Às vezes eu percebia um erro de percurso, mas isso, para o meu espanto, não alterava coisa alguma no resultado a que eu havia chegado ao cometer aquele erro.
Como se, num momento intermediário, eu calculasse 2+5 = 9, seguisse adiante, somando e subtraindo outros valores, até chegar a um resultado X, e, mais tarde, percebesse aquele erro, e o corrigisse, sem que isso modificasse, porém, o resultado final X já alcançado.
Agora eu sei que – como aquele raciocínio intermediário, correto ou torto, não alterava em nada minhas conclusões – eu podia me passar dele sem qualquer prejuízo, porque o meu resultado era independente do processo que me havia levado até ele; embora eu saiba, também, que eu, particularmente, não teria chegado àquele resultado sem passar por esse erro.
Quiasma: língua_pensamento VII: A profundidade das reformas ortográficas
Às vezes sinto como se meu espírito fosse constituído de camadas correspondentes aos sucessivos regimes da língua. A cada reforma ortográfica, a cada conjunto de supressões ou acréscimos de letras, de formas de acentuação, de palavras no léxico, uma nova camada se instaura, cobrindo, mas apenas parcialmente, a anterior, sob um novo modo de formatação da fala ou ortofonia.
Puro-impuro II: invenção de uma genealogia
Os predicados puro e impuro são derivados de um uso inicial que era estritamente material. Assim, se distinguiam o “ouro puro” do “ouro impuro”, porque o impuro continha numa mistura outros metais.
À pureza sem mistura e à impureza da mistura logo se vincularam também predicados morais. O ouro puro, por exemplo, entrava no comércio justo entre humanos virtuosos. O ouro impuro, no injusto, entre humanos sem virtude, viciosos e falsificadores.
A ideia da separação entre a alma e o corpo reforçou o uso moral dos predicados puro e impuro. Uma alma pura era aquela que não sucumbia às tentações, inclinações ou apetites do corpo (entendido como a origem dos vícios). Purificar a alma era separar e afastar dela todos os vícios que provinham do corpo.
O bom moralmente puro, então, foi considerado em referência somente à alma purificada e descartava todo tipo de utilidade ou de prazer próprios ao corpo.
Só mais tarde, mas ainda imbuídos do uso moral, os predicados puro e impuro foram aplicados também ao conhecimento. O conhecimento puro foi entendido como aquele estritamente racional e purificado de qualquer influência do corpo, e o impuro, aquele que carregava em si, falsificando-se num certo sentido*, também elementos sensuais ou da sensibilidade.
À pureza sem mistura e à impureza da mistura logo se vincularam também predicados morais. O ouro puro, por exemplo, entrava no comércio justo entre humanos virtuosos. O ouro impuro, no injusto, entre humanos sem virtude, viciosos e falsificadores.
A ideia da separação entre a alma e o corpo reforçou o uso moral dos predicados puro e impuro. Uma alma pura era aquela que não sucumbia às tentações, inclinações ou apetites do corpo (entendido como a origem dos vícios). Purificar a alma era separar e afastar dela todos os vícios que provinham do corpo.
O bom moralmente puro, então, foi considerado em referência somente à alma purificada e descartava todo tipo de utilidade ou de prazer próprios ao corpo.
Só mais tarde, mas ainda imbuídos do uso moral, os predicados puro e impuro foram aplicados também ao conhecimento. O conhecimento puro foi entendido como aquele estritamente racional e purificado de qualquer influência do corpo, e o impuro, aquele que carregava em si, falsificando-se num certo sentido*, também elementos sensuais ou da sensibilidade.
Nessa medida, a valorização do conhecimento puro sobre o impuro se explica apenas por uma ideia do que seja um comércio virtuoso, aquele no qual a moeda de troca não é falsificada.
Não falamos com intenções traduzíveis
Quando um falante do inglês diz: “good morning”, ele não quer dizer: “bom dia”, mas “gud-mor-niin”.
Puro-impuro I: A vida como ela é
“A vida como ela é” é essa superfície mesma em que a vida se exprime imanentemente (isto é, em si mesma).
Para quem assim a concebe (veja, por exemplo, Alberto Caeiro em o Guardador de Rebanhos) é absolutamente ilegítima qualquer tentativa de se colocar acima (elevando-se até o universal) ou abaixo (aprofundando-se até o fundamento) dessa superfície.
Para “a vida como ela é” não há o puro nem o impuro.
Para quem assim a concebe (veja, por exemplo, Alberto Caeiro em o Guardador de Rebanhos) é absolutamente ilegítima qualquer tentativa de se colocar acima (elevando-se até o universal) ou abaixo (aprofundando-se até o fundamento) dessa superfície.
