Biografia

A filosofia, malabarismo do pensar, matemática dos conceitos? Com certeza, mas não só isso. A filosofia é, também, acondicionamento, produção de uma maneira de viver. É viver a vida de uma certa maneira, no jogo do que está aí com o pensável e o articulável em discurso. Filosofar é insistir, no mínimo retrospectivamente, também pelo pensamento e fala, nessa enorme e irredutível diferença entre a biografia, a escrita da vida, e a mera vida vivida.

É possível discernir entre a maneira de viver do filósofo e as outras biografias. O filósofo inscreve sua biografia, em sua própria vida, como fazem muitos outros, mas o filósofo – e isso é tudo o que o caracteriza e diferencia – vive sua vida em referência a uma doutrina.

Valter e Saura

Valter é um amigo de infância. Mudou-se para Florianópolis, sem que eu soubesse, uns dez anos antes de mim. Encontramo-nos aqui por acaso, há pouco mais de um ano, com grande surpresa para nós dois. Vive de um pequeno comércio de relógios, nos fundos de uma galeria. Tão ao fundo, que eu me pergunto como os clientes sabem de sua existência. De todo modo, a loja não parece carecer de movimento. Valter passa seus dias, ali, entre as prateleiras espelhadas apinhadas de modelos japoneses, suíços semi-falsificados, chineses. Às vezes, passo por lá, para lhe dizer bom-dia. Foi assim que fiquei conhecendo sua história. Permito-me trazê-la a público, modificando os nomes e algumas outras coisas. Valter casou-se com Saura, uma angolana de origem portuguesa, que havia vindo sozinha para o Brasil, em 1976. O pai, dono de fazenda, e o resto da família, apesar da guerra, permaneceram por lá. Logo que chegou ao Rio, encontrou o jovem Valter, apaixonaram-se um pelo outro, e casaram-se em poucos meses. Sua vida, juntos, contou-me Valter, sempre foi cercada de alegrias, filhos, amigos, parentes. Apesar da diferença cultural (os pais de Valter, no início, se mostraram receosos com o casamento binacional), entendiam-se perfeitamente. Mudaram-se para Florianópolis, por opção própria, para levar uma vida mais tranqüila e menos atribulada que a do Rio. Saura jamais retornou a Angola. Em 2002, recebeu um telegrama dos irmãos anunciando a morte do pai. Esse foi o evento que transformou as suas vidas. Não foi exatamente a tristeza que corroeu a sua felicidade conjugal, mas as estranhas e rigorosas práticas de luto, que a religião de Saura lhe exigia. Valter não sabia disso, nem jamais desconfiara, nem podia ter imaginado, Saura era adepta de um esotérico culto familiar, misto de cristianismo com tradições remanescentes de antigas tribos africanas. Estranho culto aquele, lamentava-se Valter, suas regras radicais, não tinham tido qualquer efeito sobre Saura durante todos aqueles anos de felicidade, ele nem sabia de sua existência, era uma estranha religião do luto, que só era disparada pela morte de um familiar. Enquanto o pai fora vivo, nada, sequer uma prece, nenhuma restrição alimentar. Primeiro Valter pensou tratar-se do choque da notícia, mesmo se Saura não demonstrasse qualquer distúrbio emocional com ela. Não, não se tratava de emoção, Saura não parecia cumprir todas aquelas prescrições por dor, todos os seus gestos eram o de uma pessoa resignada com os acontecimentos. De fato, parecia agir por puro dever religioso. Mesmo assim Valter pensava que aquilo fosse logo terminar. Além do quê, Saura se recusava a lhe dar qualquer explicação, já que para ela tudo aquilo pertencia aos ritos misteriosos e sagrados que não podia revelar a estranhos à família, como Valter. Passaram-se os primeiros meses, o primeiro ano, e nada da situação se abrandar, pelo contrário, a cada dia, uma nova excentricidade passava a fazer parte do costume, dos hábitos repetivivos, dos gestos, dos modos austeros do ascetismo de Saura. Isso foi lhes envenenando a vida.

Ritmo


papai pode

dalai lama

(para perceber todo o seu efeito coativo, repetir algumas vezes a leitura em voz alta dos dois versos, marcando uma pequena pausa entre eles)

O que nos engata no mecanismo destes dois versos, como uma engrenagem na outra, é essa espécie de mímica do espírito, empatia de movimento, mimetismo da forma, à qual não só a rima, mas também o ritmo nos impele. Esses dois versos de rima só interna, de sentido totalmente desconexo, engatam-se um no outro, e nos carregam nesse engate, apenas pelo ritmo. Dessa forma, o ritmo nos subjuga. Pode ser até que nos acalme, divirta; de todo modo, o ritmo nos afeta. Por isso diz Nietzsche que "o ritmo é uma coação"*; e Ricardo Reis que, devido ao ritmo, a poesia é mais disciplinada que a prosa, mais disciplinadora**. Nisso, o ritmo talvez seja superior ao sentido, e com certeza o é à rima. Sentido, rima e ritmo, três elementos da poesia, três operadores de nossa adesão ao texto, à fala e ao real, três agenciadores de nosso assujeitamento ao mundo.

