é tudo, o nada está no durante.
O sentido tem necessariamente essa forma: (a) –> (z)?
Não poderia ter essa outra: (a), simplesmente (a)?
– Com isso, o fim é o nada. O fim deixa de ser um sentido para mim. E, assim, tudo perde sentido, porque o meio já não aponta mais para nada.
Mas, vejamos. Se, o sentido, nós o colocamos no fim, então, é o durante que não tem sentido em si. Há muitos caminhos para se chegar a um fim. E este caminho meu, pode ser substituído por outro. Se o fim é tudo, o nada está no durante.
O sentido tem necessariamente essa forma: (a) –> (z)?
Não poderia ter essa outra: (a), simplesmente (a)?
Essência no fim ou no começo? Potencial ou atual? – III
Pode nos parecer estranho que
isso-que-faz-com-que-uma-coisa-seja-realmente-o-que-ela-é esteja no seu fim e não na sua atualidade (não no seu devir,
mas no seu acabamento).
Já que, para nós, isso-que-faz é geralmente
uma causa fazedora, uma causa eficiente.
Entretanto, é preciso reconhecer que, para
nós, essa causa fazedora, nós a concebemos em geral como externa à coisa e,
sendo externa, ela não nos parece ligada à natureza própria da coisa.
Aristóteles pensa em meio às nossas próprias
colocações.
Aristóteles concilia nossas duas opiniões comuns (a de que isso-que-faz tem que ser uma
causa e a de que a causa fazedora é externa à coisa) com a sua ideia de que a natureza da coisa é a sua finalidade, dizendo-nos
que essa finalidade é uma causa – uma causa final.
Ora, a força causal de um fim só pode ser
atrativa.
O fim só exerce o seu poder (ou o seu princípio
de força) sobre a efetuação do real atraindo-a para si.
A causalidade final, em termos físicos, é
uma espécie de força gravitacional – dá o movimento do mundo, porém, não exige
seu colapso; pelo contrário, mantém tudo em ordem, e girando, e circulando, em
torno do fim último como causa primeira.
Essência no fim ou no começo? Potencial ou atual? – II
O que você prefere? – Pois, talvez, isso seja uma questão para a sua preferência.
Que sua essência – isso que você realmente é
– esteja no seu fim ou que esteja atual, aqui e agora?
Uma coisa é realmente isso que ela se tornará, talvez, um
dia?
Ou: uma coisa é realmente isso que faz o seu
tornar-se?
Essência no fim ou no começo? Potencial ou atual?
Para Aristóteles, a natureza de uma coisa –
sua essência, isso que mostra o que ela realmente é – está no seu fim, que é
também o seu máximo, a sua excelência, a sua realização plena. Assim, ao longo
da duração da coisa, sua essência é apenas potencial.
Para Spinoza, muito pelo contrário, a
natureza de uma coisa – sua realidade – está na sua potência atual, que é
também o seu princípio, a partir do qual as coisas que lhe dizem respeito acontecem.
Já o fim de uma natureza é indefinido – afinal, ninguém sabe o que uma coisa
finalmente pode.
Ação III
Há algo ou tudo na ação que se refere à amizade (ou, mais precisamente, à relação humana).
Ou se age em direção a um amigo, ou junto com um amigo, ou contra um inimigo (em “um amigo”, leia-se, não exatamente “um humano”, mas “um outro”).
Por isso, a ação requer significado.
Como o significado é relacional (ele só se fixa, em realidade, por relações), a ação não é de um sujeito: a ação nunca parte do agente sozinho.
Daí, também, uma possível teoria semântica: “O significado se encontra nas preposições”.
Ação II
Pensar é agir sem se mexer? Mas isso é um paradoxo!
Inventa-se (inventar é sempre, também, descobrir o que já estava lá) a
alma – movimento e princípio do movimento. Afinal, o corpo sem alma não se
move. E, como disse Platão: o que é, para si mesmo, o princípio do próprio movimento
é imortal.
– Não se preocupe (don’t worry!). Você age, mesmo quieto (em latim, quies = repouso que não se mexe) e sempiternamente.
