Nexus III – nexo na aparência, não no nome








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Alexander Semenov: http://clione.ru/gallery/lab

Um deus finito


Deus é a razão da concepção intelectual das coisas naturais, conforme o dito:
|Tudo isso que (Quicquid)| é |em Deus é (in Deo est)|, e nada sem Deus ser, nem concebido-ser (concipi), pode. (e1p15)
Um Deus infinito (por definição: um ente constituído de infinitos atributos) é a razão da concepção de infinitas coisas:
A partir da necessidade (Ex necessitate) da divina natureza (divinae naturae), infinitas [coisas] de infinitos modos (infinita infinitis modis), isto é, todas [as coisas], as quais sob [o] intelecto infinito (sub intellectum infinitum) cair (cadere) possam, se-seguir devem (sequi debent). (e1p16)
Podemos ter uma intuição dessas duas proposições, a partir de uma quimera inteligível – um deus finito.

Seja um deus finito cujos atributos sejam apenas: 
1) a quadrilateralidade constante, cujas partes componentes são:
2) uma metade verde
3) um quarto azul
4) um quarto amarelo

Dada essa definição divina, apenas 16 modos a podem exprimir.
Cada um desses modos exprime o Deus finito, que é a sua razão de ser e de se conceber.
Cada um dos modos envolve a ideia do seu Deus finito.

Nexus II

Eu uso nexus para designar o elo estudado por Foucault entre sujeito, verdade e poder. 

Spinoza, numa abordagem ontológica, usa nexus para designar o encadeamento causal: “L’Esprit comprend que toutes les choses son nécessaires et sont déterminées à exister et à opérer par le nœud infini des causes (infinito causarum nexu)”. Ethica. Démonstration de la proposition VI, partie 5.

Outros usam nexus por ainda outras razões (por mim desconhecidas).




Ética do olhar II


Assim, olhar para cada coisa natural do mundo como se ela fosse, em si mesma, um céu absolutamente azul claro e sem nuvens.

A coisa: a dobra, o giro, o modo de individuação II


A dobra é uma inversão singular em que o envolver causas se torna exprimir efeitos. Quanto mais potência a dobra envolve, mais potência ela exprime. Esta é sua intensidade.

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Tenho a impressão que estamos perdidos por estarmos em um mundo em que não podemos mais nos perder.

Ética do olhar

Sendo assim, procuro me habituar a olhar docemente.

Pois, generalizando a intuição obtida, e passando da pessoa singular para a plural (de tu a vós), seria possível eu mudar o olhar que tenho, ou lanço, sobre mim mesmo, ao mudar o olhar que tenho, ou lanço, sobre todos os outros.

Mundo


Quando digo “mundo” [em “não há lugar para o amor no mundo”], não penso apenas no “le monde”, esse enredamento dos humanos uns com os outros e com as coisas que produzem ou que encontram a seu dispor. Penso no mundo das coisas (res), isto é, na re(s)alidade que envolve também os seres humanos e suas relações.

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Algumas vezes, no amor ou no ódio, eu me olho com o mesmo olhar que, em outras, eu te olhei. A tal ponto que já não sei quando o olhar, com o qual eu me olho, é alheio, sendo o teu, ou próprio, sendo o meu.

Polir ideias para obter ideias mais claras e mais potentes

Spinoza (além de pensar ou enquanto pensava) polia lentes.

A partir de um certo nível de polimento da superfície da lente, enxerga-se satisfatoriamente bem com ela. Entretanto, se a polirmos ainda mais, passaremos a enxergar com ela as coisas ainda mais claramente.

A ideia que temos de uma coisa qualquer também pode passar por esse processo de polimento.

Mesmo que tenhamos uma ideia satisfatoriamente clara da coisa pensada, ainda a podemos polir para que tenhamos da coisa uma ideia ainda mais clara.

Por exemplo, de uma elipse podemos produzir uma definição A que descreva o modo pelo qual a elipse pode ser engendrada. Podemos ainda produzir uma definição B de elipse, ainda mais clara que a definição A, no sentido de que, a partir de B mais do que de A, consigamos deduzir ainda mais propriedades da elipse. Dessa maneira, a definição B de elipse é mais potente do que a definição A (de B se geram, se demonstram, ou se veem, um número maior de coisas claras).

