O amor solar é totalmente generoso:
nos doa sua luz e energia,
sem pedir nada em troca.

Certo. Por outro lado,
ele tem algo de sufocante:
nos envolve, acompanha e persegue
em todos os aspectos do nosso aparecer.
E nos faz desejar a sombra, a noite, 
talvez morrer.

Desaparecer generosamente,
é o que podemos lhe dar em troca.




Tu es celui qui me suivra toujours,
et j'en ai ma claque. 

 

 

É preciso esperar a última palavra (le dernier mot), para compreender o sentido da frase. A última frase, para compreender o sentido do discurso. Mas nunca se ouve a última palavra ou a última frase (a não ser da boca do juiz – o juízo final).  O sentido é sempre indeterminado e incompreendido. 



Estou com a impressão de que toda a minha vida, 
Absolutamente toda, 
(vida é sensação e desejo) 
Girou em torno de Alice. 
A cada vez que a encontro (sensação), não é bem ela. 
E quando algo insiste em se dar o nome de Alice, 
Preciso que desapareça (desejo). 




A minha tristeza, ou quase desespero, 
é que Alice não seja Ela,
e Ela não seja Alice. 









Alice, durante a minha existência, teve vários outros nomes. 








Como Alice

Há coisas das quais não sabemos falar com precisão.
Pois não são exatamente como as coisas são.
No entanto, podemos lhes dar um nome.

Como Alice. 

Com o nome, coisifica-se o inefável que nos afeta, 
e assim encontra um lugar preciso na gramática 
e uma marca precisa na memória. 
E tudo fica um pouco mais calmo, 
aparentemente sob controle.

 


 

 

Alice, já estou me esquecendo de tudo o que eu tinha pra te contar.

 


 

‘desejo’

‘desejo’, antes de ser outra coisa, é um lugar para o meu olhar. 

‘desejo’ me aparece, primeiro, em sua materialidade de palavra, como um certo arranjo de algumas letras do alfabeto. Letras são figuras, são imagens visíveis, desenhadas ou impressas sobre papel ou tela. Nós, leitores, porém, nos habituamos a tomar essas figuras como sinais para fonemas. Por isso, lidamos com a palavra escrita como se, a partir dela, ouvíssemos, ou pudéssemos ouvir, uma sequência sonora limitada no tempo, com variações internas de qualidade e intensidade, que surge do silêncio e se acaba nele. 

Mas quero tratar ou brincar com a palavra ‘desejo’ em sua visibilidade, enquanto imagem visual (e, portanto, atemporal). Se apago a calda da letra j, fico com a figura i. A palavra ‘desejo’, com isso, fica assim: ‘deseio’. 
Posso introduzir nessa imagem, um espaço em branco, de tal maneira a obter ‘de seio’. Desde então, meu olhar passa a ver no lugar do ‘desejo’ também ‘de seio’.

 




a pele envelhecida
– que sentiu a pele dela –
parte de meu corpo
minhas memórias descascam
como se destacam os simulacros
lançados além
da imagem-eu




Ainda tenho a fantasia
de uma mulher de verdade (?) 
ajoelhada aos meus pés
vestindo a fantasia de Alice­

– ela seria Alice



meu amor por Alice é ilusão
porque Alice é ilusão
ou porque é ilusão meu amor por ela

ao modo cartesiano
até essa árvore pode ser ilusão
ou esse cachorro que passa

o uso da vida é feito delas:
ilusões, alices, árvores, cachorros
e das passagens


im-preciso esquecer-me de Alice
a cada instante de dia
se abro os olhos, não a vejo
se a penso, não a vejo
é apenas seu nome
e meu afeto flutuante
que reaparecem entre os instantes


Quando pararmos de falar...



Alice, deixe-me dizer:
Eu te amo
Logo ficarei em silêncio
Meu amor não vai durar
Mais que o tempo de
Eu enunciá-lo



Alice é als ob (como se...).
Um sonho que me acalenta.
Apenas um sonho, digo-me,
quando acordo.
Apenas uma alucinação,
quando penso e fecho os olhos (Caeiro).
Se não penso,
de olhos wide open,
eu sinto seus dedos
entre os meus.
A carícia mais real
e profunda,
que eu possa esperar
de uma fantasia. 


Alice me fez cortar legume do seu jeito
E me disse o momento certo de colocar sal no ovo
E que eu precisava de um microondas
E me mostrou onde e como plantar árvores
E muitas outras coisas
Fiz tudo como ela sugeriu
Obedeci às suas sugestões como se fossem ordens

E então... com seu sopro 
Sem me pedir licença
Ela apagou a chama de uma vela
E se escureceu








 

 

Eu não estou exatamente isolado, pois embora eu não busque entrar em contato com o mundo, ainda penso muito nele, à espreita de que algo dele (Alice) entre em contato comigo.

Alice não é algo qualquer do mundo, mas um qualquer ausente. 
 


A ninguém mais do que a essa alucinação – que Alice foi – eu dedicaria tantas horas do meu dia.

(parênteses:)
‘Alucinação’, enquanto palavra, tem a mesmíssima etimologia indo-europeia, que a palavra ‘Alice’: “alc”... Que no alemão dá “als” – elemento que compõe a expressão que indica a suspensão momentânea do princípio ou do teste de realidade: “als ob” (como se...).

A alucinação é uma fantasia junto à ilusão de ser vivenciada.
Sem a vivência, Alice tornou-se apenas fantasia.



Preciso falar de Alice
Até que consiga visualizá-la 
e depois esquecer seu nome
Da fala, à imagem
Da imagem, ao encobrimento

Alice me dava rasteiras
Quando eu menos esperava
Minhas expectativas egoicas tombavam como
Tomba um capoeirista

Como naquele dia
Em que eu esperava o encontro amoroso
E ela trouxe a irmã

Como naquele outro
Em que se despiu e deitou a meu lado
Mas não me deixou tocá-la







Ela não é Alice
Alice não é ela




Ela não é Alice.
Alice não é ela.