Assim: não é exatamente a alma pensadora que é prisioneira do corpo quieto,
mas o corpo falador que é escravo dessa dominação (toda invenção – e toda ação é uma invenção – é uma outra maneira de dominar).
Ação
Há sempre algo que me impede (devem ser algumas cordas, mas eu não as vejo, nem vejo onde cortá-las).
Para falar a verdade...
A verdade é tão elevada que nada abaixo dela pode lhe servir de medida.
Assim, não podemos julgar a verdade por meio da falsidade.
Só a verdade é norma para a verdade (veritas index sui).
E, assim, o velho, o muito velho critério epistemológico do saber só pode ser uma verdade auto-evidente.
Descartes encontrou a sua norma (a sua pedra de toque) na certeza de um saber absoluto.
Sócrates, por seu lado, encontrou sua verdade em um não-saber.
E Nietzsche, no auge do paradoxo e da corrupção, encontrou sua verdade numa não-verdade.
Assim, não podemos julgar a verdade por meio da falsidade.
Só a verdade é norma para a verdade (veritas index sui).
E, assim, o velho, o muito velho critério epistemológico do saber só pode ser uma verdade auto-evidente.
Descartes encontrou a sua norma (a sua pedra de toque) na certeza de um saber absoluto.
“Eu penso” é o conteúdo, o objeto de um saber reflexivo (pensamento de pensamento, na forma de “eu sei que eu penso”) cuja certeza inquestionável deve valer como norma para todo outro saber.
Sócrates, por seu lado, encontrou sua verdade em um não-saber.
“Eu não sei de nada”. E assim “só sei que nada sei” – que é o saber de sua ignorância: e também a maior das ciências (como o “eu penso”). Ele se servia dela para “quebrar o pescoço” dos seus interlocutores. E, por isso, foi acusado e condenado por “corromper os jovens da cidade”.
E Nietzsche, no auge do paradoxo e da corrupção, encontrou sua verdade numa não-verdade.
“Não há verdade. Tudo é permitido”.
A arrogância do discípulo
Quando você for à “escola”, pense na inscrição que deveria figurar no arco do seu portal de entrada.
“O ensinamento não pode se inscrever senão em uma alma consciente de sua ignorância”*.
O arco é muito baixo.
Para entrar, é preciso dobrar o pescoço.
Como fazem os súditos.
(*) GOLDSCHMIDT, Victor. La religion de Platon [1949]. In: Platonisme et pensée contemporaine. Paris: Vrin, 2000. P. 30.
(*) GOLDSCHMIDT, Victor. La religion de Platon [1949]. In: Platonisme et pensée contemporaine. Paris: Vrin, 2000. P. 30.
Arché – ontologia e política
Aliás, quando Heidegger explica a arché da filosofia, ele diz algo assim:
Arché – aquilo de onde algo surge, mas que não é deixado para trás no surgir; arché como aquilo que impera.
Conferir: HEIDEGGER, Martin. Que é isto – a filosofia? [1956]. Trad. Ernildo Stein. In: Conferências e escritos filosóficos. Col. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1989. P. 21-22.
Arché – aquilo de onde algo surge, mas que não é deixado para trás no surgir; arché como aquilo que impera.
Conferir: HEIDEGGER, Martin. Que é isto – a filosofia? [1956]. Trad. Ernildo Stein. In: Conferências e escritos filosóficos. Col. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1989. P. 21-22.
Eu-no-não-mundo
A ideia de que tudo a que tenho acesso são apenas
as minhas próprias percepções (e não diretamente o mundo mesmo das coisas) é tão
absurda e doentia quanto a ideia de que eu jamais possa pisar a luz (sequer sob
o mais radiante sol), mas sempre somente a minha própria sombra, a sombra do
meu pé.
Poliarquia
Taylor* nos mostra como, se Aristóteles
levasse a fundo as suas próprias definições, o tipo de poder numa comunidade
humana ideal seria o poder democrático.
