Mecanismos afetivos XII – gentileza e generosidade

Há uma diferença entre gentileza e generosidade.
O ser humano gentil (gentilhomme) nos faz bem por uma questão de educação e bons modos; o generoso, por amor ao próximo.

Associação de potências: “o valor anexado do comum”...

Minhas mãos tremiam. Uma segurou a outra, os dedos de uma cruzados com os dedos da outra, as palmas firmemente apoiadas uma na outra. Minhas mãos (aparentemente) pararam de tremer.

Não ontologizar as genealogias, mas genealogizar as ontologias





Uma ontologia? Uma prática discursiva pela qual nosso ser se constitui em sujeito.

Fazer a genealogia dessas práticas. Tomá-las como acontencimentos. Isso é genealogizar as ontologias. 

A genealogia lida com acontecimentos. O que se joga no acontecimento? Vontades, energias livres. 

– Vontades, energias? Ora, isso é o ser mesmo do qual se fala. O ser vontade, o ser energia. Isso é ontologizar a genealogia.

Porém, trata-se de tomar toda ontologia como uma ficção.
E isso é, finalmente, (desdobramento da dobra), genealogizar as ontologias.

Ficção é a invenção de um tipo de relação (prático-discursiva) entre o sujeito e aquilo do que ele fala (a verdade, o ser).

Virtudes externas. Vícios internos?


Isso que conta é o culto externo (não importam as razões internas).
Houve uma época em que eu ia todos os dias a uma igreja, porque uma moça, da qual eu havia me enamorado, aí rezava de joelhos uma meia-hora todo final de tarde – isso me permitia contemplá-la em toda liberdade.
(*) KAFKA, Franz. Oeuvres completes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980.  Description d’un combat (ms. A). P. 24.

Zig-zag

ética – espiritualidade
espiritualidade – vontade
vontade – liberdade
liberdade – energia
energia – ontologia
ontologia – ficção
ficção – modo de ser
modo de ser ­– espiritualidade
espiritualidade – ética

O cerco do poder medical tem uma folga

O poder medical nos espreita continuamente (seu olhar de vigia é constituinte do nosso modo próprio de nos ver).

Por isso, Proust suspira com um certo alívio, quando pode constatar: “a medicina não é uma ciência exata”*.

(*) PROUST, Marcel. Sodome et Gomorrhe I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 107.

Imperium imperiorum

Por que Kafka falava da China? 

Porque a China é o império por excelência. Não, a nossa China, mas a ideia da China...

A ideia de império da maior extensão geográfica, ainda, e já não mais, pensável como unidade.
O império das múltiplas muralhas, império dos impérios (imperium imperiorum).

Átomo

Não se fazem tomos de um átomo, nem gomos de uma laranja agômica (um ágomo).
E se, na natureza toda, só houvesse um átomo, a própria natureza?
(Toda ontologia é uma ficção, ou seja – toda ontologia é uma invenção de um tipo de relação entre aquele que fala e o ser do qual ele fala – um modo de ser).

Duas ontologias, duas ficções

Na semana passada, Agamben falou-nos de duas ontologias, de dois tipos de relação formal entre a linguagem e o ser: a ontologia apofântica, ligada a enunciados, no indicativo, que dizem o verdadeiro e o falso, e a ontologia do comando, ligada a enunciados, no imperativo, que são palavras de ordem.

A apofântica corresponderia aos domínios da ciência e da filosofia; a do comando, aos domínios da religião, do direito e da magia.

Segundo Agamben, a primeira tem cada vez mais cedido espaço, na nossa modernidade que se desilumina, à segunda. Para Agamben, então, há como um obscurecimento na linguagem, nos enunciados que perfazem nosso real. Nossa realidade tem se tornado sempre mais normativa, constrangedora dos nossos modos de ser.

A abertura radical da linguagem acerca do ser em duas ontologias distintas e a ocupação de uma em detrimento da outra, para Agamben, no estado atual de suas pesquisas, talvez seja o elemento do real que mereça ser pensado.

Entretanto, vejo isso de uma maneira diferente. Afinal, na realidade efetiva das coisas, toda ontologia apofântica, todo enunciado com pretensão de verdade não envolve, ele mesmo, em si mesmo, uma normatividade, um comando? As duas ontologias, separadas por Agamben, parecem-me, de fato, uma única.
Isso não quer dizer que Agambem não concorde com Foucault, quando Foucault diz: “...que toda ontologia seja analisada como uma ficção”*.


(*) FOUCAULT, Michel. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France, 1982-1983. Paris: Seuil/Gallimard, 2008 [1983].  P. 285.

