131


O que é o niilismo senão o fim do finalismo, a finalização da ideia de que tudo estaria aí para alguma coisa além dela (gloria dei seu homini)?


130

O pensamento livre, não ofuscado, não é simplesmente a nossa capacidade de perceber sem embaraços a realidade tal como ela é, mas fundamentalmente a nossa potência de agir sobre ela, de agir livremente nela.


Isso ainda é


De algum modo isso ainda é, ou porta um sentido do ser:

– O ser de um sonho, cuja recordação nos escapa ao acordarmos.


Tudo é questão de método XII


Não deixam de ser filosóficas as vias ilusórias do pensar-agir. Então, a filosofia não diz respeito exclusivamente à verdade.

Essa suspensão filosófica da pretensão da verdade não é o fracasso da filosofia – pelo contrário, ela fracassa, quando se crê na sua verdade –, mas a afirmação da sua potência criativa.


Tudo é questão de método – XI

Impressiona que, para alcançarmos certas melhorias, no uso da vida, perante à experiência, precisemos adotar perspectivas ilusórias. A via da verdade, aí, muitas vezes, é improdutiva.


Idealismo, idealização

Compreender o idealismo como idealização. Perceber o vínculo íntimo entre um e outro.

O idealismo não ocorre somente na negação da real natureza do mundo (na afirmação da soberania da ideia), mas também na sua denegação (na suspensão-aufhäbung da natureza por meio do contrato): – “criar asas” e escapar da realidade do mundo, colocando o ser do mundo em suspenso, e suspendendo-se em uma fantasia ideal: o jurídico.




Conferir: DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: o frio e o cruel. Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Zahar, 2009 [1967]. P. 34 - 35.


“Tudo é questão de método” X

Método ou, com outras palavras, tudo é questão de disciplina.

Na disciplina, logo surgem dois aspectos: o tempo e o corpo.

Trata-se de disciplinar o tempo: dividir o movimento, descontinuar ou modular o contínuo, e rearticulá-lo em módulos e séries mais eficazes.

Trata-se de disciplinar o corpo: individualizá-lo, contê-lo, formá-lo, tratá-lo como outro, e fazê-lo obedecer docilmente.

Tudo é questão de disciplina quando se visa à maior produção, em uma disposição de superação-do-atual. A produção é um fazer. E a capacidade de fazer é a verdadeira liberdade.

Mas a liberdade, lembre-se, precisa estar rigorosamente separada de qualquer ideia ou sentimento de obediência.

Assim, na disciplina do tempo e do corpo, é preciso ter como meta ideal a liberdade do espírito.


Timbre filosófico II – a filosofia como instrumento de composição

Esses harmônicos dissonantes de um timbre filosófico nos encantam. Infelizmente, às vezes, nos enfeitiçam. Apegados, só sabemos, então, cantarolar desse jeito: investigando o prazer e a dor das harmonias e das dissonâncias, presos às proximidades notáveis.


Timbre filosófico


Em uma determinada linha instrumental de composição, num certo timbre discursivo, como por exemplo na fenomenologia, vibram diferentes sonoridades, às vezes, apesar do seu estar juntas, dissonantes.



Disposição índia XI – a mansuetude

Um ambiente hostil, uma grande adversidade por parte dos outros citadinos, um elevado grau de rivalidade e de competitividade, isso é o que a disposição superação-de-si-mesmo requer como condição. Sem isso, nada.

Oposição, disputa, ataques, ameaças. Uma intensa luta pela sobrevivência e para a afirmação de si. Ainda assim, tudo deve se passar nos limites da cordialidade, senão da amizade. A um passo da guerra civil deflagrada.

Só na mansidão, na condição própria aos deuses epicureus, a verdadeira mansuetude pode ser habitual. Deixar tudo como está, na circulação dos nutrientes, dos prazeres. Nada há aqui, à volta ou por dentro, que incomode. A ponto de a própria ideia de si tornar-se supérflua, inútil.


