Duas imagens ligadas

As relações entre imagens se estabelecem a velocidades altíssimas.
Uma velocidade que dificilmente o discurso verbal acompanha.

Como exemplo, estabeleça a relação entre estas duas imagens:

(1) Sleeping protester at Tahrir Sq. with signs: "people decide for themselves" and "down with the head of the gang" [Reuters].

(2) 16th North, Bruegel, Harvesters, detail of a sleeping peasant.

Agora, fale dela.

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Potência é coisa e coisidade, é real e realidade; potência é coisa e, junto, o que faz a coisa ser o que ela é – sua efetuação.

Afinal o que é [uma] potência? – II

A questão da singularidade da potência: [uma] potência. O artigo indefinido é posto em suspenso. Por quê? Simplesmente por que uma potência envolve o jogo de toda a potência em jogo.


Havíamos dito: – corpo, corpos. Isso para indicar que não podemos suprimir um só corpo sem suprimir todos os corpos. No jogo de um corpo está em jogo o jogo de todos os outros corpos.

Mas um corpo (uma potência) exprime esse jogo de todos os corpos de um modo muito singular, diferente de todos os outros modos. Essa é a singularidade de um corpo. Assim deve ser inteligida a singularidade de uma potência.

Uma potência é assim uma certa determinação da potência toda: [uma] potência.

Da ideia de potência toda, da potência no seu todo, segue-se que ela é infinita. Uma potência, um modo de expressão da potência infinita.

À potência infinita de costume dá-se o nome de Deus.

Afinal o que é [uma] potência?

(O que ser) [uma] potência?

O ser de [uma] potência é [a] posição de [uma] causa. Potência, causa posta.

O conceito de potência está relacionado com o de causalidade. Ou seja, a potência não deve ser compreendida apenas materialmente, mas também intelectualmente e espiritualmente.

Por exemplo, da ideia que define o triângulo segue-se, como um efeito necessário, entre outros, que a soma dos seus três ângulos internos é 180º. Imagino que um ladrão entrou em minha casa, imagino que ele pode me fazer algum mal. Uma ideia posta, seguem-se dela outras ideias. De um conceito, outros conceitos. Mas também de uma imaginação, outras imaginações.

Potência, causa posta e sua efetuação.

E isso não pode nos parecer muito estranho, já que é mais ou menos um consenso que: “de uma causa dada segue-se necessariamente um efeito”.

Atividade da sensibilidade: afinidade eletiva

– Conforme a fome aumenta, aumenta a percetividade olfativa.
 
Percebi isso da seguinte maneira: comprei pão e o deixei num canto do quarto. Fiquei entretido lendo. Algumas horas depois, o cheiro do pão ficou extremamente perceptível. Estava com fome.

Entre outras coisas, esta experiência indica que a sensibilidade não é algo que remeta apenas à passividade. Há uma espécie de atividade na percepção do sensível – uma afinidade eletiva.

Meu corpo sente o pão mais intensamente quando ele deseja comer. 

A sensação de um corpo por outro tem como condição uma comunidade dos dois corpos: essa comunidade é a afinidade. Que um corpo ative ou não sua sensação de outro corpo, isso remete à eleição. Por isso digo que a atividade da sensibilidade é uma afinidade eletiva. (Fora da discussão fica a ideia da consciência, da vontade e de tudo que se entenda como anterior ou exterior à relação dos corpos.)

Corpo, corpos

– Para perceber meu corpo preciso perceber outros corpos.

Então, você logo pensa: corpo, corpo humano, corpo vivo.

– Mas não digo primeiro que o corpo vive. O que vai junto com o corpo é a existência: o corpo existe.

Mas, e a fome? A fome não indica a existência do corpo sem indicar a existência de outros corpos?

– É verdade. Na minha primeira afirmação se misturam dois planos: o dos corpos com o das percepções. Se retiro o plano da percepção (e então a fome vai embora junto com ele), minha proposição fica assim: “[um] corpo, [outros] corpos”.

Ora, então, você pensa que deixei de lado o “meu”, e com ele o “eu”.