Por uma ética da leitura: fusão


Eu tinha lido Debord, como uma simplificação radicalizada de Foucault; e Khayyam, de Spinoza.
Perigo da simplificação: ela densifica até perfurar a plasticidade do real.

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“Leibniz não tinha o costume de dar títulos aos seus múltiplos escritos”*. Como já havia dito: um título é uma mão que se fecha até que as unhas dos seus dedos se encravem na carne do texto. O título fica por cima. A carne encravada de unhas, por dentro.

Mas títulos não têm unhas. 


(*) GAUDEMAR, Martine de. Avertissement. In: LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Réfutation inédite de Spinoza. Trad. Foucher de Careil [1854]. Arles: Actes Sud, 1999 [1706].  P. 7.

Uma imagem da juventude

Uma paisagem de campo atravessada por um adolescente numa bicicleta motorizada; uma mão no guidão, outra mantendo fixo na garupa um aquário de vidro cheio de água com um peixe dourado dentro.

Geometria do real

A geometria do real tem isso de genial, que entre dois pontos (por exemplo, entre dois enunciados ou entre duas pessoas) possam passar infinitas retas (de pessoas, de enunciados).

Por isso, os mal-entendidos e bem entendidos convivem como retas estendidas no mesmo espaço real.

Laicização

Ouvi Giorgio Agamben desconsiderar a questão da laicização. 

Como se a questão da laicização, para ele, pertencesse ao próprio campo da religião. O termo “laico”, afinal, vem do vocabulário da Igreja, surge na Igreja.

Pôr em operação a laicidade, paradoxalemente, é inserir-se já no campo teológico, do qual se trata de sair.

Se o que está em questão é desvencilhar a experiência da realidade (ou de Deus) da apreensão teológica, não se pode falar em laicização.

Uma fita durex

Uma fita durex (para colar imagens nas paredes antes nuas), e a vida toda muda: sutilmente.

A reincidência no mal, em série

A única maneira de justificar, para si mesmo, um mal injustificável é comete-lo novamente. 

Só assim o mal cometido pode deixar de nos parecer um mal, já que o repetimos.

Somente a repetição do mal injustificável pode justificar o mal. Se não é repetido, o mal permanece injustificável. Mas, ao se repetir indefinidamente, ele se justifica, para nós que o repetimos, simplesmente porque o repetimos, com a ideia de que se fosse, para nós, realmente injustificável não o repetiríamos.

Servidão voluntária

A “servidão voluntária” é uma figura, aparentemente, paradoxal. 
 
Por um lado, afinal, como pode alguém, livremente, querer obedecer e, com isso, negar a liberdade da sua vontade, do seu livre-querer?

Por outro, parece que é assim que gira o mundo. Não escolhemos, a cada instante, fazer isso que fazemos? Não somos todos responsáveis? Não somos, em nossa grande maioria, servos?

O paradoxal da “servidão voluntária” desaparece, porém, quando deixamos de nos considerar como sujeitos de livre-arbítrio, e passamos a nos pensar como sujeitos de desejo.

Corrida de forças

Eu repeti: “Eu disse que tu te procuravas o conforto”, e não pude, ao pronunciar estas palavras, reprimir um sorriso.*

Como numa disputada corrida de cavalos; a cabeça de um deles momentaneamente vai à frente, para logo ser ultrapassada pela cabeça de um outro, que estava mais atrás.


(*) KAFKA, Franz. Oeuvres complètes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980.  P. 75.

Apocalipse (um dos livros)

Depois, quando eu já não estiver mais aqui, e, supostamente, outros tiverem ocupado o meu lugar, a limpeza continuará a ser feita, sem falhar, a cada semana. Mas, por quantas vezes ainda?

Números (um dos livros)

Vou ficar aqui durante um ano. A limpeza se faz, infalivelmente, uma vez por semana. Ao final da minha estadia, meu quarto terá sido limpo 52 vezes.

Perder a cabeça

Perder a cabeça? Como? Se a cabeça não me deixa me perder. Ela está sempre entre meus ombros.
Eu vacilava e tive que olhar fixamente a estátua de Charles IV, para garantir meu equilíbrio. Mas o luar estava deslocado, e Charles IV, ele mesmo, se pôs em movimento.*


Este é Louis XIII, seu cavalo, e os pombos! Place de Vosges.



(*) KAFKA, Franz. Oeuvres completes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980.  P. 13.