Disposição índia X – o que nos é permitido esperar (dos bárbaros)?

A ideia de uma filosofia bárbara (não a selvagem, que funda os alicerces dos muros da cidade, não a rebelde, que atravessa muros ou os põe abaixo) envolve uma contradição em seus próprios termos? Possivelmente.

Quiasma: língua_pensamento VII

Sempre que um filósofo utiliza-se de expressões como: “por assim dizer”, “na ausência de palavras”, ou quando – o que dá no mesmo – lança mão de neologismos, ele pressupõe, ou sinaliza, a existência (muito questionável, aliás) de um conteúdo de pensamento distinto das teias das formulações linguísticas.


©

O conceito de nexus é dreyfus(-foucault)iano: “Enfim, as práticas que contêm uma interpretação do que é uma pessoa, um objeto e uma sociedade ajustam-se e encaixam-se umas às outras (fit together)”*.

Pessoa – sujeito, ética e experiência. Objeto – verdade, ontologia e pensamento. Sociedade – poder, política e governamentalidade.




(*) DREYFUS, Hubert L.. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 18.

Perdoem-me um pouco de tagarelice...

Talvez Heidegger escape à interpretação de Dreyfus justamente quando ele recorre, para ilustrar a ideia de uma pré-ontologia, às ciências (psicologia e sociologia)*, que pretendem objetivar o inobjetivável.

A meu ver, aquela ontologia (auto-interpretação do ser) não é sequer ainda determinada socialmente. Ela funciona como um horizonte que precede – absolutamente – toda objetivação.

Logo adiante, Dreyfus procura corrigir-se**.






(*) DREYFUS, Hubert L.. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 17.

(**) Conferir: ibid, P. 19.

Nexus IV

Para a revalidação daquele (esquecido!) conceito de nexus e de seus elementos (verdade, poder e sujeito), conceito que é sempre encoberto pelo que, na aparência, vem antes dele (uma ontologia, uma política e uma ética-como-prática-refletida-de-si) – embora não haja, de fato, a anterioridade dos elementos em relação ao nexus, mas correlação imediata) –, temos o texto de Dreyfus, um leitor de Foucault, na interpretação que propõe de Heidegger.

Dreyfus escreve: “nossas práticas sociais incorporam uma ontologia”*, ontologia que (e aqui ele recorre a Bourdieu) produz um habitus corporal e “uma certa experiência subjetiva”** de interpretação do ser.

Esta experiência subjetiva é posição, sem que nos importe onde ela se inicia, se no mundo ou se no sujeito. Por assim dizer, na ausência de melhores palavras, é a experiência-pensamento que vem antes.





(*) DREYFUS, Hubert L. Being-in-the-world: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts : MIT, 1991. P. 16.

(**) Ibid. P. 17.

Disposição índia VIII – A superação e o trabalho

A superação-de-si exige o trabalho. O trabalho exige a consciência. Cada vez mais.

Difícil, porque a superação-de-si é justamente a dissolução de uma consciência.

A consciência é sempre consciência disso.

A consciência reduzida é nisso, a disposição índia.



Do preconceito ao conceito

De um preconceito...
O domínio universal do real pode ser dividido em dois reinos: coisas naturais e coisas de valor, tendo sempre as coisas de valor, enquanto substrato do seu ser, o ser como uma coisa natural. [E ele dá, até, um exemplo do preconceito:] O ser próprio da mesa é: coisa material no espaço.*
...podemos derivar um conceito – o sujeito é isso que tem um valor para si (ser coisa de valor) que se confunde com o seu modo de ser (ser coisa natural).

Partindo de um início equivocado, podemos sair do equívoco (sujeito, isso)?






(*) HEIDEGGER, Martin. Ontologia: Hermenêutica da Faticidade. Trad. Renato Kirchner. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2013 [1923]. P. 94.