(*) NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 [1882]. #84, Da origem da poesia.
(**) PESSOA, Fernando. Obra poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. Pp. 297-298.

Baixio das bestas

Saí da sala de cinema, pensando não ter gostado do filme. Essa miséria tão nua, essa fratura tão exposta, essa sonoplastia tão deficiente... Depois, porém, a opinião mudou. Mas já não se trata tanto de gosto, de satisfação, de comprazer. Novamente, está o cinema envolto com a nudez das vidas, com as questões da imanência. "Por aqui as coisas se fazem, por aqui também elas vão se desfazendo" – frase que lembra, e deforma ligeiramente, o provérbio "aqui se faz, aqui se paga". A cana devasta a terra que a produz. A cana consome o homem que a consome. O suco da cana torcida, pela boca, penetra na garganta, e tudo é um só, a usina e o pescoço torcido do homem. A cana é moída, as mulheres e os homens são moídos, e tudo retorna ao pó, de onde novamente brotam. De repente, porém, em meio a esses ciclos sem saída, no meio do eterno retorno do mesmo, o ator nos olha nos olhos e diz: "no cinema, a gente faz o que quer". E isso talvez queira dizer que, no mundo da vida, espectador, aí no seu mundo, aqui no nosso mundo, as coisas sejam ainda mais cíclicas, ainda mais presas em si mesmas.

Um filme importante para pensarmos o que é esse bio dos biocombustíveis, que vida é essa que aí se queima.

InformaçãoBLOG (IV)

A informaçãoBLOG não tem contrário, não tem oposto. Não há negação da informaçãoBLOG. Não há des-informaçãoBLOG, ou melhor, tudo aí é desinformação. Estamos na plena desinformação. E isso requer, no contato com ela, uma atitude, que pode ser ou de plena entrega, como o papel-no-vento, ou de recuo, como o pé-atrás. O recuo crítico não é exatamente a dúvida ou a desconfiança, como a desinformação não é exatamente a mentira. Pode haver o pé-atrás com confiança. Até mesmo o papel-no-vento tem sua sombra, apenas um pouco mais indefinida e imprevisível. O ser-diante-e-com-a-informaçãoBLOG é como a sombra do papel-no-vento.

Conferir a seção XVI, no link: DEBORD, Guy. Commentaires sur la société du spectacle. Paris: Gallimard, 1992 [1988].

O comentário

Extremamente mal tratado, vilipendiado, tem sido o comentário. Comentar seria inútil, pouquíssimo criativo, sinal de heteronomia. Mas o comentário é a própria história da filosofia. Sem o comentário, haveria apenas acúmulo de páginas, as bibliotecas seriam como a Internet, não existiriam a imprensa nem as livrarias. O comentário filtra, seleciona, coleciona, amalgama, divide, mistura, embaralha, explica, reduz, multiplica, exagera. O comentário é o carnaval do pensamento, o eterno retorno da mesma palavra. Não nos envergonhemos, nós, os comentadores. Sem o carnaval, não haveria história. Isso parece irônico, mas não é. Mas então, por que sem carnaval não haveria história? Bom, fui longe demais. O carnaval não tem nada a ver com o comentário. Retiremos essas últimas frases, e prossigamos com o elogio. O comentário é a própria história da filosofia. Sem o comentário, não existiria a imprensa, haveria apenas acúmulo de páginas díspares, todas diferentes umas das outras. Não haveria repetição, ordenamento, compartilhamento. O comentário é o cilindro de uma máquina impressora. O comentário manteve Platão, Descartes e Kant vivos, presentes. Só é carnaval, porque agrupa aqueles verbos todos: filtra, seleciona, coleciona... Essas ações todas, toda essa atividade parece uma dança sem lei, um carnaval, uma euforia de fim de mundo, antes do retorno por vir e iminente da ordem, tão ansiada.

Ciência por semelhanças (II)

Já havia anoitecido. Estacionei o carro, na faixa contrária, com duas rodas sobre a calçada. Coisa rápida, o tempo de comprar alguma coisa, na padaria, logo em frente. De volta no carro, dei partida no motor, liguei os faróis, o pisca-pisca, e olhei pelo retrovisor. Bem à vista, no centro do espelho, vi um carro estacionado, com duas rodas sobre a calçada, na faixa contrária, faróis acesos e pisca-pisca ligado. Por um breve instante, breve mesmo, mas que durou o suficiente para que eu não o esquecesse mais, pensei tratar-se do meu próprio carro. Lá estava eu, aliás, o carro onde eu me encontrava, refletido no retrovisor do meu próprio carro.