– Não. Por isso lá está, mesmo que um pouco suspenso, o [um]. A proposição indica que a posição de [um] corpo implica a de todos os [outros] corpos. 

C -> CC

Suprimido-se este [um] corpo, todos os [outros] corpos são suprimidos junto.

Mecanismos afetivos XI – a saudade alegre

A saudade envolve a tristeza, mas, é verdade, nem sempre. 

Pode dar-se uma saudade alegre, como uma alegria cuja causa atribuímos a alguém que sentimos quase como presente. Quer dizer, as ideias que suprimem esta presença não são assim tão fortes para suprimi-la completamente.

A saudade alegre é um amor por alguém que imaginamos quase como presente.

Mecanismos afetivos X – a saudade

A saudade é um afeto que envolve tristeza e desejo.

Como sentimento da falta de algo que imaginamos nos alegrar, de algo que amamos, a saudade é uma tristeza. Quer dizer, a saudade não é exatamente o sentimento de uma falta, porque não podemos realmente sentir a falta mesma, mas o sentimento de uma despontencialização do desejo. 

Essa tristeza causa o desejo pelo que imaginamos estar faltando, que realmente é um desejo de reconstituição da potência.

Assim, a saudade, além de tristeza, é uma espécie de desejo pelo que falta (desiderium, no latim, longing, no inglês) – mas ao desejo mesmo, primordialmente, nada falta; se algo faltasse ao desejo, o desejo seria uma impotência.

Nesta intelecção do desejo, então, a saudade, e qualquer outra espécie de desejo pelo que falta, não é desejo (desiderium non cupiditas), mas determinação do desejo, e somente nesse sentido desejo (desiderium est cupiditas).

Amor pela cidade II

O amor pela cidade, vimos, é uma espécie do amor de si, enquanto o si, como diferente, está junto a outros diferentes na cidade das diferenças. Mas, num certo sentido de Deus, enquanto um que é múltiplo (ver abaixo a figura extraída do diagrama da carta 12 da correspondência de Spinoza), o amor pela cidade é também uma espécie do amor por Deus.

A revolução

De um momento para o outro, para não dizer de repente, tudo isso que ainda está presente toma definitivamente a cor e o sabor de um passado absoluto. Esta é a hora da revolução.
 
É o que diziam alguns marxistas, mas para impedir o gesto de bravura que temiam ser uma precipitação. 

Porém, como sentir o verdadeiro, quando nos enganamos no sentimento? Mesmo sabendo que o sol está a milhões de quilômetros, ainda o imaginamos como se estivesse a 200 pés. O sentimento, a imagem, mesmo a que nos engana, em si mesma, é real.

Era àquele sentimento, o de que uma coisa já não se sustenta, também, que se referia Nietzsche, acerca da decadência retida das instituições eclesiásticas (das igrejas e da experiência humana que as instituíam). Deus estava morto e as igrejas, num descompasso, de pé.

Insistência na ausência

Quanto a isso, amigo, o que posso te dizer, senão que pensarei em ti, e falarei ao vento, a cada dia, provavelmente, durante um ano inteiro?

Diagrama da carta 12 de Spinoza sobre o infinito

Amor pela cidade

Amar a cidade, isto é, tomar a cidade como causa da sua alegria, num certo sentido de cidade, quer dizer amar a diferença. Como, ao mesmo tempo que ama a cidade, aquele que a ama se experiencia, a si próprio, na cidade, como diferente, então, amar a cidade é uma espécie de amor de si.

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Uma existência real percebida por trás de uma vidraça, sob certas condições das luzes, pode ser inadvertidamente tomada como um reflexo, uma simples aparência, uma imagem refletida irreal.

Correspondência


Diagrama das fontes da correspondência de Spinoza, conforme:

ROVERE, Maxime. Présentation et notes. In: SPINOZA, Benedictus de. Correspondance. Paris: GF Flammarion, 2010. P. 42.

desejo / potência

Se o desejo fosse a falta de algo, o desejo seria uma espécie de impotência.

A causa da imaginação

Uma potência não se limita a si mesma. Na limitação de sua ilimitação necessariamente uma potência encontra coisas. Diz-se então que ela imagina.