Lugar do amor no mundo

Aqueles que dizem não haver lugar para o amor neste mundo, talvez pensem que aquela frase oracular – Tu no entiendes nada del amor – seja a enunciação da condição humana e não, na realidade, um princípio constituinte do mundo.

Ali, em lugar nenhum

Li em algum lugar uma frase que não está escrita em lugar nenhum:

– Tu no entiendes nada del amor.

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Não é mau amar um cachorro ao invés de amar um humano. Não é mau amar uma fotografia ao invés de amar o humano fotografado.

Quimera



Impossível conceber, na ordem conceitual do mundo, o princípio de sua própria consumação (como nadificação) [um dispositivo constitucional de suspensão da sua própria constituição]. Pode-se porém imaginá-lo e concebê-lo [um mundo disposto] como princípio de sua própria metamorfose, isto é, transformação (mas não deformação | porque não há avarias no mundo).

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Talvez, porque uma folha de jornal ao vento tenha de si mesma e do mundo somente uma ínfima imaginação, ela seja, na sua vida – que na nossa perspectiva é absolutamente passional –, mais livre do que nós.

Papel no vento da necessidade

De todos os modos (é inevitável), somos todos como papel no vento; flutuamos, levados de um para outro lado, para baixo, para cima, não de acordo com nossa livre decisão, mas segundo as oscilações do vento, a direção instável do seu sopro.
 
Seremos livres nas nossas decisões somente à medida que elas coincidirem com a liberdade do fluxo da necessidade – ou seja, somente à medida que assumirmos nosso ser papel no vento.

Sobre a premissa: a ordem do mundo não muda

Sejam A e B ordens do mundo.

Se B deriva de A (segundo uma autotransformação de A que leva a B) então B é conforme a ordem A, ou seja, B=A.

Se B não é uma autotransformação de A, mas deve sua ocorrência a si mesmo, então devemos supor: ou que B coexiste com a ordem A, ou que B criou-se do nada.

Se B coexiste com a ordem A, então B e A são da mesma ordem e, novamente, B=A.

_ Então, nos resta uma nova premissa, talvez mais aceitável: ex nihilo nihil fit.

Segundo esta premissa muita grega, B não pode se criar do nada.

O amor no mundo

Dizem o amor não ter seu lugar na ordem atual deste mundo.
 
Se o amor (e com ele a paz e a justiça) só tem lugar num outro momento deste mundo (e não neste), então tem seu lugar aqui e agora, porque o mundo é e será sempre apenas uma configuração diferente do mesmo mundo (da mesma ordem).

Se o amor não tem lugar neste mundo, então não terá nunca.

– Premissa: a ordem do mundo não muda.

Mas se o amor não é deste mundo, então o que mantém o mundo (em certa medida) unido?

Junto à vontade


Na nossa concepção (intelecção, maneira de ver, ficção, como queira), nunca estamos aquém ou além da nossa vontade (voluntas). Não há nenhuma operação (movimento, gesto, disposição) do nosso corpo que possa ir contra ela, ou que não a realize plenamente. Nesse nível de presença da vontade, não pode haver vontade insatisfeita (insatiabilis).

– Muito bem, até concordo com isso quando se trata de um corpo solto. Mas, o que se passa em relação à vontade, quando o corpo é literalmente forçado a fazer alguma coisa, quando, por exemplo, violentamente, empurro um corpo pela janela, para que esse corpo caia?

Nós, em relação à vontade, não fazemos nenhuma diferença entre o corpo solto e o corpo preso. Então, quanto ao corpo empurrado, a sua vontade de cair, totalmente passional, era, no momento do empurrão e durante toda a queda, maior do que a sua vontade racional de não cair. 

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O destino é como uma linda égua a galope desenfreado, que não olha para os lados nem para cima, mas somente para baixo e para frente, ou seja, para ali de onde podem surgir seus obstáculos.

Filosofia e psicanálise


Na minha atenção, pululam imagens. Porque, como dizem os paraenses, meu passado está me “brechando”, está me mirando através das brechas da minha concentração.

A filosofia fala do presente, do eterno-presente (nos seus conceitos). Todo o seu esforço é para a atenção ficar aí, na luz sem flutuação de sombras, na luz sempre presente.

Mas sob a pressão das imagens do passado, o esforço se abre em brechas, pelas quais aquelas imagens ingressam na atenção. A atenção, então, sente falta da psicanálise.