Para “a vida como ela é” não há o puro nem o impuro.
Homofonia IV: meta-homofonia
A homofonia em primeiro nível é material:
1) Havia a via.
2) Ouviu ou viu.
3) Contudo, com tudo.
4) Cuidado com a manhã, não com amanhã.
A meta-homofonia se dá num segundo nível.
No alinhamento ritmado por homofonias: (1) + (2) + (3) + (4)...
Num sentido meta-homofônico, “(1) + (2) + (3) + (4)...” diz o mesmo que “(1) + (1) + (1) + (1)...”:
Se a homofonia é material, a meta-homofonia é da ordem do ritmo.
E o ritmo é sobrematerial ou formal.
1) Havia a via.
2) Ouviu ou viu.
3) Contudo, com tudo.
4) Cuidado com a manhã, não com amanhã.
A meta-homofonia se dá num segundo nível.
No alinhamento ritmado por homofonias: (1) + (2) + (3) + (4)...
Havia a via. Ouviu ou viu. Contudo, com tudo. Com a manhã, com amanhã...
Num sentido meta-homofônico, “(1) + (2) + (3) + (4)...” diz o mesmo que “(1) + (1) + (1) + (1)...”:
Havia a via. Havia a via. Havia a via. Havia a via...
Se a homofonia é material, a meta-homofonia é da ordem do ritmo.
E o ritmo é sobrematerial ou formal.
A via
Minha salvação, eu a encontro mais no imperfeito, porque vago, confuso, flexível, do que no perfeito.
Contudo, todas as coisas são perfeitas (omnia perfecta). E eu me salvo, também, com isso.
Contudo, todas as coisas são perfeitas (omnia perfecta). E eu me salvo, também, com isso.
Quiasma: uma espécie de portal
Convergência divergente. Divergência convergente.
Por um quiasma, um regime de narrativa se aproxima de outro, para se afastar novamente. Ou o inverso.
Por um quiasma, enfim, pode-se efetuar o salto de um a outro regime de narrativa.
Devir_futuro
Devir não é o futuro, mas a produção do futuro, a futurização do presente (isto é, a própria presentificação).
Do parafuso, até a alma?
Um parafuso gira num certo sentido. Para fazer um parafuso girar num sentido certo é preciso uma chave de fenda com o giro certo. E, para que a chave gire certo, uma mão que a gire...
Não saltar daqui para a mente.
{Os nervos que contraem os músculos do braço certos.}
{Os nervos que contraem os músculos do braço certos.}
Ponta de alfinete
A intensificação
do desejo – o fervor – não tem a ver com devir ponto, mas com devir
infinito.
Faça a sua escolha
Dois modos de ser coletivos: o modo do pastor e do rebanho; o modo da matilha de lobos.
O bom e o mau de uma explosão
Bom: no fervor, as coisas cruas começam a esquentar.
Mau: quentes durante algum tempo, quando o fervor se torna devoção, terminam as coisas cozinhando-se mutuamente.
A explosão é o mesmo processo esquenta-cozinha, fervor-devoção, mas acelerado.
Mau: quentes durante algum tempo, quando o fervor se torna devoção, terminam as coisas cozinhando-se mutuamente.
A explosão é o mesmo processo esquenta-cozinha, fervor-devoção, mas acelerado.
Homofonia III – devir na língua
Na tradição dos oitocentos, a fonologia.
Diferentes acepções de uma mesma palavra podem se radicalizar, até que, na homofonia, apenas o som permaneça comum.
Homofonias II
Homofonias são registros (traços mnêmicos) na língua de conflitos semânticos entre interpretações.
Mito e história VII
Se o devir histórico acaba com o mito, então, com o “fim da história” retornamos à era do mito.
Mas, de fato, mito e história não se opõem. O mito é uma força histórica (por exemplo, nos messianismos); e a historicidade do ser, um arquétipo.
Mas, de fato, mito e história não se opõem. O mito é uma força histórica (por exemplo, nos messianismos); e a historicidade do ser, um arquétipo.
Uma escolha ex-colhida II
Toda escolha é a colheita de uma flor disposta num campo.
Num campo, onde tudo são flores.
Assim, na imanência do campo de escolhas,
Assim, na imanência do campo de escolhas,
quem ex-colhe também pode ser ex-colhido.
Nossa ideia de tempo
Nossa ideia de tempo advém da necessidade de efetuar um deslocamento para um corpo estar em dois lugares diferentes do espaço.
Mito e história VI – uma espiritualidade política
A forma do império da multidão livre é a democracia comunista, em que cada parte da multidão é livre, em que cada parte, centrada em sua singularidade, opera ativamente em busca do seu útil próprio, em conjunto com as outras partes livres, sem obedecer e sem servir a ninguém, e conserva, em suas próprias mãos, em sua utilidade própria, a integridade da sua potência.
