Ditos e reditos
Apesar de adicto ao que digo, enfim, eu poderia mudar de opinião no momento seguinte (isso é da natureza da informaçãoBLOG). Ele, não. Ele está tão adicto ao que disse como ao que diz.
Sabores e odores II
Afinal, talvez, a filosofia tenha muito a ver com a gastronomia, por um lado, e com o apetite e o aparelho digestivo, por outro.
Diríamos: – eu não suporto esta filosofia!, como dizemos: – eu detesto quiabo e a lactose me faz mal!
Diríamos: – eu não suporto esta filosofia!, como dizemos: – eu detesto quiabo e a lactose me faz mal!
Sabores e odores
Cada filosofia, um sabor, um odor:
Importa o princípio de que uma filosofia não é um sistema insípido e inodoro de asserções objetivas, mas a tentativa de explicitação de uma experiência pessoal, de um páthos, portanto, com sabor e odor [...].*Certo. E, então, a Heidegger:
“Nosso ser-aí precisa retomar a sua profundidade metafísica. Novamente alcançar a sua relação estabelecida e verdadeiramente constituída [mas velada, esquecida] ao ser do ente em sua totalidade”**.
Para Heidegger, o ser do ente, que constitui isso que o ente é, não está de modo algum no ente – aqui, o ser sabe e cheira à transcendência (mesmo que a transcendência se dê na ou diante da imanência, no panta hen). Não encontramos no ente, entre os entes, o seu ser. Por isso, é preciso retirar a metafísica, ou seja, a relação aberta essencialmente humana ao ser, do âmbito do ente e da física.
Para Spinoza, isso que constitui a essência (e a existência, aliás) do ente, seu ser (e seu existir, na duração), é a própria totalidade do ente – sabor e odor de imanência. A física spinozana não é um equivocado esquecimento do ser velado pelo ente, mas a captura do ser do ente como totalidade do ente. Captura ontológica que ocorre também como física.
(*) RIBEIRO, Luís Felipe Bellintani. Sobre a noção de parádeigma em Platão. Revista Peri, Florianópolis, vol. 5, nº 2, 2013, p. 1-25. P. 2.
(**) HEIDEGGER, Martin. An Introduction to Metaphysics. Trad. Ralph Manheim. London: Yale University Press, 1987 [1953]. P. 107.
Ontologia política
Há um nexus ontológico-político, seja porque toda ontologia pressupõe uma decisão política prévia, seja porque toda política pressupõem uma interpretação, concepção ou captura prévia do ser.
Nesse nexus, note-se, não falta o vértice ético (o modo de ser humano ou a prática refletida – de si sobre si – da potência humana). O vértice ético está envolvido na atividade e na passividade daquela decisão política (em que uma prática de si é decidida e se decide) e daquela captura ontológica (capturar o ser e ser capturado por ele de um modo singular).
Nesse nexus, note-se, não falta o vértice ético (o modo de ser humano ou a prática refletida – de si sobre si – da potência humana). O vértice ético está envolvido na atividade e na passividade daquela decisão política (em que uma prática de si é decidida e se decide) e daquela captura ontológica (capturar o ser e ser capturado por ele de um modo singular).
Etimologia e nazismo: a busca da origem perdida ou a luta contra a impureza presente
A busca da pretensa origem das coisas (ou seja, do seu ser enfim desobstruído ou da sua verdade e significados originários) envolve uma imagem da pureza como tal (a pureza pura) e reclama-exige um esforço pela purificação das coisas.
Essa exigência pressupõe que as coisas – cujo ser se busca, nas coisas tais como elas realmente são, tal como o são na sua essência – estejam contagiadas pela sua relação com isso que elas não são.
A busca pelo originário é, assim, o combate pela descontaminação do ser das coisas presentes, é uma luta contra isso que as torna impuras no seu significado ou no seu ser.
Um paradigma literário para esse processo de busca é a etimologia. Um paradigma político: a eugenia arianista do nazismo.
Na etimologia e no racismo, a imagem cega, a figura sem luz de um sentido originário e de uma raça pura se conectam.
Essa exigência pressupõe que as coisas – cujo ser se busca, nas coisas tais como elas realmente são, tal como o são na sua essência – estejam contagiadas pela sua relação com isso que elas não são.