Ciência por semelhanças (I)

A janela estava aberta, e o sol da tarde, o calor, acho que foi isso, teve um efeito sobre a capa de plástico do grande dicionário, na pequena mesa de apoio, ao lado de meu lugar de trabalho. Quando, ao final da tarde, fechei o volume, percebi que o plástico, com o qual eu costumo encapar, para protegê-los, os livros que utilizo com freqüência, havia, provavelmente devido ao calor, se deformado, e apresentava ondulações, mais ou menos regulares e concêntricas, semelhantes a impressões digitais, a uma só grande impressão digital. Como se um grande dedo houvesse imprimido suas linhas no plástico da capa do dicionário. A semelhança era tanta, que me fez pensar, provavelmente devido ao sol da tarde, que o calor, sim o calor, pudesse ser a causa dessas linhas tão particulares que apresentamos em nossos dedos. O calor, no momento de nossa concepção, nos deixaria essas marcas indeléveis nas pontas dos dedos. E talvez outra coisa, talvez a nossa pele possuísse exatamente essa estrutura, essa mesma estrutura das móleculas que formam o plástico da capa, o qual, encontrando-se em condições próximas de temperatura, de pressão, àquelas do instante da formação de nossas mãos, reagisse, deformando-se e corrugando-se, tal qual nossa pele, tal qual a fina epiderme de nossos dedos fetais, sob a força e o calor do útero. Fiquei preso a essas comparações e a todas considerações que delas derivavam, por alguns minutos, até ouvir o chamado do telefone, na sala ao lado, e me levantasse para atendê-lo.

Versos anônimos

tu me tues
je me tue
je te tue


Encontrei esses versos anônimos, rasurados a lápis sobre uma folha de papel, amarelada pelo tempo, posta entre duas páginas de uma tradução francesa de A Metamorfose, de Kafka, volume esquecido numa prateleira da empoeirada biblioteca da Aliança Francesa do centro da Cidade. Fiquei encantado com eles, surpreendentemente atraído, talvez pela caligrafia falha, quase desaparecida já, talvez pelo papel de qualidade, áspero ao toque, talvez por encontrá-los sem saber de onde vinham, talvez por toda a situação que eu vivia então, a minha volta ao Centro, depois de tantos anos, o almoço de família, o calor, a poeira da biblioteca.

O que se pode esperar?

Não vou procurar dar uma resposta a essa questão (que pretensioso seria), mas interrogá-la. "O que se pode esperar?" Seria essa uma questão fundamentalmente religiosa? O que se pode esperar de quê? Da vida, do futuro, do destino, do destino do mundo, de Deus? Trata-se de uma inquietude do ser humano, que desvia de si a questão do futuro, e interroga a Deus?

O que vem é determinado pelo que faço hoje? Há uma relação de causalidade entre o presente, e através dele, entre o passado e o futuro? Ou, pelo contrário, pode-se esperar qualquer coisa? Ou, pelo contrário, o que vem, o futuro que vem, não está de modo algum vinculado ao presente, é puro acaso? E se não é um puro acaso, pode ser uma oferta completamente gratuita? E se o que vem, assim do nada, vem como oferta, será uma oferta que posso aceitar ou recusar? Ou o que virá virá como imposição, como um destino incontornável, do qual eu não conseguirei, qualquer que seja ele, me livrar? E se é puro acaso, ou pura gratuidade, o que virá, por que devo pensar nele, agir no presente como se o futuro dependesse disso? E se é puro acaso o que virá, qual é o sentido do presente?

Devo aceitar a idéia de uma determinação do futuro pelo presente, então, apenas como uma idéia reguladora, que me sirva pelo menos de orientação? Ou, pelo contrário, devo regular-me pela idéia de que meu futuro é livre de qualquer determinação passada?

Mas por que me perguntar, afinal, sobre o que posso esperar? O que quero negociar no presente com tal pergunta? Meu esforço na retidão de minha conduta, meu empenho em desviar-me do pecaminoso, o qual eu, no fundo, desejo entretanto carnalmente? Essa pergunta pelo que pode acontecer cava em mim até um fundo, em que reconheço a minha verdade de pecador, de hipócrita, de simples negociador, de alguém incapaz de agir por princípios, independentemente das conseqüências?

Através da urgência dessa pergunta pelo que podemos esperar, podemos nos ver a nós mesmos impossibilitados de lidar com nosso presente, tal como ele deveria ser, autenticamente, se estivesse livre da pergunta pelo futuro? A emergência da questão pelo futuro já não compromete a autenticidade e a pureza do presente?

34ºC, hoje, na Lagoa

Esta talvez seja uma notícia. – Pleno inverno e 34º em Florianópolis. Contados, cada um deles (dos graus) por um vendedor-produtor de artesanato, conhecido meu, que trabalha nos fins de semana, na pracinha da Lagoa. A notícia acaba aqui.