A forma imperial da democracia comunista é o devir mais pertinente à nossa ficção, à nossa ontologia inventada ou encontrada. O devir de um desejo intensificado, sem objeto e portanto sem sujeito. De fato, é o “Reino de Deus”, em que o amor ao próximo esposa o amor de Deus por si mesmo. Não é somente um ainda-não, porque conecta-se com o real já-presente no interior da potência do imaginário.
A forma imperial da democracia comunista é o devir mais pertinente à nossa ficção, à nossa ontologia inventada ou encontrada. O devir de um desejo intensificado, sem objeto e portanto sem sujeito. De fato, é o “Reino de Deus”, em que o amor ao próximo esposa o amor de Deus por si mesmo. Não é somente um ainda-não, porque conecta-se com o real já-presente no interior da potência do imaginário.
Isso, o que é?
Quando o filósofo coloca essa questão: – o que é isso, a filosofia? –, ele se pergunta essa outra: – o que é isso que eu faço (é história, música, poesia, psicologia...)?
Cuidado com a manhã
Cuidemos da manhã (isto é, do momento em que a coisa brota) com o maior cuidado.
Quiasma: língua_pensamento VI
há um poema elástico feito de títulos:
em cima (classicamente comme il faut)
embaixo na aaaaaaaaas ponnnnnnnnntas
no MEIO
(penso.escrevo.em.como
experimento g.z.)
em cima (classicamente comme il faut)
embaixo na aaaaaaaaas ponnnnnnnnntas
no MEIO
(penso.escrevo.em.como
experimento g.z.)
Quiasma: língua_pensamento V
A língua é sempre manifesta, nunca latente.
Como o pensamento, aliás.
Pois quem late é cachorro (embora pense).
Como o pensamento, aliás.
Pois quem late é cachorro (embora pense).
A cada manifestação da língua (fala, texto) ecoa (brota) uma outra.
InfoBLOG e filosofia
Aqui, não há compromisso com o desengano. Mas, isto ainda é filosofia? De pronto, eu diria que não. Filosoficamente, porém, eu diria que sim.
Quiasma: língua_pensamento IV
É preciso filosofar na primeira pessoa do tempo presente do modo indicativo? Ou as ideias de primeira pessoa, de tempo e de indicação pela fala são gaiolas gramaticais para o pensamento?
Mito e história V
Os profetas preveem o futuro, porque o futuro faz parte da eternidade que eles apreendem, mesmo que apenas confusamente.
Isso que pretende terminar com a confusão das ideias é a metafísica.
Na modernidade, a metafísica encontrou (ou inventou) seu critério na historicidade do ser (o ser do tempo é o tempo histórico e humano). Assim, a história se tornou a metafísica excelente.
Mas, com a metafísica histórica, nos foi possível, em algum momento, fazer, até mesmo, a história do futuro. Com isso, os metafísicos modernos tornaram-se como os profetas.
Isso que pretende terminar com a confusão das ideias é a metafísica.
Na modernidade, a metafísica encontrou (ou inventou) seu critério na historicidade do ser (o ser do tempo é o tempo histórico e humano). Assim, a história se tornou a metafísica excelente.
Mas, com a metafísica histórica, nos foi possível, em algum momento, fazer, até mesmo, a história do futuro. Com isso, os metafísicos modernos tornaram-se como os profetas.
Quiasma: língua_pensamento III: enganos e revelações da língua
Diz-se que a língua nos engana, porque tomamos como categorias (formas, tipos, gêneros) do real categorias que são somente gramaticais, isto é, determinadas pela necessidade da comunicação e do hábito. Que a gramática da língua escraviza nossa experiência do real. Que, portanto, precisamos nos livrar da gramática, isto é, colocá-la no seu devido lugar, para pensarmos além dela e, assim, além do habitual.
Pode ser. De toda maneira, embora a língua seja somente um registro das imagens e dos hábitos dos falantes e não a estrutura do real, suas nuances e dobras subentendidas também nos revelam aspectos das imagens e dos hábitos reais.
A conjunção “e”, por exemplo, serve para adicionar, de maneira coordenada, coesa, coerente, dois nomes ou duas orações (que no nosso engano tomamos como entidades reais não linguísticas). Às vezes, porém, “e” funciona para indicar, na coordenação de dois nomes ou de duas orações, uma adversidade.
Por exemplo, dizemos: “Ele foi viajar, e foi contente”; e (ou mas) também: “Ele foi viajar, e foi descontente”.
O fato linguístico de que uma mesma conjunção sirva para indicar uma aliança ou um conflito parece esposar uma característica real, a de que a aliança (que é um requisito dos corpos) não suprime o conflito (entre os corpos que se aliam).
