Lei sobre a imprensa?


Depois da crítica pela literatura (Balzac), sempre rotulável de ficcional, a crítica científica do poder da imprensa se encontra em Gabriel Tarde.

Para ele, a nova sociedade “democrática” dos públicos, cada vez mais voláteis e, por isso mesmo, cada vez mais influenciáveis, tende a se subjugar às opiniões individuais dos grandes jornalistas e às causas partidárias bem alinhadas e orquestradas de um punhado de grandes clãs da imprensa.

“Por isso, é tão penoso fazer uma boa lei sobre a imprensa. É como se quiséssemos regulamentar a soberania do Grande Rei ou de Napoleão.”
TARDE, Gabriel. L’opinion et la foule. Paris: PUF, 1989 [1901]. P. 16.

Desejo espetacular

Nesse mundo de existências anônimas, isto é, continuamente homogeneizadas, “dessingularizadas”, note-se todo o esforço que um ser/potência/desejo é capaz de aplicar por um pouco de publicidade, para colocar-se (enquanto um si) à vista do público.

Mas há também um aparecer enquanto homogêneo e massa. “Eu estava lá!”. “Somos todos X”...



Problemas


Há tantos (nem mais nem menos) problemas em matemática, quanto em filosofia ou na vida. A vantagem da matemática é que os seus (na grande maioria dos casos) têm solução.

Todas as soluções matemáticas já estão postas nas condições estabelecidas pela formulação do sistema. Certamente há problemas que extrapolam o encadeamento com as suas próprias condições, e estes apenas são os insolúveis (Gödel).

Na vida e na filosofia, os problemas surgem no plano de pré-pensamento (imanência). O pensamento, para dar soluções, precisa então pôr ele mesmo o quadro de suas condições. Como ocorre, por exemplo, na sua geometrização.



Equivalentes inversos


Não fazer uma teoria geral da equivalência dos inversos.
Mas  constatar alguns de seus acontecimentos:
Acaso/Necessidade(sem origem-finalidade)
Esperança/Medo
Ignorância absoluta/Sabedoria absoluta

Sócrates não era um sábio absoluto nem um ignorante absoluto: ele sabia que não sabia nada*.

Então, para além de Sócrates, um estar para além da ignorância, do conhecimento e da expressão: “Pois o sábio como o idiota exprime pouco”**.

Isso (um caminho extremo e infinito, levado ao limite, ao salto, encontra seu extremo inverso) tem a ver com o que D. L. relata a respeito de Sócrates: “quanto mais prazer ele sentia em comer, menos ele precisava de temperos, quanto mais prazer ele experimentava em beber, menos ele contava com [ou esperava] a bebida que não estava a seu alcance; quanto mais reduzidas eram as suas carências, mais ele estava próximo dos deuses”***.







(*) LAÊRTIOS, Diôgenes. Vie et doctrines des philosophes illustres. Trad. diversos. Paris: Le livre de poche, 1999 [250]. II (Sócrates), §32. P. 239

(**) Camus apud BOVE, Laurent. Albert Camus, de la transfiguration: Pour une expérimentation vitale de l’immanence. Paris: Publications de la Sorbonne, 2014. P. 64.

(***) LAÊRTIOS, Diôgenes. Op. cit. §27. P. 235.

137


desmedida não é qualquer medida, mas a medida na linha da desmedida



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Desaperece a esperança. Desaparece também o medo.
Primeira etapa do ser no presente.


Mobilidade/devir/necessidade

Porque o mundo (e as coisas/seres/realidades/potências que o constituem) “não tende a nada e não vem de nada”*, porque não há finalidade nem origem do mundo, não precisamos dizer (como Camus) a “imobilidade”. Mas, seu equivalente inverso: uma infinita mobilidade (infinita, porque sem extremos, sem início nem termo).

Nem precisamos dizer ou postular o acaso. Melhor, seu equivalente inverso: um devir de pura necessidade, sem fatalismo, sem predestinação, como preferia Epicuro**, porque sem origem nem finalidade.



(*) Camus apud BOVE, Laurent. Albert Camus, de la transfiguration: Pour une expérimentation vitale de l’immanence. Paris: Publications de la Sorbonne, 2014. P. 61.

