Usar “sugestão” em lugar de “comando”.
– Meu caro, se me permites, uma sugestão...
Quase-quase-um
Um corpo social é quase-um corpo. Isto é, apesar de composto por vários corpos, um corpo social funciona quase como um.
Por outro lado, um corpo individual, na medida em que é também um corpo composto de partes convenientes entre si, é quase um corpo social.
Assim, o corpo individual é quase-quase-um corpo.
Mudar o vocabulário?
Não falemos de Estado, mas de quase-um corpo. Constituímos juntos, em certa medida, um corpo coletivo, cujas partes constituintes, muitas vezes, porém, a tal ponto, são atraídas em direções opostas umas às outras, que o corpo como um todo não sabe mais para onde se virar.
Espíritos geniais II
Moral: – os espíritos geniais elevam-se sobre o peso dos espíritos menos geniais, mas toda produção é uma produção coletiva, toda ideia é comum. Isso que sustenta a ponta do iceberg é seu corpo submerso.
Espíritos geniais
Alguns lograram exprimir com maior clareza aquilo que outros também souberam exprimir, porém, menos claramente. Nessa medida, os primeiros são reverenciados como os expoentes de uma corrente constituída pelos segundos; eles são porém como a ponta de um iceberg, o cúmulo de um esforço (muitas vezes oculto e esquecido) que é sempre coletivo e comum.
Poder/potência
Poder se refere ao que pode ser feito e ao que pode não ser feito. Potência, ao que se faz efetivamente. A potência se mostra toda em ato (um pavão de cauda aberta ou fechada); o poder é como uma insinuação (de que a cauda pode se abrir ou, ao contrário, se fechar). A potência é atual. O poder, hipotético. O poder decorre da ideia de possibilidade. A potência, da necessidade de uma ideia.
O cárcere ou o campo dos desejos
O cárcere ou o campo é aquele desejo que é apenas desejo de um desejo, que, por sua vez, também, se mostra como desejo de desejo, e assim indefinidamente.
Como o dia que, de repente, se torna apenas a espera do dia seguinte, que, por sua vez, também, se mostra como a espera do dia seguinte, e assim indefinidamente.
Memória e história
Seja Lorenzo o nome de um evento passado
qualquer (isto é, considere Lorenzo uma variável numa função cujo domínio é o
universo no seu aspecto temporal).
A história de minhas relações com Lorenzo é, ao mesmo tempo, longa e curta, simples e enigmática. É uma história que pertence a um tempo e a circunstâncias hoje abolidas, que nada na realidade presente poderia restituir, e que não acredito que ela possa ser compreendida de outro modo do que esse pelo qual são hoje compreendidos os fatos lendários ou aqueles dos tempos mais recuados.*
Os acontecimentos estão de tal maneira
inscritos nas circunstâncias de sua emergência que, uma vez desfeitas estas
circunstâncias, eles se tornam inexoravelmente uma lenda ou uma lembrança muito
remota.
Por isso, a história dos acontecimentos não
se faz a partir do testemunho da memória, ela precisa ser reinventada no
presente, pela reconstrução imaginária das circunstâncias nas quais aqueles
acontecimentos puderam emergir. O esforço da historiografia científica é apoiar
esta reconstrução em remanências materiais.
A reconstrução da ligação entre o acontecimento
e as circunstâncias de sua emergência pode ser positiva e negativa, de
toda maneira, ela torna o acontecimento em evento de circunstâncias
particulares.
É negativa quando engessa o presente. É positiva
quando nos adverte para circunstâncias presentes que podem repetir os eventos
do passado.
(*) LEVI, Primo. Si c’est un homme. Col. Pocket. Paris: Julliard, 2008 [1947]. P. 185.
Definir uma coisa
A definição de uma coisa mostra a relação que se estabelece entre a sua causa próxima e as propriedades ou efeitos que dela se seguem.
– [a causa próxima de uma coisa indica o modo pelo qual a coisa se produz ou vem a ser]
– [os efeitos são coisas que advêm da coisa definida, eles indicam a coisa como um modo de produção]
A boa definição da coisa mostra tudo (a coisa mesma: mas como fluxo de sua causa para seus efeitos).
