Guias e advertências II
O que mais faz um guia além de nos advertir (fazer com que nossa atenção se verta para isso ou para aquilo)?
Guias e advertências
Quando tomamos um guia, já estamos
advertidos? Ou as advertências se seguem ao encontro desse guia?
Mesmo previamente advertidos... tomar radicalmente
um guia significa abandonar todos os preconceitos (e advertências) anteriores a
este guiamento.
O espectador imaginário
Uma vez ou outra, num lampejo, eu percebo que eu arranjo meu cenário como se houvesse no teatro, além de mim mesmo, um outro espectador.
Deixar você na cara do gol II
É fácil reconhecer um amigo naquele que considera
um amigo um amigo seu.
M. de Charlus: “...não posso condenar em
bloco... uma nação que conta com Spinoza entre suas crias ilustres...”.
PROUST, Marcel. Sodome
et Gomorrhe I et II. Paris: Le
Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 606.
Deixar você na cara do gol
Logo antes de recomeçar (mais uma vez) com Spinoza,
por coincidência ou não, recebo este passe de M. de Charlus:
“...não posso condenar em bloco... uma nação
que conta com Spinoza entre suas crias ilustres...”
PROUST, Marcel. Sodome et Gomorrhe I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 606.
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Um texto se escreve letra após letra, nem sempre em sequência, mas quando termina, termina todo de uma só vez.
O pensamento é inconcluso
Por exemplo –
Eu meço o que faço, em minha obediência a um
outro, à medida que imagino isso que um outro quer que eu faça. Nessa
imaginação, porém, eu faço outra coisa (a mais, a menos ou totalmente
diferente) do que isso que um outro me manda fazer. Não penso que assim eu
obedeça só a mim mesmo, mas que obedeço à imagem do outro em mim.
Pensado e pensamento
O pensado parece algo já adquirido, um fundamento.
O pensamento algo que ainda-não é um pensado.
O pensamento algo que ainda-não é um pensado.
Da realidade do tempo
o tempo
tem sua realidade
na
força de atração
entre o já e o ainda-não
já é ainda-não
ainda-não é já
devir
tem sua realidade
na
força de atração
entre o já e o ainda-não
já é ainda-não
ainda-não é já
devir
Vontade e devir
o que eu quero?
algo que ainda-não
algo que já
no jogo entre o ainda-não
e o já
– dá-se o devir
Afinal, o que você quer?
Afinal, o que você quer? Nadar ou atravessar
a piscina?
O pragmático: – atravessar a piscina, chegar
do outro lado.
O romântico: – nadar, nadar para sempre.
Nadar e atravessar a piscina. Atravessar a
piscina, nadando.
O que eu quero não é diferente (não está somente depois, nem totalmente junto) do que faço.
Explicitações inconclusivas
À medida que eu faço, ordenam-me dizer isso que
eu estou fazendo. Mas, ao dizer isso, ainda estou fazendo alguma coisa que também
precisa, segundo aquela mesma ordem, se tornar explícita.
Tudo é conclusivo, mas ilimitadamente
De todo texto, como de tudo e de qualquer coisa,
podemos concluir algum texto ou alguma coisa. Esta conclusão (que deveria ser
um final) é também (no entanto) um texto, que por sua vez (enquanto tal) possui
uma conclusão. Et sic in infinitum.
É impossível individualizar o primeiro a chegar
Os matemáticos Iorg Huygens e Iakhish Kharamazam, em dois artigos escritos de maneira independente, mas simultaneamente publicados em uma mesma Revista, a Off-Shore International, afirmam que, em festas com hora marcada para começar, para as quais o número de convidados ultrapasse 2 mil pessoas, não há um convidado que seja o primeiro a chegar. Para cada convidado que chega, é sempre possível identificar um outro que já estava lá antes dele.
A comunidade científica internacional encontrou dificuldades para classificar os dois artigos nas sub-categorias comuns da matemática, como a estatística ou a probabilidade. “Poderia tratar-se também de uma descoberta física”, afirmou o especialista Hjin Piao.
O nome comum é um gênero? Ou um exemplo?
“Isto é um
cachorro”.
Para os
gramáticos, isso quer dizer: “isto”, este corpo individual, pertence à espécie
(ou ao gênero) dos “cachorros”. (Alguns, mais experimentados, vão até afirmar
que esta espécie existe.) (Mas onde? Perguntam-se os menos experimentados.)
Contudo, talvez, com “isto
é um cachorro” eu quisesse dizer apenas que “isto” é exatamente “isto”, sendo o
primeiro “isto” diferente do segundo (que é apenas um exemplo disto que “isto” de fato é).
Quem sabe, não falamos por meio do gêneros, mas por meio de exemplos?
Quem sabe, não falamos por meio do gêneros, mas por meio de exemplos?
