– Sério, não sei se...
– Bem, seriamente. Seria_corpo...
– Corpo_seria_mente
Autarkeia ou o desejo a que nada falta
Para Elízia,
Queria lhe falar brevemente sobre uma bela palavra grega, a palavra autarkeia.
Na tradução direta para a língua portuguesa, em autarquia, ressoam, no entanto, conotações indesejadas. A autarquia portuguesa nos remete à imagem de uma velha instituição, à de um prédio cinza, em algum centro de cidade empoeirado, ou à imagem de um armário de gavetas de aço, esquecido num canto de repartição. A palavra portuguesa autarquia cheira a mofo.
Mofo, arquivo de aço, repartição de burocratas, prédio de escritórios, instituição. Nada disso na grega e frugal autarkeia.
Por isso, precisamos recorrer a certos desvios, numa tentativa de tradução indireta ou livre. Autarkeia quer dizer autossuficiência, independência, ausência de necessidades.
Mas isso poderia nos dar a impressão de que o indivíduo autárquico basta a si mesmo, que não precisa de mais nada e de ninguém mais, além de si próprio, para existir, agir e pensar. Como se ele fosse um império absolutamente isolado de outros impérios, desligado de tudo o que lhe cerca.
Se autarkeia significasse isso, autarkeia não teria significado algum. Seria mais uma palavra-ídolo, um simulacro, uma imagem vazia, ideológica, desancorada do real. Já que, na realidade, não há nada que baste a si próprio, que não necessite de outras coisas, água, ar, luz, nutrientes ou amigos, para existir e ser o que é.
A autarkeia grega, tal como ela se define, por exemplo, na Carta a Meneceu de Epicuro, é o desprendimento, o desapego. Não indica, portanto, a disposição de um indivíduo que não precisa da Terra para existir, mas indica a de um indivíduo livre, que não é cativo de nada e de ninguém, de nenhuma condição terrestre singular.
O desapegado tem muitos vínculos ali onde ele está. Mas essa vinculação não é uma condição insuperável. O desapegado se move livremente, alegremente. E reencontra imediatamente as suas condições existenciais em qualquer lugar em que esteja.
O desapegado é um nômade. Ele percorre a Terra e o Tempo. E as condições necessárias da sua existência, ele as encontra ao longo da sua travessia. Elas estão sempre ali onde ele vivente está. E onde elas não estão, ele não está.
“O vivente – escreve Epicuro – não precisa dirigir-se a nada como se alguma coisa lhe faltasse.”*
De fato, o desejo desapegado não é um desejo que se origina de uma falta, nada lhe falta. Isso não quer dizer que o desapegado não tenha desejo, mas que o seu desejo coincide com a sua vida. E a sua vida de vivente é, sempre, em todas as circunstâncias, plena, alegre e livre de qualquer condição singular. Ou ele não estaria ali onde está.
(*) Apud: LAÊRTIOS, Diôgenes. Vie et doctrines des philosophes illustres. Trad. diversos. Paris: Le livre de poche, 1999 [250]. Livro X (Epicuro, Carta a Meneceu), §128. P. 1311.
Eternidade na duração
Uma luz lançada sobre a relação entre a beatitudo e a eternidade em Spinoza encontramos em Epicuro.
(*) LAÊRTIOS, Diôgenes. Vie et doctrines des philosophes illustres. Trad. diversos. Paris: Le livre de poche, 1999 [250]. Livro X (Epicuro), §135. P. 1314.
Tu viverás [feliz] como um Deus entre os humanos, pois em nada se assemelha a um vivente mortal o humano vivente em meio aos bens imortais [como a felicidade].*
(*) LAÊRTIOS, Diôgenes. Vie et doctrines des philosophes illustres. Trad. diversos. Paris: Le livre de poche, 1999 [250]. Livro X (Epicuro), §135. P. 1314.
Pequenas faíscas e reflexos ofuscantes II
Conversando, chegamos à seguinte conclusão:
_ A linguagem nos faz dizer coisas que não pensamos.
- - - - - -
_ A linguagem nos faz dizer coisas que não pensamos.