(**) LAÊRTIOS, Diôgenes. Vie et doctrines des philosophes illustres. Trad. diversos. Paris: Le livre de poche, 1999. Livro X (Epicuro), §134. P. 1313.

A realidade da imaginação

Ouço uma chuva que não chove. Um fantasma. Um ruído autêntico de chuva me chega através da janela, atrás de mim. Várias vezes, automaticamente, eu me giro para verificar a existência completa da chuva, da chuva que realmente chove. Reiteradamente, mas sem convencimento profundo, constato, com a visão, o nada de chuva. Apenas o som.

Viver a Paixão como Anunciação


Ela lia um livro, displicentemente, um romance, talvez, quando foi interrompida, com uma certa surpresa (a mão crispada), pelo anúncio de um acontecimento. O livro, então, nessa surpresa, inconscientemente, coloca-se ao lado do ventre e da potência de desdobramento.



Ora, este livro é o Verbo Incarnado: “A história de Meursault é este livro. Uma espécie de De rerum natura da incarnação da morte, quer dizer, da ausência do Sentido, de uma vida sem esperança [e sem medo], regida pelo acaso, em absoluta proximidade com o nada”*.



(*) BOVE, Laurent. Albert Camus, de la transfiguration: Pour une expérimentation vitale de l’immanence. Paris: Publications de la Sorbonne, 2014. P. 56.

Para uma marchinha de carnaval

Eu quero gozar
Eu quero morrer

Nessa vida-natureza
Tudo se mistura
A impura com a pureza

Eu quero morrer
Eu quero gozar

Em nenhum momento
Canta o pensamento
Como isso vai acabar

O que é alcançar uma meta?


Poderíamos resumir a atividade física e a orientação metafísica no mundo, segundo Aristóteles, da seguinte maneira, como um transvislumbrar.

Toda atividade física (ou mudança) visa à atualização de uma essência, que é o fim e o bem próprio à atividade. No entanto, nesse bem específico à atividade, e como que através dele, o ativista vislumbra, pré-conscientemente, o bem supremo, a plena perfeição de uma atualização integral, de um ato puro, de uma realização absoluta, que ele toma como uma meta absoluta e última no próprio alcance restrito de sua meta específica.

Este bem último, supremo, absoluto, final, transvislumbrado em toda atividade, é a resposta exemplar à questão do atingir uma meta. Este bem último é o que significa alcançar uma meta, e, nisso mesmo, ele é o princípio (transcendente) de toda atividade.

≈≈≈

Ora, esse transvislumbre é exatamente o oposto do “sentimento natural que todo ser tem por si mesmo [...], sem consciência refletida do passado nem do futuro, na pura atividade atual do presente que passa. É o presente da duração vivida, do tempo do desejo sem objeto”*. Exatamente o oposto de um olhar que não passa através das coisas, mas que permanece como toque e na superfície de si e das coisas.

(*) BOVE, Laurent. Albert Camus, de la transfiguration: Pour une expérimentation vitale de l’immanence. Paris: Publications de la Sorbonne, 2014. P. 46.

Sob o domínio do sol: Índia/Moscou


Como enfrentar, com que afeto enfrentar a suficiência, a capacidade de desapego, em uma disposição indo-epicureia de total preenchimento na frugalidade, na pobreza, no deserto, na solidão, no abandono das ideias, em um lugar onde nada precisa ser feito nem pensado, nem mesmo por dever?


Massa capital-memória e o seu desespero


O capital funciona como uma massa?
“A massa [o capital] traz sempre vivo em si um pressentimento de desintegração que a ameaça e da qual busca escapar através do rápido crescimento”*.
A mesma análise, a mesma questão, não se aplicaria também à memória (às lembranças que se acumulam frente ao esquecimento)?



(*) CANETTI, Elias. Massa e poder. 4ª reimpressão. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 [1960]. P. 15.