Aquecimento global – essa é a expressão da certeza, em que a certeza se expressa. Talvez seja, certamente é, um vício meu (o contrário de uma virtude), cacoete do ofício ou do desemprego, mas sempre duvido das certezas. Entretanto – entenda-me bem –, realmente está ocorrendo um aquecimento global, os glaciares estão realmente encolhendo, o gelo dos pólos está derretendo de verdade. Se confio no testemunho do artesão da pracinha da Lagoa, também confio no testemunho da mídia. Negar o aquecimento seria uma espécie de revisionismo do presente, que tentasse ler de outro modo a história do presente, para refutar o crime da humanidade contra si mesma e contra tudo que a envolve e acolhe – o suicídio, homicídio e matricídio diário com o qual convivemos. Tudo isso, toda essa monstruosa destruição do vegetal, do animal, do mineral, está acontecendo, é real.

Entretanto não vejo certeza nisso, nem evidência. Justamente porque a pretensão de certeza e de evidência estão na origem de toda essa destruição. Buscar, no aquecimento global, certeza e evidência é continuar no mesmo plano daquilo que está na origem histórica do aquecimento, como condição de sua possibilidade. A certeza encobre ou destrói o incerto que não é evidente; e a evidência encobre ou destrói o ambíguo que é incerto.

Romance

Qual a vantagem do romance sobre o ensaio? Leia-se Les bienveillantes, de Jonathan Littel, Gallimard, 2006, prix Goncourt. O que faz Littel de seu personagem, o Dr. Aue? O que Littel tem que fazer de seu magnífico Dr. Aue beira o ridículo.

Retiremos os personagens do romance, a falsa impressão de vida, os personagens e suas peripécias, o trabalho sobre os sentimentos, esses operadores de identificação, pretensa vivificação do ensaio, retiremos os personagens, e o que resta de um romance? Um ensaio.

O ensaio é essa síntese do romance: é o romance sem personagens. A trama permanece, como pura trama de proposições, sem personagens. A lógica da trama do romance, no ensaio, é a lógica argumentativa. O personagem é a possibilidade da presença do público leitor no interior do romance; ou o comprometimento do autor de romances com seu público. Os personagens são recipientes para os leitores, armadilhas em que os leitores e os autores de romances são apreendidos. O ensaio, por sua vez, compromete-se com outra coisa, seja o que for; às vezes, a verdade, mas não necessariamente, às vezes, a ficção, quando as proposições apoiam-se umas nas outras e em nada mais.

Em algumas partes do livro de Littel, Dr. Aue é como o personagem de um ensaio – embora o ensaio não tenha personagens, ele pode ter um perfil, um estilo, uma perspectiva, até mesmo um nome, porém, jamais ser um reflexo em um espelho de leitor –, seco, nu, vazio, sem alma; em outras, como personagem de uma armadilha – ele aparece como em uma história em quadrinhos, em uma fotonovela. Isso é o que faz do romance um dos inversos da informacãoBLOG. O romance estabelece a relação de sujeito a sujeito, essa é a sua principal função – enfatizar a comunicabilidade entre interioridades. Mas a comunicabilidade, em si mesma, é a prova cabal da impossibilidade da interioridade.

Por que o drama trágico não é mais, ou não é ainda, um romance? Porque os personagens da tragédia, secos demais, nus demais, escapam, para nós, hoje, da identificação, tornam-se arquétipos. O SS-Obersturmbannführer, dr. Aue, é uma possibilidade vivificável, plausível, e se quer assim; Medéia ou Antígona, não.

InformaçãoBLOG (III)

A informação exerce sua tensão máxima, exercita sua potência, não quando preenche, mas quando estabelece uma lacuna, uma diferença. Por isso, a informaçãoBlog precisa ser dialógica, isto é, encontrar o seu lugar próprio em que cria a mudança, outro nome para a diferença.
A diferença não é o contraditório estabelecido. E o supra-sumo do dialógico, o diálogico mais informativo, não é o que se estabelece entre posições contraditórias, mas entre posições heterogêneas. Foucault, por exemplo, insiste muito nisso*. Ele opõe a heterogeneidade à contradição, a lógica da estratégia à lógica dialética. Num discurso dialógico a heterogeneidade não implica a incompatibilidade, a exclusão do avesso, como inimigo. No discurso dialógico o elemento heterogêneo, a possibilidade existencial do outro, dos outros, da pluralidade como potência, é incluída na própria estratégia de formulação da informação.
Portanto, a informaçãoBLOG encontra sua maximização no seu limite, no seu limiar que é um seu fundamento, o comentário. O que não deixa de ser uma apologética do comentário. Sem comentário, sem heterogeneidade, a informaçãoBLOG é manca, coxa.

(*) Essa insistência é talvez mais evidente em Naissance de la biopolitique, p. 44.