Este poder (exercido entre
homens iguais e livres), Aristóteles, é verdade, não o chamava de democracia, porque ele definiu a democracia como a sua perversão. A democracia, para Aristóteles, é o poder da
maioria em vista da maioria e não do comum.
Ao poder exercido entre “homens livres e
iguais” (com exclusão daqueles que não têm a autoridade – as mulheres –, que não sabem deliberar – os escravos, ou que não sabem falar – os infantes), para o bem comum, Aristóteles dá o nome de politeia.
Isso causa alguma confusão.
Pois, para Aristóteles, politeia é gênero e espécie. É o gênero de todas as formas de governo que
visam ao bem comum. E é também uma espécie desse gênero, aquela em que o poder
é exercido por todos os homens.
Politeia,
como gênero, na tradução latina, é a república. Na tradução latina, fica
ressaltada a finalidade da politeia, a res publica, a coisa pública ou o bem
comum.
Republica traduz
politeia como gênero e não como espécie.
A politeia
como gênero, como aquele poder que visa ao bem da comunidade, é qualquer forma
de forma de governo verdadeira e não pervertida. Como poder que cuida (que cura, que se preocupa) da coisa pública, a politeia é dita, também, monarquia e aristocracia – formas de governo em que somente um ou alguns poucos exercem o
poder.
A tradução latina de politeia como republica nos esconde, então,
aquele outro sentido, presente no grego, e que nos remete àquela forma específica do poder de todos, a pólis
propriamente dita.
Nesse sentido específico, a pólis é uma comunidade composta de cidadãos (Política, III, 1, 1274b41). E um cidadão é
definido como aquele que é capaz de participar nas áreas deliberativas e
judiciais do governo (1275b18-20).
Na pólis ideal,
todos os seus membros componentes, todos os cidadãos exercem o poder (não
apenas a maioria) com vistas ao bem comum (e não ao bem exclusivo da maioria).
Quando Aristóteles fala da pólis e do tipo de poder exercido nela, ele fala de:
ἡ δὲ πολιτικὴ ἐλευθέρων καὶ ἴσων ἀρχή (I, 7, 1256a20)
Aí, aparece o termo politiké arché. Que é traduzido, no inglês, por “constitutional rule”, como “a government of freeman and equals”**. Que, no português, daria algo como “poder ou império constitucional,
governo de homens livres e iguais”.
Arché para os
primeiros filósofos designava o princípio ontológico que explica o ser das
coisas existentes.
Para os primeiros filósofos, a filosofia era
investigação da natureza (istoria peri physeus),
“explicação da realidade, em seu conjunto e em seu estado presente, a partir da
sua origem – a physis como arché – e explicação fazendo intervir apenas processos naturais”***.
E a arché, o
princípio ontológico constituinte das coisas, variava: água para Tales, ar para Anaxímenes, fogo para Heráclito, apeiron (infinito ou
indeterminado) para Anaximandro.
O termo arché está presente em monarquia (na qual o princípio constituinte da
comunidade dos homens é mono, único, um).
Na comunidade ideal, o princípio
constituinte é plural, não é um princípio, mas cada um dos membros componentes
da comunidade é um princípio constituinte, cada um é uma arché, um poder, uma fonte de comando.
Poderíamos dar o nome de poliarquia a esta comunidade política ideal, constituída por uma
multiplicidade de princípios.
(*) TAYLOR, Christopher C. W. Politics. In: BARNES, Johannes (Org.). The Cambridge Companion to Aristotle. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
(**) ARISTÓTELES. Politics. Trad. Benjamin Jowett. In: MCKEON, Richard (Org.). The Basic
Works of Aristotle. New York: Random House, 1941.
(***) CONCHE, Marcel. Anaximandre: Fragments et témoignages. Paris: PUF, 1991. P. 79.
