Um corpo enquanto dura, vive politicamente

Enquanto dura, um corpo é uma forma atual, ou seja, também uma extensão e uma intensão.

A extensão do corpo envolve uma multiplicidade variante de corpos, os quais envolvem extensão, intensão e forma próprias.

Nesse sentido, como forma ou relação certa e singular entre corpos componentes, todo corpo é corpo político.

Na duração, a forma do corpo político regula a comunicação (do comum) das partes, mas sob dois aspectos:

(1) primeiramente, das partes “internas” constituintes do corpo político;
(2) em segundo lugar, em relação às partes “externas” com as quais o corpo político constitui um corpo político mais potente.

Obviamente, estes dois aspectos da forma, o interno e o externo, se influenciam mutuamente enquanto dura a forma do corpo.

Repetindo e completando

Repetindo:

Uma mera extensão não tem forma porque não tem intensão.
A intensão é impensável sem uma forma extensa.
Uma forma não dura sem uma extensão intensa.

Completando:

Uma mera extensão corpórea não tem forma singular porque não tem intensão divina.

A intensão e o desejo de um corpo são uma e mesma coisa. Esse desejo é uma potência. Ainda em termos corporais, porém, podemos dizer que não se trata de uma potência separada.

Em termos espirituais, pode-se dizer que a alma individual, enquanto ideia de um corpo singular, não é inteligível em si mesma, mas somente pela ideia do todo da qual ela se deduz.

Ou seja, a potência de um corpo singular depende da potência de Deus, do modo pela qual Deus afirma a existência singular do corpo.

Intensão, desejo, potência se confundem. Mas a intensão não é uma intenção. 

A intensão do corpo singular é um desejo, mas não é uma intençãoIsso quer dizer que o desejo corporal, como intensão, não tem um objeto intencionado; é uma intensão sem objeto ou não intencional.

Uma intensão só se torna intenção, quando surge um objeto para o desejo. Mas a intenção não é a razão ou a causa do desejo. O desejo não surge do objeto. O desejo surge como corpo desejante.

Corpo individual: uma extensão, uma forma, uma intensão

Sejam K, L e M as partes de um corpo individual C.

C não é uma simples justaposição de K, L, M. Ou, pelo menos, não pode ser dito um corpo individual vivo, enquanto mera justaposição daquelas partes. C ≠ K + L + M.

Um corpo é dito vivo, na medida em que é animado, isto é, na medida em que podemos percebê-lo como uma aquela dobra, como um aquele giro, pelo qual singularmente vem a ser e pelo qual singularmente persiste na existência – na medida em que demonstra e expressa potência.

C pode ser dito um corpo individual apenas na medida em que K, L e M estabeleçam entre si uma certa relação contínua – essa relação é a forma de C.

A forma de C é a relação mutuamente estabelecida entre as suas partes e, conjuntamente, a regulação de fluxo pela qual estas suas partes comunicam entre si as suas variações de movimento, de modo a que aquela relação entre as suas partes permaneça atuante.

Para que C dure como indivíduo, as suas partes, K, L e M, não precisam estar fixas. Dentro de uma certa extensão, elas podem variar, desde que aquela relação mutua, a sua forma, seja mantida, afirmada.

Sejam {K1, K2, K3, ...} os estados variáveis de K, enquanto componíveis, de alguma maneira, com os estados {L1, L2, L3, ...} e {M1, M2, M3, ...}, de modo a que a forma de C seja mantida.

Podemos inteligir um certo C que possa dispensar, num determinado estado seu, uma de suas partes, e ainda assim continuar vivo, talvez com menor afirmação. C seria ainda C, sem sua parte M, num determinado estado, (K124,  M124), desde que a relação entre K124 e M124 ainda seja a mesma do que aquela em jogo em (K1, L1, M1), por exemplo. Podemos ainda inteligir um certo C apto a incorporar partes suplementares, sempre mantida a sua forma.

Da maneira mais geral possível, nas variações de suas partes e estados, C é o mesmo indivíduo vivo enquanto a sua forma (a relação singular certa entre as partes de C) se mantenha. 

C tem uma extensão que compreende as suas múltiplas variações possíveis.
C={(K1, L1, M1), (K2, L2, M2), (K3, L3, M3), ..., (K124, M124), ..., (K457, L457, M457, N457), ...}
A potência de um corpo individual C é a intensidade pela qual a sua forma é afirmada. Os estados de C, na sua extensão, afirmam sua forma mais ou menos intensamente. Quanto mais intensamente a relação entre as partes K, L e M é afirmada, mais o corpo C tem de potência.