O interesse pelo abjeto II

Mas o conselho do Salvador pode não ser o motivo, pelo menos não o único, do interesse de Colerus por Spinoza. Seu interesse pode ter surgido também de uma curiosidade lógica. Como uma obra abominável pôde surgir de uma vida impecável?
 
Se o lógico e o ontológico, como se pensa desde Aristóteles, são o mesmo, então, como pôde existir a contradição entre o pensamento e o ser, entre a obra e a vida?

E é justamente este princípio, de que a obra exprime a vida, que Spinoza retoma, quando, para provar sua fé e se defender da acusação de ateísmo, adianta o exemplo de sua vida:

“Os ateus, com efeito, têm o costume de procurar sem medida as honras e as riquezas, coisas que eu sempre desprezei, como sabem todos aqueles que me conhecem’’*.

Dessa maneira, o interesse de Colerus pôde advir de uma incômoda suspeita sua: – a de que a obra de Spinoza não fosse tão abominável quanto lhe parecia.



(*) SPINOZA, Benedictus de. Lettres. Trad. Ch. Appuhn. In: Oeuvres IV. Trad. Charles Appuhn. Paris: GF Flammarion, 1966.  Carta XLIII.  P. 272.

O interesse pelo abjeto

Como exemplo do interesse pelo que é, para si, abjeto, penso no interesse que portou o ilustríssimo reverendo Colerus pela vida de Spinoza, autor de uma obra “abominável”*.  

Colerus, esbofeteado uma vez, com seu retorno à obra, não faria mais do que seguir o mandamento do Cristo (ou o conselho, como diria Spinoza). – Àquele que te atinge a direita oferece a tua face esquerda. Como se esse conselho também dissesse: “Ao virar teu rosto de um lado para o outro, olha bem quem te ofende”.




(*) COLERUS, Jean. La vie de B. de Spinoza. In: Éthique: Bilingue latin-français. Trad. Bernard Pautrat. Paris: Seuil, 2010 [1675]. P. 600.

Fluctuatio animi

Alguns julgamentos nos embaralham. Não sabemos decidir, afinal, se são um elogio ou uma desaprovação. Este, por exemplo, que alguém que nos conhece um pouco nos diz, como que de passagem:
 
– O senhor escreve melhor do que fala!

Isso nos alegra, porque escrevemos melhor do que… mas nos entristece, porque falamos pior do que… Assim, somos nós mesmos, alternativamente, ora a causa de nossa alegria, ora a de nossa tristeza.

Ponto morto

Hoje, no trem. Eu não podia ler sem adormecer. Mas também não podia adormecer, se parasse de ler. Fiquei alguns momentos preso nesse impasse, até romper com a situação.

Algo em comum

No ponto de ônibus, uma desconhecida me diz:
– “O de 8h38 acabou de passar, nós o perdemos!
”.
Eu penso: além da língua, já temos, eu e ela, algo em comum.

A citação

A citação não tinha primeiramente a função de apoio à argumentação, a famosa justificação por autoridade; aliás, típica dos profetas: – Foi Ele quem disse!
 
Tinha muito menos o seu caráter muito atual de substrato real, ao qual o comentário retorna numa espécie de verificação; aliás, típica dos teólogos: – Está escrito!, para quem um comentário não é verdadeiro por si mesmo, mas somente se for conforme a citação à que faz referência.

A função da citação era outra. Num ambiente político e natural de precariedade e dissolução contínua da materialidade dos textos, citava-se um trecho com a intenção principal de conservação e de transmissão de um legado. A citação era uma espécie de cópia parcial e rápida, que, em pouco espaço, duplicava um trecho importante, para diminuir a probalidade do seu desaparecimento.

O desejo

O desejo é como um jogo de quebra-cabeça com uma peça a mais (não a menos). 

Uma peça que deborda, não se encaixa. Desvia, esquiva, reconstitui o jogo. Joga diferente. É um a mais, que não se enforma. 

Você lhe dá uma regra, um doce, um nome, ele vira desejo de regra, de doce, de nome, mas apenas sempre parcialmente; sempre sobra aquela peça, que não sabe onde se colocar.