- - - - - -
Em outro dia, encontramos em Aristóteles algo diferente, e parecido:
_ Mas tudo o que dizemos não é necessário que o pensemos.
ARISTÓTELES. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. Γ, 3, 1005b25. P. 122.
_ Mas tudo o que dizemos não é necessário que o pensemos.
ARISTÓTELES. Métaphysique. Tome 1. Livres A-Z. Trad. J. Tricot. Paris: J. Vrin, 2000 [1933]. Γ, 3, 1005b25. P. 122.
Como diz o paulista...
– Meu...
{simplificação/redução/obstrução de “meu irmão” simplificação de “meu deus”_ _ _
especulando`
se o azul fosse a essência do real
a realidade
seria
este céu
certo
todo dia
certamente
azul
Tudo é questão de método XIII
O que há de mais acelerado, no pensamento, do que um poema? A filosofia reduz o passo do pensamento. No encadeamento, retém a velocidade do fluxo. Quer ter o controle sobre o fluxo. Pausas. Fluir. Stop.
Um azul fulgurante
o Céu azul
infalivelmente
azul
para
perfurar o sentido das
folhas secas
através
até
nossos olhos
também
azuis
A cadeia alimentar e seu topo
A cadeia... não no sentido de alinhamento linear de elos engatados um no outro até a ponta... a cadeia... no sentido do que encerra num âmbito de barramento.
A cadeia alimentar, por exemplo. Não estamos na ponta acima de todos os elos. Estamos encerrados nela.
Quer dizer:
Não controlamos o alimento de maneira absoluta, pois sem ele não somos nada do que somos.
A cadeia alimentar, por exemplo. Não estamos na ponta acima de todos os elos. Estamos encerrados nela.
Quer dizer:
Não controlamos o alimento de maneira absoluta, pois sem ele não somos nada do que somos.
131
O que é o niilismo senão o fim do finalismo,
a finalização da ideia de que tudo estaria aí para alguma coisa além dela (gloria dei seu homini)?
130
O pensamento livre, não ofuscado, não é simplesmente a nossa capacidade de perceber sem embaraços a realidade tal como ela é, mas fundamentalmente a nossa potência de agir sobre ela, de agir livremente nela.
Isso ainda é
De algum modo isso ainda é, ou porta um sentido do ser:
– O ser de um sonho, cuja recordação nos escapa ao acordarmos.
Tudo é questão de método XII
Não deixam de ser filosóficas as vias ilusórias do pensar-agir. Então, a filosofia não diz respeito exclusivamente à verdade.
Essa suspensão filosófica da pretensão da verdade não é o fracasso da filosofia – pelo contrário, ela fracassa, quando se crê na sua verdade –, mas a afirmação da sua potência criativa.
Tudo é questão de método – XI
Impressiona que, para alcançarmos certas melhorias, no uso da vida, perante à experiência, precisemos adotar perspectivas ilusórias. A via da verdade, aí, muitas vezes, é improdutiva.
Idealismo, idealização
Compreender o idealismo como idealização. Perceber o vínculo íntimo entre um e outro.
O idealismo não ocorre somente na negação da real natureza do mundo (na afirmação da soberania da ideia), mas também na sua denegação (na suspensão-aufhäbung da natureza por meio do contrato): – “criar asas” e escapar da realidade do mundo, colocando o ser do mundo em suspenso, e suspendendo-se em uma fantasia ideal: o jurídico.
Conferir: DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: o frio e o cruel. Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Zahar, 2009 [1967]. P. 34 - 35.
Conferir: DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: o frio e o cruel. Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Zahar, 2009 [1967]. P. 34 - 35.
“Tudo é questão de método” X
Método ou, com outras palavras, tudo é questão de disciplina.
Na disciplina, logo surgem dois aspectos: o tempo e o corpo.
Trata-se de disciplinar o tempo: dividir o movimento, descontinuar ou modular o contínuo, e rearticulá-lo em módulos e séries mais eficazes.
Trata-se de disciplinar o corpo: individualizá-lo, contê-lo, formá-lo, tratá-lo como outro, e fazê-lo obedecer docilmente.