Os diversos estados de C têm intensões diferentes.

Resumindo, um corpo individual vivo, uma individualidade, envolve três traços: uma extensão, uma forma e uma intensão.

Extensão e intensão variam, a forma permanece. Por isso, a forma é o índice de identidade do indivíduo. Porém, note-se o seguinte.

Uma mera extensão não tem forma porque não tem intensão.
A intensão é impensável sem uma forma extensa.
Uma forma não vive sem uma extensão intensa.

Observe-se ainda que a vida do corpo individual não se compreende aqui biologicamente, mas como simples duração.

55

Conhecer uma diferença no mundo é conhecer, conjuntamente, um aspecto da minha capacidade de conhecer. Delírio?

54

Delírio: a cada vez que conheço um lugar diferente, ou passo por um novo caminho, ganho um ponto.

Summum bonum – uma alegria suprema


Qual é, para mim, o valor absoluto, definitivo, inquestionável? O bem supremo? Talvez – quem sabe? – chegar ao amor, a alegria com a intelecção do Todo.

Mas não se trata do Todo como soma de cada uma das suas partes (de maneira que a alegria na presença de uma coisa ou parte qualquer, em sua singularidade mesma, poderia ser o valor absoluto) e, sim, do Todo enquanto Todo; do Todo nos seus dois aspectos: como multiplicidade constituinte de cada uma de suas partes e como potência que se expressa na parte; como o que faz girar e é girado; o dobrar e o ser dobrado.

O bem supremo não pode ser o gozo de uma parte (já porque a parte se evapora), mas talvez o gozo da intelecção da eterna condensação-evaporação... ou seja, o delírio.

A coisa: a dobra, o giro, o modo de individuação

A maneira pela qual isso-que-está-fora se torna uma “essência íntima”, ou seja, a maneira pela qual uma coisa individual vem a ser, individuando-se em relação ao todo que a constitui, é uma dobra, um giro.

Na produção da fita de Moebieus, na qual o lado de fora é também o lado de dentro, é preciso dobrar, ou girar, a fita sobre si mesma, antes de soldar uma na outra as suas duas pontas.

A coisa é o resultado desta dobra, deste giro, que faz do todo um indivíduo, mas não se separa desta dobra, deste giro. Assim que o dobrar do fora no dentro, do todo no indivíduo, cessar, a coisa desaparece.


A coisa é seu próprio modo de individuação.

A essência íntima

Spinoza nos diz que podemos inteligir (apreender intelectualmente) a coisa mesma, a “essência íntima da coisa”* (intimam essentiam rei), aquele seu interior mais profundo, mediante a explicitação da sua “causa próxima”** (definitio debebit comprehendere causam proximam), isto é, o modo de produção da coisa, o modo pelo qual ela pode ou não vir a ser.

Por isso: esse modo de produção, essa causa próxima, essa causa externa, é também uma causa imanente.


Veja, toda a intimidade da coisa está numa causa externa pela qual ela pode (desde que a causa esteja determinada para tanto) vir a ser. Mas, também, toda essa exterioridade é imanente à coisa. O dentro está fora, o fora está dentro.


(*) SPINOZA, Benedictus de. Traité de la réforme de l’entendement. Trad. Michelle Beyssade. In: Oeuvres 1: Premiers écrits. Paris: PUF, 2009. §95. P. 123.
(**) Ibid. §96. P. 125.

Border checkpoint II

Bergman filmaria a cena da camareira, com o vulto da morte e da enorme foice me espreitando por cima dos seus ombros. Um dia, naquela hora da coleta do lixo, ao ouvir as batidas habituais, e ao lhe abrir a porta, às 10 ou 11h de algum dia, eu não encontraria a camareira, mas apenas o vulto e a foice.

O bem que visa a si mesmo

Aquino diz, em algum lugar (e talvez de um modo ligeiramente diferente), que “tudo visa ao bem”.

Esta já é uma relação ao universo aparentemente bastante tranquilizadora. Podemos suspirar, relaxar, nos sentar à beira do caminho, porque o bem infalivelmente está adiante.

_ Sempre adiante? Nunca neste lugar?

Aquino tranquiliza, mas nos deixa aquém do bem. Spinoza, por contra, nos dá a fórmula da imersão (para não dizer do êxtase): “tudo é perfeito tal como é”. Não apenas se visa ao bem, mas o bem perfeito é isso que visa, isso que somos, tal como somos, aqui, agora.

Aquino nos prega o alívio na finalidade, Spinoza afirma a presença.