Serviço público

Kafka:

A janela para a rua

Alguém que viva abandonado e gostaria, entretanto, aqui ou ali, de estabelecer alguma relação, alguém que, face às mudanças que lhe impõem as horas, as estações, o trabalho ou todas as outras circunstâncias, quer encontrar um braço, um braço qualquer em qual se apoiar – este alguém não poderá se passar por muito tempo de uma janela para a rua. E mesmo se ele está a ponto de não buscar mais nada, mesmo se ele nada mais é do que um velho homem rendido de fatiga, que se apóia à sua janela e passeia seus olhos entre o público e o céu, a cabeça um pouco jogada para trás, sem querer mais nada, os cavalos o puxarão, entretanto, em seu cortejo de carros e barulho, para mergulhá-lo enfim no concerto dos homens.

KAFKA, Franz. La fenêtre sur rue. Trad. Claude David. In: Oeuvres completes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980. P. 3.

Na pensão

– O senhor prefere o quarto com janela para o pátio interior ou o quarto com janela para a rua?
 
– Com janela para a rua.

– Saiba que é mais barulhento.

– Mesmo assim.

– É o senhor quem escolhe. Mas não diga depois que eu não lhe avisei.

– Não se trata de escolha; eu acabei de ler Kafka*.




(*) KAFKA, Franz. La fenêtre sur rue. Trad. Claude David. In: Oeuvres completes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980. P. 3.

Criatividade e ideologia

De onde vem o produto “refrigerante”? Da ideia (talvez falsa) de que a água não tem cor, não tem cheiro e não tem gosto.

Por que ele não pode morrer

Quando a política se torna questão de vida e morte, ele precisa se retirar. Ele diz para si que não pode morrer, porque ainda tem tanto para pensar.

Via, via

Contemplar com sofrimento o desejo na sua insatisfação. Perceber que naquele sofrimento havia também o prazer do desejo. Desejar simplesmente.

A baía de Yul

Realmente, em 1957, Albert Brugherson conseguiu uma esplêndida tomada da então inóspita baía de Yul, embora tenha esperado, pacientemente, durante anos, pela oportunidade, praticamente única, de fotografá-la – e o azul anormal do seu mar – sob o sol.
 
Será certamente por causa desta fotografia, que se imprimiu indefinidamente em revistas de viagem, em cartões postais, em nossa memória, e não pelos seus promontórios áridos e pelas suas falésias continuamente varridas pelo vento e pela chuva, que a baía de Yul, tem atraído, inexplicavelmente, a cada ano, milhares de turistas, em quantidades sempre crescentes.

Por uma ética da leitura: subtítulos

Na maioria das vezes, um título de livro não consegue dizer tudo sobre o livro, dar a pista exata do que se pode encontrar ali escrito. Então, para haver um engano menor, recorre-se ao subtítulo. Um segundo subtítulo e um terceiro dariam uma melhor indicação ainda. O mais certo seria intitular um livro por meio de um índice de noções (com as mais importantes em negrito e as menos importantes em cinza). Mais certo ainda seria pôr o texto todo do livro como título.


A = A


Verdade e história

Há, para eles, uma passagem sem volta da ignorância para a revelação, da qual se pode contar a história. Nesse sentido, pode-se, para eles, fazer uma história de como a verdade se revelou, que será sempre “a história da verdade”. A história do profeta. Ou a história de uma ideia.

Mas, para eles, a verdade está fora da história; e qualquer afirmação da historicidade da verdade já é negar a verdade.


Eu gostaria de tentar pensar a absoluta historicidade da verdade, sem negar a verdade ou a relativizar.

Consideremos que o relativista seja aquele que não acredita na existência da verdade, porque a verdade seria sempre relativa ao contexto de sua enunciação, isto é, à maneira pela qual numa sociedade e numa época se institui seu regime de verdade.

Porém, quando o relativista diz que “a verdade não existe”, imediatamente, ele entra em contradição consigo mesmo, porque, como o que ele afirma é uma verdade, ao afirmar ele nega a si próprio. 

Não podemos dizer, sem enrolar a língua, “a verdade não existe”. Digamos então ao contrário que a verdade existe, e como! A verdade existe multiplamente.

Se aceitamos a possibilidade de que a verdade tenha uma expressão temporal na imaginação – uma historicidade, uma efetuação na história, uma produção histórica de efeitos que produzem efeitos – podemos dizer que a verdade existe (é real, age no real, e o real age nela), mas temos dela uma percepção histórica que varia segundo um determinado regime de verdade, que é incontornável. Por isso, podemos falar da historicidade da verdade sem negá-la. 

A verdade existe, mas é imanente a um regime de verdade (que ele mesmo é existente e verdadeiro, e ao mesmo tempo histórico).