Como quando
digo: “esta parede é azul”.
Esta parede é
ela mesma. Ela é de uma coloração variada, múltipla, entretanto, eu digo que
ela é, por exemplo, azul. Mas azul não é um gênero; sim, uma cor certa e
determinada, que tomei como exemplo, entre inúmeras outras, ali, nesta parede.
Monocromatismo monocrático
“Esta parede é azul”.
Na pintura desta parede – trata-se sempre de um exemplo –, podemos de fato reconhecer inúmeras
tonalidades, mas somos coagidos a dizer que esta parede é de uma só cor.
Espiritualidade, nexus e política
A espiritualidade é uma
transformação interior do sujeito. Sendo pertinente ao sujeito, porém, ela está
exteriormente conectada à produção de um conteúdo objetivo e, portanto, às relações entre
os sujeitos. Mexer com o sujeito é sempre mexer com o nexus que o põe em relação com a verdade, em um tecido
de relações de poder. Vista assim, toda espiritualidade é política.
Lógica e acaso
A lógica estuda o encadeamento necessário das ideias (pequenos quanta de
pensamento postos em ordem). Apesar desta séria necessidade intrínseca,
extrinsecamente, a lógica pode surgir do acaso e do riso.
Primeira frase de La logique ou l’art de
penser: “O nascimento desta pequena obra é devido
inteiramente ao acaso e antes a uma espécie de divertimento do que a um sério
desígnio”*.
(*) ARNAULD,
Antoine; NICOLE, Pierre. La logique ou l’art de penser. Col. Tel. Paris:
Gallimard, 1992 [1662]. P. 7.
Interferência
Interferência: quando sintonizados numa certa frequência, captamos junto uma outra que se soma à primeira.
O pensamento
“Os pensamentos dos filósofos (como a luz
das estrelas) são frequências e o nosso é como um rádio. Precisamos ajustar
nossa antena para sintonizarmos com eles, um de cada vez.”
Provérbio hindu – sec. II a.C.
Fórmula da técnica
Temos uma técnica ou uma técnica nos tem?
Conveniência ou obediência?
Fórmula da conveniência: A, com B, faz algo.
Fórmula da obediência: B faz com que A faça algo.
Conveniência ou obediência?
Fórmula da conveniência: A, com B, faz algo.
Fórmula da obediência: B faz com que A faça algo.
Fórmula da autoridade
B faz com que A faça algo, só em virtude de B ter o valor que tem na imaginação de A.
Reflexões sobre amor
Uma coisa é “você
é o meu amor”;
outra, “você é um amor para mim”.
Na relação entre o
amante e o amado, uma coisa é o amor como dom, que diz “eu dou a você o meu
amor”, “eu te amo” ou “você é um amor para mim”. Outra, o amor como posse, quando
se diz “eu sou teu” ou “você é o meu amor”.
Fixando-me em objetos
Não tenho nada em que pensar, então, penso nas qualidades de meu relógio de pulso.
Mas, meu relógio tem essa qualidade especial – se eu tirá-lo do pulso, ele para.
Mas, meu relógio tem essa qualidade especial – se eu tirá-lo do pulso, ele para.
A aranha e o humano
Uma aranha
que jamais se viu num espelho vai até o espelho, olha sua própria imagem, toma-a
por um outro ser, recua um pouco, levanta as patas dianteiras, em sinal de
agressividade.
Se a
aranha fosse um humano, mesmo se não se reconhecesse na imagem, eventualmente,
como aconteceu com Narciso, ao contrário, poderia se apaixonar pela imagem.
Família, velho lar de nossos bens e males
Assim como especulava com os títulos de suas
empresas, espalhando por toda parte um punhado de boatos, para
sobrevalorizá-las, a burguesia dos novecentos, na sua afirmação histórica, sobrevalorizava a
família (como condutor, por hereditariedade, ao mesmo tempo, de cargas biológicas e morais de fundo religioso). É o que fica patente no diálogo que se segue.
OSVALD – Era um dos grandes médicos daquele lugar. Foi preciso descrever-lhe o que eu sentia; depois, ele começou a me fazer uma série de perguntas que me pareceram sem qualquer relação com o meu estado; eu não percebia aonde ele queria chegar.
MADAME ALVING – Continue.
OSVALD – Ele acabou me dizendo: Há em você, desde o seu nascimento, alguma coisa de “vermoulu”; foi a expressão que ele usou.
MADAME ALVING, escutando com uma atenção concentrada – O que ele queria dizer?
OSVALD – Era isso precisamente o que eu não compreendia, eu lhe pedi para que se explicasse mais claramente. Ele disse, então, o velho cínico... (Fechando o punho.) Oh!...
MADAME ALVING – Ele disse?