Metafísica nas montanhas

Por que “os Tarahumaras são obcecados por filosofia”? Porque “eles não creem em Deus”, porque “eles desprezam o corpo”, e porque “vivem somente de suas ideias” – três características dos filósofos segundo Artaud.
Porém – nossa premissa, aqui: – não existe, nem existirá, nunca, a metafísica acabada, perfeita. Disso, duas alternativas.
OU (1): a tarefa metafísica é inverter as metafísicas, ou seja, é caminhar na contramão do seu sentido lógico, é ir dos seus conceitos para as suas definições e postulados, para encontrar, ainda aquém deles, a sua fonte primeira, da qual jorra a sua inspiração. E talvez só haja uma única fonte para todas as filosofias: “o Essencial, quer dizer, os princípios segundo os quais a Natureza se formou”. Assim, a tarefa da metafísica é tornar-se uma mística.
OU (2): a tarefa da metafísica é reinventar-se (reencontrar-se), numa nova ficção – que afinal define não tanto uma outra posição do ser, mas uma nova posição do sujeito que ficciona, frente ao ser de que fala: “os Tarahumaras se dizem, se sentem, se creem uma Raça-Princípio”*.

(*) Para todas as citações: ARTAUD, Antonin. Les Tarahumaras [1936]. In: Oeuvres. Paris: Quarto Gallimard, 2004. Pp. 753-755.

(Sensação ou) sonho da impotência II

De fato, porém, a impotência não é nada, não tem realidade em si mesma, pois a coisidade (res in re) é potência e não falta de potência.

Impotência (de fato, no destino e na duração) é só negação de potência (mediante outras potências).

A contemplação da sua própria impotência é, propriamente concebida, impossível; portanto, a contemplação da sua própria impotência é a atenção dada ao jogo das potências além da sua.

Reinterpretar o sonho passado, não como a impotência das pontas quebradas do lápis apontado, mas como potência de apontar.

(Sensação ou) o sonho sobre a impotência


Ao tornear o lápis, com um apontador de escola, atormentado, vejo, repetidamente, a cada vez que percebo despontar do interior de madeira a matéria do grafite, quebrar-se a ponta afinada. Entre a aflição e a esperança, repito agitadamente a operação, apenas para novamente me desapontar com a sua inutilidade.

O anjo da noite (Chagall)

Tarde da noite, você anda sozinho por uma rua vazia da cidade que ama. Alguém se aproxima, pega-lhe gentilmente no braço, para lhe dizer:

– Vem. Eu te ofereço o paraíso.

Você pensa que ele ou ela está de brincadeira, ou que se trata de um louco.

Mas se, tudo o mais permanecendo igual, ele ou ela lhe dissesse:

– Eu sou teu anjo. Vem. Eu te ofereço o paraíso.

Você ainda duvidaria?

Um corpo enquanto dura, vive politicamente

Enquanto dura, um corpo é uma forma atual, ou seja, também uma extensão e uma intensão.

A extensão do corpo envolve uma multiplicidade variante de corpos, os quais envolvem extensão, intensão e forma próprias.

Nesse sentido, como forma ou relação certa e singular entre corpos componentes, todo corpo é corpo político.

Na duração, a forma do corpo político regula a comunicação (do comum) das partes, mas sob dois aspectos:

(1) primeiramente, das partes “internas” constituintes do corpo político;
(2) em segundo lugar, em relação às partes “externas” com as quais o corpo político constitui um corpo político mais potente.

Obviamente, estes dois aspectos da forma, o interno e o externo, se influenciam mutuamente enquanto dura a forma do corpo.

Repetindo e completando

Repetindo:

Uma mera extensão não tem forma porque não tem intensão.
A intensão é impensável sem uma forma extensa.
Uma forma não dura sem uma extensão intensa.

Completando:

Uma mera extensão corpórea não tem forma singular porque não tem intensão divina.

A intensão e o desejo de um corpo são uma e mesma coisa. Esse desejo é uma potência. Ainda em termos corporais, porém, podemos dizer que não se trata de uma potência separada.

Em termos espirituais, pode-se dizer que a alma individual, enquanto ideia de um corpo singular, não é inteligível em si mesma, mas somente pela ideia do todo da qual ela se deduz.