Mito e história IV
Os profetas, confusos, anunciam o futuro: “haverá um poste, ao dobrarmos a esquina”. Se eles percebem o ainda-não, é porque o ainda-não é já-presente.
Mito e história III
Na história, não se pode “andar para trás” nem “retornar ao mesmo”. Não porque a história vá sempre para frente, mas porque a história não tem um sentido. Ela não é uma arvore que cresce com anéis cada vez mais exteriores e perfeitos. A história é um vagar pela infinita pluralidade dos modos do existente ou do mito ainda-não já-presente.
Isto dito, então, o que se chama retorno do mesmo torna-se visão do oculto (como quando, ao dobrarmos, pela primeira vez, uma esquina, começamos a perceber um poste que, porém, já estava lá, absolutamente, desde sempre e inexoravelmente, no desenho da cidade).
O comutador
Uma função bijetora, entre invenção e encontro.
Na frase acima, a vírgula substitui um verbo, que falta. Um verbo comutador que compreende toda invenção de algo no real como um encontro de algo que já estava ali presente. E, todo encontro, como uma invenção de algo que ainda não é real.
O “Reino de Deus” exerce a função do ainda-não já-presente.
Na frase acima, a vírgula substitui um verbo, que falta. Um verbo comutador que compreende toda invenção de algo no real como um encontro de algo que já estava ali presente. E, todo encontro, como uma invenção de algo que ainda não é real.
O “Reino de Deus” exerce a função do ainda-não já-presente.
15h
Sob a pressão ardente e absoluta do sol das 15h, as folhas das árvores se movem lentamente. Mesmo assim, na natureza, não há o tempo.
Mito e história
Há duas maneiras de contar a experiência?
Uns a contam por meio dos mitos. “Nós, os modernos”, a contamos por meio da história. Nosso ser, para nós, se constitui por patamares históricos. Mas, esta história, como fundamento da nossa experiência, pode ser um mito.
Uns a contam por meio dos mitos. “Nós, os modernos”, a contamos por meio da história. Nosso ser, para nós, se constitui por patamares históricos. Mas, esta história, como fundamento da nossa experiência, pode ser um mito.
– O que ele quer dizer com “participação”?
O poeta alcança a ideia e a sente.
“Participação de cada coisa à natureza; impossibilidade de se sair dela. Leis físicas envelopantes”*.
Mas sua incursão é uma incursão na língua. O poeta perfaz um desdobramento na língua, pelo qual o ser da língua (uma essência potente) se desdobra em fala (um ente existente, que é como uma propriedade, ela mesma potente, da língua).
Não diz, não defende o poeta, porém, que o ser da língua seja o ser real, existente e único, onipotente, onisciente, misericordioso, escatológico. Nem que as falas sejam entes reais. Afinal, o poeta sabe, há outras línguas, talvez, uma infinidade delas.
Por isso não podemos perguntar ao poeta: – o que ele quer dizer com “participação”?
(*) GIDE, André. Les nourritures terrestres. Paris: Gallimard, 1936 [1897]. P. 58.
Junto ao ordinário III
Um engano da filosofia está em fazer da vagueza de uma palavra da língua ordinária um universal extraordinário.
Junto ao ordinário II
Acontece que, não fosse a vagueza das palavras da língua ordinária, não poderíamos nos comunicar.
Para não ser vagos, em absoluto, precisaríamos dispor de uma palavra para cada estado de coisas (para cada acontecimento); o que é humanamente absurdo.
Assim, a filosofia não pode acabar ou não pode ter a ilusão de acabar com a vagueza da língua, ao exprimir o claro e o distinto (um pensamento que não é vago) com palavras.
Junto ao ordinário I – e a partir dele
A partir das palavras e das definições (muitas vezes muito vagas) da língua ordinária, a filosofia procura dar uma definição que se conjugue com suas outras definições extraordinárias.
Na designação de uma definição ou de um pensamento, o filósofo pode optar por inventar novas palavras ou por se manter na língua ordinária. Porém, mesmo quando inventa palavras extraordinárias, para defini-las, ele precisa recorrer à língua ordinária.
Assim, mesmo no extraordinário, estamos sempre próximos ao ordinário.
Rigorosamente, a filosofia não é fora (extra-) do ordinário, mas se dá a partir do (ex-) ordinário. A filosofia não é extraordinária, mas exordinária e exordial. Na filosofia, mostra-se o princípio (o exórdio ativo) de uma outra prática discursiva.
Ponta de iceberg
Somos, na dobra que constitui a nossa existência, do modo mais geral, apenas a ponta finita e emergente de um corpo imerso e infinito.
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