Coragem e prudência

Na prudência, a coragem já está incluída como o fogo que lhe anima. A prudência sem coragem é pusilanimidade, não é prudência.
Na coragem, está incluída a prudência como o que lhe dá a sua dose. A coragem sem prudência é incêndio, não é coragem.

O objeto é gramatical?

Se fizermos confiança em Gaffiot*, os latinos deram às palavras, primeiro, uma significação objetiva, material, e, somente depois, por derivação, por figuração, uma significação mais abstrata. Assim, é possível formular-se o princípio de uma ordenação no tempo dos significados em latim: quanto mais abstrato for o significado de uma palavra, mais tardiamente a significação teria surgido.
 
Por exemplo, vestigia. Vestigia significa, antes de tudo, as impressões materiais deixadas pelos pés, ao andar, sobre a terra ou sobre a areia, e, somente depois, alcança o significado figurado, geral, abstrato, de “traços”, até mesmo invisíveis. Primeiro, pegadas; depois, traços, vestígios.

Talvez essa precedência da significação objetiva sobre a abstrata esteja ligada à provável crença de Gaffiot na definição ostensiva, segundo a qual, aprendemos o significado das palavras, ao relacioná-las, subjetivamente, a objetos reais exteriores apontados ao mesmo tempo que as palavras são enunciadas.

Pode-se, porém, pensar que o vínculo entre a palavra e o objeto se estabeleça de maneira inversa. Assim, a existência do objeto não precederia a da palavra, mas seria a da palavra, no seu entrelaçamento com outras palavras, que precederia a do objeto. Seria o recorte e a funcionalidade da palavra, no continuum sonoro estruturado pela gramática, que perfaria o recorte do objeto do continuum do seu pano de fundo real. De modo que o objetivo seria gramatical.

(*) GAFFIOT, Félix. Le Gaffiot de poche. Paris: Hachette, 2001.

Proximidades notáveis V

Conforme uma analogia toda filosófica, ligam-se os hebreus imediatamente saídos do Egito, em 1200 AC, e a multidão de iranianos imediatamente livres do Xá, em 1979 DC.

Lógica suicidária

Conjunção de duas premissas numa conclusão:
 
Esforçar-se necessariamente para suprimir a causa de sua própria tristeza. 

Imaginar contingentemente a si mesmo como causa da sua própria tristeza.

Logo...

Atenção narcísica

Admiro aquelas mulheres que, no século XXI, leem uma revista feminina ilustrada com a mesma compenetração com que, no século XVII, um teólogo lia um tratado de exegese bíblica.

Explicando os afetos: do corpo à alma, da alma ao corpo

“Ah! Você preferiria dormir aqui, perto de mim, do que ir sozinho ao hotel, disse-me Saint-Loup, rindo-se. 
– Oh! Roberto, você é cruel, ao tomar isso com ironia, disse-lhe, pois você sabe que isso é impossível [num quartel], e que eu vou sofrer muito por lá.
– Pois bem! Isso me compraz, disse-me, porque eu tive, por mim mesmo, esta ideia de que você preferiria ficar aqui esta noite. E é precisamente isso que eu fui pedir ao capitão.
– E ele permitiu? Exclamei.
– Sem qualquer dificuldade.
– Oh! Eu o adoro!
– Não, isso é demasiado. Agora me deixe chamar meu adjunto para que se ocupe de nosso jantar”, ele acrescentou, enquanto eu me virava para esconder minhas lágrimas.*

Nesta cena, Proust faz a descrição do reconhecimento do reconhecimento natural do favor que lhe fez o amigo.

Por um lado, aparece o incontornável do mecanismo afetivo, no automatismo das lágrimas. Se pudesse, Proust as evitaria; não pode, por isso se vira.

As lágrimas surgem como reconhecimento ou ação natural do corpo – uma secreção devida à alguma contração de alguma glândula. Contração à qual corresponde, junto ou ao mesmo tempo, na alma de Proust, a um afeto de reconhecimento (uma espécie de amor, de alegria cuja causa ele atribui a seu amigo) que ele não pode esconder, a não ser se virando de costas.