A verdade não contradiz a verdade

(a) A verdade não contradiz a verdade.
(b) Proust diz a verdade. Spinoza diz a verdade.
(a + b) Proust não pode contradizer Spinoza.

Então, por quais malabarismos intelectuais, que tratem de definições e de refinamentos de conceitos, as duas proposições seguintes passarão a convergir uma com a outra?

Proust:
Certamente os charmes de uma pessoa são uma causa menos frequente de amor do que uma frase deste gênero: “Não, esta noite eu não estarei livre”. *
Spinoza:
O desejo que surge da alegria é, em igualdade de circunstâncias, mais forte que o desejo que surge da tristeza.**

(*) PROUST, Marcel. Sodome et Gomorrhe I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 273.

(**) SPINOZA, Benedictus de. Ethica-Ética: edição bilingüe latim-português. Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2007 [1675]. e4p18. P. 285.

In vino veritas

Omar Khayyam propõe alcançar pelo vinho aquela alegria, aquele amor, que Spinoza propõe alcançar, de modo mais “eterno, constante e imodificável”*, pelo conhecimento de Deus.
Beba o vinho... ele é a Vida eterna, | ele é o tesouro que te restou dos dias de tua juventude: | a estação das rosas e do vinho, e dos companheiros ébrios! | Seja feliz um instante, este instante é tua vida.**

Spinoza explica que o vinho permite ao coração, por meio do seu efeito no corpo, o mesmo tipo de dilatação (o que resulta numa alegria percebida) que o conhecimento de Deus...



(*) SPINOZA, Benedictus de. Court Traité [1660]. Trad. Joël Ganault. In: Oeuvres 1: Premiers écrits. Paris: PUF, 2009. Partie II, chap. XX, §2. P. 367-369.


(**) KHAYYAM, Omar. Les quatrains. Paris: Allia, 2009. XXXVI. P. 26.

Border checkpoint

Pelo menos eu sei que, às 10 ou 11h, todos os dias, a camareira vai passar para recolher o lixo (e ao mesmo tempo verificar a continuidade da minha existência). Assim, até ela chegar, eu tento me manter apresentável.

No man’s land

Fico com a impressão de estar em um lugar no qual ninguém poderia supor que eu estivesse – por exemplo: aqui, agora, no parque do Cassino de Montbenon, quando deveria estar ou em Sion ou em Paris.

Esta impressão só se intensifica quando penso que o Universo, como um todo, sabe que ocupo exatamente este lugar que ocupo.

Não pense, veja?

O guardador de rebanhos tem eventualmente esta postura sensível diante do ser que guarda:
“(Pensar é estar doente dos olhos)”*
Então, é porque cai nossa vista, que nosso pensamento se eleva? Para pensar o que não vemos, ou à medida que não vemos?

Mas eventualmente o pensamento se torna complexo a tal ponto que precisamos vê-lo para pensá-lo, para ver o que não pensamos, ou à medida que não pensamos.




(*) PESSOA, Fernando. Obra poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. P. 204.




Veja e pense

Vê-se assim a pergunta de Tschirnhaus a Spinoza, a respeito do privilégio do corpo sobre outras expressões da modificação que somos.

Em exterioridade?


Ao contrário do que pensa Tchirnhaus, não estamos em relação de exterioridade nem com as coisas, nem com nosso corpo, nem com nosso melhor modo de pensar (aquele a partir do nosso útil próprio), como se crê um verme no sangue, em relação aos glóbulos brancos e vermelhos...

Nosso corpo vivo

O problemo do nosso corpo vivo não está no corpo ou na vida, mas na apreensão objetivadora que um certo dispositivo (ou imperium) – o biopoder – faz do corpo e da vida como nossos.

Des-descartes-iando

Percebo minha mão, numa certa gradação, como uma coisa. Sinto minha mão, numa certa gradação, como sinto uma coisa que percebo.

A ideia não é fazer do meu corpo uma coisa qualquer exterior a mim, mas, ao contrário, fazer de uma coisa qualquer exterior a mim uma certa parte do meu corpo.

A coisa

Ao pensar em “coisa”, vem-me a imagem de um vaso muito antigo, uma ânfora, em que, ao invés de vinho ou azeite de oliva, encontro a palavra coisa.

Parte da natureza toda

Que o nosso corpo seja uma parte do universo, isso não nos espanta.
Nos espanta, porém, que nossa alma também seja uma parte do universo. Não?


***
Carta 32. De Spinoza a Oldenburg.

53

Deus sente o universo (como seu), como nós sentimos o corpo nosso.