Tudo é questão de disciplina quando se visa à maior produção, em uma disposição de superação-do-atual. A produção é um fazer. E a capacidade de fazer é a verdadeira liberdade.
Mas a liberdade, lembre-se, precisa estar rigorosamente separada de qualquer ideia ou sentimento de obediência.
Assim, na disciplina do tempo e do corpo, é preciso ter como meta ideal a liberdade do espírito.
Na disciplina, logo surgem dois aspectos: o tempo e o corpo.
Trata-se de disciplinar o tempo: dividir o movimento, descontinuar ou modular o contínuo, e rearticulá-lo em módulos e séries mais eficazes.
Trata-se de disciplinar o corpo: individualizá-lo, contê-lo, formá-lo, tratá-lo como outro, e fazê-lo obedecer docilmente.
Tudo é questão de disciplina quando se visa à maior produção, em uma disposição de superação-do-atual. A produção é um fazer. E a capacidade de fazer é a verdadeira liberdade.
Mas a liberdade, lembre-se, precisa estar rigorosamente separada de qualquer ideia ou sentimento de obediência.
Assim, na disciplina do tempo e do corpo, é preciso ter como meta ideal a liberdade do espírito.
Timbre filosófico II – a filosofia como instrumento de composição
Esses harmônicos dissonantes de um timbre
filosófico nos encantam. Infelizmente, às vezes, nos enfeitiçam. Apegados, só
sabemos, então, cantarolar desse jeito: investigando o prazer e a dor das
harmonias e das dissonâncias, presos às proximidades notáveis.
Timbre filosófico
Em uma determinada linha instrumental de composição, num certo timbre discursivo, como por exemplo na fenomenologia, vibram diferentes sonoridades, às vezes, apesar do seu estar juntas, dissonantes.
Disposição índia XI – a mansuetude
Um ambiente hostil, uma grande adversidade por parte dos outros citadinos, um elevado grau de rivalidade e de competitividade, isso é o que a disposição superação-de-si-mesmo requer como condição. Sem isso, nada.
Oposição, disputa, ataques, ameaças. Uma intensa luta pela sobrevivência e para a afirmação de si. Ainda assim, tudo deve se passar nos limites da cordialidade, senão da amizade. A um passo da guerra civil deflagrada.
Só na mansidão, na condição própria aos deuses epicureus, a verdadeira mansuetude pode ser habitual. Deixar tudo como está, na circulação dos nutrientes, dos prazeres. Nada há aqui, à volta ou por dentro, que incomode. A ponto de a própria ideia de si tornar-se supérflua, inútil.
Oposição, disputa, ataques, ameaças. Uma intensa luta pela sobrevivência e para a afirmação de si. Ainda assim, tudo deve se passar nos limites da cordialidade, senão da amizade. A um passo da guerra civil deflagrada.
Só na mansidão, na condição própria aos deuses epicureus, a verdadeira mansuetude pode ser habitual. Deixar tudo como está, na circulação dos nutrientes, dos prazeres. Nada há aqui, à volta ou por dentro, que incomode. A ponto de a própria ideia de si tornar-se supérflua, inútil.
Disposição índia X – o que nos é permitido esperar (dos bárbaros)?
A ideia de uma filosofia bárbara (não a selvagem, que funda os alicerces dos muros da cidade, não a rebelde, que atravessa muros ou os põe abaixo) envolve uma contradição em seus próprios termos? Possivelmente.
Quiasma: língua_pensamento VII
Sempre que um filósofo utiliza-se de expressões como: “por assim dizer”, “na ausência de palavras”, ou quando – o que dá no mesmo – lança mão de neologismos, ele pressupõe, ou sinaliza, a existência (muito questionável, aliás) de um conteúdo de pensamento distinto das teias das formulações linguísticas.
©
O conceito de nexus é dreyfus(-foucault)iano: “Enfim, as práticas que contêm uma interpretação do que é uma pessoa, um objeto e uma sociedade ajustam-se e encaixam-se umas às outras (fit together)”*.
Pessoa – sujeito, ética e experiência. Objeto – verdade, ontologia e pensamento. Sociedade – poder, política e governamentalidade.
(*) DREYFUS, Hubert L.. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 18.