Ou seja, a potência de um corpo singular depende da potência de Deus, do modo pela qual Deus afirma a existência singular do corpo.

Intensão, desejo, potência se confundem. Mas a intensão não é uma intenção. 

A intensão do corpo singular é um desejo, mas não é uma intenção. Isso quer dizer que o desejo corporal, como intensão, não tem um objeto intencionado; é uma intensão sem objeto ou não intencional.

Uma intensão só se torna intenção, quando surge um objeto para o desejo. Mas a intenção não é a razão ou a causa do desejo. O desejo não surge do objeto. O desejo surge como corpo desejante.

Corpo individual: uma extensão, uma forma, uma intensão

Sejam K, L e M as partes de um corpo individual C.

C não é uma simples justaposição de K, L, M. Ou, pelo menos, não pode ser dito um corpo individual vivo, enquanto mera justaposição daquelas partes. C ≠ K + L + M.

Um corpo é dito vivo, na medida em que é animado, isto é, na medida em que podemos percebê-lo como uma aquela dobra, como um aquele giro, pelo qual singularmente vem a ser e pelo qual singularmente persiste na existência – na medida em que demonstra e expressa potência.

C pode ser dito um corpo individual apenas na medida em que K, L e M estabeleçam entre si uma certa relação contínua – essa relação é a forma de C.

A forma de C é a relação mutuamente estabelecida entre as suas partes e, conjuntamente, a regulação de fluxo pela qual estas suas partes comunicam entre si as suas variações de movimento, de modo a que aquela relação entre as suas partes permaneça atuante.

Para que C dure como indivíduo, as suas partes, K, L e M, não precisam estar fixas. Dentro de uma certa extensão, elas podem variar, desde que aquela relação mutua, a sua forma, seja mantida, afirmada.

Sejam {K1, K2, K3, ...} os estados variáveis de K, enquanto componíveis, de alguma maneira, com os estados {L1, L2, L3, ...} e {M1, M2, M3, ...}, de modo a que a forma de C seja mantida.

Podemos inteligir um certo C que possa dispensar, num determinado estado seu, uma de suas partes, e ainda assim continuar vivo, talvez com menor afirmação. C seria ainda C, sem sua parte M, num determinado estado, (K124,  M124), desde que a relação entre K124 e M124 ainda seja a mesma do que aquela em jogo em (K1, L1, M1), por exemplo. Podemos ainda inteligir um certo C apto a incorporar partes suplementares, sempre mantida a sua forma.

Da maneira mais geral possível, nas variações de suas partes e estados, C é o mesmo indivíduo vivo enquanto a sua forma (a relação singular certa entre as partes de C) se mantenha. 

C tem uma extensão que compreende as suas múltiplas variações possíveis.
C={(K1, L1, M1), (K2, L2, M2), (K3, L3, M3), ..., (K124, M124), ..., (K457, L457, M457, N457), ...}
A potência de um corpo individual C é a intensidade pela qual a sua forma é afirmada. Os estados de C, na sua extensão, afirmam sua forma mais ou menos intensamente. Quanto mais intensamente a relação entre as partes K, L e M é afirmada, mais o corpo C tem de potência.

Os diversos estados de C têm intensões diferentes.

Resumindo, um corpo individual vivo, uma individualidade, envolve três traços: uma extensão, uma forma e uma intensão.

Extensão e intensão variam, a forma permanece. Por isso, a forma é o índice de identidade do indivíduo. Porém, note-se o seguinte.

Uma mera extensão não tem forma porque não tem intensão.
A intensão é impensável sem uma forma extensa.
Uma forma não vive sem uma extensão intensa.

Observe-se ainda que a vida do corpo individual não se compreende aqui biologicamente, mas como simples duração.

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Conhecer uma diferença no mundo é conhecer, conjuntamente, um aspecto da minha capacidade de conhecer. Delírio?

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Delírio: a cada vez que conheço um lugar diferente, ou passo por um novo caminho, ganho um ponto.

Summum bonum – uma alegria suprema


Qual é, para mim, o valor absoluto, definitivo, inquestionável? O bem supremo? Talvez – quem sabe? – chegar ao amor, a alegria com a intelecção do Todo.