Sobre o atual

Por que se come tanta pipoca durante a exibição dos filmes produzidos para o “grande” público? Uma resposta (inatual?) de Aristóteles:
Nós nos dirigimos a uma outra ocupação quando a ocupação presente nos agrada apenas mediocremente: por exemplo, aqueles que, no teatro, comem doces fazem isso sobretudo quando os atores são ruins.
ARISTÓTELES. Éthique à Nicomaque. Trad. Jules Tricot. Paris: Vrin, 2012. X, 5, 1175b 10-15. P. 536.

SIMULTANÉ 2: o público!

Essência do público: a simultaneidade de uma ideia ou paixão compartilhada por um grande número de indivíduos (espacialmente dispersos e invisíveis uns aos outros) e a consciência individual dessa simultaneidade.





Conferir: TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. Trad. Eduardo Brandão. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005 [1901].

É impossível obedecer a si mesmo

Isso pode ser demonstrado, de maneira simples, se definimos a obediência como uma atividade que se orienta por um comando ou uma lei externos, ou seja, uma atividade que se rege, ao menos parcialmente, por uma alteridade. Assim, como o eu não é um outro em relação a si mesmo, a obediência a si é impossível por definição.


SIMULTANÉ 1 bis (corolário): o inconsciente – simul – a consciência de si

O inconsciente é, no nível ontológico, a parte do desejo (ou do ser do si) que, devido à atuação dos limites do resto geradores da consciência de si, é um desejo de transgressão que precisou ser reprimido.

No nível gnosiológico, o inconsciente é a inconsciência que o si tem daquilo que precisou ser encoberto na produção da consciência de si.

Por isso, paradoxalmente, quando o desejo de transgressão se torna consciente, ele é também um desejo de fim da consciência, na proximidade da morte.



SIMULTANÉ 1: o inconsciente – simul – a consciência de si


Tese

O inconsciente se gera na e pela geração da consciência de si e do resto. Ou: toda produção de consciência de si e do resto produz, necessariamente, um elemento de inconsciência (um si inconsciente).

Demonstração

A consciência de si se gera (se abre) pelo interdito do resto, pelo “não!” do resto. Só há consciência de si na experiência do limite.

No entanto e na medida em que o si é um ser erótico (deseja ser tudo e, portanto, à medida que tem consciência de si, deseja transgredir os seus limites), o si sofre de sua própria consciência limitada pelo resto.

Logo, movido pelo desejo de sua própria afirmação (ou seja, pelo princípio do prazer), resta ao si uma única alternativa, que é a seguinte:

– O si mover-se eroticamente na direção do resto encobrindo em si mesmo o desejo de transgredir os limites do resto. Esse encobrimento se dá inconscientemente. Esse encoberto é o si inconsciente.

O inconsciente acontece na simultaneidade da consciência de si e dos interditos do resto.







Ser e atividade

O ser só é na medida em que atua. Se não atua, não é. É nesse sentido que, pode-se dizer, o ser é uma essência atual ou um quantum de potência.

A atividade não é acidental ao ser. Por isso, o ser é uma força atuante ou potência (em meio a outros seres, isto é, outras forças ou potências).

Mas é preferível dizer potência, ao invés de força, pois na força pensamos um vetor com uma intensidade e uma direção e sentido definidos, enquanto na potência pensamos uma intensidade que se expressa em todas as direções e sentidos.

O ser não é um substrato fixo que eventualmente se ativa (o ser não é um sujeito gramatical, como a atividade não é um predicado de um sujeito). O ser é a atividade mesma na qual e pela qual se expressa.



Maneirismo

Tese: toda experiência social que se aproxima de seu termo (isto é, que tem seus objetos realizados tais quais propriedades de uma essência atual), como o capitalismo tardio das sociedades abastadas, tende a concentrar-se, a concentrar seu esforço ativo, não mais apenas nos seus próprios objetos, mas sobretudo nas maneiras de realizá-los. A demonstrar.


Exemplo: chocolate ao leite, meio-amargo, amargo a 50%, 60%, 65%, 70%, 80%, 82%, 88%, 96%...