Elasticidade afetiva – saudades do presente
Quando uma brisa ligeiramente mais fresca penetrou o ar ambiente de meu escritório, veio-me, de imediato, uma certa nostalgia deste mesmo lugar onde eu estava (ligada certamente à simples percepção da variação da temperatura).
|Os acontecimento nos interpelam – II| ou |O indivíduo pluricorporal – V| ou ainda: {|Os acontecimento nos interpelam| ou |O indivíduo pluricorporal – IV|} – II
Para o indivíduo pluricorporal, não se trata de “tomar partido”, mas de multiplicar, estrategicamente, as suas próprias posições.
O dilema das respostas é que elas nos tranquilizam.
A velha questão epicureia da “paz na vida” (eggalènizôn tôi biôi). A imagem da vida como um mar calmo. A terapia contra as inquietações da alma pela produção de respostas (Epicuro) ou pela eliminação das questões (Wittgenstein).
Como dizia Ch. S. Peirce:
“A dúvida é um estado de desconforto e insatisfação do qual lutamos para nos libertar e passar ao estado de crença; enquanto este último é um estado calmo e satisfatório que não desejamos evitar, ou alterar por uma crença noutra coisa qualquer. Pelo contrário, agarramo-nos tenazmente, não meramente à crença, mas a acreditar exatamente naquilo em que acreditamos”*.
A resposta é problemática, justamente, porque, diante do acontecimento, não se trata de responder, posicionando-se para se tranquilizar, mas de problematizar.
* PEIRCE, Ch. S. A fixação da crença. In: Popular Science Monthly, Nov. 1877.
|Os acontecimento nos interpelam| ou |O indivíduo pluricorporal – IV|
Certamente, como as obras de arte, os acontecimentos nos interpelam. Nos atraem, nos questionam, nos convocam.
– Como te posicionas frente a isso que acontece?
Mas essa interpelação, essa exigência de “tomar partido” é também uma cilada. Não todas as vezes. Mas tende a uma armadilha, a um aprisionamento, a uma redução, a uma captura, quanto mais o campo da posição se coloca de maneira estreita e estritamente bipolar.
– Tu estás deste lado ou do outro? Do nosso lado ou do lado dos outros? Tu és amigo ou inimigo? Estás na mira do nosso amor ou do nosso ódio?
– És por Kadafi ou torces pelos rebeldes? Em Florianópolis e São Paulo, és pelos criminosos ou pela polícia? No Oriente Médio, pelos judeus ou pelos palestinos?
A exigência de posicionamento frente ao acontecimento é também uma interpelação subjetivante. De fato, não o acontecimento, mas a interpelação do acontecimento quer ser uma função para o sujeito. O sujeito interpelado que se posiciona, que se posicione em função do acontecimento.
Toda tomada de posição, na unidade do sujeito, exige o alinhamento de todos os outros posicionamentos, genuinamente, coerentemente, seus.
Assim, à medida que respondemos à interpelação do acontecimento, à medida que nos posicionamos, que nos estabelecemos em uma posição fixa diante do acontecimento, vamos constituindo, também como uma exigência, também sob interpelação, uma posição única e unificada, desde a qual olhamos e avaliamos tudo o que acontece.
O pensamento estratégico, quando multiplica os posicionamentos e desunifica os sujeitos, combate a captura da interpelação.
Para o indivíduo pluricorporal, não se trata de “tomar partido”, mas de multiplicar, estrategicamente, as suas próprias posições.
E o que seria pensar o acontecimento?
Pensar o acontecimento seria, entre outras coisas, poder pensar o acontecimento como bom ou mau, certo ou errado. E, a partir disso, condená-lo e agir para impedir sua efetuação, ou concordar com ele e favorecê-lo.
Mas, como se trata, aqui, de mal ou bem, para pensar o acontecimento, não deveríamos “tomar o partido” divino, isto é, assumir uma perspectiva afastada, separada ou transcendente, que teorize o mundo desde fora e como sua criatura.
Deveríamos, enquanto humanos que somos, pensar o acontecimento estrategicamente, isto é, a partir do que realmente é bom ou mau para nós enquanto criadores.
Mas, como se trata, aqui, de mal ou bem, para pensar o acontecimento, não deveríamos “tomar o partido” divino, isto é, assumir uma perspectiva afastada, separada ou transcendente, que teorize o mundo desde fora e como sua criatura.