Pessoa – sujeito, ética e experiência. Objeto – verdade, ontologia e pensamento. Sociedade – poder, política e governamentalidade.
(*) DREYFUS, Hubert L.. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 18.
Perdoem-me um pouco de tagarelice...
Talvez Heidegger escape à interpretação de Dreyfus justamente quando ele recorre, para ilustrar a ideia de uma pré-ontologia, às ciências (psicologia e sociologia)*, que pretendem objetivar o inobjetivável.
A meu ver, aquela ontologia (auto-interpretação do ser) não é sequer ainda determinada socialmente. Ela funciona como um horizonte que precede – absolutamente – toda objetivação.
Logo adiante, Dreyfus procura corrigir-se**.
(*) DREYFUS, Hubert L.. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 17.
(**) Conferir: ibid, P. 19.
A meu ver, aquela ontologia (auto-interpretação do ser) não é sequer ainda determinada socialmente. Ela funciona como um horizonte que precede – absolutamente – toda objetivação.
Logo adiante, Dreyfus procura corrigir-se**.
(*) DREYFUS, Hubert L.. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 17.
(**) Conferir: ibid, P. 19.
Nexus IV
Para a revalidação daquele (esquecido!) conceito de nexus e de seus elementos (verdade, poder e sujeito), conceito que é sempre encoberto pelo que, na aparência, vem antes dele (uma ontologia, uma política e uma ética-como-prática-refletida-de-si) – embora não haja, de fato, a anterioridade dos elementos em relação ao nexus, mas correlação imediata) –, temos o texto de Dreyfus, um leitor de Foucault, na interpretação que propõe de Heidegger.
Dreyfus escreve: “nossas práticas sociais incorporam uma ontologia”*, ontologia que (e aqui ele recorre a Bourdieu) produz um habitus corporal e “uma certa experiência subjetiva”** de interpretação do ser.
(*) DREYFUS, Hubert L. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 16.
Dreyfus escreve: “nossas práticas sociais incorporam uma ontologia”*, ontologia que (e aqui ele recorre a Bourdieu) produz um habitus corporal e “uma certa experiência subjetiva”** de interpretação do ser.
Esta experiência subjetiva é posição, sem que nos importe onde ela se inicia, se no mundo ou se no sujeito. Por assim dizer, na ausência de melhores palavras, é a experiência-pensamento que vem antes.
(*) DREYFUS, Hubert L. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 16.
(**) Ibid. P. 17.
Disposição índia IX – o termo da filosofia
Preguiça, indolência, silêncio, ausência de consciência disso, no máximo: a poesia.
Disposição índia VIII – A superação e o trabalho
A superação-de-si exige o trabalho. O trabalho exige a consciência. Cada vez mais.
Difícil, porque a superação-de-si é justamente a dissolução de uma consciência.
A consciência é sempre consciência disso.
A consciência reduzida é nisso, a disposição índia.
Difícil, porque a superação-de-si é justamente a dissolução de uma consciência.
A consciência é sempre consciência disso.
A consciência reduzida é nisso, a disposição índia.
Do preconceito ao conceito
De um preconceito...
Partindo de um início equivocado, podemos sair do equívoco (sujeito, isso)?
(*) HEIDEGGER, Martin. Ontologia: Hermenêutica da Faticidade. Trad. Renato Kirchner. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2013 [1923]. P. 94.
O domínio universal do real pode ser dividido em dois reinos: coisas naturais e coisas de valor, tendo sempre as coisas de valor, enquanto substrato do seu ser, o ser como uma coisa natural. [E ele dá, até, um exemplo do preconceito:] O ser próprio da mesa é: coisa material no espaço.*...podemos derivar um conceito – o sujeito é isso que tem um valor para si (ser coisa de valor) que se confunde com o seu modo de ser (ser coisa natural).
Partindo de um início equivocado, podemos sair do equívoco (sujeito, isso)?
(*) HEIDEGGER, Martin. Ontologia: Hermenêutica da Faticidade. Trad. Renato Kirchner. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2013 [1923]. P. 94.
Disposição índia VII
Não haveria filosofia em disposição índia!