Filosofar é pensar a diferença entre o homem e o animal


Poderíamos dizer – por que não? – que toda filosofia é a reflexão da diferença possível ou essencial e irredutível, entre o homem e o animal. Se pensa a diferença, ela não pensa
exatamente a identidade, quer dizer, ela não pensa aquilo que faz com que o homem seja idêntico a si mesmo, a própria essência do homem. Mas quando pensa a essência do homem, em si mesma, se insiste nisso, ainda assim é filosofia, é uma antropologia filosófica. Mas pode pensar essa essência enquanto diferença. Quando pensa a diferença, pode pensá-la como divina, assim é teologia: o homem enquanto homem é um animal que se diviniza. Como diferença racional, se torna iluminista, e no limite filosofia crítica. Pode pensá-la como diferença específica dentro de um gênero comum, sendo então história natural ou lógica natural. Mas pode não aceitar a idéia do gênero comum, e pensar a diferença a partir dos próprios termos e da mecânica das noções, quando é filosofia da linguagem. Quando entende a diferença como um modo de vida a ser praticado, é existencialista. Quando pensa o sistema das diferenças, é estruturalista. Quando pensa a igualdade e não a diferença entre o homem e o animal, é filosofia da finitude ou biopolítica. E se não pensa nada disso, o que é a antiforma desse pensamento, é metafísica.

Um fenômeno num dia nada fenomenal

O acontecimento do dia de hoje: o rasto estreito de uma vermelhidão refletida no mar. Não havia sol. O reflexo, pode-se supor, tinha origem num buraco entre as nuvens. Mas a conexão entre o buraco no céu e o traço vermelho no mar era apenas contingente, uma exigência para se evitar a possibilidade da alucinação e do nonsense. Não parecia – e talvez não fosse – uma conexão real. O traço era como um trilho de luz vermelha que se estreitava retilíneo na direção do Oeste, o buraco nas nuvens de chumbo estava alto, muito mais à direita, era claro, mas não tão vermelho. O fenômeno efêmero durou uns dois minutos, o vermelho no mar logo foi se esvaindo. Eu poderia não tê-lo visto.

O dia de hoje não é o hoje-em-dia. O dia de hoje é uma singularidade, um acontecimento, um dia histórico, uma facticidade. Não é um universal, uma condição, um transcendental nem uma gramática. O dia de hoje é contingente, eu poderia não tê-lo visto.

Boánoite

Goya, 1799.
A boánoite, essa longa e grossa cobra que se enrosca só nos corpos puros ou nos muito cansados, exaustos. Seus favores? Reserva aos desmaios dos muito maus e aos êxtases dos muito bons, aos que ascendem e aos que caem sob o peso de suas asas, não à razão que pausa.

InformaçãoBLOG (II)

O que é informação?

Deve ser possível fazer uma teoria da informação que não seja uma teoria da mensagem. Nada de remetente, receptor, canal, código, léxico. Passar por trás disso. Ao colocar a informação fora do âmbito da teoria da mensagem, desantropologizar e despsicologizar a informação. A informação, assim, não diz respeito primariamente a um sujeito que se informa do informado. Os sujeitos da informação estão imersos na informação. Passar pela física. Informação como movimento. Informação como mudança. Integrar a teoria da informação à física aristotélica, melhor, ao devir heraclitiano. Então informação não é ser, mas devir, o rio que passa sempre. Caudal de configurações da temporalidade. Caudal das condições de possibilidade históricas.

A informação é a mudança, certo, mas é também o que provoca a mudança, porque a informação age no nível das condições de possibilidade. No nível da potência. No nível do transcendental. -- Se é assim, diriam, não estamos no nível da física, mas no da crítica. -- Mas o nível da crítica é preciso compreendê-lo submetido ele mesmo ao devir, do qual (estranha figura topológica) ele mesmo é condição.

Essa é uma figura do duplo empírico-transcendental? O empírico: aquele plano da mudanças; o transcendental: o plano das condições de possibilidade do empírico. O empírico: a temporalidade infinita, da ordem do sempre. O transcendental: a eternidade, da ordem do inexorável.

Considerar a informação um duplo empírico-transcendental altera a figura do transcendental, da eternidade, do inexorável, que se torna sempre inexorável, sempre eterna, mas mutante. O transcendental ele mesmo é informativo.

InformaçãoBLOG é um nível de informação: o nível da espontaneidade e da brevidade. No movimento, é o nível do gesto, que se for belo, é o nível da dança.

Weltanschaung

Essa terrível palavra. O que ela tem de bonito (quando relativiza o mundo, dizendo-o parte de uma perspectiva que se tem do mundo), ela tem de feio (quando uma certa perspectiva totaliza todas as outras possíveis), por exemplo, quando qualificada como "visão de mundo nacional-socialista". Weltanschaung – nela vibram o relativo (o belo e o bom) e o absoluto (o feio e o mau). Curiosa essa associação do absoluto com o mau (onde se esconde a beleza de um Sócrates, então?). Um pouco entristecedor também, devermos fazer essa associação. Faz parte da melancolia da crítica necessária e da melancolia necessária da crítica.