Por outro, ele reconhece imediatamente este afeto, que, para ele, porém, é desmesurado. Ele se envergonha (numa espécie de tristeza). Vergonha à qual corresponde, junto ou ao mesmo tempo, à virada do corpo de Proust.

A descrição da cena deixaria tanto o behaviorista como o animista em apuros.

O behaviorista, ao analisar a cena, precisa fazer abstração da alma (suprimi-la, desconsiderá-la). Olharia apenas para o comportamento, as lágrimas, o corpo que se vira. Seria difícil para ele explicar a virada do corpo. Como uma contração da glândula lacrimal, neste caso particular, faria virar o corpo, se, em outros casos, esta mesma contração não causa o girar do corpo?

O animista, ao contrário, ao considerar apenas o que se passa na alma – as intenções, as emoções, as volições, que animam, que fazem mover, que conduzem o corpo – teria dificuldades para explicar por que as lágrimas surgem, apesar da intenção da alma de as esconder. Para isso, talvez, fosse preciso hipostasiar na alma um princípio inconsciente.

Estas dificuldades, a do behaviorista como a do animista, cessam, se aceitamos saltar, oportunamente, de um plano a outro, do plano corpóreo ao anímico e vice-versa, a partir da premissa de que estes dois planos se equivalem.

Uma parte da cena é mais facilmente descrita no plano corpóreo, a das lágrimas, a outra, a da vergonha, no plano da alma ou das ideias das afecções do corpo.

(*) PROUST, Marcel. Le Côté de Guermantes. Paris: Le Livre de Poche, 1992 [1920]. P. 104.

Por uma ética da leitura: ler ou não ler as entrelinhas

Segundo Leo Strauss, o ostracismo social (que pode se reduzir apenas a um tipo de descrédito intelectual) é a forma mais branda da perseguição*. Para evitar este descrédito (por ambição, para agradar os outros ou simplesmente por medo), os escritores muitas vezes dissimulariam suas ideias verdadeiras, embora não deixassem de as inscrever entre as linhas dos seus textos.

(*) STRAUSS, Leo. La persécution et l’art d’écrire. Trad. Olivier Sedeyen. Paris: Gallimard, 2003. P. 64.

As ideias humanas são ideias divinas

Pensar que nossas ideias verdadeiras sejam também necessariamente ideias verdadeiras de Deus não é, afinal, entre humanos, um perigo fatal?

Alguém, na medida em que imagina que suas ideias sejam verdadeiras e portanto também divinas, pensa com muita facilidade que um outro que se opõe a uma ideia sua também se opõe a Deus. Não ocorre tão facilmente alguém ser acusado de inimigo de Deus, apenas porque tem uma ideia que se imagina falsa?

Porém, é preciso acima de tudo perceber que a ideia falsa de um ser humano não nega a Deus jamais (nem mesmo a ideia de que Deus não existe), ela é mesmo parte de uma ideia verdadeira em Deus.

As ideias humanas verdadeiras são ideias divinas, mas as falsas também. Só que, em Deus, as ideias humanas falsas se completam com outras ideias para se tornar verdadeiras.

Spinoza: “Todas [as] ideias, na medida em que a Deus são referidas, verdadeiras são” {e2p32}.

Da mística à política

A partir do desdobramento infinito, sui juris – causa sui, do fragmento solar da ontologia, o clinamen, a deriva, a errância, enfim, a imaginação. Da mística à política. A experiência mística presente no núcleo da experiência política: _isto talvez seja a ética.

Constelações afetivas

Afetos formam constelações. Em torno de duas cargas estelares inversas e principais, giram uma miríade de condensações de afetos derivados planetários, tonalizados de alegria ou de tristeza,  eles mesmos podendo constituir outros centros para seus satélites. Nem sempre observáveis ou nomeáveis, estes afetos podem ser pelo menos calculados.

Olhar fisicamente para as coisas

Por vezes, Kiarostami nos ensina, nos propõe um certo olhar. Como experimento. Não o olhar de sempre, não um tipo olhar que seja, ou deva ser, sempre o nosso, sobreposto a todos os nossos outros olhares possíveis.  Nos propõe um olhar fisicamente para as coisas. Um olhar que não atribui valor. Que olha os acontecimentos no seu desdobrar, sem julgá-los, ao menos, não de forma definitiva. Flutuação, se não suspensão, do juízo.