Disposição índia VII

Não haveria filosofia em disposição índia!

A disposição índia, defende-se, seria a existente nas sociedades arcaicas.

A disposição índia seria caracterizada, nessa opinião, pela sua “incapacidade de gerar excedentes”*, isto é, de superar suas condições naturais. Viver-se-ia à mercê da fortuna, sempre aquém, na falta.

Nesse disposição, a gente subsistiria na precariedade. Além disso, associada a essa condição de subsistência, constata-se a ausência da escrita (sinal da ausência de um pensamento arquivado, questionado e sistematizado: condição da filosofia).

Nessa condição: seria impossível o livre-pensar!

Mas, e se, pelo contrário, na disposição índia, vivesse-se na abundância e, no consequente, dispêndio**?





(*) Conferir: CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2012 [1974]. Cap. 1. Copérnico e os selvagens. P. 29-30.

(**) Além de Clastres, conferir: MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2013 [1925]. P. 118.

Pastagens II – Disposição índia VI

A partir de Pastagens, a filosofia parece sempre ligada à disposição superação-de-si.

Primeiro, num movimento de redução do commons à enclosure (das pastagens abertas e contínuas ao domínio descontínuo, apropriado e protegido) (do comum-infinito ao domínio encerrado de um conceito-ideia). – Para Platão, pensar é antes de tudo separar, filosofar é antes de tudo reconhecer o contorno de um conhecimento distinto de outro*. Ao encontro do limite. Invenção do dentro-fora.

Depois, de encontro ao limite, de dentro para fora, a filosofia precisa pensar a transgressão (Bataille) para se tornar propriamente superação (Nietzsche).

Por isso, a opinião corrente de que não haja uma filosofia índia.







(*) RICOEUR, Paul. Être, essence et substance chez Platon et Aristote: Cours professé à l’Université de Strasbourg en 1953-1954. Paris: Seuil, 2011 [1954]. P. 35.

Diário de Moscou XXII

Na verdadeira Moscou, entre verdadeiros moscovitas, nós, berlinenses, estamos como que entre índios.

Disposição índia V – vivernisso!

Vivernisso, por outro lado, não é uma regra! Nem ética nem política. É uma disposição: um estado habitual ético-político adquirido (que, portanto, nada tem de natural).

Vivernisso, no favorável, é um comunismo democrático sem soberano, para além do justo e do injusto, do “toma lá, dá cá” de mercado.

Mas “vivernisso” não é o contrário de “superar-se”. Não é viver dentro dos limites, porque nisso é o ilimitado, o fértil, o abundante.

“Superar a si mesmo” como regra política

A regra ética, “Superar a si mesmo”, pode ser uma regra política? Em certo sentido, sim.

Provavelmente não pode ser uma regra política (no sentido de uma regra universal comum, quando a superação é uma produção coletiva). É muito improvável uma coletividade política subsistir, se ela visa à superação de cada um dos seus membros (isto é, de todos, individualmente).

No entanto, nessa impossibilidade da superação universal, a coletividade, por vezes, concebe, produz e sustenta, politicamente, o verdadeiro soberano (o que supera):
– a desaparição de outros soberanos que não aqueles que ainda sobrevivem (em grande parte domesticados, reduzidos à razão) priva-nos da visão do “homem integral” [super-homem, aquele que supera o homem] que a humanidade de outrora queria ter, em sua impotência de conceber um sucesso pessoal igual para todos.*

As cidades de “outrora” sacrificavam-se para liberar seus mestres dos limites impostos aos cidadãos comuns. Pelo menos, eles podiam contemplar o que se supera.

Estas cidades, por suposto, não podiam ser democráticas. A democracia é a sociedade de seres humanos medianos, justos, isto é, que não tomam mais para si do que lhes é devido, humanos insuperados. Na democracia, quem se supera é condenado ao ostracismo.