A alma percebe a coisa, Deus percebe ou sente a coisa através da alma

Deus sente o universo – como seu – , como nós sentimos o corpo nosso.

Uma coisa, nós a percebemos/sentimos, mas como se fosse exterior a nós. Nós a olhamos, não a sentimos (dizemos)... 

Entretanto, quando a tocamos, a sentimos (mas dizemos: o que sentimos é nossa mão).

Ora, olho para a coisa, como posso olhar para a mão. E a minha mão então é uma coisa? Não! Minha mão faz parte de mim, como a coisa e eu fazemos parte de um todo que nos envolve.



***


A respeito disso veja: e2p11c, e2p12, e2p13c na Ética de Spinoza e a carta 32 de Spinoza a Oldenburg sobre a coesão da parte com o todo.



Mecanismos afetivos XII – gentileza e generosidade

Há uma diferença entre gentileza e generosidade.
O ser humano gentil (gentilhomme) nos faz bem por uma questão de educação e bons modos; o generoso, por amor ao próximo.

Associação de potências: “o valor anexado do comum”...

Minhas mãos tremiam. Uma segurou a outra, os dedos de uma cruzados com os dedos da outra, as palmas firmemente apoiadas uma na outra. Minhas mãos (aparentemente) pararam de tremer.

Não ontologizar as genealogias, mas genealogizar as ontologias





Uma ontologia? Uma prática discursiva pela qual nosso ser se constitui em sujeito.

Fazer a genealogia dessas práticas. Tomá-las como acontencimentos. Isso é genealogizar as ontologias. 

A genealogia lida com acontecimentos. O que se joga no acontecimento? Vontades, energias livres. 

– Vontades, energias? Ora, isso é o ser mesmo do qual se fala. O ser vontade, o ser energia. Isso é ontologizar a genealogia.

Porém, trata-se de tomar toda ontologia como uma ficção.
E isso é, finalmente, (desdobramento da dobra), genealogizar as ontologias.

Ficção é a invenção de um tipo de relação (prático-discursiva) entre o sujeito e aquilo do que ele fala (a verdade, o ser).

Virtudes externas. Vícios internos?


Isso que conta é o culto externo (não importam as razões internas).
Houve uma época em que eu ia todos os dias a uma igreja, porque uma moça, da qual eu havia me enamorado, aí rezava de joelhos uma meia-hora todo final de tarde – isso me permitia contemplá-la em toda liberdade.
(*) KAFKA, Franz. Oeuvres completes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980.  Description d’un combat (ms. A). P. 24.

Zig-zag

ética – espiritualidade
espiritualidade – vontade
vontade – liberdade
liberdade – energia
energia – ontologia
ontologia – ficção
ficção – modo de ser
modo de ser ­– espiritualidade
espiritualidade – ética

O cerco do poder medical tem uma folga

O poder medical nos espreita continuamente (seu olhar de vigia é constituinte do nosso modo próprio de nos ver).

Por isso, Proust suspira com um certo alívio, quando pode constatar: “a medicina não é uma ciência exata”*.

(*) PROUST, Marcel. Sodome et Gomorrhe I et II. Paris: Le Livre de Poche, 1993 [1922]. P. 107.

Imperium imperiorum

Por que Kafka falava da China? 

Porque a China é o império por excelência. Não, a nossa China, mas a ideia da China...

A ideia de império da maior extensão geográfica, ainda, e já não mais, pensável como unidade.
O império das múltiplas muralhas, império dos impérios (imperium imperiorum).

Átomo

Não se fazem tomos de um átomo, nem gomos de uma laranja agômica (um ágomo).
E se, na natureza toda, só houvesse um átomo, a própria natureza?
(Toda ontologia é uma ficção, ou seja – toda ontologia é uma invenção de um tipo de relação entre aquele que fala e o ser do qual ele fala – um modo de ser).

Duas ontologias, duas ficções

Na semana passada, Agamben falou-nos de duas ontologias, de dois tipos de relação formal entre a linguagem e o ser: a ontologia apofântica, ligada a enunciados, no indicativo, que dizem o verdadeiro e o falso, e a ontologia do comando, ligada a enunciados, no imperativo, que são palavras de ordem.

A apofântica corresponderia aos domínios da ciência e da filosofia; a do comando, aos domínios da religião, do direito e da magia.

Segundo Agamben, a primeira tem cada vez mais cedido espaço, na nossa modernidade que se desilumina, à segunda. Para Agamben, então, há como um obscurecimento na linguagem, nos enunciados que perfazem nosso real. Nossa realidade tem se tornado sempre mais normativa, constrangedora dos nossos modos de ser.