A disposição índia, defende-se, seria a existente nas sociedades arcaicas.
A disposição índia seria caracterizada, nessa opinião, pela sua “incapacidade de gerar excedentes”*, isto é, de superar suas condições naturais. Viver-se-ia à mercê da fortuna, sempre aquém, na falta.
Nesse disposição, a gente subsistiria na precariedade. Além disso, associada a essa condição de subsistência, constata-se a ausência da escrita (sinal da ausência de um pensamento arquivado, questionado e sistematizado: condição da filosofia).
Nessa condição: seria impossível o livre-pensar!
Mas, e se, pelo contrário, na disposição índia, vivesse-se na abundância e, no consequente, dispêndio**?
(*) Conferir: CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2012 [1974]. Cap. 1. Copérnico e os selvagens. P. 29-30.
(**) Além de Clastres, conferir: MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2013 [1925]. P. 118.
A disposição índia, defende-se, seria a existente nas sociedades arcaicas.
A disposição índia seria caracterizada, nessa opinião, pela sua “incapacidade de gerar excedentes”*, isto é, de superar suas condições naturais. Viver-se-ia à mercê da fortuna, sempre aquém, na falta.
Nesse disposição, a gente subsistiria na precariedade. Além disso, associada a essa condição de subsistência, constata-se a ausência da escrita (sinal da ausência de um pensamento arquivado, questionado e sistematizado: condição da filosofia).
Nessa condição: seria impossível o livre-pensar!
Mas, e se, pelo contrário, na disposição índia, vivesse-se na abundância e, no consequente, dispêndio**?
(*) Conferir: CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2012 [1974]. Cap. 1. Copérnico e os selvagens. P. 29-30.
(**) Além de Clastres, conferir: MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2013 [1925]. P. 118.
Pastagens II – Disposição índia VI
A partir de Pastagens, a filosofia parece sempre ligada à disposição superação-de-si.
Primeiro, num movimento de redução do commons à enclosure (das pastagens abertas e contínuas ao domínio descontínuo, apropriado e protegido) (do comum-infinito ao domínio encerrado de um conceito-ideia). – Para Platão, pensar é antes de tudo separar, filosofar é antes de tudo reconhecer o contorno de um conhecimento distinto de outro*. Ao encontro do limite. Invenção do dentro-fora.
Depois, de encontro ao limite, de dentro para fora, a filosofia precisa pensar a transgressão (Bataille) para se tornar propriamente superação (Nietzsche).
Por isso, a opinião corrente de que não haja uma filosofia índia.
(*) RICOEUR, Paul. Être, essence et substance chez Platon et Aristote: Cours professé à l’Université de Strasbourg en 1953-1954. Paris: Seuil, 2011 [1954]. P. 35.
Primeiro, num movimento de redução do commons à enclosure (das pastagens abertas e contínuas ao domínio descontínuo, apropriado e protegido) (do comum-infinito ao domínio encerrado de um conceito-ideia). – Para Platão, pensar é antes de tudo separar, filosofar é antes de tudo reconhecer o contorno de um conhecimento distinto de outro*. Ao encontro do limite. Invenção do dentro-fora.
Depois, de encontro ao limite, de dentro para fora, a filosofia precisa pensar a transgressão (Bataille) para se tornar propriamente superação (Nietzsche).
Por isso, a opinião corrente de que não haja uma filosofia índia.
(*) RICOEUR, Paul. Être, essence et substance chez Platon et Aristote: Cours professé à l’Université de Strasbourg en 1953-1954. Paris: Seuil, 2011 [1954]. P. 35.
Diário de Moscou XXII
Na verdadeira Moscou, entre verdadeiros moscovitas, nós, berlinenses, estamos como que entre índios.
Disposição índia V – vivernisso!
Vivernisso, por outro lado, não é uma regra! Nem ética nem política. É uma disposição: um estado habitual ético-político adquirido (que, portanto, nada tem de natural).
Vivernisso, no favorável, é um comunismo democrático sem soberano, para além do justo e do injusto, do “toma lá, dá cá” de mercado.