(*)BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 [1957]. ESTUDO II – O homem soberano de Sade. P. 192.

Ops!!!


Ops!!!


Índia-horizonte-deusa

A que nunca se opõe, nem se deixa jogar-julgar diante. Nem limitar e apreender. Para a qual não há perspectiva. Da qual não há conceito. Nem retrato. Mas que não deixa de se mostrar e dar a pensar.

Disposição índia (III) e cinco determinações da essência do capitalismo

O essencial é o além (Platão). – capitalismo para os excluídos.

O essencial é o fim (Aristóteles). – capitalismo para os neoliberais.

O essencial é o princípio de desdobramento (Spinoza). – capitalismo do capital-potência.

O essencial é o limite (Heidegger). – capitalismo da finitude, ser-para-a-morte ou consumismo.

O essencial é o superar-se (Nietzsche). – capitalismo como civilização ou negação da disposição índia.

Disposição índia (II) e capitalismo

Uma vassoura de palha de buriti. Preço de venda: 5 reais; puro ganho.

Todos os materiais de sua produção estão-aí, simplesmente dados e disponíveis (vorhandene). Não calcule o tempo de sua produção; não relacione tempo e custo.

Diário de Moscou XXI

Moscou: a existência é vivernisso: essência do comunismo.
Berlim: a existência é renascerdisso: essência do capitalismo (mascarado de nacional-socialismo).

Disposição índia

Já tratamos disso como esterilidade e fertilidade, conferir:
esterilidade-ou-fertilidadeesterilidade-ou-fertilidade-iiesterilidade-ou-fertilidade-iii.

Mas é justamente isso que em tempos nossos precisamos pensar. Agora, sob outros nomes.

São duas disposições ou estados habituais (hexis, habitus) humanas: a disposição índia e a disposição superação-de-si.

Na primeira, tudo pode permanecer como-está, pois como-está está bem. Um modo epicureu de ser. Somos um pedacinho de um mundo acolchoado e ilimitado. Estamos diante de e frequentemente envoltos por um rio muito largo, longo e fértil, que não para de fluir. A existência é viver nisso (não, disso).

Na segunda, trata-se antes de morrer do que de permanecer assim, como-está. É preciso sobretudo superar-se, superar seus próprios limites. Somos o limite do mundo. Um modo nietzschesco de ser. O mundo é um limite coercitivo, que é preciso perfurar (per-forar), transgredir. Estamos em um lago secante e estéril. A existência é renascer disso.

Ambiente kafkiano

Afinal, como somos promessas de sociedades político-morais, é aceitável que todos nós sejamos injustamente condenados, que um juiz nos condene por um ato que não cometemos (daí a injustiça), pois sempre o juiz há de ignorar no seu julgamento a totalidade dos nossos atos (daí a aceitabilidade da condenação).

Não é isso que Proust significa quando escreve que não há “quase nunca, condenação justa nem erro judiciário, mas uma espécie de harmonia entre a falsa ideia que o juiz se faz de um ato inocente e os fatos culpáveis culposos que ele ignorou ”*?






(*) PROUST, Marcel. Albertine disparue. Col. Folio Classique. Paris: Gallimard, 2009 [1923]. P. 30.

A origem da alma

O velho já não tinha o corpo. Extenuado, o corpo já não obedecia aos desejos persistentes (possivelmente imortais) e cada vez mais vigorosos do velho. Por isso, o velho serviu-se do corpo de um outro, muito mais jovem, a quem deu o nome de escravo-trabalhador.

Diário de Moscou XX

Não que eu deseje retornar a Berlim (já não sei mais em que direção geográfica Berlim se encontra). Mas a crescente impossibilidade de trabalhar, de pensar, que domina meu cérebro nestes últimos tempos, começou a me aterrorizar com a suspeita de que eu nunca mais consiga deixar Moscou.

Logo percebi, no entanto, que esse terrorismo é sinal de que me aproximo das fronteiras siberianas – do inapreensível ao pensamento-trabalho.