Mas não se trata do Todo como soma de cada uma das suas partes (de maneira que a alegria na presença de uma coisa ou parte qualquer, em sua singularidade mesma, poderia ser o valor absoluto) e, sim, do Todo enquanto Todo; do Todo nos seus dois aspectos: como multiplicidade constituinte de cada uma de suas partes e como potência que se expressa na parte; como o que faz girar e é girado; o dobrar e o ser dobrado.

O bem supremo não pode ser o gozo de uma parte (já porque a parte se evapora), mas talvez o gozo da intelecção da eterna condensação-evaporação... ou seja, o delírio.

A coisa: a dobra, o giro, o modo de individuação

A maneira pela qual isso-que-está-fora se torna uma “essência íntima”, ou seja, a maneira pela qual uma coisa individual vem a ser, individuando-se em relação ao todo que a constitui, é uma dobra, um giro.

Na produção da fita de Moebieus, na qual o lado de fora é também o lado de dentro, é preciso dobrar, ou girar, a fita sobre si mesma, antes de soldar uma na outra as suas duas pontas.

A coisa é o resultado desta dobra, deste giro, que faz do todo um indivíduo, mas não se separa desta dobra, deste giro. Assim que o dobrar do fora no dentro, do todo no indivíduo, cessar, a coisa desaparece.


A coisa é seu próprio modo de individuação.

A essência íntima

Spinoza nos diz que podemos inteligir (apreender intelectualmente) a coisa mesma, a “essência íntima da coisa”* (intimam essentiam rei), aquele seu interior mais profundo, mediante a explicitação da sua “causa próxima”** (definitio debebit comprehendere causam proximam), isto é, o modo de produção da coisa, o modo pelo qual ela pode ou não vir a ser.

Por isso: esse modo de produção, essa causa próxima, essa causa externa, é também uma causa imanente.


Veja, toda a intimidade da coisa está numa causa externa pela qual ela pode (desde que a causa esteja determinada para tanto) vir a ser. Mas, também, toda essa exterioridade é imanente à coisa. O dentro está fora, o fora está dentro.


(*) SPINOZA, Benedictus de. Traité de la réforme de l’entendement. Trad. Michelle Beyssade. In: Oeuvres 1: Premiers écrits. Paris: PUF, 2009. §95. P. 123.
(**) Ibid. §96. P. 125.

Border checkpoint II

Bergman filmaria a cena da camareira, com o vulto da morte e da enorme foice me espreitando por cima dos seus ombros. Um dia, naquela hora da coleta do lixo, ao ouvir as batidas habituais, e ao lhe abrir a porta, às 10 ou 11h de algum dia, eu não encontraria a camareira, mas apenas o vulto e a foice.

O bem que visa a si mesmo

Aquino diz, em algum lugar (e talvez de um modo ligeiramente diferente), que “tudo visa ao bem”.

Esta já é uma relação ao universo aparentemente bastante tranquilizadora. Podemos suspirar, relaxar, nos sentar à beira do caminho, porque o bem infalivelmente está adiante.

_ Sempre adiante? Nunca neste lugar?

Aquino tranquiliza, mas nos deixa aquém do bem. Spinoza, por contra, nos dá a fórmula da imersão (para não dizer do êxtase): “tudo é perfeito tal como é”. Não apenas se visa ao bem, mas o bem perfeito é isso que visa, isso que somos, tal como somos, aqui, agora.

Aquino nos prega o alívio na finalidade, Spinoza afirma a presença.

A verdade não contradiz a verdade

(a) A verdade não contradiz a verdade.
(b) Proust diz a verdade. Spinoza diz a verdade.
(a + b) Proust não pode contradizer Spinoza.

Então, por quais malabarismos intelectuais, que tratem de definições e de refinamentos de conceitos, as duas proposições seguintes passarão a convergir uma com a outra?

Proust:
Certamente os charmes de uma pessoa são uma causa menos frequente de amor do que uma frase deste gênero: “Não, esta noite eu não estarei livre”. *
Spinoza:
O desejo que surge da alegria é, em igualdade de circunstâncias, mais forte que o desejo que surge da tristeza.**

(*) PROUST, Marcel. Sodome et Gomorrhe I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 273.

(**) SPINOZA, Benedictus de. Ethica-Ética: edição bilingüe latim-português. Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2007 [1675]. e4p18. P. 285.