Personne ne sait
qu’un petit ruisseau
né d’une source faible
a la mer comme but

Ninguém sabe
que um pequeno arroio
nascido de uma fraca fonte
tem o mar como meta

KIAROSTAMI, Abbas. Avec le vent.
Trad. Nahal Tajadod e Jean-Claude Carrière. Paris: POL, 2002. P. 187.



Vida humana e vida de deus

Tínhamos perguntado se aquela vida confortável de bebê nos seria suficiente, e ouvido a resposta de Spinoza a respeito de uma vida humana como verdadeira vida da alma virtuosa, ou seja, uma alma que pensa. A vida virtuosa não perde nada daquela alegria, muito pelo contrário. Porém, uma vida humana virtuosa tira sua alegria, não só do corpo, mas do vigor do pensamento entre amigos. Na sua ética, para a suma felicidade, a filosofia é fundamental.

Epicuro parece nos dar uma outra resposta num fragmento chamado “O grito da carne” – “não ter fome, sede nem frio, aquele que tem estas coisas – e a esperança de as ter – pode rivalizar (com Zeus) em felicidade”*.

Ora, muitos de nós alcançamos atender, e esperamos poder atender sempre, aos sinais sonoros da carne, mas, mesmo assim, não podemos rivalizar com a suma felicidade de uma vida divina.


Isao que, para Epicuro, complica a nossa vida humana é justamente a nossa humanidade, a possibilidade que temos para formar ideias confusas sobre a vida, sobre o mundo, sobre os deuses, enfim, o véu imaginário especificamente humano que, no entremeio, nos cobre a face e não nos deixa perceber a vida como de fato é. Essas confusões da alma nos fazem doentes. Dispondo de tudo o que precisamos para viver como deuses, imaginamos nos faltar tudo, e multiplicamos nossos desejos de prazeres imaginários.

Assim, para viver uma vida de deuses, enquanto humanos, os bens do alimento e da vestimenta não nos bastam, precisamos de um bem maior, a prudência (phronêsis), na medida em que só a prudência pode estabelecer uma estratégia de vida que pratique uma diferenciação dos desejos e dos prazeres respectivos e a independência (autarkeia), não a abstenção, em relação aquilo que não é necessariamente desejável.

Para chegar a prudência é preciso filosofar. Mas a filosofia nunca será, para Epicuro, um bem em si mesma. Ela o é apenas na medida em que nos cura da nossa doença da alma, do nosso imaginário amedrontado, ao apresentar a natureza, os deuses, a morte, como de fato são. Mas nada além disso. É preciso saber também se desvencilhar da ‘vontade de verdade’ (um termo que não é de Epicuro), da ideia de que a verdade vem acima de tudo.


(*) Épicure: Lettres et Maximes. Trad. Marcel Conche. Paris: PUF, 1987 [-300]. Sentences Vaticanes, §33. P. 255.

Elogio à física

A física retira, por exemplo, da orientação N-S, qualquer ideia de uma hierarquia natural do valor.

Consumação

Comparável à flutuação do ânimo associado à viagem é a consumação (a satisfação do nosso desejo enquanto desejo de consumir), pois a alegria que obtemos na consumação da mercadoria está associada necessariamente à tristeza de perceber que aquilo que nos causa alegria, no mesmo instante que nos alegra, e por isso mesmo, está se acabando, se consumindo. 

Nessa tristeza, e por causa dela, nosso desejo de consumir se renova ao mesmo tempo que se sacia. Pois a tristeza provoca em nós o desejo de acabar com ela.

Música americana

Passar a vida como a escutar aqueles cantos dos quais não compreendemos palavra, mas que mesmo assim nos comprazem pela melodia, pelo timbre da voz – música americana, que depois mimetizamos, enrolando a língua, fingindo dizer algo.

Viajando

Em viagem estamos a todo momento sujeitos a estes sentimentos flutuantes de alegria e de tristeza, por estar vendo, percebendo uma coisa, alguém, um encontro, pela primeira vez, mas também pela última.