Isso não aconteceria com um e-book

As velhas páginas, nas bordas, uma ou outra, estavam manchadas por gotas de sangue, ou melhor, por gotas de vinho, certamente, deixadas ali por dedos de um guloso, de um amante da vida:
– Foi assim que acabei na forca, em Havana.
– Foi muito ruim? – sussurrou Fanny.
– Não foi, não, minha pobre Fanny – disse Morten.
– Alguém mais estava com você?
– Tinha um padre jovem e gordo. Estava morrendo de medo de mim. Provavelmente lhe contaram coisas terríveis a meu respeito. Ainda assim, ele se empenhou ao máximo. Quando lhe perguntei: “O senhor poderia me conseguir, agora, mais um minuto de vida?”, ele me respondeu: “E para quê você quer esse derradeiro minuto, meu pobre filho?”...*



(*) BLIXEN, Karen. A ceia em Elsinore. Trad. Claudio Marcondes. In: Sete narrativas góticas. São Paulo: Cosac Naify, 2007 [1935]. P. 291.

Diário de Moscou XXIV


Em Moscou, ninguém parece alcançar a idade dos berlinenses. Mas eu estou entre eles. Caminhamos, bebemos juntos, lemos os mesmos livros, e trocamos ideias, como se fôssemos da mesma experiência e tivéssemos os mesmos interesses, com a mesma vida diante de nós. Quando lhes digo, por alguma razão (embora eles jamais me perguntem acerca disso), o elevado número dos meus anos, sinto como se isso lhes causasse algum embaraço ou um amargo incômodo; o idêntico embaraço e incômodo que lhes causaria uma nuvem cinza e isolada que, inesperadamente, lhes encobrisse o sol em um raro dia ensolarado de inverno. No entanto, depois de uma pequena interrupção, o lapso de um esquecimento ativo, percebo-os retomar a alegria, voltando ao que faziam: caminhar, beber, ler, ou trocar ideias.



Imaginação e necessidade


Um conceito leva a outro, necessariamente. Mas as imagens também se desdobram, umas das outras, com certa necessidade.
Vemos também a imaginação ser determinada somente pela disposição da alma (ab animae constitutione); já que, como experienciamos, [ela] segue, em tudo, as pegadas (vestigia) do intelecto; e concatena e conecta, umas às outras, as suas imagens e palavras, a partir de [uma] ordem, assim como o intelecto concatena e conecta, umas às outras, suas demonstrações.*
O encadeamento das imagens, na imaginação, frequentemente, segue os mesmos princípios do encadeamento necessário dos conceitos (ideias adequadas que as imagens envolvem e, frequentemente, ocultam).

É por isso que, Freud, para justificar a necessidade do líder – no caso, Cristo – na perseverança da massa religiosa, levando em consideração que “a desintegração de uma massa religiosa não é tão fácil de observar”, pôde recorrer à literatura, a um romance inglês “que ilustra de maneira hábil e pertinente, esta possibilidade [de desaparecimento do Cristo] e as suas consequências [lógicas]”**.

No entanto, talvez Freud não tenha, com isso, se livrado totalmente das imagens, e alcançado, através delas, o conceito de massa. Ele parece colocar toda a ênfase essencial da massa no líder. Mas, a relação da massa com o líder – é o que eu suspeito – pode ser apenas acidental (ou contingente).



(*) SPINOZA, Benedictus de. Correspondance. Trad. Maxime Rovere. Paris: GF Flammarion, 2010. Carta XVII. P. 125.

(**) FREUD, Sigmund. Psicologia das massa e análise do eu [1921]. Trad. Paulo César Lima de Souza. In: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Obras completas. Vol. 15 (1920-1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P. 52, in fine.

Duas atribuições de sentido

O sentido pode ser pensado como encadeamento. Algo faz sentido quando se encadeia com outros eventos, ações, palavras e coisas.

Os sonhos mostram que também atribuímos sentido a algo independentemente do seu encadeamento com outros eventos, apenas pela sua força de presença, ou seja, pela sua afirmação no existir.




Sonho e vigília

Nos sonhos, aparecem elementos (uma cena, uma pessoa) que sabemos, sem dúvida, pertencer à vigília.

Com alguma certeza, o sequestro contrário também deve ocorrer. Elementos oníricos (uma cena, pessoa ou sentimento) são importados e se mesclam com os elementos reais da vigília.



Dois tipos de lei

Em geral, a lei é concebida como produtora de obediência. Ela tem, então, sua essência em sua finalidade.