O voto: um comportamento, duas atitudes (II)

Duas atitudes "subjetivas" diante da objetividade do comportamento do votante, dois tipos de democracia. O primeiro tipo é a democracia hiper-real da economia, baseada no homo oeconomicus, que deve pensar no seu próprio interesse; o segundo, a democracia hiper-real do direito, baseada no homo iustus, que deve ter em mente a justiça.
O segundo tipo se reduz ao primeiro quando se considera justo, referente à justiça, pensar nos seus próprios interesses.


O voto: um comportamento, duas atitudes (I)
O voto: um comportamento, duas atitudes (III)

A leitura e a visão

Quanto mais eu leio, ou seja, quanto mais eu sei do mundo (ou pelo menos seria de se supor uma relação direta entre leituras e uma visão de mundo mais acurada), menos eu o enxergo. Minha visão de mundo se sofistica, em princípio, com minhas leituras, mas cada vez eu enxergo menos. Ainda mais curioso: não tenho dificuldade alguma para ler, para ler não preciso de óculos; mas para ver de longe, além dos 50 cm, sim. Visão sem falha até a distância de leitura de um livro, que de alguma forma aprimora minha visão de mundo, mas, paradoxalmente, quanto mais eu leio, tanto mais minha visão, para o longe, justamente para o mundo, se deteriora. O que cobre de dúvidas a suposição da relação direta entre leitura e aprimoramento da visão de mundo.

InformaçãoBLOG (I)

As especificidades da forma de um aforismo BLOG devem ser: a espontaneidade e as poucas linhas. A espontaneidade do pensamento, o vai-que-vai formulado mas não reformulado. E o tamanho, por favor, não muito extenso. Assim vale o princípio máximo-mínimo: o máximo de espontaneidade do pensamento, com um mínimo de ordem; um máximo de interesse, num mínimo de espaço.

O voto: um comportamento, duas atitudes (I)

Existe uma dubiedade no exercício da democracia participativa, quando a expressão dessa participação é o voto.

O comportamento do voto é o mesmo para todos os que exercem essa forma de participação política. Objetivamente, o votar é a manifestação de uma escolha pessoal, que ao menos em potencial vale para toda a comunidade dos votantes. Uma vontade particular de fazer valer-se como vontade comum. Esse comportamento, ao que parece, encobre duas atitudes diferentes, quer dizer, dois posicionamentos, duas compreensões, duas interpretações, digamos, subjetivas desse fato do votar.

O primeiro tipo de votante vota segundo seu interesse particular; entre as alternativas dispostas, opta por aquela que mais lhe parece pessoalmente favorável, ou pela que é mais favorável à categoria social, ao grupo, a que acredita pertencer. O segundo tipo de votante vota segundo aquilo que, de acordo com seu julgamento, deve valer para o todo da comunidade. O primeiro tipo, ao decidir-se, pensa a partir de uma parte; o segundo, conforme a perspectiva do todo.

Não se trata de pensar qual é o bom, qual o mal votante, qual a atitude correta, qual a incorreta, mas de assinalar que ao exercer o mesmo comportamento, ao votar, os votantes podem decidir-se desde perspectivas diferentes, e tomar suas decisões a partir de duas posições totalmente opostas.

Objetivamente não há como coagir o votante a votar segundo uma ou outra maneira. No mecanismo puro da decisão por maioria de votos permanece latente essa dubiedade que de alguma forma invalida o processo, e lhe retira a base de sua pretensa legitimidade que é o respeito da igualdade entre os votantes. Já que devido a essa ambigüidade essencial do votar, a igualdade dos votantes, sendo suas atitudes potencialmente diferentes, não é mais garantida pelo sistema.

A cada tipo de votante corresponde um tipo de democracia. A democracia do primeiro tipo se assemelha a uma mera contagem das partes. Com o resultado do voto, alcança-se essa contagem que conta a parte maior. Essa contagem tende a fazer com que todos ajam segundos os interesses dessa parte maior, em detrimento dos interesses fragmentados das partes menores. O mecanismo de correção dessa distorção totalizante consiste em multiplicar as fórmulas de consulta, de modo a fragmentar as partes sólidas, aquelas que se constituem sempre de um mesmo recorte da população, por exemplo, o recorte entre pobres e ricos, entre campesinos e citadinos, entre velhos e jovens, homens e mulheres, hétero e homossexuais, leigos e religiosos... Formular a consulta de tal modo que, a cada vez, ou em muitas vezes, um certo grupo de votantes não possa considerar-se, sempre, como pertencente à mesma parte definida pelos mesmos critérios de escolha. Para conter o perigo da maioria recorrente, evitar as facções, os partidos.