Deveríamos, enquanto humanos que somos, pensar o acontecimento estrategicamente, isto é, a partir do que realmente é bom ou mau para nós enquanto criadores.
Indivíduo pluricorporal III
A respeito de arte, Jean Luc Chalumeau disse o seguinte:
“Tomar partido” quer dizer: colocar-se de um lado ou de outro, e concordar ou não com a afirmação: – isto, de fato, é arte!
Talvez pudéssemos dizer o mesmo, e ainda com mais urgência, acerca do presente:
Com certeza, nós (eu falo por você também...) nos engasgamos com a palavra “partido”. O indivíduo não precisa ser um “partido”, para ser pluricorporal. “Tomar partido”, sem justificar a decisão tomada, é, para nós, a corrupção não só da humanidade como do pensamento.
Por outro lado, ao nos transpormos da arte para o presente, “tomar partido” não seria, para nós, emitir um juízo do tipo “isto é ou não é um acontecimento”. Mas “tomar partido” seria um juízo sobre a relevância do acontecimento para o presente: “isto merece ou não merece ser pensado”.
E o que seria pensar o acontecimento?
* CHALUMEAU, Jean Luc. As Teorias da Arte: Filosofia, crítica e história da arte de Platão aos nossos dias. Trad. Paula Taipas. Lisboa: Instituto Piaget, 2005. P. 12.
“Perante qualquer obra que se afirme arte, se deve adotar um ponto de vista e tomar partido, sob pena de renunciarmos a uma parte essencial da nossa humanidade”*.
“Tomar partido” quer dizer: colocar-se de um lado ou de outro, e concordar ou não com a afirmação: – isto, de fato, é arte!
Talvez pudéssemos dizer o mesmo, e ainda com mais urgência, acerca do presente:
“Perante o acontecimento, se deve adotar um ponto de vista e tomar partido, sob pena de renunciarmos a uma parte essencial da nossa humanidade”.
Com certeza, nós (eu falo por você também...) nos engasgamos com a palavra “partido”. O indivíduo não precisa ser um “partido”, para ser pluricorporal. “Tomar partido”, sem justificar a decisão tomada, é, para nós, a corrupção não só da humanidade como do pensamento.
Por outro lado, ao nos transpormos da arte para o presente, “tomar partido” não seria, para nós, emitir um juízo do tipo “isto é ou não é um acontecimento”. Mas “tomar partido” seria um juízo sobre a relevância do acontecimento para o presente: “isto merece ou não merece ser pensado”.
E o que seria pensar o acontecimento?
* CHALUMEAU, Jean Luc. As Teorias da Arte: Filosofia, crítica e história da arte de Platão aos nossos dias. Trad. Paula Taipas. Lisboa: Instituto Piaget, 2005. P. 12.
Indivíduo pluricorporal II
Cada um conta por cem ou mil.
E cem ou mil contam por um.
Quer dizer, a unidade não é mais o corpo, mas os cem ou mil corpos humanos agregados. As estratégias racionais então modificam-se. A estratégia do indivíduo pluricorporal é uma, a do indivíduo unicorporal é outra.
O número de indivíduos humanos sobre a Terra, a população mundial, seria, por exemplo, cem ou mil vezes menor. O que representa uma vantagem estratégica.
– Sim, talvez, mas em que isso nos importa, de fato? Há acontecimentos no mundo, agora, urgentes, sobre os quais você silencia, por quê? Por que você não toma partido, não se soma a um grupo? Por que não ousa expor a lógica, a sua lógica e interpretação para o acontecimento urgente? Afinal, a filosofia não é a “totalidade do saber”, não é “apreender seu tempo em pensamentos”?
– Talvez. Porém, parece-me, a filosofia não apenas é capenga (faltam-lhe as pernas) para dizer como deve ser o mundo no futuro, mas também para dizer a lógica do presente (na sua disparada). Se a filosofia é apreender o presente em conceitos, parece-me, então, que a filosofia é ou tornou-se uma atividade impossível. O presente é pensável em estratégias, e como tal, lugar de ação, mas inapreensível, ao menos, como verdade.