Raramente, por outro lado, a lei é concebida como produto da liberdade. Então, sua essência se encontra em sua causa.

Estes dois tipos, a lei para obediência e a lei de liberdade, são distintos. Acontece, porém, que uma mesma lei possa passar de um tipo a outro.




Direito? Que direito?

Concordo: ter reconhecido o seu direito é um privilégio. Absurdo! Direito? Que direito? O direito é a ideia paradoxal – deixo falar uma voz rival – de “um privilégio para todos”*.







(*) SLOTERDIJK, Peter. O desprezo das massas: ensaio sobre lutas culturais na sociedade moderna. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2002 [2000]. P. 90.

O segredo

No espetáculo, finalmente, somos levados à desconfiança em relação a tudo o que aparece, na medida em que tudo o que aparece, mesmo em oposição e luta, afirma o espetáculo. Para nós, então, algo precisa surgir, sem aparecer: o segredo.




O afeto social II: o sentimento do ainda-não-já-presente

No messianismo, o sentimento de fim dos tempos liga-se ao sentimento dos tempos inaugurais. É o tempo do ainda-não-já-presente.


A prudência inconsciente do desejo

Nosso desejo: somos nós. E possuímos, como desejo, uma sabedoria, ou melhor, uma prudência própria, que funciona, independentemente de nossas razão e consciência. Por exemplo:
Acreditamos que, conforme nosso desejo, mudaremos as coisas a nossa volta, acreditamos porque, além disso, não enxergamos nenhuma solução favorável. Não pensamos na que se verifica mais frequentemente, e que também é favorável: não conseguimos mudar as coisas conforme o nosso desejo, mas, pouco a pouco, é nosso desejo que muda.
PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 35.

Efeito reverso III

Se a essência do humano é a consciência da morte, então, os velhos são mais humanos do que os jovens.


Efeito reverso II


Se atribuímos a mortalidade apenas àqueles que têm a consciência da sua própria morte, então, somos obrigados a reconhecer que os idosos são mais mortais do que os adultos.




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Há vida na Terra!


A que serve a Europa?

A nada mais do que isso!... http://nyti.ms/1oLNaEV
Vitória (guerra). Vontade de saber.
Pobre Europa da vida! Esquecidos europeus...



A sonda, o cometa e a especificidade humana

Parece-nos, agora, mais fácil promover um encontro (e um engate), que supere a impressionante distância de milhões de quilômetros, entre um corpo de partes plástico-metálicas e outro de partes minerais, do que um encontro efetivo, que supere, na formação de um novo corpo, coletivo, a distância afetiva entre corpos de partes carnais humanas. Certamente, por razão da complexidade dos mecanismos afetivos em jogo.



Efeito reverso, perverso

Se um filósofo obriga-se a pensar todas as suas experiências, a elevá-las ao conceito, então, fatalmente, ele terminará por reduzi-las aos limites da sua inteligência (algo que, geralmente, pode-se lastimar).



O afeto social de abandono

Há, sem dúvida, embora você talvez duvide disso, afetos sociais, coletivos. Circulam entre os indivíduos, articulando-os uns aos outros. Antecipam-se aos afetos individuais.

Dessa maneira, os corpos coletivos podem ser classificados segundo os seus afetos dominantes.

Podemos falar de corpos coletivos nos quais vige, dominante, o sentimento de fim, e diferenciá-los daqueles nos quais vige o sentimento de início, de abertura dos tempos, de inauguração (os migrantes, chegando à nova terra). Como, também, de corpos em que, na imaginação, vigora o impasse, a estagnação, a ausência do sentimento de mudança (a Constituição ou os anjos, em volta do senhor por toda a eternidade).

No cinema hollywoodiano recente e, portanto, presume-se, nos seus espectadores, vigora, acima dos outros, o sentimento de fim, o sentimento de que não há nada mais a se fazer, ligado à desistência humana da Terra. Depois de abusar dela, só resta a este corpo, abandoná-la.



Diário de Moscou XXIII - Inverno(verão)


Impressiona-me que, até mesmo na região mais escaldante da Terra, em que eu tenha vivido, haja algo a que devemos chamar de inverno.