A busca pelo originário é, assim, o combate pela descontaminação do ser das coisas presentes, é uma luta contra isso que as torna impuras no seu significado ou no seu ser.
Um paradigma literário para esse processo de busca é a etimologia. Um paradigma político: a eugenia arianista do nazismo.
Na etimologia e no racismo, a imagem cega, a figura sem luz de um sentido originário e de uma raça pura se conectam.
O que fez Platão com a idea?
O que fez Platão com a idea? Manteve o significante
idea, mudou-lhe o significado.
Originariamente (no momento em que o ser das
coisas se mostrava na língua), [mas, afinal, o que tem de fato uma origem firme
e, ainda mais, uma origem perdida? O que é postar-se nesse senão-mítico
originário? Tudo não é esse ser-devir de um permanente postar-se na origem
imperante? A origem está no passado perdido, ou acha-se eternamente no
presente? Origem não é princípio, e princípio, arché (força imperante)?] idea
significava o aspecto visual, a forma-figura em que uma coisa se mostrava como
tal coisa, na sua autolimitação. A silhueta-limitante de uma coisa estaria
imanentemente ligada ao seu ser-próprio (pois a sua limitação, o alcance do seu
limite-peras, na qual a coisa autoconstitui
sua periferia não lhe é imposta desde fora)*.
Platão se apropria do significante e do significado
originário para significar outra coisa. Platão, por idea, já não indica o aspecto visual da coisa, mas o inteligível do
qual a coisa participa, isto é, seu verdadeiro ser não degradado.
(*) HEIDEGGER, Martin. An Introduction to Metaphysics. Trad. Ralph
Manheim. London: Yale University Press, 1987 [1953]. P. 60.
Sobre a arché do aforismo
Frequentemente, o aforismo, em sua arché, tem um anteparo (ou um solo, se preferirem) do qual emerge.
Por exemplo, o aforismo de Karl Kraus, “A beleza passa, porque a virtude fica.”*, nasceu na desmoralização de uma máxima moral, “Schönheit vergeht, aber Tugend besteht!” (A beleza passa, mas a virtude fica!).
Outras vezes, o aforismo emerge na complementação de um outro aforismo. Como esse que, com Monique, compomos, a partir de Kraus: “A beleza passa, a virtude passa, a fantasia fica.”. Sem mas, nem porquê.
(*) KRAUS, Karl. Aforismos. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: Arquipélago, 2010. P. 37.
Por exemplo, o aforismo de Karl Kraus, “A beleza passa, porque a virtude fica.”*, nasceu na desmoralização de uma máxima moral, “Schönheit vergeht, aber Tugend besteht!” (A beleza passa, mas a virtude fica!).
Outras vezes, o aforismo emerge na complementação de um outro aforismo. Como esse que, com Monique, compomos, a partir de Kraus: “A beleza passa, a virtude passa, a fantasia fica.”. Sem mas, nem porquê.
(*) KRAUS, Karl. Aforismos. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: Arquipélago, 2010. P. 37.
A filosofia e a estátua de sal
O amigo-de-teatro (ou da aparência), em amizade, disse ao amigo-de-saber (ou do ser): “Adiantando-se, os filósofos sempre se voltam para trás”.
Como se os filósofos tivessem os corpos com os
pés e os olhos apontados em direções contrárias, à maneira de certos personagens lendários.
Olham para trás, caminham para frente; ou olham para frente, mas caminham para trás.
Então, se ainda vivêssemos sob aquele império divino:
“Vai! E não olha para trás, se não...”, os filósofos seriam todos estátuas salgadas.
Exemplo da grande estátua de sal (ó, quantas
lágrimas...): “Para apreendermos a diferença [entre ser e aparência], precisamos, aqui, mais uma vez, voltar atrás até o inicial [antes da diferenciação]”*.
(*) HEIDEGGER, Martin. An Introduction to Metaphysics. Trad. Ralph Manheim. London: Yale University Press, 1987 [1953]. P. 99.
Desejo de sombra e de barbárie
Tudo o que se ergue esplendorosamente ao sol, pela cultura humana, projeta uma sombra sobre a terra, que abriga a barbárie. Afinal, por que queremos nos proteger, exatamente ali, onde ficamos desprotegidos de nós mesmos?