Mas “vivernisso” não é o contrário de “superar-se”. Não é viver dentro dos limites, porque nisso é o ilimitado, o fértil, o abundante.
Vivernisso, no favorável, é um comunismo democrático sem soberano, para além do justo e do injusto, do “toma lá, dá cá” de mercado.
Mas “vivernisso” não é o contrário de “superar-se”. Não é viver dentro dos limites, porque nisso é o ilimitado, o fértil, o abundante.
“Superar a si mesmo” como regra política
A regra ética, “Superar a si mesmo”, pode ser uma regra política? Em certo sentido, sim.
Provavelmente não pode ser uma regra política (no sentido de uma regra universal comum, quando a superação é uma produção coletiva). É muito improvável uma coletividade política subsistir, se ela visa à superação de cada um dos seus membros (isto é, de todos, individualmente).
No entanto, nessa impossibilidade da superação universal, a coletividade, por vezes, concebe, produz e sustenta, politicamente, o verdadeiro soberano (o que supera):
As cidades de “outrora” sacrificavam-se para liberar seus mestres dos limites impostos aos cidadãos comuns. Pelo menos, eles podiam contemplar o que se supera.
Estas cidades, por suposto, não podiam ser democráticas. A democracia é a sociedade de seres humanos medianos, justos, isto é, que não tomam mais para si do que lhes é devido, humanos insuperados. Na democracia, quem se supera é condenado ao ostracismo.
(*)BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. ESTUDO II – O homem soberano de Sade. P. 192.
Provavelmente não pode ser uma regra política (no sentido de uma regra universal comum, quando a superação é uma produção coletiva). É muito improvável uma coletividade política subsistir, se ela visa à superação de cada um dos seus membros (isto é, de todos, individualmente).
No entanto, nessa impossibilidade da superação universal, a coletividade, por vezes, concebe, produz e sustenta, politicamente, o verdadeiro soberano (o que supera):
– a desaparição de outros soberanos que não aqueles que ainda sobrevivem (em grande parte domesticados, reduzidos à razão) priva-nos da visão do “homem integral” [super-homem, aquele que supera o homem] que a humanidade de outrora queria ter, em sua impotência de conceber um sucesso pessoal igual para todos.*
As cidades de “outrora” sacrificavam-se para liberar seus mestres dos limites impostos aos cidadãos comuns. Pelo menos, eles podiam contemplar o que se supera.
Estas cidades, por suposto, não podiam ser democráticas. A democracia é a sociedade de seres humanos medianos, justos, isto é, que não tomam mais para si do que lhes é devido, humanos insuperados. Na democracia, quem se supera é condenado ao ostracismo.
(*)BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. ESTUDO II – O homem soberano de Sade. P. 192.
Índia-horizonte-deusa
A que nunca se opõe, nem se deixa jogar-julgar diante. Nem limitar e apreender. Para a qual não há perspectiva. Da qual não há conceito. Nem retrato. Mas que não deixa de se mostrar e dar a pensar.
Disposição índia (III) e cinco determinações da essência do capitalismo
O essencial é o além (Platão). – capitalismo para os excluídos.
O essencial é o fim (Aristóteles). – capitalismo para os neoliberais.
O essencial é o princípio de desdobramento (Spinoza). – capitalismo do capital-potência.
O essencial é o fim (Aristóteles). – capitalismo para os neoliberais.
O essencial é o princípio de desdobramento (Spinoza). – capitalismo do capital-potência.
O essencial é o limite (Heidegger). – capitalismo da finitude, ser-para-a-morte ou consumismo.
O essencial é o superar-se (Nietzsche). – capitalismo como civilização ou negação da disposição índia.
O essencial é o superar-se (Nietzsche). – capitalismo como civilização ou negação da disposição índia.
Disposição índia (II) e capitalismo
Uma vassoura de palha de buriti. Preço de venda: 5 reais; puro ganho.
Todos os materiais de sua produção estão-aí, simplesmente dados e disponíveis (vorhandene). Não calcule o tempo de sua produção; não relacione tempo e custo.
Todos os materiais de sua produção estão-aí, simplesmente dados e disponíveis (vorhandene). Não calcule o tempo de sua produção; não relacione tempo e custo.