A experiência humana da vida, apesar de una (única, unida, homogênea), parece ser, de fato,  constituída pelos contrários (“A ciência dos opostos é uma”*). A natureza, talvez não.





(*) ARISTÓTELES, –. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. Γ, 2, 1004a9. P. 114.

Biologismo

– Mas, filho, você já reparou na quantidade de pelos que ela tem nos braços?

– E daí, pai?

– Você não vai querer que os seus filhos tenham braços cabeludos, não é?


Carnegie Hall e a educação da massa pela imaginação


“O ingresso caríssimo nos faz sentir especiais, distinguidos. Afinal, isso não é para todos. Somos apenas 900 ou mil... A cantora lírica, central no palco, nos deixa muito à vontade. Fala conosco como se estivéssemos a uma mesma mesa de jantar. Antes de começar a cantar, ela expõe as elevadas imagens, que a música evocará logo em seguida, e os sentimentos que elas devem despertar em nós” ...pensou automaticamente o professor, de costas para a sala de aula, enquanto apagava o quadro-negro.



Colar e alívio II – no amor

Por que, afinal, preocupar-me e, até mesmo, sofrer prazerosamente com meus pensamentos, colares e alívios, sobre as oscilações pendulares de nossos laços intra-humanos, que, mais apertados, nos fazem massa, e, mais frouxos, multidão, se, no fundo do nosso ser, somos, incontornavelmente, indivíduos solitários e finitos, num universo infinito?

Os laços entre um ser e nós existem apenas em nosso pensamento. A memória, ao enfraquecer, os desfaz, e, apesar da ilusão, com a qual gostaríamos de nos enganar, e com a qual, por amor, por amizade, por educação, por respeito humano, por dever, enganamos os outros, nós vivemos sós.

PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 34.

Metafísica da língua II – obediência e alteridade

_A língua nos permite dizer o que não podemos pensar.

Concordamos que há na obediência, necessariamente, a ideia de alteridade. Na obediência, há sempre um outro que comanda. Não se obedece a uma lei ou a uma ordem dada por si mesmo.

Obedece-se a uma ordem. “A obediência é uma a ção executada a partir de uma ordem. Certamente, a obediência tolhe a liberdade de algum modo”*. Pois, o essencial da ordem é que ela “provém, de algo estranho àquele que a recebe”**.

Contudo, na linguagem é correto dizer: “Eu me obedeço”. Nessa possível obediência a si, fica suprimida, ou é tornada insconsciente, a exigência de uma alteridade imperante. Já que a gramática, por outro lado, coíbe a diferenciação entre a referência objetal do “eu” e aquela do “me”.

Com a ocultação da mediação da alteridade na obediência a si, a moral pode, inconscientemente, se tornar uma ética da liberdade.







(*) SPINOZA, Benedictus de. Oeuvres III: Traité théologico-politique. Trad. Jacqueline Lagrée et Pierre-François Moreau. Paris: PUF, 2009 [1670]. XVI, §10. P. 519.

(**) CANETTI, Elias. Massa e poder. 4ª reimpressão. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 [1960]. P. 305.

O colar e o alívio

Um certo alívio (Mas em relação a que angústia? Sufoca-me o medo ou, o que dá no mesmo, o desprezo da multidão, das suas práticas, da sua racionalidade imanente) me advém da sugestão de que a multidão não é como uma massa (pode transformar-se em massa, mas apenas em certas circunstâncias). É preciso reconhecer os dispositivos que a convertem em massa. E, se possível, se desejável, neutralizá-los (é sempre perigosa e cega a massa?).

Isso diz respeito, claramente, à pretensa posição e tarefa do intelectual. O efeito Bourdieu (da separação radical entre o sociólogo e a sociedade de que ele fala), por exemplo, na crítica de Boltanski, ao que parece, nos levaria a afirmar que: “o sociólogo se torna o único sujeito ativo da crítica social, cujo objetivo é abrir os olhos das massas cegas, que desempenham antes um papel passivo”*.