A democracia do segundo tipo refere cada votante individualmente ao todo. Prescinde da realidade de uma sociedade fragmentada em grupos de interesse. Conta com a possibilidade de múltiplas racionalidades. A escolha ganhante, o resultado da somatória dos votos, seria aquela que mais se aproximaria de uma racionalidade média. Cada indivíduo deve apresentar-se isoladamente, no momento do voto, como uma representação da consciência geral. Supõe-se que essa representação possa variar. E a escolha ganhante, a escolha da maioria, seria uma espécie de aproximação daquela consciência geral.

De fato, não há essa caracterização forte dos votantes nem, conseqüentemente, das formas de democracia. O que há é uma mistura dos tipos, uma imprecisão, uma vagueza do sistema de consulta popular.

O voto: um comportamento, duas atitudes (II)
O voto: um comportamento, duas atitudes (III)

O trabalho no papel e no corpo

Veja bem. Estou escrevendo. Não me refiro ao que estou fazendo agora. Me refiro a um outro texto, não esse, um outro, maior, mais problemático. E a produção desse outro texto trabalha em mim, posso dizer em meu corpo, abrindo, escavando seu espaço, ao mesmo tempo, entre minhas emoções e idéias, e no papel. Como se, de alguma forma, quer dizer, eu também poderia descrever o que está acontecendo como se o trabalho, energeticamente ou existencialmente falando, encontrasse sua origem em si mesmo.
Aquela banalidade do escritor que diz: não sou eu que escrevo, mas o texto que faz de mim instrumento? Mediunidade? Ser meio para que algo, anônimo e sem sujeito, se expresse? Não, isso não pode se tratar dessa banalidade racionalizada, pensada mas não sentida.
Talvez possa dizer as coisas de outro modo. Veja. Todo esse tempo, uns seis meses agora, que venho lidando com aquele texto, alguma coisa se passa comigo, uma transformação, enquanto escrevo, de alguma forma, também vou sendo escrito. Isso é simplesmente uma transformação? Pode ser, mas essa transformação não é independente do que está se pondo. Uma barriga vai surgindo. Um pneu de gordura se acumula logo acima de onde meu corpo se dobra. Passo tantas horas sentado, a escrever. O que está no papel está também na barriga. Está também no peito. Como uma dor. Uma confusão. Um lugar em que não se chega.
Obviamente, torna-se evidente, surge, brilha - o que dizer? -, a imagem da mulher grávida. Mas não é isso. Quando a mulher pare, ela perde a barriga, e eu ganho enquanto a coisa vai nascendo. A coisa vai nascendo aqui e ali, não é passagem de um lugar para outro, mas tomada de forma num lugar e noutro.

A dios a Momo

Ontem, foi a vez do Uruguai. Não sei por quê, um país que me inspira esperança. Pelo seu tamanho talvez, pela sua melancolia, pela sua despedida. Se o fio político que costura os brasileiros, de alguma forma, é a compartilha da violência, no Uruguai, esse fio é a saudade dos que partem. "Uruguai, nunca mais" - canta a Murga.
Nesse filme ressurge, ao contrário dos outros filmes da semana, ao contrário da imanência total do filme de Brant, das pequenas janelas do filme de Arroz, da desidentificação desejada pela chilena do Sul, do desespero de Sol, ressurge o ser para além da aparência. "Nem tudo é como parece ser", diz o mendigo, no filme uruguaio. Afinal, pela primeira vez, nesse festival, nessa mostra, transborda o além, nas suas diversas formas: magia, transfiguração carnavalesca, ilusão, espiritualidade, religiosidade, também poesia.
O difícil é manter viva, em nosso dia-a-dia econômico, no jogo de nossas capacidades e necessidades, essa remissão, essa ponte, esse elo com o que nos ultrapassa e, nessa ultrapassagem, nos redime. No fundo, não se trata tanto de uma dificuldade. Pois nisso, ou para isso, não há como se esforçar. Então, falemos de um dado, de um acontecimento, de um acontecido que se presentifica.
Não se trata, no descalabro do nosso mundo biológico, físico, biopolítico, mundo da finitude, como se queira, de saltar para o além ou de se posicionar na perspectiva de um outro mundo, mundo da salvação, mas de encontrar o outro no mesmo. Misturar os elementos. "Nem tudo é como parece ser".

O Poder em Ésquilo

O Poder diz a Hefestos, que sob as ordens de Zeus faz algo que detesta, a retenção de um parente, Prometeu:

– "Bate mais forte, aperta, não deixe jogo; pois ele é capaz de encontrar uma saída para uma situação inextricável"*.

Hoje, de forma diferente, nas relações de poder, conta-se com esse jogo, com essa folga, relativamente grande, com esse campo de ações possíveis, toleráveis. E é exatamente nesse jogo que nos embaraçamos nas malhas do poder.

O Poder hoje diz a Hefestos: – deixe o jogo, não aperte tanto, afrouxe, mostre-lhe apenas o intolerável, apenas oriente-o quanto aos limites do seu universo de ação, apenas lhe diga e convença sobre isso de que ele é feito, discurse sobre a sua essência finita, assim esse sujeito estará tão preso quanto antes, e nós, do nosso lado, faremos menos esforço.