Que a verdade tenha necessariamente uma historicidade não quer dizer que as nossas ideias na história vão se tornando cada vez mais verdadeiras, que nos aproximamos continuamente da verdade. 

Estamos desde sempre e para sempre na verdade, mas há errância, saltos, descontinuidades dos regimes. Contudo, o regime de verdade é ele mesmo verdadeiro. E a verdade é imanente ao seu regime.

Um regime de verdade seria a maneira pela qual a imaginação se ordena para exprimir a verdade. A imaginação não é um nada. Ela tem uma positividade e uma ordenação própria, é pensamento; e, portanto, envolve, apesar da confusão, toda a verdade.

Errância, reforma, revolução nas ideias

Por medo, talvez, alguns dos pios humanos querem congelar as ideias. A não-variação, para eles, é a presença do eterno imutável. O que deve se revelar já foi revelado. O que deve ser dito já foi dito. Qualquer alteração da verdade posta, tal como foi posta, é uma profanação da ideia na sua divindade, e condenável.
 
“O pior de tudo está nas novidades; toda novidade é uma inovação; toda inovação, uma errância; toda errância é destinada ao fogo do inferno.”*


Para tranquilizá-los, podemos tomar o real divino por outra ponta. Tomá-lo tal como ele é, sem idealizá-lo. Tomá-lo na perpendicular, sem inclinações; ou dito de outro modo, tomá-lo ordinariamente (paralelamente: no seu plano de imanência).

O pensamento (e o pensamento é uma expressão de Deus e portanto divino) é feito não só de ideias fixas, mas do seu desdobramento infinito. As ideias divinas pulsam, produzem ideias, infinitamente. Obviamente, na perspetiva divina, isso não se dá no tempo. Nessa perspectiva, o movimento das ideias é seu encadeamento, sua relação umas com as outras, na infinita produção-exposição de tudo aquilo que é concebível. E este aquilo que é concebível é infinito, e constitui o que poderíamos chamar a malha de ideias infinita do real.

Na nossa perspectiva, a de entes finitos na existência, entretanto, o encadeamento das ideias, a malha do real, nós o percebemos não como uma produção-exposição, mas temporalmente, como movimento. Então é possível para nós pensar diferente, e alcançar novas revelações, mesmo parciais, ou perdermos as que havíamos alcançado.

Além disso, necessariamente, nossas ideias não são todas claras e distintas. Longe disso! Elas são quase sempre, quase todas, confusas, truncadas, imbricadas e sobrepostas umas às outras. Essa sobreposição e percepção parcial das ideias é a imaginação. Mas a imaginação não é por isso condenável. Ela é uma errância, certo, mas mesmo assim envolve, embora confusamente, ideias verdadeiras e divinas.

A imaginação é um movimento sobre e com a malha infinita das ideias divinas.

Não podemos condenar uma pedra por ser dura. Não podemos condenar um leão por ter pelos. Como Deus iria nos condenar por imaginar e imaginar?


(*) Tradição oral islâmica (hadith), apud: MERVIN, Sabrine. Histoire de l’islam. 2 ed. Paris: Flammarion, 2010 [2000].  P. 158.

Parisienses VII – Vulgaridades ao jantar

O que aconteceria se eu deixasse de existir? O mundo seria o mesmo sem a minha presença? Curiosa questão.
Era realmente por causa de jantares como este que todas essas pessoas se enfeitavam e recusavam deixar os burgueses entrar em seus salões tão reservados? Para jantares tais como este [que eu acabei de presenciar]? [seriam esses jantares] os mesmos se eu tivesse estado ausente? Tive por um instante a suspeita, mas seria demasiado absurdo. O simples bom senso me permitia afastar essa suspeita.*
O bom senso parece indicar que esses jantares são muito especiais. E portanto muito diferentes se “eu”
não estivesse presente. Ou será que o bom senso indica que a “minha” presença em nada os afeta, e que minha ausência lhes seria absolutamente indiferente?

Mas, afinal de contas, será que o senso analítico “me” permitiria colocar a questão da minha ausência?

“Se uma parte da matéria fosse aniquilada, juntamente também esvaeceria toda a Extensão.” **



(*) PROUST, Marcel. Le Côté de Guermantes I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1992 [1920].  P. 604.

(**) SPINOZA, Benedictus de. Opera Posthuma. –: –, 1677.  Epistola IV.  P. 404.

Parisienses VI – Vulgaridade das pessoas do mundo

[Nada tinham de especial:] “de um corpo e de uma inteligência parecidos ou inferiores àqueles de todas as pessoas que eu conhecia”...* 

Então, como me submeter a eles?