– Então, o acontecimento presente e urgente, pense-o sem apreendê-lo, posicione-se. Seu blá-blá-blá é preguiça e covardia. Ou você despreza o presente?
E cem ou mil contam por um.
Quer dizer, a unidade não é mais o corpo, mas os cem ou mil corpos humanos agregados. As estratégias racionais então modificam-se. A estratégia do indivíduo pluricorporal é uma, a do indivíduo unicorporal é outra.
O número de indivíduos humanos sobre a Terra, a população mundial, seria, por exemplo, cem ou mil vezes menor. O que representa uma vantagem estratégica.
– Sim, talvez, mas em que isso nos importa, de fato? Há acontecimentos no mundo, agora, urgentes, sobre os quais você silencia, por quê? Por que você não toma partido, não se soma a um grupo? Por que não ousa expor a lógica, a sua lógica e interpretação para o acontecimento urgente? Afinal, a filosofia não é a “totalidade do saber”, não é “apreender seu tempo em pensamentos”?
– Talvez. Porém, parece-me, a filosofia não apenas é capenga (faltam-lhe as pernas) para dizer como deve ser o mundo no futuro, mas também para dizer a lógica do presente (na sua disparada). Se a filosofia é apreender o presente em conceitos, parece-me, então, que a filosofia é ou tornou-se uma atividade impossível. O presente é pensável em estratégias, e como tal, lugar de ação, mas inapreensível, ao menos, como verdade.
– Então, o acontecimento presente e urgente, pense-o sem apreendê-lo, posicione-se. Seu blá-blá-blá é preguiça e covardia. Ou você despreza o presente?
O indivíduo pluricorporal
A fórmula “um indivíduo = um corpo humano”
(ou: “cada um conta por um e não mais do que um”) tem perdido a sua
racionalidade, isto é, a sua eficacidade. O indivíduo humano unicorporal vem se
tornando um impossível (na atualidade, já quase não cai sob o intelecto da
natureza das coisas). O indivíduo pluricorporal será, talvez, a alternativa
humana viável.
Cada um contará por cem ou mil corpos.
Sempre elogiar o acontecimento III – amor fati
Epicuro: – “O sábio se posta diante da Fortuna como um combatente”*.
Não há Providência divina. É preciso saber tirar proveito de tudo que acontece. Mejor! – como disse aquele sábio espanhol, na travessia do deserto sul-americano, ao ver morrer de sede seu cavalo.
Mejor! E repelir a melancolia.
Tudo vale a pena, aumenta a experiência, se a alma não é pequena.
E a alma (a própria experiência) não é finita por natureza, mas indefinida.
A morte não está inscrita na própria alma. É a duração indefinida que é conatural à alma.
(*) LAÊRTIOS, Diôgenes. Vie et doctrines des philosophes illustres. Trad. diversos. Paris: Le livre de poche, 1999 [250]. Livro X (Epicuro), §120. P. 1307. Mas a partir da tradução de M. Conche: “Le sage se dresse en face de la Tychè comme un combattant”.
Progresso da humanidade
O nosso progresso pode se medir pela quantidade de corpos humanos vivos (nunca fomos tantos) ou, inversamente, pela nossa ingente capacidade de matar-nos (nunca pudemos ser tão poucos).
Thor, thar
O corpo ensanguentado do mártir, salpicado de areia e terra, não precisa ser lavado para purificar-se, nada é mais purificador – diz-se – que o sangue.
Thor, amado, companheiro
O princípio constituinte (αρχη) da vida e da filosofia – do aproximar-se distanciando-se.
– Isso de que há, para os seres, geração, é disso
também que há destruição, conforme o devir; pois eles se fazem justiça e
reparação uns aos outros de sua mútua injustiça, conforme a ordenação do
tempo.
– A arché (αρχη) dos seres é o infinito, pois dele nascem todas as coisas, e nele todas as coisas se resolvem.
Anaximandro (séc. VI, A.C.)
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