O colar que me sufoca é pressupor que a multidão esteja sempre na forma da massa. Que o intelectual individualmente enxergue o que ninguém mais é capaz de ver. Que o intelectual não se considere, ele mesmo, uma parte da multidão. Ora, a esse tipo ideal de intelectual condiz, apenas, uma massa que o ouça, que o deixe pensar por ela. A multidão não lhe dá muitos ouvidos. Para ela, o intelectual é apenas mais uma voz na feira, anunciando uma promoção que só ele supõe mais espetacular do que as outras.

O intelectual-vidente faz massa.








(*) Conferir: PINZANI, Alessandro; REGO, Walquiria Leão. Vozes do bolsa família: autonomia, dinheiro e cidadania. 2 ed. São Paulo: Unesp, 2014 [2013]. P. 36. E... http://thesocietypages.org/monte/2012/09/01/an-interview-with-luc-boltanski-critique-and-self-subversion/

Imagem como “cópia exata” da ideia humana



7900 anos. Piauí. A ponta de uma lança: “cópia exata”* da ordem. Precisamos nos esquivar do seu alcance. Enquanto ordem, arcaicamente, ela tem o caráter último de uma sentença de morte.

A exatidão da cópia é tão perfeita que ela não se distingue da ideia.




(*) CANETTI, Elias. Massa e poder. 4ª reimpressão. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 [1960]. P. 319.

A metafísica da língua

_ A língua nos faz dizer coisas que não pensamos.

Frequentemente, repete-se “meu corpo”. – “Eu cuido do meu corpo”. “corpo” aí funciona como objeto do cuidado. Quem é o sujeito? “eu”! Responde a gramática. Mas, o que é, no pensamento, o Eu senão também o Corpo? A separação objetal do Corpo, em relação ao Eu, é ainda reforçada pelo pronome possessivo “meu”. São essas possibilidades gramaticais da língua que, por exemplo, absorvem os quês não pensados.

Que diferença há entre: – “Eu cuido do meu corpo” e – “Eu me cuido”?

As coisas em geral funcionam assim

A B C D E F G H I J K L M N O

Mas, E’. Então:

A’ B’ C’ D’ E’ F’ G’ H’ I’ J’ K’ L’ M’ N’ O’


Democracia e confiança na prática da multidão

A confiança na democracia é diretamente proporcional à confiança na multidão. Não há como defender a democracia sem confiar na inteligência da prática da multidão.

Note-se, no entanto, que a multidão não é uma única. Há multidão de multidões. Cada uma é uma, segundo o seu engenho próprio, seu gênio, seu humor, seus traços marcantes, marcados, hábitos, história, suas práticas próprias.

Uma mesma multidão, aliás, passa por disposições diferentes. Ora se fecha. Condensa-se. Torna-se obsessiva. Endurece. Emburrece. Uniformiza-se. Ora se abre, se espraia, se torna mais complexa.

Há multidão que se preze, ame. E outras, que não. Podemos confiar numa multidão, num determinado momento, e, noutro, não. Confiar numa, e não na outra.

Mas, sobretudo, é preciso desconfiar dos processos (daqueles, por exemplo, espetaculares e eleitorais, que se passam por democráticos, sem o ser) que necessariamente emburrecem, obcecam a multidão.


A produção da unha e a livre-necessidade


Um pedaço de unha, sua produção seria explicável apenas a partir da natureza do corpo e de nada mais? Seria, então, esse pedaço de unha, resultado de uma produção livre do corpo? O corpo que eu sou seria livre ao produzir necessariamente suas unhas das mãos e dos pés? Num pedaço de unha, posso me perceber agente, posso, aí, perceber a ação do corpo que sou?


Entre-estações

A seca indubitável. A chuva. A dúvida. A seca está de volta, agora, porém, sem a certeza da seca.

O cogito indubitável. E, então, a inconsciência disso – a consciência perdida: penso, mesmo sem eu saber disso (há um pensar que me atravessa e que desconheço). De que duvidar, então? Quando o cogito aparece de volta, aparece, porém, sem a certeza da consciência. Afinal, a certeza se aplicava mais à consciência do cogito (eu penso que penso e estou certo disso, eu sei que penso e isto é certo, eu sou consciente de que penso) do que ao próprio cogito.