“Porque o que os homens menos suportam é estar submetidos aos seus semelhantes e ser comandados por eles”. **




(*) PROUST, Marcel. Le Côté de Guermantes I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1992 [1920].  P. 592.

(**) SPINOZA, Benedictus de. Tratado teológico-político. Trad. Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1670].  Cap. V.  P. 86.

Pensar em dar

E você, ainda quer que eu pense?


“Em seus primeiros poemas Victor Hugo ainda pensa, ao invés de se contentar, como a natureza, de dar a pensar.” *


(*) PROUST, Marcel. Le Côté de Guermantes I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1992 [1920].  P. 609.

Parisienses IV – Entre um e outro

Com esta notícia [a da presença do irmão do rei entre os convidados], os traços da duquesa exalaram contentamento, e suas palavras o aborrecimento. “Ah, meu Deus, mais príncipes.”*





(*)  PROUST, Marcel. Le Côté de Guermantes I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1992 [1920].  P. 649.

A fotografia e a pintura

A fotografia não só libertou a pintura da sua fixação realista, como fez descobrir ao pintor que, mesmo antes da fotografia, ele tampouco buscava fotografar o real.

Metáfora III

– A metáfora é a relação externa entre duas proporções internas.

Uma proporção interna é uma ideia. Uma ideia, mesmo imaginária, é uma potência. Quanto mais potente é uma ideia, tanto mais ela pode ser posta em relação externa com outras.

Ora, Deus é a ideia de uma potência infinita. Podemos imaginar Deus como a mais potente das ideias. Por isso não nos espanta a ideia de Deus poder ser posta em relação externa imaginária com todas as outras ideias. 

Ao refinarmos ou polirmos esta ideia imaginária, a ideia da relação de Deus com todas as coisas, esta relação externa se mostra também como relação interna.

Metáfora II

– A metáfora é a relação externa entre duas proporções internas.




Uma proporção interna (A/B) é uma ideia. Uma ideia, mesmo imaginária, é uma potência.
É dessa potência da ideia (A/B) que se estabelece na imaginação a sua relação metafórica externa com uma outra ideia (C/D). E, depois, com outra e com outra... num encadeamento indefinido de metáforas.
Esse encadeamento pode ser serial: (A/B) -> (C/D) -> (E/F)... ad infinitum. Ou assumir uma forma mais complexa. Vejamos como.

A metáfora, a relação externa, estabelecida entre a ideia (A/B) e a ideia (C/D), é, em si mesma, a ideia de uma proporção entre as suas ideias componentes.




A metáfora não é apenas a relação entre duas ideias, ela é também uma ideia { (A/B) / (C/D) }, a da proporção entre (A/B) e (C/D). 

A metáfora, como ideia, interioriza as ideias que ela inicialmente põe em relação.

Sendo uma ideia, { (A/B) / (C/D) }, a metáfora tem em si a potência de estabelecer relações externas com outras ideias. Estas ideias todas podem ser interiorizadas na constituição de metáforas cada vez mais complexas... ad infinitum.


Mas a forma de qualquer uma delas, que é a proporção, (/), está incluída em todas as outras. Cada uma dessas ideias pode ser embutida em todas as outras, ou todas as outras, nela.

Com isso damos um passo na direção da intelecção da ideia de Deus.

Metáfora

“Ah! Não, respondeu a duquesa, disto [desta tristeza] eu creio que ela não sinta nada. 
– Nada? Você vai sempre ao extremo, Oriane”, disse M. de Guermantes retomando seu papel de falésia que, ao se opor à onda, a força a lançar mais alto seu buquê de espuma.*

Possivelmente, o poeta encontra primeiro a metáfora e somente depois (com alguma dificuldade) a proposição-estado-de-coisas que lhe pode ser associada. Então, perguntamos, o que é metáfora de quê? A metáfora não é a onda e a falésia. Nem tampouco Oriane e M. de Guermantes.

A metáfora é a relação externa que se estabelece entre a relação ou proporção interna [falésia/onda] com essa outra relação interna [M. de Guermantes/Oriane]. (Como já dizia Aristóteles, não sobre Proust, é claro.)

Acontece que a relação [falésia/onda] é muito mais potente, ou seja,  produtora de relações externas imaginárias do que a relação [M. de Guermantes/Oriane]. Daí, a sensação de que a imagem [falésia/onda] é primeira frente a outra. Daí, também, o exagero ou o kitsch da relação metafórica.



(*) PROUST, Marcel. Le Côté de Guermantes I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1992 [1920].  P. 569. Grifo meu.