A abertura radical da linguagem acerca do ser em duas ontologias distintas e a ocupação de uma em detrimento da outra, para Agamben, no estado atual de suas pesquisas, talvez seja o elemento do real que mereça ser pensado.

Entretanto, vejo isso de uma maneira diferente. Afinal, na realidade efetiva das coisas, toda ontologia apofântica, todo enunciado com pretensão de verdade não envolve, ele mesmo, em si mesmo, uma normatividade, um comando? As duas ontologias, separadas por Agamben, parecem-me, de fato, uma única.
Isso não quer dizer que Agambem não concorde com Foucault, quando Foucault diz: “...que toda ontologia seja analisada como uma ficção”*.


(*) FOUCAULT, Michel. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France, 1982-1983. Paris: Seuil/Gallimard, 2008 [1983].  P. 285.

Por uma ética da leitura: fusão


Eu tinha lido Debord, como uma simplificação radicalizada de Foucault; e Khayyam, de Spinoza.
Perigo da simplificação: ela densifica até perfurar a plasticidade do real.

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“Leibniz não tinha o costume de dar títulos aos seus múltiplos escritos”*. Como já havia dito: um título é uma mão que se fecha até que as unhas dos seus dedos se encravem na carne do texto. O título fica por cima. A carne encravada de unhas, por dentro.

Mas títulos não têm unhas. 


(*) GAUDEMAR, Martine de. Avertissement. In: LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Réfutation inédite de Spinoza. Trad. Foucher de Careil [1854]. Arles: Actes Sud, 1999 [1706].  P. 7.

Uma imagem da juventude

Uma paisagem de campo atravessada por um adolescente numa bicicleta motorizada; uma mão no guidão, outra mantendo fixo na garupa um aquário de vidro cheio de água com um peixe dourado dentro.

Geometria do real

A geometria do real tem isso de genial, que entre dois pontos (por exemplo, entre dois enunciados ou entre duas pessoas) possam passar infinitas retas (de pessoas, de enunciados).

Por isso, os mal-entendidos e bem entendidos convivem como retas estendidas no mesmo espaço real.

Laicização

Ouvi Giorgio Agamben desconsiderar a questão da laicização. 

Como se a questão da laicização, para ele, pertencesse ao próprio campo da religião. O termo “laico”, afinal, vem do vocabulário da Igreja, surge na Igreja.

Pôr em operação a laicidade, paradoxalemente, é inserir-se já no campo teológico, do qual se trata de sair.

Se o que está em questão é desvencilhar a experiência da realidade (ou de Deus) da apreensão teológica, não se pode falar em laicização.

Uma fita durex

Uma fita durex (para colar imagens nas paredes antes nuas), e a vida toda muda: sutilmente.

A reincidência no mal, em série

A única maneira de justificar, para si mesmo, um mal injustificável é comete-lo novamente. 

Só assim o mal cometido pode deixar de nos parecer um mal, já que o repetimos.

Somente a repetição do mal injustificável pode justificar o mal. Se não é repetido, o mal permanece injustificável. Mas, ao se repetir indefinidamente, ele se justifica, para nós que o repetimos, simplesmente porque o repetimos, com a ideia de que se fosse, para nós, realmente injustificável não o repetiríamos.

Servidão voluntária

A “servidão voluntária” é uma figura, aparentemente, paradoxal. 
 
Por um lado, afinal, como pode alguém, livremente, querer obedecer e, com isso, negar a liberdade da sua vontade, do seu livre-querer?

Por outro, parece que é assim que gira o mundo. Não escolhemos, a cada instante, fazer isso que fazemos? Não somos todos responsáveis? Não somos, em nossa grande maioria, servos?

O paradoxal da “servidão voluntária” desaparece, porém, quando deixamos de nos considerar como sujeitos de livre-arbítrio, e passamos a nos pensar como sujeitos de desejo.

Corrida de forças

Eu repeti: “Eu disse que tu te procuravas o conforto”, e não pude, ao pronunciar estas palavras, reprimir um sorriso.*

Como numa disputada corrida de cavalos; a cabeça de um deles momentaneamente vai à frente, para logo ser ultrapassada pela cabeça de um outro, que estava mais atrás.


(*) KAFKA, Franz. Oeuvres complètes II. Bibliothèque de La Pléiade. Paris: Gallimard, 1980.  P. 75.

Apocalipse (um dos livros)

Depois, quando eu já não estiver mais aqui, e, supostamente, outros tiverem ocupado o meu lugar, a limpeza continuará a ser feita, sem falhar, a cada semana. Mas, por quantas vezes ainda?