OSVALD – Ele disse: Os pecados dos pais recaem sobre seus filhos.
MADAME ALVING, levantando-se lentamente – Os pecados dos pais...!
IBSEN, Henrik. Les revenants [1882]. Trad. Moritz Prozor et alii. In: Ibsen: Drames contemporains. La Pochothèque. Paris: Librairie Générale Française, 2005. P. 333.
Entre fantasmas
Goetz*, meu fantasma, não é exatamente Deus que reencontramos, quando o matamos? O Deus vivo não é o Deus morto?
(*) SARTRE, Jean-Paul. Le diable et le bon dieu. Col. Folio. Paris: Gallimard, 1951.
(*) SARTRE, Jean-Paul. Le diable et le bon dieu. Col. Folio. Paris: Gallimard, 1951.
Anarquia purificadora
O Estado é o freio do karma. Com o Estado, entre a causa e o efeito, são intercalados outros efeitos e causas. Por isso, o Estado retarda o karma, o retorno purificador do efeito sobre a causa. Se queremos alcançar o nirvana rapidamente, devemos promover a anarquia. Mas, nessa questão do nirvana, quem se interessa pela rapidez ou pela lentidão? Só mesmo aquele que está muitíssimo distante do nirvana.
Digno de amor? Quem? – II
Quem é digno do nosso amor? Aquele que toma
para si toda a nossa culpa? Ou aquele que nos acusa?
Se só é digno de amor aquele que nos redime de
nossa culpa, então, numa certa lógica, só Cristo
é digno de amor. Pois só ele toma para si toda a nossa culpa (ao pagar por ela
e apagá-la)... ninguém mais. Só Cristo nos salva, ao se sacrificar por nós.
[Por isso, Nora abandona seu marido, Tornvald Helmer]
Entretanto, nossa culpa, implica alguma
acusação. Se há culpa, afinal, deve haver também alguém que nos acuse. Quem nos
acusa originalmente de nossa culpa, da nossa culpa original, da culpa que vem
de nossa própria origem? Ora, o Deus Pai. Mas, nessa mesma lógica, devemos amar a Deus acima de tudo. Assim, devemos amar, acima de
tudo, aquele que nos acusa.
São dignos do nosso amor, ao mesmo tempo,
aquele que nos salva e aquele que nos acusa de toda a nossa culpa. Por isso, ainda
segundo a mesma lógica, estes dois equivalem a um. Cristo é Deus. O filho de
Deus é Deus.
Na purificação da nossa culpa ou da culpa no mundo, Deus envia seu próprio filho,
ou a si mesmo, ao sacrifício.
[Por isso, o Consul Bernick, para acabar com a sua culpa, envia, sem saber, é verdade, seu próprio filho, Olaf, ao naufrágio do Indian Girl]
Nesse passo, completamos uma pequena volta pelo teatro de Ibsen, e chegamos a como
eliminar o podre.
Digno de amor? Quem?
[esquema da peça
de Ibsen]
_ Quem é digno do
nosso amor?
Só é digno de amor
aquele que “quisesse tomar tudo, tomar para si toda a [nossa] culpa”* – e assim
nos desculpasse de toda a nossa própria acusação.
Ou, ao contrário, só é digno de
amor aquele que nos acusa.
[a luz está sobre os personagens
menores]
(*) IBSEN, Henrik. Une
maison de poupée [1879]. Trad. Moritz Prozor et alii. In: Ibsen: Drames
contemporains. La Pochothèque. Paris: Librairie Générale Française, 2005. P. 240.
Epidemia de ódio
Acontece um humano ser de tal maneira atraído pelo que tanto odeia, que, sob esse domínio, também se torna odiável.
Espaço e ficção
Nada parece mais real ou anterior ao próprio
real do que o espaço. Mas, o espaço, eu penso, se define no próprio jogo da
realidade, no qual o real se enuncia (ou no jogo da ficção). Isso fica evidente no teatro.
“Primeiro Ato
Grande salão que dá para o jardim. No primeiro plano, à esquerda, uma porta. Um pouco atrás, outra porta semelhante. No meio da parede oposta, uma grande porta. No fundo, uma divisória inteiramente envidraçada, com uma porta aberta, através da qual se percebe uma larga varanda coberta e uma parte do jardim, que é cercado por uma grade com uma pequena porta de entrada. Ao longo da grade passa uma rua. Do outro lado da rua, casinhas de madeira pintadas com cores claras. Em uma loja, ao final da rua, entram alguns clientes.”*
Aqui, o espaço, embora seja definido no início
da fábula, não é o seu pressuposto. Ao contrário, é a organização espacial que
pressupõe a fábula (o número de personagens, a sua ordem de entrada e saída de
cena etc.). É em função da fábula que o espaço se configura.