In vino veritas

Omar Khayyam propõe alcançar pelo vinho aquela alegria, aquele amor, que Spinoza propõe alcançar, de modo mais “eterno, constante e imodificável”*, pelo conhecimento de Deus.
Beba o vinho... ele é a Vida eterna, | ele é o tesouro que te restou dos dias de tua juventude: | a estação das rosas e do vinho, e dos companheiros ébrios! | Seja feliz um instante, este instante é tua vida.**

Spinoza explica que o vinho permite ao coração, por meio do seu efeito no corpo, o mesmo tipo de dilatação (o que resulta numa alegria percebida) que o conhecimento de Deus...



(*) SPINOZA, Benedictus de. Court Traité [1660]. Trad. Joël Ganault. In: Oeuvres 1: Premiers écrits. Paris: PUF, 2009. Partie II, chap. XX, §2. P. 367-369.


(**) KHAYYAM, Omar. Les quatrains. Paris: Allia, 2009. XXXVI. P. 26.

Border checkpoint

Pelo menos eu sei que, às 10 ou 11h, todos os dias, a camareira vai passar para recolher o lixo (e ao mesmo tempo verificar a continuidade da minha existência). Assim, até ela chegar, eu tento me manter apresentável.

No man’s land

Fico com a impressão de estar em um lugar no qual ninguém poderia supor que eu estivesse – por exemplo: aqui, agora, no parque do Cassino de Montbenon, quando deveria estar ou em Sion ou em Paris.

Esta impressão só se intensifica quando penso que o Universo, como um todo, sabe que ocupo exatamente este lugar que ocupo.

Não pense, veja?

O guardador de rebanhos tem eventualmente esta postura sensível diante do ser que guarda:
“(Pensar é estar doente dos olhos)”*
Então, é porque cai nossa vista, que nosso pensamento se eleva? Para pensar o que não vemos, ou à medida que não vemos?

Mas eventualmente o pensamento se torna complexo a tal ponto que precisamos vê-lo para pensá-lo, para ver o que não pensamos, ou à medida que não pensamos.




(*) PESSOA, Fernando. Obra poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. P. 204.




Veja e pense

Vê-se assim a pergunta de Tschirnhaus a Spinoza, a respeito do privilégio do corpo sobre outras expressões da modificação que somos.

Em exterioridade?


Ao contrário do que pensa Tchirnhaus, não estamos em relação de exterioridade nem com as coisas, nem com nosso corpo, nem com nosso melhor modo de pensar (aquele a partir do nosso útil próprio), como se crê um verme no sangue, em relação aos glóbulos brancos e vermelhos...

Nosso corpo vivo

O problemo do nosso corpo vivo não está no corpo ou na vida, mas na apreensão objetivadora que um certo dispositivo (ou imperium) – o biopoder – faz do corpo e da vida como nossos.

Des-descartes-iando

Percebo minha mão, numa certa gradação, como uma coisa. Sinto minha mão, numa certa gradação, como sinto uma coisa que percebo.

A ideia não é fazer do meu corpo uma coisa qualquer exterior a mim, mas, ao contrário, fazer de uma coisa qualquer exterior a mim uma certa parte do meu corpo.

A coisa

Ao pensar em “coisa”, vem-me a imagem de um vaso muito antigo, uma ânfora, em que, ao invés de vinho ou azeite de oliva, encontro a palavra coisa.

Parte da natureza toda

Que o nosso corpo seja uma parte do universo, isso não nos espanta.
Nos espanta, porém, que nossa alma também seja uma parte do universo. Não?


***
Carta 32. De Spinoza a Oldenburg.

53

Deus sente o universo (como seu), como nós sentimos o corpo nosso.

A alma percebe a coisa, Deus percebe ou sente a coisa através da alma

Deus sente o universo – como seu – , como nós sentimos o corpo nosso.

Uma coisa, nós a percebemos/sentimos, mas como se fosse exterior a nós. Nós a olhamos, não a sentimos (dizemos)... 

Entretanto, quando a tocamos, a sentimos (mas dizemos: o que sentimos é nossa mão).

Ora, olho para a coisa, como posso olhar para a mão. E a minha mão então é uma coisa? Não! Minha mão faz parte de mim, como a coisa e eu fazemos parte de um todo que nos envolve.



***


A respeito disso veja: e2p11c, e2p12, e2p13c na Ética de Spinoza e a carta 32 de Spinoza a Oldenburg sobre a coesão da parte com o todo.