– [a causa próxima de uma coisa indica o modo pelo qual a coisa se produz ou vem a ser]
– [os efeitos são coisas que advêm da coisa definida, eles indicam a coisa como um modo de produção]
A boa definição da coisa mostra tudo (a coisa mesma: mas como fluxo de sua causa para seus efeitos).
História do presente
O presente? Numa primeira consideração, ele parece se amparar sobre uma base constituinte extremamente sólida: – o passado, esse monte de pedras que o sustenta, o orienta, lhe dá as suas razões.
Mas, olhando melhor, o passado não parece assim tão sólido.
Hoje, ainda, no momento em que escrevo, sentado à minha mesa, eu hesito em crer que estes acontecimentos realmente ocorreram.*Cada presente precisa refazer a sua história desde o presente.
(*) LEVI, Primo. Si c’est un homme. Col. Pocket. Paris: Julliard, 2008 [1947]. P. 160.
Apreender a causalidade, sem reduzi-la
Primo Levi: “[...] nós conhecemos mal a natureza do nosso estado depressivo, e como nos enganamos, ao dar a causas múltiplas e hierarquicamente subordinadas o nome único de causa principal [...deste nosso estado...]”.
LEVI, Primo. Si c’est un homme. Col. Pocket. Paris: Julliard, 2008 [1947]. P. 111.
Escolher é desejar, porque...
...porque desejar é escolher.
Não apenas desejamos isso que escolhemos,
mas só escolhemos isso que desejamos.
Nossa escolha nunca está separada do nosso desejo;
nem nosso desejo, de nossa escolha.
Não apenas desejamos isso que escolhemos,
mas só escolhemos isso que desejamos.
Nossa escolha nunca está separada do nosso desejo;
nem nosso desejo, de nossa escolha.
Espirituralidade, nexus, política III
A “espiritualidade política” se explica como a ruptura de um nexus na vontade de um nexus outro ainda-não já-presente.
Diagnóstico
Todos os casos são graves, certo, mas alguns são mais graves do que outros. Assim, tudo está normal, e não há motivo para pânico.
Mecanismos afetivos XV – desejo e poder
Não apenas nós não queremos
ser governados desse jeito, por essa ou por essas pessoas; nós queremos
mais do que isso – nós queremos governar.
Quiasma língua_pensamento II
Há uma linguagem para pensar, assim como para
falar. Isso não quer dizer que pensemos apenas com palavras.
Ruptura e liberdade
Toda ruptura é um movimento das vontades, portanto, uma manifestação da liberdade.
Pórem, isso que se rompe não é necessariamente mais livre do que aquilo que foi rompido.
As rupturas são livres. Mas esse movimento não implica um crescendo na liberdade.
Porque os estágios de uma ruptura, o antes, o depois, são incomensuráveis.
Pórem, isso que se rompe não é necessariamente mais livre do que aquilo que foi rompido.
As rupturas são livres. Mas esse movimento não implica um crescendo na liberdade.
Porque os estágios de uma ruptura, o antes, o depois, são incomensuráveis.
Espiritualidade, nexus, política II
A vontade de um nexus outro não é atribuível somente ao sujeito. Não é o sujeito que quer
a ruptura, quer dizer, não é o sujeito que a quer em primeiro lugar. Não é a
vontade do sujeito sozinho que quer a ruptura. É a vontade constituinte do nexus ainda-não já-presente (que envolve a
vontade dos sujeitos na vontade de um mecanismo de poder, na vontade de um
regime de verdade). É a outra articulação das
vontades que rompe a articulação presente.
O objeto da vontade do sujeito só se
constitui numa técnica, numa prática. Isso que o sujeito quer é efeito de um
modo de objetivação. Este modo de objetivação (junto com os modos de assujeitamento
e de subjetivação) é componente de um nexus.
Assim, na “espiritualidade política”, na vontade de ruptura de um nexus, já deve estar presente, embora ainda não de maneira dominante, a
vontade de um nexus outro.