Duração e eternidade

Os curtos poemas de Kiarostami são como imagens.

Alguns são como imagens instantâneas, fotografias:
A névoa espessa da manhã
sobre o campo de algodão
o trovão ao longe*
Outros são como vídeos muito curtos:
O sol de outono
através do vidro
clareia as flores do tapete
uma abelha se choca contra o vidro**
Outros, ainda, são de uma duração indefinida:
As moscas
giram em torno da cabeça do cavalo morto
ao pôr do sol***
Mas todos parecem se referir a alguma coisa de eterno.

KIAROSTAMI, Abbas. Avec le vent. Trad. Nahal Tajadod e Jean-Claude Carrière. Paris: POL, 2002. (*) P. 92; (**) P. 86; (***) P. 87.

O humanismo e a mosca

Diz-se que o ser humano é o único ser capaz de se compadecer com o sofrimento dos outros indivíduos de sua espécie, e o único que tem o desejo, isto é, o impulso natural de ajudar seu semelhante que sofre.

Esta compaixão pelo seus semelhantes seria o que diferenciaria o ser humano de todos os outros do universo. A tal ponto que se diz daquele que não é mais capaz de sofrer, ao ver o outro sofrer, e de se alegrar, quando percebe o outro se alegrar, que já deixou de ser humano.

Sendo a compaixão a diferença específica do ser humano, ela seria então a sua quidditas, aquilo que faz que ele seja o que ele é e não outra coisa, e portanto o fundamento do humanismo.

Entretanto o humanismo parece mais do que isso:
Uma pequena mosca
tomada pela vontade de vomitar
ao odor do inseticida
haverá alguém para a socorrer?*
O ser humano talvez seja o único ser capaz de padecer em razão do sofrimento que ele mesmo causa a um outro.


(*) KIAROSTAMI, Abbas. Avec le vent. Trad. Nahal Tajadod e Jean-Claude Carrière. Paris: POL, 2002. P. 80.

Duas concepções de direito interligadas por um “e daí?”

Quando ele entra, alguém como que ultrajado lhe diz:

– Você não tem o direito de estar aqui!

Nesta enunciação mostra-se com clareza a distinção entre o direito e o fato. O direito é aí algo totalmente distinto do fato de “estar efetivamente aí”. O direito é uma etiqueta que se cola ou não ao fato. Mas quem a cola, quem descola?

Diante desse cola-descola o sem-direito pode responder simplesmente ao enunciador:

– E daí?

E aí passamos a uma outra concepção, em que o direito é igual ao fato.

Resistência in-vent-ando

A resistência não é apenas contra-impulso e freio. A resistência inventa seu caminho, mesmo nas piores condições, como a água na sua mecânica hidráulica.

Veja esses versetes do livro de poemas-imagem de Abbas Kiarostami, Com o vento:
Submissos cem soldados – Soumis cent soldats
retornam ao dormitório – se rendent au dortoir
uma noite de lua cheia – une nuit de pleine lune

sonhos insubmissos – rêves insoumis
KIAROSTAMI, Abbas. Avec le vent.
Trad. Nahal Tajadod e Jean-Claude Carrière. Paris: POL, 2002. P. 14.

Pontes entre planos intelectuais II

Na sua tradução do Corão, Jacques Berque traduz jihad por esforço.

Conferir, por exemplo o versículo 69 da surata 29. Le Coran: essai de traduction. 2 ed. Trad. Jacques Berque. Paris: Albin Michel, 2002. P. 431.

Pontes entre planos intelectuais

Experiências negativas II

Como exemplo do que se poderia nomear uma experiência negativa, Bataille cita um excerto de Denis, o Areopagita:
“(Nomes divinos, I, 5): aqueles que, mediante a cessação íntima de toda operação intelectual, entram em união com a luz inefável... não falam de Deus senão pela negação”*.
Dá-se o nome de experiência negativa justamente àquilo de que não se pode falar.


(*) BATAILLE, Georges. L’expérience intérieure. 2 ed. Paris: Gallimard, 1954 [1943]. P. 16.