Quando o Poder não assujeita um imortal, mas um mortal, torna-se a fala da biopolítica.

(*) Ésquilo. Prometeu acorrentado.

Frase de Álvaro de Campos

O verso de hoje: "Todo o mistério do mundo entrou para a minha vida econômica."
Essa é propriamente a redução biopolítica da vida. Formulada no seu modo mais radical e abstrato. O fim da metafísica está em relação com a biopolítica? Fernando Pessoa, Obra Poética, [522], p. 410.

Luz de invierno - Arroz

Mesma temática do filme de Brant. Ou seja nosso mundo de finitude. Nossa vida reduzida ao biológico estendido, fome, sexo, saúde, (a raça desapareceu), a economia. Mas neste filme de Arroz (e nos contos de Hugo...) há um elemento, eu diria um GEIST, um elemento vivificador, subterrâneo, elemento da história, de produção de história. Esse GEIST aparece em dois dos três contos. Ele não é uma vontade, ele acontece apesar das vontades conscientes. Aparece como uma inconsciência. O jogador de futebol que entrega sonâmbulo os tijolos à viúva miserável, sua vizinha. O relojoeiro que é tomado por uma ausência, a ausência do mendigo, até ela tornar-se presente no seu próprio abandono.
No filme de Brant, não estava presente sequer esse GEIST. Era finitude encerrada em si mesma. Esse realismo de Brant desloca o filme de Arroz para um romantismo? Há um Geist? Uma esperança de história, de transformação, de liberdade?

Beto Brant: cão sem dono

Fui assistir a esse filme do Beto Brant, filme novo e gaúcho. Muito bem feito. A história é simples. Os atores são cativantes. E a vida, essa vida nua dos personagens. "Leia-me a alma" - pede Marcela. Ele responde o que ele sente, o que ele percebe pelos sentidos, o corpo. O corpo essa é a própria poesia. Muito bem. Nessa frase está o filme. Que retrata a vida, a vida mais propriamente em si mesma. Ali sob o poder medical, que de biopsias, que de auscultações, que de investigações. Esse sem dono: essa liberdade do cão, da vida de cão. E a transcendência, nessa vida de cão? Barcelona transcende. Ninfoma transcende. E o desejo de viver de Marcela. Como explicar Marcela? Muito bem. Estamos aí jogados na vida simples, de todos os dias, diante de nossos olhos, e à nossa volta, da tela para fora dela sem descontinuidade. As cenas asperas, plenas de realidade. Enfim, um filme que se põe diante do nariz e com cheiro conhecido.

Saudades dos filhos

o pai é o que é
não em si mesmo
(no que efetivamente tem),
mas fora de si,
nos filhos que tem
(e que efetivamente
sempre vai deixando de ter)
assim,
sendo o que é, o pai
vai sempre deixando de ser

Linguagem ao infinito


Novamente Pessoa:

“Amamos sempre no que temos
o que não temos quando amamos”

PESSOA, Fernando. Obra poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. P. 184.

Aparentemente, temos aí uma armadilha da linguagem, semelhante àquelas que Foucault menciona em "Linguagem ao infinito". Um jogo da linguagem, em que a própria linguagem anula sua função referencial. Um jogo da linguagem consigo mesma. Autônoma, auto-referencial, cobra que morde o próprio rabo, assim: ganha corpo, vive por si, fala, mas não de si. O modo de subjetivação da linguagem, o modo pelo qual a linguagem vira sujeito, não exige que a linguagem fale de si, mas que se mostre em seu ser. Uma armadilha que nos lança e nos prende ao ser da linguagem.

É possível a réplica: nessa mostração da linguagem em seu ser, temos a mão de um Pessoa, ou de um Malarmé, de um Blanchot, de uma Sherazade. Mas – réplica da réplica – a mão que fecha o círculo da linguagem, nesse mesmo gesto de dobra da linguagem, abandona a linguagem a si mesma. E aí Pessoa, Mallarmé, Blanchot e Sherazade já não dizem mais nada.

Talvez assim seja e deva ser a informaçãoBLOG na sua pureza, sem sujeito, sem autor.

Pessoa: nota preliminar a “Cancioneiro”

Uma nota preliminar a “Cancioneiro”. Uma única página. Para um certo Fernando Pessoa, numa concepção próxima a dos clássicos, estamos sempre diante de duas paisagens (e, importante, ele não considerava isso uma metáfora): uma exterior, relativa a nossos sentidos externos, e uma interior, relativa a nosso sentido interno. Quase kantiano. Digo quase, porque para Kant, o sentido interno remete esteticamente ao tempo, enquanto esse Pessoa fala da percepção do estado de alma como percepção de uma paisagem, que é portanto percepção de um espaço. Essas paisagens, a interna e a externa, interferem uma na outra, misturam-se de tal forma que a separação entre espaço interno e externo se dilui.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. p. 101.