Todos estes termos (vontade, sujeito,
poder, verdade, nexus), porém, não apontam para entidades, não têm entidade. Só ganham entidade numa ontologia. Mas
toda ontologia é uma ficção.
Guias e advertências II
O que mais faz um guia além de nos advertir (fazer com que nossa atenção se verta para isso ou para aquilo)?
Guias e advertências
Quando tomamos um guia, já estamos
advertidos? Ou as advertências se seguem ao encontro desse guia?
Mesmo previamente advertidos... tomar radicalmente
um guia significa abandonar todos os preconceitos (e advertências) anteriores a
este guiamento.
O espectador imaginário
Uma vez ou outra, num lampejo, eu percebo que eu arranjo meu cenário como se houvesse no teatro, além de mim mesmo, um outro espectador.
Deixar você na cara do gol II
É fácil reconhecer um amigo naquele que considera
um amigo um amigo seu.
M. de Charlus: “...não posso condenar em
bloco... uma nação que conta com Spinoza entre suas crias ilustres...”.
PROUST, Marcel. Sodome
et Gomorrhe I et II. Paris: Le
Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 606.
Deixar você na cara do gol
Logo antes de recomeçar (mais uma vez) com Spinoza,
por coincidência ou não, recebo este passe de M. de Charlus:
“...não posso condenar em bloco... uma nação
que conta com Spinoza entre suas crias ilustres...”
PROUST, Marcel. Sodome et Gomorrhe I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 606.
65
Um texto se escreve letra após letra, nem sempre em sequência, mas quando termina, termina todo de uma só vez.
O pensamento é inconcluso
Por exemplo –
Eu meço o que faço, em minha obediência a um
outro, à medida que imagino isso que um outro quer que eu faça. Nessa
imaginação, porém, eu faço outra coisa (a mais, a menos ou totalmente
diferente) do que isso que um outro me manda fazer. Não penso que assim eu
obedeça só a mim mesmo, mas que obedeço à imagem do outro em mim.
Pensado e pensamento
O pensado parece algo já adquirido, um fundamento.
O pensamento algo que ainda-não é um pensado.
O pensamento algo que ainda-não é um pensado.
Da realidade do tempo
o tempo
tem sua realidade
na
força de atração
entre o já e o ainda-não
já é ainda-não
ainda-não é já
devir
tem sua realidade
na
força de atração
entre o já e o ainda-não
já é ainda-não
ainda-não é já
devir
Vontade e devir
o que eu quero?
algo que ainda-não
algo que já
no jogo entre o ainda-não
e o já
– dá-se o devir
Afinal, o que você quer?
Afinal, o que você quer? Nadar ou atravessar
a piscina?
O pragmático: – atravessar a piscina, chegar
do outro lado.
O romântico: – nadar, nadar para sempre.
Nadar e atravessar a piscina. Atravessar a
piscina, nadando.
O que eu quero não é diferente (não está somente depois, nem totalmente junto) do que faço.
Explicitações inconclusivas
À medida que eu faço, ordenam-me dizer isso que
eu estou fazendo. Mas, ao dizer isso, ainda estou fazendo alguma coisa que também
precisa, segundo aquela mesma ordem, se tornar explícita.
Tudo é conclusivo, mas ilimitadamente
De todo texto, como de tudo e de qualquer coisa,
podemos concluir algum texto ou alguma coisa. Esta conclusão (que deveria ser
um final) é também (no entanto) um texto, que por sua vez (enquanto tal) possui
uma conclusão. Et sic in infinitum.
É impossível individualizar o primeiro a chegar
Os matemáticos Iorg Huygens e Iakhish Kharamazam, em dois artigos escritos de maneira independente, mas simultaneamente publicados em uma mesma Revista, a Off-Shore International, afirmam que, em festas com hora marcada para começar, para as quais o número de convidados ultrapasse 2 mil pessoas, não há um convidado que seja o primeiro a chegar. Para cada convidado que chega, é sempre possível identificar um outro que já estava lá antes dele.