Diário de Moscou XXI
Moscou: a existência é vivernisso: essência do comunismo.
Berlim: a existência é renascerdisso: essência do capitalismo (mascarado de nacional-socialismo).
Berlim: a existência é renascerdisso: essência do capitalismo (mascarado de nacional-socialismo).
Disposição índia
Já tratamos disso como esterilidade e fertilidade, conferir:
esterilidade-ou-fertilidade; esterilidade-ou-fertilidade-ii; esterilidade-ou-fertilidade-iii.
esterilidade-ou-fertilidade; esterilidade-ou-fertilidade-ii; esterilidade-ou-fertilidade-iii.
Mas é justamente isso que em tempos nossos precisamos pensar. Agora, sob outros nomes.
São duas disposições ou estados habituais (hexis, habitus) humanas: a disposição índia e a disposição superação-de-si.
Na primeira, tudo pode permanecer como-está, pois como-está está bem. Um modo epicureu de ser. Somos um pedacinho de um mundo acolchoado e ilimitado. Estamos diante de e frequentemente envoltos por um rio muito largo, longo e fértil, que não para de fluir. A existência é viver nisso (não, disso).
Na segunda, trata-se antes de morrer do que de permanecer assim, como-está. É preciso sobretudo superar-se, superar seus próprios limites. Somos o limite do mundo. Um modo nietzschesco de ser. O mundo é um limite coercitivo, que é preciso perfurar (per-forar), transgredir. Estamos em um lago secante e estéril. A existência é renascer disso.
São duas disposições ou estados habituais (hexis, habitus) humanas: a disposição índia e a disposição superação-de-si.
Na primeira, tudo pode permanecer como-está, pois como-está está bem. Um modo epicureu de ser. Somos um pedacinho de um mundo acolchoado e ilimitado. Estamos diante de e frequentemente envoltos por um rio muito largo, longo e fértil, que não para de fluir. A existência é viver nisso (não, disso).
Na segunda, trata-se antes de morrer do que de permanecer assim, como-está. É preciso sobretudo superar-se, superar seus próprios limites. Somos o limite do mundo. Um modo nietzschesco de ser. O mundo é um limite coercitivo, que é preciso perfurar (per-forar), transgredir. Estamos em um lago secante e estéril. A existência é renascer disso.
Ambiente kafkiano
Afinal, como somos promessas de sociedades político-morais, é aceitável que todos nós sejamos injustamente condenados, que um juiz nos condene por um ato que não cometemos (daí a injustiça), pois sempre o juiz há de ignorar no seu julgamento a totalidade dos nossos atos (daí a aceitabilidade da condenação).
Não é isso que Proust significa quando escreve que não há “quase nunca, condenação justa nem erro judiciário, mas uma espécie de harmonia entre a falsa ideia que o juiz se faz de um ato inocente e os fatos culpáveis culposos que ele ignorou ”*?
(*) PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 30.
Não é isso que Proust significa quando escreve que não há “quase nunca, condenação justa nem erro judiciário, mas uma espécie de harmonia entre a falsa ideia que o juiz se faz de um ato inocente e os fatos culpáveis culposos que ele ignorou ”*?
(*) PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 30.
A origem da alma
O velho já não tinha o corpo. Extenuado, o
corpo já não obedecia aos desejos persistentes (possivelmente imortais) e cada vez mais vigorosos do velho. Por isso, o
velho serviu-se do corpo de um outro, muito mais jovem, a quem deu o nome de escravo-trabalhador.
Diário de Moscou XX
Não que eu deseje retornar a Berlim (já não sei mais em que direção geográfica Berlim se encontra). Mas a crescente impossibilidade de trabalhar, de pensar, que domina meu cérebro nestes últimos tempos, começou a me aterrorizar com a suspeita de que eu nunca mais consiga deixar Moscou.
Logo percebi, no entanto, que esse terrorismo é sinal de que me aproximo das fronteiras siberianas – do inapreensível ao pensamento-trabalho.
Logo percebi, no entanto, que esse terrorismo é sinal de que me aproximo das fronteiras siberianas – do inapreensível ao pensamento-trabalho.
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