Pastagens

A filosofia em geral se restringe ao domínio da redução do commons contínuo a enclosures descontínuos e racionalizados. Ela vive disso, ela vive ali.

A filosofia específica, pelo contrário, avança às fronteiras desses campos fechados e racionais. Desde dentro para fora, para onde não pode mais, digamos, respirar.

açúcar-pré-sal

A história da filosofia pode ser vista como um grande manancial, uma grande reserva, uma inesgotável fonte de prazer, da qual você pode usufruir solitariamente (numa relação verbal pronominal) ou mesmo para dominar os outros (numa relação verbal transitiva).

Pronominal ou transitiva, a entrega à filosofia é fricção de pensamento com pensamento. Daí, o gozo.

Pronominal ou transitivamente, leva-se às vezes uma vida inteira, para se perceber que, além do seu gozo, é também a história da filosofia, vampírica, que goza de você.

Inkling

A mais simples suspeita (que é nitidamente um afeto) já é um grau de conhecimento.

Um afeto é qualquer alteração de estado, prazerosa ou dolorosa.

A história de um homem

Ele é estritamente humano, quer dizer, repugna-lhe tudo o que se diga sagrado (ou violento).

De fato, movido pelo mesmo terror dos primitivos, esse homem nega, ao invés de afirmar, como fazem os arcaicos, tudo o que, essencialmente e não só contingentemente, escape à sua inteligência humana, tudo o que seja humanamente inapreensível.

Inconscientemente, ele nega o que teme, e tão pavorosamente que chega ao ponto de tornar-se violento, sem compreender por quê.

Dispositivo-crocodilo ou capitalismo

Somos uma presa na mandíbula cerrada de um crocodilo que gira sobre seu próprio corpo.

Mas, enquanto isso, precisamos ainda e sempre nos ocupar com nossa própria digestão, com o que se passa em nosso próprio ventre, como se fosse isso o que mais nos importasse.


Capitalismo negativo

O capitalismo move-se em eras. Entramos em outra, a do capital negativo. Capital? Uh! Que batata quente!


NYT: BREAKING NEWS Thursday, June 5, 2014 7:53 AM EDT
European Central Bank Cuts Deposit Rate to Negative


O capitalismo move-se em eras: como um crocodilo que gira sobre seu próprio corpo, com a sua presa entre as suas poderosas mandíbulas, para dilacerá-la. Sua presa? Pode ser até mesmo o seu próprio rabo, se nada há por fora. Mas, isso é absolutamente natural. Não se veja maldade nisso. Só o humanismo enxerga o bem e o mal.


128


Paradoxalmente, a morte de Deus elevou o Cristianismo à sua perfeição: tornou-se impossível pecar.

Serviços de ignorância

Depois do caso Snowden, os serviços de inteligência precisarão insistir, mais a fundo, em recrutar seus quadros entre os menos inteligentes.

Véus da apatia II

– “Vive-se sob a venda dos véus”. Assim, o que vemos em realidade são as vendas?

Mas, quando se dá o desvendamento, algo se vela, ocorre ainda e sempre o velamento. Não há como nos desvendar? Por isso, deveríamos, filosoficamente, até mesmo nos afastar da tentação de ver através das vendas. E, mantermo-nos, filosoficamente, na ingenuidade de ver nas vendas, afetados.

– Ora, isso não faz qualquer sentido! Pontas. Uma ponta não engata na outra. Uma espécie de insuficiência, do gênero da insuficiência cardíaca.

Véus da apatia


Quando a ferida e a dor surgem, desejamos mascará-las. Como se, por trás e por si, cicatrizassem e passassem. Um véu, então, chega a encobrir tudo. Muita força ideológica e violência física (tranquilizantes e analgésicos) são necessárias para não se desvendarem os pensamentos e os olhos, para nos mantermos na apatia.