Não há um documento [historiográfico] da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie.*
(*) BENJAMIN, Walter. Sur le concept d’histoire [1940]. Trad. Maurice de Gandillac, revista por Rainer Rochlitz. In: Oeuvres III. Paris: Gallimard, 2000. Tese VII. P. 433.
O desejo de sombra na política
O que, afinal, nos afasta radicalmente do império democrático? Empecilhos histórico-estruturais em nossas formas de organização? Não. O que nos afasta da democracia radical é o nosso pavor de nós mesmos, o gigantesco temor de morte que sentimos ao habitarmos a potência do fogo ingente e o correlato desejo de sombra.
Repita-se, com a ênfase necessária:
(*) SPINOZA, Benedictus de. Oeuvres III: Traité théologico-politique. Trad. Jacqueline Lagrée et Pierre-François Moreau. Paris: PUF, 2009 [1670]. XVII, §9. P. 549.
Repita-se, com a ênfase necessária:
[...] na primeira vez, todos igualmente foram encontrar a Deus, para que ouvissem isso que Ele lhes quisesse imperar. Mas, nessa primeira saudação, a tal ponto ficaram aterrorizados e atônitos, ao ouvirem [por si mesmos, isto é, imediatamente em si mesmos] ao Deus falante, que pensaram estar diante do seu próprio tempo supremo, o juízo final [a temporalidade estancada – o ser inteiro visível]. Então, tomados de pavor, voltaram-se a Moisés [ou à sua consciência]: “eis que ouvimos diretamente ao Deus falante no fogo [do nosso coração], mas não há causa pela qual queiramos morrer; certamente, este [nosso próprio] fogo ingente nos devorará; se, outra vez, nós precisarmos ouvir a voz de Deus [entre nós], certamente, nós morreremos [em nossa própria fogueira]. Então, vai tu ao Seu encontro e ouve [em nosso lugar] tudo o que Deus nos tem a dizer...”*.Moisés (ou o devir afetivamente impossibilitado da democracia radical) é o representante, no sentido de uma consciência ouvinte, intermediária, intermediadora da relação de si a si e de si ao outro.
(*) SPINOZA, Benedictus de. Oeuvres III: Traité théologico-politique. Trad. Jacqueline Lagrée et Pierre-François Moreau. Paris: PUF, 2009 [1670]. XVII, §9. P. 549.
O grande filósofo do século XX – II – e o desejo de sombra
O grande filósofo do século XX: talvez, apenas, um fruto do nosso desejo de sombra. Quem ousa, afinal, se expor ao sol, diretamente, sem qualquer anteparo?
[...] na primeira vez, todos igualmente foram encontrar a Deus, para que ouvissem isso que Ele quisesse lhes comandar. Mas, nessa primeira saudação, ao ouvirem ao Deus falante, ficaram a tal ponto aterrorizados e atônitos que pensaram estar diante do seu tempo supremo [o juízo final]. Então, plenos de medo, voltaram-se novamente a Moisés:
“eis que ouvimos ao Deus falante no fogo, mas não há causa pela qual queiramos morrer; certamente, este fogo ingente nos devorará; se, outra vez, nós precisarmos ouvir a voz de Deus, certamente, nós morreremos. Então, vai tu ao Seu encontro e ouve tudo o que Deus nos tem a dizer...”*.
(*) SPINOZA, Benedictus de. Oeuvres III: Traité théologico-politique. Trad. Jacqueline Lagrée et Pierre-François Moreau. Paris: PUF, 2009 [1670]. XVII, §9. P. 549.
O grande filósofo do século XX
Talvez, apenas, um efeito de perspectiva: de
perto, ainda à sua sombra, ele nos aparece enorme, gigantesco. Com a distância,
ele se apequenará.
Como escrever um aforismo
Estamos diante de uma impossibilidade. Um tratado sobre aforismos só poderia se escrever aforisticamente. Mas, aforismos juntos jamais se constituiriam como um tratado.
Impostura
A postura
(a imposição e a indisposição) de um filósofo percebe-se por aquilo que ele
considera ser a questão fundamental da filosofia em geral (dessa atividade que
consiste em se colocar questões de modo até mesmo doentio).
Para o filósofo rico, governante,
aristocratizante, a questão é:
– por que
há o ente e não antes o nada?
Para o filósofo pobre, governado,
democratizante (em suma, cristão e escravo), a questão é:
– por que,
afinal, há tal ordem estabelecida e não antes a desordem?
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