(*) IBSEN, Henrik. Les Piliers de la société [1877]. Trad. Moritz Prozor et alii. In: Ibsen: Drames contemporains. La Pochothèque. Paris: Librairie Générale Française, 2005. P. 67.
A minha definição e a sua
Por relativismo, eu entendo a teoria da
verdade que afirma que os enunciados verdadeiros envolvem em si mesmos a
relação que os sujeitos desses enunciados mantêm com a realidade que eles
pretendem enunciar.
Talvez, você
prefira entender por relativismo algo mais amplo: toda concepção filosófica que
não admita verdades absolutas.
Nisso, porém, você
deixa de lado o real. Enquanto eu, eu digo que, para o relativista, a realidade
é uma coisa e a verdade uma outra. Se o relativista diz que não há verdade
absoluta, é porque ele acredita que, acerca da absoluta realidade, nós só
podemos enunciar opiniões.
Eliminar o podre
Eu gostaria de desaparecer com toda esta sociedade podre. Mas, outras gerações virão depois de nós. Tenho meu filho, por quem eu devo trabalhar. Eu quero prepará-lo para uma grande tarefa. Virá a época em que a verdade encontrará seu lugar na vida social; talvez sua existência será mais feliz do que aquela de seu pai.*
Biopolítica. A ideia de que da
dolorosa eliminação da podridão possam-se abrir os campos e os tempos para o que é bom e verdadeiro, como parte da ideia de que a destruição se justifica por sua capacidade criadora...
Na maioria das
vezes, senão sempre, porém, a eliminação da podridão elimina junto as sementes
dessa esperança.
(*) IBSEN, Henrik. Les
Piliers de la société [1877]. Trad. Moritz Prozor et alii. In: Ibsen: Drames
contemporains. La Pochothèque. Paris: Librairie Générale Française, 2005. P. 157, in
fine.
Corpos compostos pelo nosso corpo
Se o processo de
individuação de um corpo se exprime pela sua capacidade de produzir efeitos no real
que se explicam apenas pela natureza do corpo, então, nosso corpo incessantemente convém com outros, no processo pelo qual corpos compostos do nosso se individuam.
Por exemplo, o violinista e o
violino, no momento da música, formam um corpo composto. Ambos, além disso, formam
o corpo da orquestra. E todos os músicos da orquestra, porém, ao mesmo tempo, formam
uma parte do corpo político que se exprime na cidade.
Proposição + poder + sujeito = enunciado
Não existe proposição que não seja enunciada. Por isso, sempre nos são dados regimes de veredicção, que somam ao respectivos jogos de proposições, os correlativos jogos de relações de poder nos quais nosso ser se constitui em sujeito (objetivo e subjetivo) das proposições.
O enunciado difere da proposição exatamente nisso, ele envolve na proposição o seu regime de veredicção.
O enunciado difere da proposição exatamente nisso, ele envolve na proposição o seu regime de veredicção.
Mutação_ certa quaedam ratio
O alquimista busca
perceber o ponto pelo qual uma forma pode mutar-se em outra. _Já não se trata
de reset.
Reset
O corpo
demora a tomar noção do novo espaço, a se integrar ao novo arranjo das coisas,
enquanto combate para se estabilizar em uma configuração mais adequada, como a
mente demora a tomar noção das novas ideias.
Isso que há, isso que não há
Biopoder. _Afinal, o que há, nessa situação, que me provoca tanta ansiedade? Ou será a falta de um medicamento adequado?
Conatus-nexus no peixe
Conforme a sua
natureza própria, o peixe nada. E não pode se esforçar em fazer nada que
contrarie sua natureza própria (deslocar-se fora d’água sobre o chão seco, por
exemplo). O peixe é o conatus de ser peixe, pelo
qual faz o que faz.
Conforme a
natureza, mas dessa vez considerada como um todo, o peixe nada. E nisso tudo
que ele faz, o peixe o faz assim determinado por todas as outras coisas da
natureza. O peixe é o nexus de causas exteriores
que o faz ser peixe.
A natureza toda e
a natureza própria do peixe convêm sem falhas. No peixe, o conatus de ser peixe e o nexus de ser peixe
convergem, ponta a ponta, sem falhas.
Conatus-nexus
Somos o que somos, isto é, o que fazemos ou praticamos. Nossa interioridade se liga sem falhas (sem imperfeição) à nossa exterioridade.
O Conatus próprio pelo qual afirmamos nosso ser na existência se junta, ponta a ponta, com o Nexus de causas exteriores que determina nosso ser a fazer e praticar o que fazemos e praticamos.
O Conatus próprio pelo qual afirmamos nosso ser na existência se junta, ponta a ponta, com o Nexus de causas exteriores que determina nosso ser a fazer e praticar o que fazemos e praticamos.
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