A comunidade científica internacional encontrou dificuldades para classificar os dois artigos nas sub-categorias comuns da matemática, como a estatística ou a probabilidade. “Poderia tratar-se também de uma descoberta física”, afirmou o especialista Hjin Piao.
O nome comum é um gênero? Ou um exemplo?
“Isto é um
cachorro”.
Para os
gramáticos, isso quer dizer: “isto”, este corpo individual, pertence à espécie
(ou ao gênero) dos “cachorros”. (Alguns, mais experimentados, vão até afirmar
que esta espécie existe.) (Mas onde? Perguntam-se os menos experimentados.)
Contudo, talvez, com “isto
é um cachorro” eu quisesse dizer apenas que “isto” é exatamente “isto”, sendo o
primeiro “isto” diferente do segundo (que é apenas um exemplo disto que “isto” de fato é).
Quem sabe, não falamos por meio do gêneros, mas por meio de exemplos?
Quem sabe, não falamos por meio do gêneros, mas por meio de exemplos?
Como quando
digo: “esta parede é azul”.
Esta parede é
ela mesma. Ela é de uma coloração variada, múltipla, entretanto, eu digo que
ela é, por exemplo, azul. Mas azul não é um gênero; sim, uma cor certa e
determinada, que tomei como exemplo, entre inúmeras outras, ali, nesta parede.
Monocromatismo monocrático
“Esta parede é azul”.
Na pintura desta parede – trata-se sempre de um exemplo –, podemos de fato reconhecer inúmeras
tonalidades, mas somos coagidos a dizer que esta parede é de uma só cor.
Espiritualidade, nexus e política
A espiritualidade é uma
transformação interior do sujeito. Sendo pertinente ao sujeito, porém, ela está
exteriormente conectada à produção de um conteúdo objetivo e, portanto, às relações entre
os sujeitos. Mexer com o sujeito é sempre mexer com o nexus que o põe em relação com a verdade, em um tecido
de relações de poder. Vista assim, toda espiritualidade é política.
Lógica e acaso
A lógica estuda o encadeamento necessário das ideias (pequenos quanta de
pensamento postos em ordem). Apesar desta séria necessidade intrínseca,
extrinsecamente, a lógica pode surgir do acaso e do riso.
Primeira frase de La logique ou l’art de
penser: “O nascimento desta pequena obra é devido
inteiramente ao acaso e antes a uma espécie de divertimento do que a um sério
desígnio”*.
(*) ARNAULD,
Antoine; NICOLE, Pierre. La logique ou l’art de penser. Col. Tel. Paris:
Gallimard, 1992 [1662]. P. 7.
Interferência
Interferência: quando sintonizados numa certa frequência, captamos junto uma outra que se soma à primeira.
O pensamento
“Os pensamentos dos filósofos (como a luz
das estrelas) são frequências e o nosso é como um rádio. Precisamos ajustar
nossa antena para sintonizarmos com eles, um de cada vez.”
Provérbio hindu – sec. II a.C.
Fórmula da técnica
Temos uma técnica ou uma técnica nos tem?
Conveniência ou obediência?
Fórmula da conveniência: A, com B, faz algo.
Fórmula da obediência: B faz com que A faça algo.
Conveniência ou obediência?
Fórmula da conveniência: A, com B, faz algo.
Fórmula da obediência: B faz com que A faça algo.
Fórmula da autoridade
B faz com que A faça algo, só em virtude de B ter o valor que tem na imaginação de A.
Reflexões sobre amor
Uma coisa é “você
é o meu amor”;
outra, “você é um amor para mim”.
Na relação entre o
amante e o amado, uma coisa é o amor como dom, que diz “eu dou a você o meu
amor”, “eu te amo” ou “você é um amor para mim”. Outra, o amor como posse, quando
se diz “eu sou teu” ou “você é o meu amor”.
Fixando-me em objetos
Não tenho nada em que pensar, então, penso nas qualidades de meu relógio de pulso.
Mas, meu relógio tem essa qualidade especial – se eu tirá-lo do pulso, ele para.
Mas, meu relógio tem essa qualidade especial – se eu tirá-lo do pulso, ele para.
Assinar:
Postagens (Atom)


